Princípio essencial da Kabbalah #6 - conclusão

Basicamente, o que eu quis salientar no post sobre o sexto princípio essencial da Cabala foi que se trata de uma afirmação controversa. Eu já sabia bem, de vivências anteriores, que representantes de diferentes tradições filosóficas/religiosas têm diferentes opiniões a respeito do assunto. E pudemos observar claramente que este fato foi confirmado aqui. Tivemos manifestações dos mais diversos pontos de vista no nosso Livro de Comentários. Sem citar nomes, para que o foco do assunto permaneça nas idéias (que é o que interessa para a conclusão do post) e não seja desviado para pessoas:

Houve quem defendesse que a questão mais importante não é saber de quem é a culpa dos nossos reveses, que isso seria irrelevante para o nosso aprimoramento espiritual. Em outras palavras, citando textualmente um dos comentários, “não interessa saber de quem é a culpa”, e sim fazermos a nossa parte para melhorar nossas vidas e o mundo, buscando a perfeição o melhor que pudermos. Um ponto de vista.

Houve também quem dissesse que - “...todas as pessoas, coisas, acontecimentos, circunstâncias - tudo! - que acontece em nossas vidas... foram criadas por nossos pensamentos e atitudes”. - Um outro ponto de vista, que não necessariamente contraria o primeiro, mas sim ressalta um outro aspecto contido na mesma questão.

Um terceiro ponto de vista dizia que sim, nós atraímos coisas boas e ruins com nossos pensamentos e atitudes... Mas não tudo. Que algumas coisas têm que acontecer, e existem situações que precisamos atravessar, independente dos nossos pensamentos ou da maneira conforme agimos. Que os percalços e imprevistos em nossas jornadas teriam sua perfeita razão de ser, além do nosso limitado nível de compreensão. Aí sim, surgiu uma contradição entre pontos de vista diferentes.

Um comentário muito interessante deixado por uma amiga afirmou: “TODOS nós passamos por provas e dificuldades na vida que nem sempre tem uma razão de ser, ou seja, aparentemente aos nossos olhos, nós não fomos responsáveis por determinado acontecimento ou fatalidade, mas independente disso, as suas conseqüências tiveram uma finalidade que somente muito tempo depois a gente percebe. Nós somos 'moldados' pelos acontecimentos, muitos deles gerados pela nossa própria ignorância, outros por circunstâncias independentes de nossa vontade”. Muito bem colocado.

Li também a opinião de que os sofrimentos e dificuldades nas nossas vidas nos tornam (nós, seres humanos) mais unidos e também mais fortes.

Também foi dito que, no fim da história, cada um deve encontrar o seu próprio caminho por si, e assim é sempre. Que apenas Deus conhece a vida e a alma de cada um e portanto só Ele pode saber e decidir as experiências que devemos enfrentar em nossas vidas; quais as razões de tudo, e nada é por acaso.

Uma outra amiga registrou uma manifestação quase indignada; na qual afirmou corajosamente e com todas as letras: “Não faço a menor idéia de como o Sr. Roberto poderia não colocar a culpa em alguém pelo evento... Pensar o quê? ‘Não tenho sido muito bom ultimamente então mereço ter meu pé estilhaçado?’ ou ‘Talvez eu tenha sido uma má pessoa em outras vidas?’(supondo que ele acredite na reencarnação) ou "Deveria estar em outro lugar nessa hora, então isso aconteceu como uma punição?’ ou ele poderia sentir-se grato por não ter morrido?” – Achei isso muito, muito bom. Essa participante costuma deixar comentários de uma autenticidade brutal, de onde transpira sinceridade e desejo de aprender, típicos de uma buscadora autêntica e de mente aberta, pronta a jogar tudo que aprendeu para o alto se alguém lhe mostrar que está enganada. Gosto muito disso! Ao final da observação, ela conclui: “Puxa, é realmente, de fundir a cabeça...” – Como eu disse, a postura de alguém que de fato quer aprender, alguém que não se prende a nenhum tipo de crença ou doutrina... Alguém que quer a Verdade, pura e simplesmente, seja qual for.

Por fim, tivemos (do mesmo participante que afirmou que definir a culpa não seria relevante) uma reflexão que associou os princípios essenciais da Cabala aos princípios essenciais ensinados nos Evangelhos de Cristo. Nessa mensagem, foi ressaltada a importância do não-julgamento, do perdão e de agirmos sempre com misericórdia em todas as situações.

Aconselho a leitura dos comentários deste blog, porque o que estou fazendo aqui é um resumo simplificado das idéias que foram lá compartilhadas e também do que eu próprio entendi delas. Mas eu acho que consegui demonstrar o teor essencial dos principais pontos de vista apresentados. Agora, conforme prometido, vou falar o que eu penso sobre o assunto.

Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer um fato importante aos meus leitores: não é porque eu estou abordando os princípios essenciais da Cabala que eu precise, em algum nível, concordar com todos eles. Estou abordando o assunto "Cabala" no Arte das artes porque entendo que seja um tópico importante para qualquer “enciclopédia das religiões”, assim como diversos outros que já abordei e ainda pretendo abordar, mesmo que a minha fé pessoal seja completamente diferente ou mesmo contrária a eles. No caso específico da Cabala, entendo que seja uma tradição que traz profundas e úteis reflexões a respeito da vida e da espiritualidade que podem nos auxiliar em nossas próprias buscas. Entretanto, como diz o aviso bem no topo da coluna lateral desta página: “O objetivo das postagens sobre religiões, doutrinas e filosofias espiritualistas é a facilitação do seu estudo, e não a pregação de nenhuma destas”. Posto isso, vamos ao trabalho:


"Nunca coloque a culpa do que lhe acontece em outra pessoa ou em eventos externos”.




O sexto princípio me parece bastante sensato, e segui-lo em nosso dia-a-dia certamente nos fará bem. Se nos acostumarmos a assumir sempre a responsabilidade por tudo que nos acontece e deixarmos de procurar muletas e desculpas para os nossos infortúnios, então seremos capazes de realmente começar a fazer uso do nosso livre arbítrio e “tomarmos as rédeas” do nosso próprio destino; - o que é muitíssimo melhor do que passar a vida entre lamúrias. - Acho que, até aí, ninguém discorda.

Mas porque eu disse que a afirmação deste princípio é potencialmente polêmica? Pra começar, gostaria de dizer que, em outros debates ideológicos dos quais eu participei tendo como tema a questão "até que ponto a responsabilidade pelos eventos em nossas vidas são responsabilidade nossa", os pontos de vista defendidos foram sempre exatamente os mesmos que foram apresentados aqui. Acho isso muito interessante. Sempre há quem diga:

1) ”Não é uma questão de culpa”.

2) “Somos os únicos responsáveis por absolutamente tudo que nos acontece”.

3) “Nós temos o livre arbítrio, mas algumas coisas que nos acontecem não são provocadas por nós, elas fazem parte de um plano maior, que algumas pessoas chamam ‘destino’”.

4) “As dificuldades e sofrimentos em nossa vida têm uma razão de ser. Nós podemos não entender agora, mas um dia entenderemos”.

5) “As dificuldades e sofrimentos inesperados em nossas vidas nos unem e nos tornam mais fortes. Tudo faz parte de um processo de crescimento espiritual para o ser humano”.

6) “Não somos nós que moldamos as nossas vidas, mas sim somos moldados pelas circunstâncias e pelas dificuldades que temos que enfrentar”.

7) “Nós simplesmente não sabemos nada a esse respeito. Todas as afirmações que poderíamos fazer nesse caso seriam nada mais que especulações e ‘achismos’”.

8) “Devemos parar de querer entender essas coisas e simplesmente fazermos a nossa parte o melhor que pudermos. Se usarmos de Amor e misericórdia para com todas as pessoas e seres, sempre, certamente estaremos no caminho correto; e não precisaremos nos preocupar com assuntos como esse, que fogem ao nosso entendimento limitado”.


- Basicamente são essas as conclusões a que sempre se chega, em debates desse tipo. E foram exatamente essas mesmas conclusões, com algumas ligeiras variações, que nós vimos por aqui. Para deixar a minha opinião, vou analisar brevemente cada uma dessas afirmações:

1) “Não se trata de culpa”. Se o sexto princípio afirma que não devemos colocar a culpa do que nos acontece em outras pessoas e nem em fatores externos (por conseqüência afirma que a culpa é sempre nossa), então estamos falando, sim, de culpa. As dificuldades aqui estão na compreensão da forma como o termo “culpa” está sendo usado. Não está se falando de culpa com conotações de julgamento, não se trata de atirar pedras em alguém gritando “culpado, culpado!”. E também não está se afirmando que devemos “nos chicotear” por causa de nossas culpas. - O objetivo não é estimular sentimentos de culpa ou autopunição. - Estamos falando de culpa sim, mas no sentido de responsabilidade.


Ora, sempre que precisarmos resolver um problema ou aperfeiçoar qualquer aspecto de nossas vidas, será de extrema importância saber, antes de tomar qualquer atitude, o que é que está provocando o problema. Em outras palavras, se quisermos resolver, teremos que antes compreender quem (ou o que) está provocando o problema. Somente depois de identificado o "culpado", isto é, o causador de um problema qualquer, é que poderemos começar a pensar em como resolvê-lo.

Então, na raiz do entendimento do sexto princípio essencial da Cabala está a necessidade de se determinar de quem ou do que é a culpa; isto é, a responsabilidade ou a causa dos nossos problemas. E, segundo afirma este mesmo princípio, a culpa é sempre nossa, em qualquer situação. Certo ou errado? Está lançado o desafio.

2) ”Somos os únicos responsáveis por absolutamente tudo o que nos acontece”. É aí que "a coisa começa a pegar. Sim, eu acredito que somos sempre responsáveis pelo que nos acontece. Mas esse “tudo” não pode ser realmente um “tudo” absoluto. Existem (e isso é óbvio) muitos fatores que escapam ao nosso controle.

Aprofundando a questão, eu entendo que no Centro de tudo está Deus. Por isso, quanto mais eu me aproximo de Deus, mais eu me torno de fato responsável por tudo aquilo que me acontece. Se eu estou em Deus, se eu realmente “sou um com Deus”, como preconizou o Cristo, então nada pode me acontecer que não esteja em acordo com a minha vontade, porque a minha vontade será sempre a "Sua Vontade", - o Desígnio Divino que é sempre perfeito. - E assim, tudo que me acontece, de algum modo, é minha escolha. Aí está um grande segredo, e parafraseando o Mestre, quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Mas observem que esta é uma interpretação totalmente diferente, até oposta, daquela que poderia transparecer à primeira vista quando se afirma que “eu sou o único autor da minha vida, sou eu que escolho tudo aquilo que me acontece”, - que poderia soar como uma interpretação antideísta, bem ao gosto de Nietzsche, por exemplo, que rechaçou radicalmente toda e qualquer idéia de Deus que não fosse o próprio ser humano, pretendendo colocar o homem no centro absoluto de tudo: “Deus está morto. O homem é quem decide todas as coisas, a partir de agora. Viva o Super-Homem!” - Friedrich Nietzsche.

Na minha visão, o meu ego não pode comandar meu destino, ao contrário. A única maneira de assumir controle sobre o que me acontece é anular o meu ego.

3) “Nós temos o livre arbítrio sobre os nossos atos, mas algumas coisas que nos acontecem não foram provocadas por nós; elas fazem parte de um plano maior”. Eu concordo com isso. Na verdade, eu encaro o ser humano como uma espécie de “co-criador” do seu próprio destino. Isto é, em parte somos nós que moldamos a nossa realidade, seja diretamente através dos nossos atos e da nossa maneira de ser, seja de uma maneira mais profunda, através do tipo de "energia" que cultivamos dentro de nós e compartilhamos/trocamos com o Cosmo. Sim, eu acredito que a energia dos pensamentos é capaz de atrair coisas boas ou más. Quem de nós não conhece alguém que só reclama o tempo todo, e que quanto mais reclama, mais tragédias acontecem na sua vida? E quanto aos eternos otimistas, que simplesmente acreditam em si, que vão e "fazem acontecer", e acabam quase sempre se dando bem?

Mas isso não anula o fato de que algumas coisas ocorrem alheias ao nosso controle. Não, nós não somos sempre os únicos responsáveis por tudo aquilo que nos acontece, no meu modo de entender.

Nos comentários foi citado também o exemplo de alguém atingido por uma "bala perdida" e eu me lembrei do caso recente de uma adolescente extremamente alegre e de bem com a vida, otimista ao máximo, que foi atingida por uma bala perdida em São Paulo quando saía de uma agência bancária... Mesmo logo após a fatalidade, quando soube que nunca mais andaria, ao ser entrevistada por uma emissora de TV, se mostrava alegre, bem disposta e otimista com relação ao seu futuro. Não há como responsabilizá-la por ter levado aquele tiro! E isso vai nos levar à próxima opinião:

4) “As dificuldades e sofrimentos em nossa vida têm uma razão de ser. Nós podemos não entender agora, mas um dia entenderemos”. Sim. É nisto que a maioria das pessoas de fé acredita. - Tem tudo a ver, por exemplo, com a história mítica sufi de Zadig, que ensina ser uma presunção absurda do ser humano querer julgar os desígnios divinos. Devemos entender que tudo no Universo funciona como um imenso e harmônico relógio, e que cada um de nós é uma como uma pequena mas importante peça, necessária para o perfeito funcionamento do Todo. Se algo aparentemente ruim acontece, há uma razão maior para tal, e essa razão muitas vezes só vai ficar clara muito tempo depois. Esta é uma das grandes maravilhas da vida. E isso me lembra um antigo conto taoísta que está diretamente relacionado com o assunto:

“Um velho fazendeiro trabalhou em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo. ‘Que má sorte!’, eles disseram solidariamente. ‘Talvez’, o fazendeiro calmamente replicou. Na manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens. ‘Que maravilhoso!’, os vizinhos exclamaram. ‘Talvez’, replicou o velho homem. No dia seguinte, seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna. ‘Que pena’, disseram. ‘Talvez’, respondeu o fazendeiro. No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar numa guerra sangrenta. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram. Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor. O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente: ‘Talvez’."


5) “As dificuldades e sofrimentos inesperados em nossas vidas nos unem e nos tornam mais fortes. Tudo faz parte de um processo de crescimento espiritual para o ser humano”. Sim. Concordo plenamente com isso e não tenho nada a acrescentar.

6) “Não somos nós que moldamos as nossas vidas, mas sim somos moldados pelas circunstâncias e pelas dificuldades que temos que enfrentar”. Pois é. Isso está em oposição direta à opinião número 2 , mas aí a questão fica muito semelhante a uma charada do tipo: “Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”. Isto é, somos nós que moldamos a vida ou é a vida que nos molda? Honestamente e pra falar de um jeito bem resumido, eu diria que, segundo a minha experiência de vida, a resposta é: um pouco de cada, e as duas coisas ao mesmo tempo... Mas isso sempre será uma opinião pessoal, até que possamos atingir um estágio de consciência mais ampliado, o que vai implicar em nossa próxima opinião:

7) “Nós simplesmente não sabemos nada a esse respeito. Todas as afirmações que poderíamos fazer nesse caso seriam nada mais que apenas especulações e ‘achismos’”. Sim. Definitivamente aí está um fato. Não há como fugir dele, o máximo que podemos fazer é especular e elucubrar, dizer muitos "eu acho" isso, "eu entendo" aquilo, "eu penso que" seja de tal jeito... Mas no fim da história, tudo isso nos levou à próxima opinião abordada:

8) “Devemos parar de querer entender essas coisas e simplesmente fazermos a nossa parte o melhor que pudermos. Se usarmos senpre de Amor e misericórdia para com todas as pessoas e seres, certamente estaremos no caminho correto, e não precisaremos nos preocupar com assuntos como esse, que fogem ao nosso entendimento limitado”: É aqui que eu tenho vontade de gritar: “Bingo!” Porque esta é, sem dúvida, uma ótima maneira de encerrarmos esta reflexão sobre o sexto princípio essencial da Cabala!


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Para concluir, gostaria apenas de dizer o seguinte: Ainda que eu creia no meu livre arbítrio e na minha capacidade de criar o meu próprio destino, é preciso entendermos que estamos num mundo compartilhado por milhões de outros seres humanos, cada qual com o seu próprio livre-arbítrio e também fazendo uso, conscientemente ou não, da sua própria capacidade de criar o seu próprio destino. Em muitíssimas situações, esses caminhos se cruzam ou se chocam, e aí acontecem os imprevistos e as dificuldades a que nos referimos. O Sr. A usou do seu livre arbítrio e da sua capacidade de criar o seu próprio destino para ter um dia tranquilo hoje. Mas o Sr. B resolveu usar o seu livre arbítrio e a sua capacidade de criar o seu destino para prejudicar o seu próximo hoje. - Acontece que, neste caso, o seu próximo é o Sr. A. - E assim, o Sr. B encontrou o Sr. A e o prejudicou. Como aplicar o sexto princípio da Cabala neste caso? A resposta para essa questão não está em nenhuma estrutura filosófica/religiosa/espiritualista. A resposta está no Princípio Essencial de todas as coisas: Aquilo que chamamos DEUS.


...eu fui escrevendo essa postagem sem uma pré-determinação estabelecida de como seria o desfecho. Fui agrupando as principais opiniões sobre o tema sem nenhuma ordem, apenas fui levantando-as e encaixando uma atrás da outra sem pensar em organizá-las para dar um sentido ou uma conclusão lógica ao texto. Mas, conforme fui escrevendo, percebi que cada um desses tópicos foi se encaixando perfeitamente no seguinte, e a conclusão não poderia ser mais perfeita. Por essas e outras é que eu tenho fé!