Princípio essencial da Kabbalah #3

Conclusão

Apesar da demora para a conclusão deste post (por motivos técnicos), imagino que o seu desfecho não poderia ser mais óbvio. Como vimos na postagem anterior, já é um fato considerado científico que somos infelizes exatamente porque inconscientemente tentamos buscar a nossa felicidade na satisfação das nossas necessidades básicas de maneiras cada vez mais sofisticadas. De maneira semelhante, analisamos a chocante questão de que o principal fator da nossa infelicidade não é a falta dos elementos que nos permitam satisfazer nossas necessidades básicas, mas sim o fato de estarmos o tempo todo nos comparando com os nossos próximos e querendo superá-los em luxos supérfluos ou, no mínimo, estar no mesmo nível deles. Vivemos numa constante disputa infantilóide de quem consegue ter mais brinquedos, e mais bonitos.

O Sr. X, por exemplo, não se sente feliz por ter um carro que lhe permita percorrer grandes distâncias com todo conforto ou por não precisar depender do nosso precário sistema de transporte público. Ele não se sente satisfeito e grato por ter a possibilidade de levar a sua família para passear comodamente, nem por ele ser um felizardo que conseguiu comprar um bom automóvel num país e num mundo onde existem tantos miseráveis que não têm acesso à necessidades básicas como moradia, saúde, educação e etc. Ele na verdade vai se sentir infeliz e frustrado se o seu vizinho possuir um carro de modelo mais novo ou mais caro, mesmo que o dele seja muito bom! Nessa sociedade monstruosa que estamos ajudando a construir (sim, a responsabilidade é de cada um de nós), maior é a inveja do que a gratidão, e isso têm sido assim já há muito tempo. O ser humano, cada vez mais, vêm sentindo prazer na afirmação do seu ego. - Está (cada vez mais) se preocupando mais com a manutenção de seu status social num patamar mais elevado que o daqueles que o cercam, do que com a satisfação das suas reais necessidades ou no desfrute dos bens e comodidades que conquistou. Em outras palavras, é mais importante não ficar "por baixo" perante o que pensam os outros do que estar bem consigo mesmo.

E a conclusão óbvia a que chegamos é: Quanto mais buscamos a felicidade, a partir dos nossos paradigmas exclusivamente materialistas, mais nos afastamos dela! E isso não é teoria, é um fato, uma realidade incontestável. Estamos ou não falando do cúmulo do absurdo, do maior de todos os contra-sensos humanos?

O detalhe que faz toda a diferença é entendermos que ser feliz não tem nada a ver com disputa ou competição! Porém, estamos correndo desenfreadamente na direção oposta! Nós nunca competimos tanto! Seja nas relações profissionais ou na vida pessoal, e até mesmo nos nossos momentos de lazer (quando praticamos algum esporte, por exemplo), o fato é que o ser humano nunca quis tanto se sentir melhor do que o seu próximo. Mais do que simplesmente estar bem consigo mesmo, ele quer se destacar, quer estar no centro das atenções, ele deseja ser exaltado, admirado, adorado... Não basta conquistar nossos objetivos ou possuir todos os nossos objetos de desejo, estamos sempre tentando nos certificar de que as pessoas do nosso convívio não estejam em situação melhor que a nossa e nem possuam mais “brinquedos” do que nós mesmos. Lembrei-me de um conto popular, de autoria desconhecida, que eu publiquei no meu outro blog e que retrata bem essa realidade:

“Num belo dia um homem resolveu fazer uma faxina no porão de sua casa. Ao revirar alguns antigos objetos há muito esquecidos nos cantos do empoeirado aposento, encontrou um velho baú, entre outros caixotes, e, curioso, resolveu explorar o seu conteúdo. Foi assim que, remexendo bem no fundo, percebeu que emergia, do mofado escuro, um objeto de formato um tanto quanto inusitado: Uma lâmpada oriental! Como estivesse bastante empoeirada, o homem pensou em limpá-la, e foi exatamente nesse momento que algo ainda mais inusitado aconteceu, quando começou a esfregá-la com uma flanela. O que poderia ter sido? Sim, esse começo não é nem um pouco original, eu reconheço: O que houve foi isso mesmo que você imaginou. Um gênio maravilhoso apareceu; e foi logo explicando:

‘Estava preso nessa lâmpada havia muitos séculos, venho acompanhando a sua família há várias gerações. Foi seu tataravô quem resolveu guardar minha lâmpada no fundo deste baú, por achar que eu poderia provocar problemas para vocês, humanos. Desde então, estou aqui guardado e esquecido. Agora, você é o meu novo amo. O que acha disso?’

O homem, estarrecido, lembrava-se de sua ascendência árabe, enquanto o gênio continuava falando...

‘Como um gesto de agradecimento, posso realizar um desejo seu. Pode pedir o que quiser, e eu realizarei!’

O homem estremeceu ao ouvir aquilo. – ‘Quer dizer que posso pedir qualquer coisa que eu queira?’ – perguntou, sentindo uma euforia crescente, que já mal podia controlar. - ‘Qualquer coisa material, sim.’ - Foi a resposta. O felizardo começou a pensar consigo mesmo:

‘Isso é demais!! Deixe-me pensar muito bem... preciso ver... tem tantas coisas que eu quero... Talvez um carro novo... Não, um carro, não! Uma Ferrari esporte!.. Uma casa na praia mais linda, com uma piscina enorme!.. Eu poderia pedir um jatinho, só pra mim... Mas aí teria que pedir também um aeroporto particular... Pensando bem, é melhor pedir um milhão... de dólares, claro. Não, de euros! Quer dizer, um milhão não, um bilhão! Cem bilhões! Talvez uma mina de ouro no meu quintal! Uma mina que não se esgotasse nunca! Assim, poderia ter o que eu quisesse, para sempre... Saúde não pode, ele falou que tem que ser algo material...’

Ele ainda pensava, quando o gênio retrucou:

‘Mas há ainda uma coisa a ser dita, amo. Tenho mais uma notícia maravilhosa! Entenda bem: você receberá um prêmio extra: Além do seu desejo atendido, você ainda tem direito a um bônus: Tudo que você ganhar, o seu irmão também receberá, e em dobro! Isso não é magnífico?’

‘Acho que não entendi bem’ –
respondeu o ainda aturdido descobridor da lâmpada mágica.

‘Isso quer dizer’ – respondeu o gênio –
‘que ao realizar os seus desejos, você estará também presenteando o seu irmão, em dobro. Tudo que você pedir, terá. Mas o seu irmão receberá o mesmo, duas vezes mais.’ E com um grande sorriso, concluiu: ‘Não entendo porque o seu tataravô achava que algo assim tão maravilhoso poderia causar problemas para a humanidade...

‘Então, se eu desejar um carro conversível...’

‘Você o ganhará. E, além disso, seu irmão receberá dois carros iguais.’

‘Um milhão de dólares?’

‘Um milhão depositado na sua conta, imediatamente. E dois milhões na conta do seu irmão.’

‘Entendo...’
– ponderou o homem –
‘Por que isso?’

‘É uma lei que eu preciso seguir, porque sou um gênio do bem. Os gênios do bem só podem agir desta maneira, esta é uma benção em dobro para você. Gênios do mal realizam desejos presenteando seus amos com coisas que tiram de outras pessoas, em algum lugar do mundo. Por isso há tantos reveses inexplicáveis por aí. Comigo é o contrário. Para sua sorte, como já disse, eu sou um gênio do bem.’

O homem pensou por longos minutos. Parecia indeciso, andava de um lado para outro, dentro daquele porão mal iluminado. Finalmente se voltou para o gênio, que sorria bondosamente. Encarou-o muito sério por um instante, e então, finalmente, falou:

‘Já sei.’

‘E o que vai ser, amo?’
– perguntou o gênio, pronto para concretizar sonhos maravilhosos. O homem respondeu:

‘Eu quero que você me fure um olho.’...




Por quê? - Ao mesmo tempo em que a humanidade mergulha cada vez mais profundamente numa competição descabida em busca de cada vez mais posses, mais títulos, mais e mais brinquedos inúteis que lhe permitam se auto afirmar perante os seus semelhantes... Mais infelizes se encontram. Se este é um fato inconteste, facilmente verificável e que já está sendo encarado como fato científico, conforme pudemos apreciar no post anterior... Por que isso continua acontecendo?? Por que continuamos achando que precisamos ter não só o suficiente para suprir as nossas necessidades, mas também, e principalmente, para que possamos nos impor perante os outros? Por que achamos mais importante a ostentação das aparências do que aquilo que realmente somos e sentimos??

A resposta talvez não seja simples. Segundo a tradição da Cabala, porém, existe um fator principal que faz com que as coisas sejam assim. - E que representa a maior razão da nossa infelicidade, e da tão breve duração dos nossos momentos felizes. – Como avisei anteriormente, este é um dos mais importantes posts que eu já publiquei. Disse que este revelaria um grande segredo da vida, que traria em si a possibilidade de nos libertarmos dos sofrimentos inúteis. Se você acha que tem “olhos para ver” e “ouvidos para ouvir”, o momento é agora...

A Cabala entendeu que um dos motivos principais de estas coisas serem assim, de haver tanto egoísmo e desarmonia em nosso mundo, razão mesma de haver a infelicidade, é a ignorância deste princípio essencial:

“Tudo que um ser humano realmente deseja da vida é a LUZ espiritual”


É simples, não é? É por pensarmos que precisamos de coisas diferentes, como acumular bens materiais e apenas atender às nossas necessidades imediatas, por entendermos que apenas isso basta, é que sofremos.

Mas a pergunta permanece: Então por quê, mesmo assim, continuamos agindo dessa maneira? A resposta é que nós não sabemos o que é bom para nós mesmos! Somos como crianças que querem sempre fazer o que não devem, brincar sempre nos lugares mais perigosos e com maiores chances de acidente. - Crianças que não sabem se higienizar, se manter limpas nem se relacionar direito com o meio em que vivem. Somos como crianças que só querem comer porcaria, que não sabem cuidar de si mesmas, nem fazer suas próprias escolhas.

Quando você era criança, seus pais precisavam se manter sempre atentos e por perto, para que você não enfiasse o dedo na tomada nem se metesse a brincar com fogo. Tinham que vigiá-lo(a) para que você não mergulhasse na parte mais funda da piscina dos adultuos, antes de aprender a nadar. Agora você cresceu, mas ainda não aprendeu o que realmente é bom pra você. Você ainda não entendeu o que realmente importa, o que vai lhe conduzir à melhora e à plenitude, o que chamamos felicidade.

A Cabala ensina que a verdadeira “evolução espiritual" é estar cada vez mais perto de Deus. Quando eu me volto para Deus, posso "evoluir" um bilhão de anos num segundo! Essa é a única evolução real e possível: a aceitação da minha condição humana e da minha total dependência daquilo que me transcende. Não estou falando de dependência num sentido de submissão, de medo, de coisa imposta. Estou falando de aceitação, de reverência, de humildade, de grandeza de caráter... Estas coisas nos conduzem à compreensão de nós mesmos e da Realidade em que nos movemos. A verdade que a Cabala nos traz, em seu terceiro princípio essencial, é que eu não sou nada sem Deus, e a minha maior e única possibilidade de felicidade é que Ele seja tudo em mim. Que eu não devo buscar o meu próprio louvor, porque eu não mereço ser louvado, enquanto indivíduo, e que a felicidade está no Todo, e nunca no indivíduo. - Isso explica porque a tradição judaica ensina a "adorar" e louvar a Deus. A verdade é que, nos tempos atuais, não queremos nem aceitamos adorar ou louvar nada a não ser nós mesmos! Até imaginamos se não seria uma manifestação egóica do próprio Deus, esperar o nosso louvor e a nossa adoração!.. Mas o que significa "adorar"? Qual o sentido da "adoração" a Deus? Será que o Criador precisa disso?

"Adorar" para o semita significa reconhecer que existe algo maior do que ele próprio. É renunciar ao próprio ego diante da manifestação de um Poder maior e transcendente. "Adorar" é como dizer "eu me rendo". É aceitar que não somos suficientes por nós mesmos, que há algo além e maior do que nós, o qual reverenciamos, no qual queremos nos "dissolver"; e quando falo "nós", neste contexto, evidentemente estou me refirindo ao nossos egos. Egos narcisistas que nos fazem superlotar os shoppings enquanto as casas de caridade estão vazias...

O terceiro princípio essencial da Cabala afirma que eu sou como a criança precisando ser conduzida; eu não sei o que é bom para mim mesmo, por mim mesmo. Só quando eu for capaz de me entregar, incondicionalmente, é que conhecerei a Verdade, e a Verdade me libertará. Por Graça, não pelas minhas capacidades, pois na verdade nem as minhas capacidades me pertencem. Tudo que tenho e sou é "por empréstimo".

Paradoxalmente, só quando entendemos isso é que realmente podemos ser e ter tudo!

A LUZ divina é tudo o que realmente desejamos e precisamos para alcançar a Plenitude e a Felicidade, ainda que, conscientemente, não o saibamos. Aquela conhecida sensação de incompletitude, de que algo está faltando, reside justamente no fato de que nos encontramos afastados da LUZ da Unidade com Deus. Se buscarmos a ela em primeiro lugar, de coração, alma e entendimento, tenham absoluta certeza: as outras coisas (é preciso entender que as outras coisas são apenas 'outras') nos serão dadas por acréscimo. - Para finalizar eu devo dizer que sou uma testemunha viva disto; a minha vida é um perfeito exemplo dessa realidade. Eu, Henrique, quanto menos valor atribuo às posses materiais, quanto menos participo da corrida insana por cargos e posições ditas importantes neste mundo, quanto menos me preocupo com status e com a conquista de mais e maiores lucros, mais eu tenho, bem além do que preciso! Vivo uma vida tranquila e confortável, me considero feliz e realizado, sem prestar atenção ao que os meus vizinhos e parentes têm, se é mais ou menos do que eu mesmo possuo. Dou graças diariamente em tudo, e cada vez estou melhor, mais bem instalado, realizo mais os meus pequenos desejos...

Busquei a Deus por toda a minha vida, e essa Busca sempre foi a minha "prioridade zero", em detrimento de muitas boas oportunidades profissionais, que me permitiriam viver no luxo se as tivesse abraçado. Mas mesmo assim estou levando uma vida material bastante confortável. Por diversas vezes joguei fora, sem pestanejar, ótimas oportunidades de trabalho que tive, por achar que não valeria a pena o sacrifício das minhas melhores energias e o melhor do meu tempo apenas por... Dinheiro. E o Autor da Vida me sorriu.

Tudo é nada se estivermos distantes da real finalidade pela qual estamos aqui, em primeiro lugar. A Cabala diz que tudo o que de fato desejamos, mesmo sem saber, é a Luz de Deus. Um desejo que pode nos aparecer mascarado, nós pensamos que queremos a mulher, o cargo, o carro, mas por trás de tudo estamos desejando a LUZ de Deus; que é de onde viemos, afinal. O resto é só o resto. Por pensarmos diferente é que sofremos. Medite um pouco sobre isso.