Elucubrações psicológicas sobre Mistério e Liberdade...

O post sobre o sétimo princípio essencial da Cabala já está sendo produzido. Mas pretendo concluí-lo e publicá-lo só amanhã ou depois, porque antes de entrar nesse assunto gostaria de compartilhar com vocês o trecho de uma obra literária que tem muito a ver com os assuntos de interesse deste blog. O livro, cuja leitura estou concluindo agora (o trecho em questão eu li ontem à noite e na mesma hora resolvi que o publicaria aqui) é da autoria do Dr. Flávio Gikovate, profissional da psicologia/psiquiatria reconhecido em todo o mundo, e aborda as principais constitutivas da mente humana: consciência, razão, ideais e idealismos, anseios, medos, fé (egoísta e altruísta)... Ao mesmo tempo, retrata a maneira peculiar como os seres humanos se relacionam com as questões fundamentais da vida, desde a curiosidade metafísica da adolescência até as meditações sobre a morte da velhice, passando pelas inúmeras tentativas que fazemos ao longo da nossa existência terrena, num esforço supremo para conciliar o nosso lado racional com as nossas tendências místicas. Tudo a ver com o Arte das artes, repito. Achei particularmente bem interessante como em muitos pontos a opinião de um autor agnóstico e secular é parecida (quando não idêntica) à deste buscador que vos fala. Uma boa leitura para você, porque vale à pena!


A sensação de desamparo existe em todas as pessoas, mas é provável que existam circunstâncias atenuadoras e agravantes desta dor. Acredito que, do ponto de vista psicológico, a grande agravante seria uma capacidade intelectual maior. – Crianças mais inteligentes perguntam mais sobre a origem da vida e das coisas da morte; se satisfazem mal com as respostas que ouvem; são capazes de criar novas perguntas, novos dilemas. Enquanto isso, aquelas de inteligência menor se satisfazem com as respostas usuais e se sentem mais serenas com isto.

Creio também que uma ordem social e familiar mais estável atenue esta sensação na maioria das pessoas, pois as rupturas dos vínculos familiares nunca chegam a se dar de modo completo. Na arcaica estrutura do clã, por exemplo, os jovens gravitavam em torno dos patriarcas por longo tempo. Depois sua descendência fazia o mesmo com eles; desta forma, a vida familiar era muito mais intensa e as pessoas se sentiam mais solidárias e menos solitárias. Da mesma forma, a existência de um soberano (como um rei ou imperador) e de classes sociais estáveis e imutáveis, determinava pontos de segurança e de apoio mais sólidos dos que existem nos tempos atuais. E isto não significa que deveríamos retornar a este tipo de vida familiar e social; apenas nos mostra que as alterações que aconteceram com o passar do tempo realçaram este importante componente da psicologia humana.

Não creio que existam dúvidas de que o enfraquecimento das convicções religiosas tradicionais tenha sido um importante fator para tornar evidente a dor do desamparo; inversamente, me parece provável que a religiosidade como foi exercida – e ainda o é por muitas pessoas – servia aos propósitos de atenuar esta dor. A idéia de um Deus onipresente pode ter surgido como solução para a sensação de solidão do homem, perplexo diante do mundo, se sentindo abandonado e solto na medida em que se torna mais consciente de si mesmo e mais desligado dos pais de uma maneira compulsória e contra a sua vontade. Estas são hipóteses minhas, mas eu afirmo que não se pode usar estas observações como "prova" da inexistência de Deus.

Resumindo, a dor do desamparo seria máxima numa criança extremamente inteligente, com maior capacidade de abstração – coisa que a faz aceitar melhor a separação edipiana – e maior tolerância a frustrações. Porém, os mais intolerantes tratam de fugir rapidamente desta dor através de todos os recursos disponíveis: apego a coisas materiais e empenho em consegui-los a qualquer custo, persistência nos vínculos familiares cuja separação é muito dolorosa, apego às convicções religiosas ou materialistas com pouca reflexão crítica, ligações com ouros seres humanos sob a forma de grupos de amizades e etc. O desamparo é maior ainda quando a vida familiar é conturbada e instável, o mesmo se dando na vida política e, ainda mais grave, também no plano das idéias, situação da qual não há no que se apegar para atenuar o desespero. Talvez porque estejamos vivendo uma época deste tipo é que tal aspecto do homem esteja tão ressaltado, de modo a podermos observá-lo melhor; e isto pode ser o início de um outro modo de reflexão capaz de trazer algum tipo de proposta nova, coisa que só costuma ocorrer quando a condição humana se torna insuportável.

A dor do desamparo surge de modo mais evidente a partir da ruptura edipiana e em decorrência do desenvolvimento da razão, quando o indivíduo pode ficar confuso e cheio de dúvidas a respeito do mundo que o cerca. Mas, de certa forma, creio que é sensação similar à que a criança sente ao nascer, ao se perceber longe do conforto do ventre da mãe, nos primeiros tempos de vida. A sensação é física, profundamente desagradável, ligada a um desconforto difuso – talvez mais localizada na região gástrica. Seria uma espécie de revolta contra o fato de ter nascido, o que vale dizer estar sujeito a todo tipo de desprazer físico. Segundo acredito, porém, a dor do desamparo assume sua expressão máxima através de um processo racional, da reflexão – apesar de que ela persiste sendo sentida como desconforto também físico. Ou seja, se nascer é uma experiência extremamente traumática, muito pior é se perceber que a origem da vida é desconhecida.

E quando me refiro à origem da vida, não estou falando das primeiras curiosidades infantis acerca da reprodução humana, fenômeno que costuma aparecer pelos 5-6 anos de idade. Para estas já temos algumas explicações, ao menos as noções suficientes para saciar a curiosidade de uma criança. A questão é bastante mais complexa e as dúvidas vão crescendo e ganhando a complexidade da razão, conforme ela vai se tornando capaz de perceber a grandeza do Universo, as distâncias entre as estrelas medidas em milhões de anos-luz, os fenômenos da natureza física, mineral, vegetal, animal... Todos recheados de mistérios intrigantes. Afinal de contas, de onde surgiu tudo isto? Para que existem todas estas coisas? Quem as criou? Sempre existiram? O universo é finito ou infinito? Qual o sentido da vida? Estas são as perguntas capazes de atormentar o espírito cada vez mais, desde a infância até a velhice, de uma forma crescente. Sim, porque quanto mais tentamos saber e nos informar, maiores são as dúvidas e os mistérios.




O desconforto da razão são as dúvidas, as perguntas sem resposta. E elas funcionam de modo similar à fome para o corpo. Surge um desejo intenso de resolvê-las com a finalidade de atenuar o sofrimento, agora originado exclusivamente da capacidade racional do homem, perplexo diante da realidade que o cerca. E isto explica o fato de amaioria das pessoas se apegarem às concepções em vigor na sua época, se contentarem superficialmente com elas e tratarem de deixar este tipo de questão de lado e, mais que depressa, se dedicarem às de ordem prática, ligadas ao aprendizado de uma profissão, ganhar a vida, ter prazeres sexuais e afetivos, etc.

Numa reflexão mais acurada, podemos perceber que o grande e dramático evento determinante da dor do desamparo é o fato de que a origem da vida e do Universo é um mistério, e mais, que jamais será decifrado. Todas as sensações físicas infantis similares se reforçam brutalmente através desta constatação intelectual posterior e verdadeira. Quaisquer que fossem os esforços psico-pedagógicos capazes de atenuar este sofrimento físico infantil esbarrariam com o obstáculo intelectual, que é intransponível e definitivo. Com isto fica evidente que o grande e fundamental problema do ser humano não é de natureza psicológica por si, mas sim de tipo filosófico: como existir, como ser, como se comportar uma criatura que tem que aceitar que desconhece sua origem? Como pode o ser humano mais maduro e sábio se sentir amparado se ele não sabe de onde veio?

Sendo a dúvida um desconforto difícil de ser suportado por si e reforçador da dor do desamparo, é evidente que o espírito humano tem se esforçado para encontrar soluções convincentes. A idéia de um Ser criador do universo, da Terra, dos animais e dos homens – um Deus – sempre foi a mais atraente para os nossos ancestrais, perplexos diante do mistério da vida. A idéia é lógica, e até bastante provável, já que a hipótese oposta – que tomou corpo a partir de algumas importantes descobertas da física, astronomia e biologia, importantes mas também bastante superficiais em relação à magnitude do mistério – seria a de que o Universo sempre existiu, que não foi criado, coisa bastante difícil de ser compreendida e sustentada com argumentos.

Já disse que o pensamento materialista, na tentativa de provar a inexistência de um Deus, se vale do fato de que as nossas concepções de Deus são obviamente humanas, e por isso mesmo insuficientes, para provar a sua existência. Usa também certas descobertas científicas sugestivas de que existem indícios de uma evolução causal e espontânea da matéria inanimada para a vida e desta até o homem como "prova" de que tudo se construiu sem a intervenção de uma Força Superior, uma Divindade. Outra vez o raciocínio é primário, pois a descoberta de determinados processos absolutamente não é argumento suficiente para se acreditar que o Universo sempre existiu. Mesmo que se possa demonstrar que a vida pode ter surgido espontaneamente, muitas vezes o que sobram são dúvidas que jamais poderão ser respondidas. A fé no desenvolvimento da ciência é da mesma natureza que a fé em Deus: duas formas, opostas na formulação, para se fugir ao desconforto determinado pela verdade. E a verdade indiscutível é que a origem da vida é um mistério.

Sou tentado a escrever Mistério – com inicial maiúscula – da mesma forma que sempre se escreveu sobre as divindades. A idéia básica seria esta: o homem não é filho de Deus e nem descendente de algum ancestral comum também aos macacos. Ele é fruto de um Mistério original. Sua desgraça e o fascínio de sua vida se alicerçam no fato de que ele tem que existir ignorante acerca de sua origem e, obviamente, do seu destino. Qualquer explicação será precária e apenas terá a finalidade de atenuar o desconforto da dúvida original. O desamparo é sensação natural e obrigatória deste ser, de modo que sua tarefa maior é aprender a conviver com esta dor e não tratar de fugir dela a qualquer custo. E não será bastante provável que uma boa parte da nossa energia nós a gastemos exatamente no sentido de fugir dela a qualquer custo? E não será bastante provável que uma boa parte da nossa energia nóa a gastemos exatamente no sentido de fugir desta verdade?

Quem crê em Deus se apazigua, vive conforme o bem, se alimenta do prazer da renúncia e da certeza de uma vida futura melhor. Quem acredita que a vida termina com a morte trata de aproveitá-la da melhor forma possível do ponto de vista dos prazeres carnais e materiais, sempre meio apressado, pois o medo da morte antes do tempo determina este estado, além de desenvolver seu eventual idealismo na direção de ação política. E como é que vive a pessoa que se sabe fruto do Mistério?

Não deixa de ser curioso e perturbador pensar com seriedade que se é filho do Mistério. Que existe ao menos uma coisa maior que o homem: o Mistério acerca de sua origem. Que a partir desta verdade primária, tudo é possível de existir, tudo é tema de interesse e reflexão, nada há de definido ou pré-estabelecido. Nem é verdade que há vida depois da morte e nem que a vida termina com a morte. Tudo é mistério, tudo pode ser pensado. Interessa o progresso da ciência tanto quanto interessa o poema. Pode existir alma de outros mundos que venham nos visitar, e tudo pode ser fruto da fabulação humana. Podem existir – ou não – “discos voadores”. – porque sim e porque não? O conteúdo dos sonhos podem ser de uma natureza que transcenda as experiências já vividas e mesmo conter sabedoria para além daquela que o indivíduo experimentou; ou não.

De repente me apercebo que a idéia – a meu ver indiscutível – de que o homem é filho do Mistério abre uma perspectiva intelectual e de vivências nunca antes proposta. O homem que se aceita como tal, que suporta a dor desta dúvida original e não tenta encontrar uma explicação para ela, se aproxima daquilo que sou tentado a chamar de homem livre. E o medo da liberdade, evento indiscutivelmente existente no ser humano, seria a incapacidade de lidar com a dor e o desespero próprio do desamparo real e característico da espécie. Os outros componentes ligados ao medo de desafeto, de perda de privilégios, etc. – Aos quais estão sujeitas as pessoas que se comportam de um modo diferente do esperado, nada mais são do que casos particulares do medo do desamparo, próprio da solidão à qual supostamente estaria condenado o homem livre.




Do livro Em Busca da Felicidade, obra do Dr. Flavio Gikovate. - Editora Summus, 1981.