Princípio essencial da Kabbalah #7

Apresentando agora o sétimo princípio essencial da Cabala:

"Resistir aos nossos impulsos reativos cria Luz permanente."





Ao meu ver, este é o tipo de princípio espiritualista que funciona na prática, que traz em si um imenso potencial, porque se posto em prática pode se revelar útil a todos, aos que têm e também aos que não têm fé.

Apesar de as desarmonias próximas afetarem a nossa vida doméstica, a desarmonia e as violências mundiais também acabam afetando o Todo, e assim refletindo-se em nossas vidas individuais. A muitos místicos, o Todo parece estar doente, muito doente. A Terra, com a sua fauna e a sua flora e com todos os seus habitantes, está doente, e no mais profundo de nossas consciências nós todos sabemos o por quê. A Mãe Terra adoece nas mesmas proporções em que perdemos os nossos valores éticos e morais e deixamos de observar as nossas ações. E assim praticamos ou admitimos que se pratiquem (o que em termos práticos é a mesma coisa) violências contra nossas florestas, nossos rios, lagos e mares, e contra diversas espécies animais e vegetais e também contra os grupos de seres humanos mais humildes, nações inteiras que se encontram ainda num estágio de desenvolvimento longe do ideal...

E se a desarmonia e a violência, em nível mundial, fazem adoecer a Mãe Terra, será que a nossa desarmonia particular igualmente nos adoece?

Quando alguém perde a paciência, grita e esbraveja, é comum alguém dizer: “Acalme-se, senão você acaba doente!”. Nós todos já dissemos ou ouvimos algo parecido com isso alguma vez na vida. - Este é um exemplo de expressões que demonstram o nosso entendimento instintivo de que há conexões profundas entre o nosso estado mental e o estado de nossos corpos físicos. Afinal, cabeça e corpo fazem parte de um todo que é influenciado principalmente por nossas emoções, isto já comprovado e demonstrado clinicamente. E as nossas emoções negativas, especialmente a raiva, a frustração, o ódio e todas as respostas reativas do nosso ego, são capazes de causar desequilíbrios que podem provocar doenças em nossos corpos e principalmente em nossa psique.

A raiva, ou seja, a ação manifestada de nossas fúrias interiores, age como uma descarga energética excessiva e pode se manifestar de várias maneiras: pode ser verbal e pode resultar em agressões e violência direta. Ou podemos tentar "esfriar" a raiva, mantendo-a no baú do inconsciente, esperando um momento adequado para manifestá-la. Muitos fazem isso repetidamente, de maneira fria, calculada e mordaz. Existem dor e frustração envolvidas nesta raiva contida, que acabará por causar doenças de manifestação lenta e interna.

O “esfriamento” da raiva provoca ressentimento. Pessoas que agem assim procurarão analisar de maneira lógica as razões da raiva, achando que, com uma análise fria e racional poderão esconjurar a sua reação animal e instintiva. Mas o esfriamento excessivo pode acabar explodindo num sentido oposto, ou seja, virar ódio e se tornar incontrolável e mais destrutivo do que nunca quando for finalmente manifestado!

O indivíduo também pode querer negar, num primeiro momento, a sensação de frustração e raiva que sente por dentro. Tudo fica bem guardado no subconsciente, e vai se afundando nas profundezas da psique. A pessoa torna-se acabrunhada e depressiva. Mas a raiva vai e volta, como as ondas do mar, e poderá vir à tona como um furacão para destruir tudo o que encontrar pelo caminho, dentro e fora do ser.

O importante nesse caso é entender que somos nós mesmos os responsáveis por "disparar o gatilho" que dá origem à raiva: quando agimos de forma egocêntrica, ou seja, comandados pelo ego (que é influenciado entre outras coisas pelo meio social em que vivemos), estamos apertando o gatilho. Nosso ego representa em parte o aspecto físico e em parte o aspecto psicológico de nossa personalidade. Ele se conecta diretamente com nossos instintos animais, expressando as necessidades e instintos de sobrevivência do nosso corpo físico. Formamos o nosso ego logo na primeira parte da nossa vida, influenciados pelo ambiente em que formos criados. Os pais, (principalmente a mãe), a família, o ambiente doméstico e posteriormente o ambiente social, - a sociedade na qual formamos nossas primeiras noções sociais, - todos são formadores do ego, a nossa auto-imagem. Estamos sempre sob essa influência, nossas vidas inteiras, e ela acabará norteando muitas das nossas escolhas. Somente quando conseguirmos descobrir e desenvolver toda a potencialidade da nossa essência real, dando ouvidos ao que muitos místicos chamaram de “Eu Interior”, é que poderemos fugir dessa influência negativa.

Os cabalistas preconizam que, quando pudermos tomar as rédeas de nossas vidas, escolhendo nossas ações de forma consciente, poderemos escolher puxar ou não o gatilho daquela arma mortal desencadeadora de tantos males físicos e espirituais. Se despejarmos a nossa raiva nos outros somente porque não podemos admitir nossos erros, se precisarmos de um “bode expiatório” para ser objeto da nossa ira e da nossa frustração, então estaremos espalhando negatividade ao nosso redor e influenciando negativamente nosso “campo energético” - o que significa contribuir para a piora do estado geral do Todo.

Mas é fundamental compreender que o fato de "explodirmos" ou nos contermos, exteriorizar ou interiorizar a nossa raiva não irá modificar a nossa essência interior primordial, que continuará negativa. Mesmo a negação pode ser uma arma do medo e abrir certos mecanismos de defesa psíquicos/orgânicos bastante perigosos. A contrapartida é que despejar a raiva em outra pessoa também não recompõe o nosso equilibro, como muitos parecem acreditar.

Segundo a Cabala, para vivermos de forma harmoniosa é necessário estarmos sempre atentos às nossas “formas-pensamento”. Se conseguirmos transmutar o negativo em positivo, dentro de nós mesmos, estaremos no real caminho da autocura. O sentido é: o auto controle que vai nos permitir passarmos de uma condição puramente reativa (na qual apenas reagimos aos acontecimentos) para a liberdade da condição humana proativa (onde somos nós que decidimos as nossas ações – fazemos as nossas escolhas independente de fatores externos) vai depender principalmente da forma como conseguirmos resistir aos nossos impulsos egocêntricos e reativos, para "desengatilhar" essas armas mortais.

Seria muito interessante se nos lembrássemos disso a cada vez que estivéssemos a um passo de perdermos a paciência com o nosso próximo. Fazendo desse exercício um ato de Amor universal, ajudaremos também a curar o TODO.




Resumo: resistir aos nossos impulsos reativos com cada vez mais freqüência fatalmente vai nos conduzir a um novo patamar de consciência. A dedicação firme e constante a essa prática, diariamente, leva a uma evolução gradual e constante em direção à proatividade. Reatividade ou proatividade tem muito a ver com hábito. Alguém que costuma gritar (reação) toda vez que é contrariado, vai continuar gritando sempre, até que decida que gritar não é uma atitude muito madura. Se ele começar a se esforçar em contra-argumentar ao invés de gritar, e se a cada nova situação de contrariedade ele se lembrar disso, aos poucos o antigo hábito de gritar será substituído pelo novo hábito de contra-argumentar. Isto é proatividade - a diferença entre apenas reagir a acontecimentos que fogem do nosso controle e agir segundo uma escolha pessoal, determinada pela opção por algo que se escolheu como adequado e bom. Não é engolir a raiva. Não se trata de se reprimir, mas sim de saber observar-se e não sair do seu nível vibracional normal (de serenidade, por exemplo) por conta de circunstâncias externas. O clássico conto zen-budista do lendário espadachim idoso é um exemplo perfeito de comportamento proativo:

Perto de Edo (antigo nome da cidade de Tóquio) vivia um grande samurai, já idoso, que amava ensinar sua filosofia para os jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ele ainda era capaz de derrotar qualquer adversário com a espada. Certa tarde, um jovem guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de grande habilidade para contra-atacar em qualquer pequena brecha da investida do oponente, agia com velocidade fulminante. Esta sua técnica nunca havia falhado até então, tornando-o um espadachim imbatível.

Este impaciente guerreiro, conhecendo a reputação do velho samurai, procurou-o para derrotá-lo, e aumentar assim a sua fama de ronim (guerreiro errante) invencível. Todos os estudantes do velho samurai manifestaram-se contra a idéia, mas o honrado sensei aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e logo que os dois se puseram frente a frente, o jovem espadachim rapidamente começou a insultar o ancião. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seus trajes, gritou-lhe todos os insultos conhecidos - ofendeu inclusive seus ancestrais. Durante horas fez de tudo para provocá-lo, mas o velho samurai permaneceu impassível. E assim continuaram por toda a tarde...

Ao final do dia e com o sol já se pondo, o impetuoso guerreiro retirou-se, sentindo-se exausto e humilhado. Mas alguns alunos, desapontados pelo fato de o seu mestre ter aceito tantos insultos e provocações, perguntaram: "Como o senhor pôde suportar tanta indignidade ? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar covardia diante de todos nós?

Então o velho espadachim perguntou a eles:
"Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?" - "A quem tentou entregá-lo" - responderam eles. "O mesmo vale para a inveja, a raiva e os insultos - concluiu o ancião - "Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carrega consigo".


Ainda que a abordagem que eu tenha escolhido neste post tenha sido pragmática, sem dúvida alguma existiriam infinitas outras maneiras de abordar a importância deste princípio e o significado de se criar Luz permanente em nossas vidas, inclusive sob uma perspectiva mais mística. No entanto, sabemos que o nosso comportamento objetivo e a nossa via concreta de conduta, incluindo o nosso modo de pensar e a nossa postura mental, a longo prazo se tornam a própria “imagem” do espírito.

Não reaja. Resista e crie Luz! Eis o sentido final do sétimo princípio essencial da Cabala.


Sobre reatividade e proatividade eu falei anteriormente aqui.

Fontes:
Kabbalah Centre;
Rabino Yehuda Berg;
Profª Graziella Marraccini.