Pecado

Este post é uma resposta às dúvidas que o leitor "Renato X" deixou em nosso Livro de Mensagens.


Você disse que encontrou neste blog uma oportunidade perfeita para tirar as suas dúvidas, Renato, e talvez isso faça algum sentido...

Porque essas dúvidas que você está manifestando são iguaizinhas às dúvidas que eu também tinha e que fizeram com que eu me afastasse de tudo que sequer lembrasse a palavra "cristianismo", quando eu era mais jovem. E são as mesmas dúvidas que continuaram me perseguindo por muitos e muitos anos, praticamente a minha vida inteira, pois eu acabei percebendo que esses mesmos conceitos difíceis se encontravam em outras religiões também; muitas vezes com nomes diferentes.

Ninguém quer se sentir um pecador miserável, ninguém quer sentir culpa, olhar no espelho e ver um ser amaldiçoado, órfão da graça de Deus, condenado a perder a sua vida para sempre. - Ninguém quer pensar no mal, em condenação ou castigo...

Eu não entendia e não queria entender esse terrível conceito que nos apresenta Deus como um ser que por um lado é Todo Poderoso, mas por outro não pode simplesmente perdoar os seres humanos sem impor condições... E afinal, perdoar do quê, se nós somos o que somos porque fomos criados assim? Um Deus que está sempre nos condenando, nós, pobres mortais, criaturas fracas e patéticas, predestinadas ao sofrimento e à infelicidade porque não podemos ser perfeitos como Ele é perfeito. Mas se nós fomos criados imperfeitos, para começar... Então a culpa não é nossa, e algo estava errado, algo tinha que estar errado...

Eu sempre achei que isso não fazia sentido nenhum, e AINDA ACHO. Ou melhor, agora tenho certeza!

Pecado, pecado, pecado, porque falam tanto em pecado, porque tudo que me parece atrativo, tudo que me faz sentir bem ou me agrada tem que ser pecado????

Se eu sou fraco - sim eu sou fraco, mas eu fui feito assim, - esse sou eu, não há nada que eu possa fazer, então eu sou inocente... Por quê Deus exigiria de mim alguma coisa da qual Ele sabe que eu não sou capaz, pois Ele mesmo me criou desse jeito???


Um pecador em ação!


Cara, isso é de enlouquecer!.. E vou lhe contar, eu cheguei bem perto disso. Por pouco (mesmo) não fiquei maluquinho da silva tentando resolver essas coisas aqui dentro da minha pequena mente limitada... Logo eu, que sou todo lógico e racional... Oh, dor, oh tristeza, oh azar...

Mas olha, essa história teve um final feliz, e pode relaxar que eu não vou deixar pra contar o desfecho na última parte...

No fim eu entendi (FINALMENTE) que toda essa história sobre pecado é apenas a definição de um conceito cuja função é determinar o caminho certo a se seguir. - É uma maneira de nos fazer entender o que é certo e o que é errado, o que é bom para nós (e para todos) e o que não é.

É por isso que eu tenho insistido aqui em dizer que existe o bem, sim, mas existe também o mal neste nosso mundo (nossa realidade objetiva). E é exatamente por isso que existe o conceito do pecado: para nos fazer entender que a verdadeira liberdade consiste em nos definirmos nesta vida e escolher o Caminho do Bem, que é o Caminho da Vida verdadeira! É assim que podemos ser livres de verdade.

Liberdade não é se permitir tudo, porque todas as coisas me são permitidas, mas nem tudo me convém (I aos Coríntios, 10:23). Verdadeira liberdade é poder escolher o que se quiser, e principalmente poder continuar escolhendo sempre; ou seja, permanecer livre. - Mas algumas escolhas neste mundo podem nos tornar escravos. Algumas de nossas posses às vezes começam a nos possuir, e alguns prazeres a que nos entregamos começam a nos tornar cativos, restringir a nossa capacidade de pensar e raciocinar... Isso é que é o pecado: tudo aquilo que nos escraviza.

Vou dar um exemplo bem direto: eu sempre fui um cara muito visceral, muito intenso em tudo que eu faço, em tudo que acredito, em todas as escolhas que eu faço. Quando eu gosto de alguma coisa, mergulho de cabeça naquilo, de corpo e alma...

Então, bom, apesar de aqui no blog eu ter me reservado a contar somente as partes da minha vida relacionadas com as questões espirituais, eu também tive minhas fases de andar no "vale da sombra da morte", se é que me entende... Quando eu descobri os prazeres deste mundo, o sexo, as drogas e o rock'n roll (estou falando dessas coisas literalmente, não é só força de expressão)... Eu mergulhei de cabeça nessa vida de prazeres, e aquilo parecia muito bom... Eu queria apenas me divertir, só queria saber de prazer e curtição. E foi bom por um tempo. E, bem, até hoje é! Quer dizer, eu continuo curtindo o sexo (com a minha esposa, porque sair procurando sexo por aí é complicado - você pode contrair doenças, pode se machucar, sofrer e fazer sofrer outras pessoas, você pode arranjar muita confusão...) e o rock'n roll. Quanto às drogas, como dizem por aí, eu "tô fora", já descobri por mim mesmo aonde é que esse caminho leva. Mas eu tomo as minhas cervejinhas de vez em quando... E isso também é droga, eu sei. Só que isso me faz bem, se dosado e com muito controle, me ajuda a relaxar quando estou tenso, faz parte da minha sociabilização com outras pessoas ... Não há nada de errado nisso. - Não que seja algo de que eu dependa para ser feliz, para me afirmar ou me sociabilizar, porque se um dia chegar a isso, é sinal que, aí sim, está na hora de parar mesmo.

Porém, eu entrei no assunto para dizer que eu não quero nem saber se algum pastor maluco ou qualquer outra pessoa me disser que beber cerveja é pecado. - Têm gente neste nosso mundo querendo ser mais "cristã" do que o próprio Cristo! - Porque o próprio Jesus bebia vinho, ia em festas e comia com os pecadores (eu quase posso vê-lo rindo alto, à maneira semita), e o primeiro milagre dele foi converter água em vinho, para que as pessoas bebessem e se divertissem, dançassem e comemorassem! Então não me venham dizer que um "crente" não pode beber bebida alcoólica, que rir e se divertir é pecado; não venham me pedir para que eu seja um chato, nem me digam que uma pessoa espiritualizada deve ser sisuda e triste.

Mas o sentido mais profundo de tudo isso é que, apesar de gostar de me divertir e curtir a vida, eu preciso manter sempre a noção dos meus limites e o controle sobre mim mesmo. Se eu gosto de tomar uma cervejinha, tenho que saber que uma cerveja pode ser legal, mas dez cervejas vão me fazer mal. E que fazer isso uma vez por semana é uma coisa, mas fazê-lo todos os dias pode ser uma péssima idéia. - Pode ser prejudicial a minha saúde, pode me levar ao vício terrível do alcoolismo... - E porque estou falando essas coisas? Para você entender bem qual é o sentido de liberdade. Vou declarar novamente que "todas as coisas me são lícitas, MAS NEM TUDO ME CONVÉM". Perder esse senso é perder a própria liberdade. E assim chegamos ao ponto chave de todo o assunto: perder a liberdade: eis a raiz do pecado!

Aí está a chave para entender toda a questão. Esse conceito de pecado faz parte de um sistema que existe para nos mostrar o que é certo e o que é errado, o que vai nos levar a bons resultados e o que é prejudicial ou pura perda de tempo. - O que nos prejudica, ou ao nosso próximo, é pecado. - É o oposto de tudo que faz crescer em espírito; o que fatalmente vai resultar em infelicidade, o que vai gerar perdas e tristeza. Isso é pecado. Definir o que é e o que não é "pecado" foi a maneira usada no passado para se definir a diferença entre as escolhas de vida que podem nos libertar e as que vão nos tornar escravos.

É só isso e nada mais! Simples, não? O grande problema é que as religiões, no passado - em especial as cristãs: catolicismo e protestantismo - abusaram demais desse conceito, e assim, martelaram demais nas mentes dos fiéis com pregações que enfatizavam em excesso apenas esse "lado da moeda". Assim, sobrecarregaram o inconsciente coletivo da humanidade com medo e repressão, e o resultado aí está (não poderia ser outro): uma forte reação em sentido contrário.

Até hoje, milhões de pessoas têm medo do cristianismo porque temem perder a sua liberdade. Elas se sentem atraídas pela mensagem do Cristo, elas percebem em algum nível muito sutil de suas consciências que ele traz a Verdade e a Vida; mas elas sentem medo, porque não querem abrir mão do seu direito de pensar o que quiserem; querem se sentir livres, leves e soltas, não querem mais ser chamadas de pecadoras, não querem ficar curtindo culpa... E estão certas! Remoer culpa não é nada bom!! Mas o que elas não sabem é que tudo que Jesus sempre quis foi nos dar liberdade! Liberdade!

Inadvertidamente, alguns líderes religiosos do passado acabaram por fazer com que as pessoas se tornassem infelizes, culpadas além da conta, além do que é saudável... Isso gerou muitos problemas, e continua nos prejudicando até hoje.

Atualmente, a Igreja Católica realmente vêm revendo seus conceitos, entendendo que, se Jesus Cristo não muda, e Deus é o mesmo ontem, hoje e eternamente, a nossa capacidade de entendê-Lo muda, se aperfeiçoa com o passar dos tempos! E isso foi previsto!

Hoje, dificilmente você vai ouvir uma pregação dentro de um templo católico falando sobre pecado e culpa. O Amor e o perdão estão sendo colocados em primeiro plano, como deveria ter sido sempre, desde o princípio. Mas, ironicamente, agora são algumas igrejas evangélicas que usam e abusam dos conceitos de culpa e do medo da condenação em suas doutrinas. Isso é muito triste. Mas esse tipo de coisa só vai prosperar enquanto existirem pessoas achando que precisam desse tipo de pregação para buscar Deus. A minha esperança é que pessoas assim se tornem cada vez mais raras, até que um dia desapareçam, e nós não tenhamos mais religiões desse tipo.

Mas no fim, resumindo tudo, religião é uma questão íntima e pessoal de cada um. - Mesmo os que professam uma mesma fé têm idéias diferentes entre si a respeito de temas primordiais. Cada um entende Deus de um jeito, cada um entende justiça de um jeito. - A porta de saída desse sofrimento todo a respeito de pecado e culpa é você se colocar sozinho e quieto; deixar os seus medos de lado e calar a voz do seu ego completamente, para poder olhar tudo com olhos renovados.

Cale a voz do padre, cale a voz do pastor, do mentor ou do que quer que seja, dentro de você, completamente. Peça orientação a Deus, depois olhe para dentro de si, livre de todos os seus preconceitos, todos as concepções humanas que entraram nessa sua cabecinha, se instalaram e agora não querem mais sair. Pode ser difícil, eu sei, mas você deve se livrar de tudo que está provocando dor e desarmonia para poder entender.

Deixe Deus falar, deixe Deus ser Deus em você, isto é, deixe-O ser Absoluto, e só então siga o que Ele disser. Não se preocupe com "religião" no sentido de instituição humana. - Preocupe-se com a verdadeira "Religião", que é o Religar-se. Não se preocupe com doutrina, não se preocupe com "certo e errado". Torne-se uma criança, porque dos que são como elas é o Reino de Deus. Apenas ouça sua consciência, depois vá e seja feliz!

Essa é a única ajuda que eu posso lhe dar, do ponto onde me encontro agora, que ainda é muito longe do final.

O meu Deus e o seu Deus nos abençoe e guarde.