Quinta e Sexta-Feira Santas



Durante a refeição, Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: "Tomai e comei, isto é meu corpo". Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: "Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados. Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai". Depois do canto dos Salmos, dirigiram-se eles para o monte das Oliveiras. Disse-lhes então Jesus: "Esta noite serei para todos vós ocasião de queda; porque está escrito: 'Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas'. Mas, depois da minha Ressurreição, eu vos precederei na Galiléia".

Pedro interveio: "Mesmo que sejas para todos uma ocasião de queda, para mim jamais o serás". Disse-lhe Jesus: "Em verdade te digo: nesta noite mesma, antes que o galo cante, três vezes me negarás". Respondeu-lhe Pedro: "Mesmo que seja necessário morrer contigo, jamais te negarei!" E todos os outros discípulos diziam-lhe o mesmo. Retirou-se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: "Assentai-vos aqui, enquanto vou orar". E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes, então: "Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo".

Adiantou-se um pouco e, prostrando-se com a face por terra, assim rezou: "Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres".

Foi ter então com os discípulos e os encontrou dormindo. E disse a Pedro: "Então não pudestes vigiar uma hora comigo... Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca".

Afastou-se pela segunda vez e orou, dizendo: "Meu Pai, se não é possível que este cálice passe sem que eu o beba, faça-se a tua vontade!".

Voltou ainda e os encontrou novamente dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Deixou-os e foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.

Voltou então para os seus discípulos e disse-lhes: "Dormi agora e repousai! Chegou a hora: o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores"... (...)

Jesus ainda falava, quando veio Judas, um dos Doze, e com ele uma multidão de gente armada de espadas e armas, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. O traidor combinara com eles este sinal: "Aquele que eu beijar, é ele. Prendei-o!".

Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse: "Salve, Mestre". E o beijou. Disse-lhe Jesus: "É, então, para isso que vens aqui?" Em seguida, adiantaram-se eles e lançaram mãos em Jesus para prendê-lo.

Mas um dos companheiros de Jesus desembainhou a espada e feriu um servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Jesus, no entanto, lhe disse: "Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão. Crês que eu não possa invocar meu Pai e que ele não me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos? Mas como se cumpririam então as Escrituras, segundo as quais é preciso que seja assim?"

Depois, voltando-se para a turba, falou: "Saístes armados de espadas e armas para prender-me, como se eu fosse um malfeitor. Entretanto, todos os dias estava eu sentado entre vós ensinando no templo e não me prendestes". Mas tudo isto aconteceu porque era necessário que se cumprissem os oráculos dos profetas. Então os discípulos o abandonaram e fugiram.

Os que haviam prendido Jesus levaram-no à casa do sumo sacerdote Caifás, onde estavam reunidos os escribas e os anciãos do povo. Pedro seguia-o de longe, até o pátio do sumo sacerdote. Entrou e sentou-se junto aos criados para ver como terminaria aquilo. Enquanto isso, os príncipes dos sacerdotes e todo o conselho procuravam um falso testemunho contra Jesus, a fim de o levarem à morte. Mas não o conseguiram, embora se apresentassem muitas falsas testemunhas. Por fim, apresentaram-se duas testemunhas, que disseram: "Este homem disse: 'Posso destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias'".

Levantou-se o sumo sacerdote e lhe perguntou: "Nada tens a responder ao que essa gente depõe contra ti?" Jesus, no entanto, permanecia calado. Disse-lhe o sumo sacerdote: "Pelo Deus vivo, conjuro-te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus!?"

Jesus respondeu: "Eu o sou. Contudo, vos digo que doravante vereis o Filho do Homem sentar-se à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu".

A estas palavras, o sumo sacerdote rasgou suas vestes, exclamando: "Que necessidade temos ainda de testemunhas? Acabastes de ouvir a blasfêmia! Qual o vosso parecer?" Eles responderam: "Merece a morte!" Cuspiram-lhe então na face, bateram-lhe com os punhos fechados e deram-lhe tapas, dizendo: "Adivinha, ó Cristo: quem te bateu?".

Enquanto isso, Pedro estava sentado no pátio. Aproximou-se dele uma das servas, dizendo: "Também tu estavas com Jesus, o Galileu". Mas ele negou publicamente, nestes termos: "Não sei o que dizes". Dirigia-se ele para a porta, a fim de sair, quando outra criada o viu e disse aos que lá estavam: "Este homem também estava com Jesus de Nazaré". Pedro, pela segunda vez, negou com juramento: "Eu nem conheço tal homem". Pouco depois, os que ali estavam aproximaram-se de Pedro e disseram: "Sim, tu és daqueles; teu modo de falar te dá a conhecer". Pedro então começou a fazer imprecações, jurando que nem sequer conhecia tal homem. E, neste momento, cantou o galo. Pedro recordou-se do que Jesus lhe dissera: 'Antes que o galo cante, negar-me-ás três vezes'. E saindo, chorou amargamente.

Então o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Respondeu-lhe Jesus: "Eu tenho falado abertamente ao mundo; eu sempre ensinei nas sinagogas e no templo, onde todos os judeus se congregam, e nada falei em oculto. Por que me perguntas a mim? Pergunta aos que me ouviram o que é que lhes falei; eles sabem o que eu disse".

E, havendo ele dito isso, um dos guardas que ali estavam deu uma bofetada em Jesus, dizendo: "É assim que respondes ao sumo sacerdote?" Respondeu-lhe Jesus: "Se falei mal, mostra-o; mas, se falei bem, por que me bates?"

Então Anás o enviou, manietado, a Caifás, o sumo sacerdote...

...Matheus 26 / João 20


Esta noite de Quinta-Feira Santa é, para mim e para muitos cristãos, uma noite de vigília, de meditação, oração e recolhimento. O Cristo, após ter sido espancado, passou toda esta noite manietado, aguardando com angústia humana a própria morte. Provavelmente passou a noite inteira, já ferido, em pé e pendurado pelos pulsos, como era o tratamento dado aos criminosos na época. Por isso esta é, para nós, uma noite de uma certa tristeza, uma noite para reflexão, embora seja uma tristeza suave, porque sabemos a razão e o resultado deste imenso sacrifício.


A Sexta-Feira Santa é para mim um dia de jejum e silêncio. Foi o dia em que o Cristo entregou sua vida por toda a humanidade. Ele foi espancado, insultado e flagelado. - O "flagellum" romano era um instrumento de tortura semelhante a um chicote, com peças de metal perfurantes presas às pontas de hastes de couro, que retalhava os corpos das suas vítimas. - E, então, novamente espancado, cuspido, insultado e agredido; até a exaustão. Depois teve que carregar a sua própria cruz até praticamente desfalecer, até o local do seu sacrifício. Depois disso, foi cruelmente pregado à uma tosca peça de madeira, e após pedir perdão por aqueles que o assassinavam sem nenhuma justificativa, finalmente entregou seu espírito ao Pai. E o véu do Templo se rompeu de cima abaixo. Estava findo o Antigo Testamento, terminada a Antiga Aliança.

Foi um dia de trevas completas. Aquele foi o momento mais negro que já existiu neste nosso mundo, quando toda esperança daqueles que o seguiam parecia ter se perdido para sempre e que os poderes trevosos haveriam de reinar sobre tudo, dali para a frente.

Para os verdadeiros cristãos, essa data está longe de ser uma ocasião para nos empanturrarmos com bacalhau e bebidas alcoólicas. É um dia de purificação ritual, que deve ser dedicado a um ascetismo leve e consciente.

Em tempos passados, a Igreja incentivava o jejum para todos nesta data. Mas como nem todos o suportavam, foi "liberada" a alimentação normal, de preferência com a abstinência das carnes vermelhas; daí o costume cristão antigo de se comer peixe. Hoje esse costume já não existe para a grande maioria, e o consumo da carne vermelha também é "liberado" sem ressalvas. Os sacerdotes apenas pedem que não se cometam grandes excessos neste dia, pois é uma oportunidade para a reflexão, um dia para se dedicar ao espírito. Infelizmente, o que mais vemos é o oposto disso tudo. Não há mais tempo a ser perdido com as coisas do espírito nem com a introspecção e muito menos com a meditação em coisas desagradáveis como sacrifício e morte. Queremos festa e alegria 365 dias por ano. Um dia de paz e silêncio soa como um pedido absurdo.


Só posso deixar aqui o meu testemunho de que observar jejum e meditação de tempos em tempos, ainda que seja apenas num dia por ano, como agora faço às Sextas-Feiras Santas, é para mim extremamente gratificante. Num dia como esses Thomas Merton colheu um belo "fruto do silêncio": viveu uma das experiências mais transformadoras da sua vida. - O dia 18 de Março deste ano marcou o 50º aniversário da “epifania” de Thomas Merton na esquina das ruas Fourth e Walnut, em Louisville (EUA):

“Em Louisville, em uma esquina de Fourth e Walnut, no centro comercial da cidade, fui subitamente tomado pela consciência de que eu amava todas aquelas pessoas, que elas eram minhas e eu era delas, que não poderíamos ser estranhos uns aos outros, embora fôssemos totalmente desconhecidos. (...) Tenho a imensa alegria de ser humano, de pertencer a uma espécie na qual o próprio Deus se encarnou. Como se os pesares e a estupidez da condição humana pudessem me esmagar agora que percebo o que todos nós somos. Ah, se todo mundo pudesse dar-se conta disto! Mas isto não pode ser explicado. Não há como dizer às pessoas que todas elas andam pelo mundo brilhando como o sol!”

- Thomas Merton, em "Conjectures of a Guilty Bystander" (no Brasil: 'Reflexões de Um Espectador Culpado', Editora Vozes).