Lições do Tao - 3


Terceira lição - Os Modos de Acumular Méritos - escritos que Liao Fan Yuan (1550 - 1624) deixou para seu filho

Muitos anos atrás, existiu uma mulher chamada Yen. Antes que ela permitisse o casamento de sua filha com o homem que viria a ser o pai de Confúcio, ela apenas perguntou se os antepassados dele haviam acumulado méritos e virtudes, não se importando com seus cargos ou posses. Ela sentia que se os antepassados tivessem acumulado méritos, seus descendentes definitivamente seriam notáveis. Confúcio mesmo havia elogiado Shun (um dos primeiros imperadores da China) por sua piedade filial. Devido a isto, Shun seria conhecido por milhares de anos e seus descendentes seriam notáveis por muitas gerações.

Na província de Fukien, havia uma pessoa especial; Yang Jung, que possuía cargo de instrutor imperial. Seus antepassados eram "pessoas do barco" que viviam suas vidas ajudando outros a atravessarem o rio. Quando houve uma tempestade com inundação, as correntes de água destruír­am as casas fazendo com que as pessoas, seus pertences e animais fossem levados pela correnteza. Outros barcos tentavam apanhar as riquezas materiais das famílias e somente seu bisavô e avô tentavam ajudar as pessoas. Os habitantes do vilarejo consideraram-nos muito estúpidos. Entretanto, depois do nascimento do pai de Yang Jung, a família Yang tomou-se muito próspera. Um dia um monge taoísta veio até sua família e disse: "Seus ancestrais acumularam muitos méritos; por isso os descendentes deles irão gozar de riqueza e notoriedade...". Então, a família seguiu o conselho do monge. - Muitos anos se passaram e Yang Jung nasceu; era dotado de muita inteligência e logo passou no exame imperial, recebendo diversas nomeações. Acredito que os notáveis atos, mesmo que dos antepassados, refletem nas vidas de seus descendentes.

Outro caso semelhante: Yang Tzu-Ch'eng era da prefeitura de Jin. Ele era uma pessoa com muita compaixão. Uma vez o magistrado local estava punindo um prisioneiro, espancando-o até que sangrasse, mas mesmo assim se não dava por satisfeito e mantinha-se com raiva. Yang suplicou para que parasse de bater no prisioneiro e obter como resposta: "Esta pessoa infringiu a lei, como não ficar com raiva?" Yang respondeu: "quando as pessoas detentoras do poder não seguem o Caminho (Tao), então o povo não entende o Tao também, e assim eles não entendem nem respeitam a Lei. Desta maneira, devemos ser mais compreensivos". O magistrado parou então de espancar o prisioneiro. Yang veio de uma família pobre, entretanto ele nunca aceitou suborno. Quando os prisioneiros estavam com pouco alimento, ele levava da sua própria casa, ainda que isso significasse ficar ele mesmo sem comida alguma. Sua prática de compaixão nunca cessou. Ele teve dois filhos - o nome do mais velho era Shou-Ch'en e do segundo era Shou-Chih, e ambos tomaram-se muito prósperos e exerceram importantes cargos. Mesmo os descendentes deles possuíram por longo tempo muita felicidade.

Uma outra pessoa chamada T'u costumava trabalhar na corte e ele passava suas noites na prisão visitando os prisioneiros. Se ele encontrasse alguém que fosse inocente, então ele redigia um relatório secreto para o juiz para que quando se abrisse a corte o juiz pudesse questionar o prisioneiro e esclarecer o caso. Então eles libertaram dez pessoas inocentes, e todas elas ficaram muito gratas a ele. Sr. T'u então enviou um memorando ao Juiz Imperial: "na Terra entre os quatro mares existem muitas pessoas, e possivelmente há muitos inocentes que estão presos. Eu recomendo que a cada cinco anos enviássemos um agente especial para checar em cada prisão as sentenças para que possamos evitar que pessoas inocentes permaneçam na prisão". O Juiz Imperial concordou e T'u foi escolhido como um dos agentes responsáveis por esta função. Uma noite ele sonhou que um anjo lhe dizia: "Em sua vida não estava predestinado um filho, mas este bondoso ato está de acordo com o desejo dos Céus, por isso lhe serão enviados três filhos, e todos eles alcançarão altas posições". Pouco depois desse sonho, sua mulher estava grávida e, um após o outro, nasceram seus três filhos, os quais se tornaram homens célebres.

Na prefeitura de Chia-shan havia uma pessoa chamada Li que pertencia a família Chih. Seu pai fora um membro da corte. Havia um prisioneiro sentenciado a morte, entretanto era inocente. O pai de Li sabia disto e tentou apelar contra a decisão com o seu superior. O prisioneiro, ao saber disto, pediu à sua mulher para convidá-lo a sua casa e oferecer-se para se casar com ele como uma forma de expressar gratidão, e também como uma maneira de aumentar suas chances de viver. Sua esposa chorou ao ouvir o pedido do mando porque ela realmente não queria fazer tal coisa. No dia seguinte, quando o pai de Li fora visitá-la, ela lhe ofereceu vinho e contou o desejo do mando. Ele recusou a oferta de casamento, mas continuou a se esforçar para resolver o caso. Quando o prisioneiro foi finalmente liberto, ambos, ele e sua mulher foram agradecer ao seu benfeitor. Eles propuseram que ele se casasse com sua filha, já que era ainda solteiro e não possuía filhos. A proposta foi aceita e o casamento realizado. Seu filho Li, antes de chegar aos vinte anos já passara em exames públicos para cargos imperiaís. O filho de Li, Kao, e seu neto, Lu, e seu bisneto, Ta-lun, todos receberam indicações imperiais.



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Com o objetivo de acumular méritos, pode-se seguir ainda com muitos detalhes e exemplos. Há a benevolência verdadeira e a falsa; há a bondade honesta e a desonesta; há a bondade oculta e a explícita; há a bondade própria e a imprópria; há a meia bondade e a bondade completa; há a grande e a pequena bondade; bondade em condições favoráveis e em condições dificultosas. Por isso, precisamos sempre continuar a aprender e a entender, senão, às vezes quando praticamos uma ação que pensamos ser boa, muitas vezes, podemos estar realizando a estar realizando ações que trazem efeitos negativos. Acabamos assim, não atingindo nossos objetivos. Freqüentemente, as pessoas dizem: "Fazemos e fazemos caridades, mas nossos descendentes não obtêm sucesso. Enquanto outros chegam até a cometerem deméritos, mas suas famílias são muito felizes", e começam a interpretar erroneamente as ações e suas conseqüências, chegando, inclusive, a conclusões absurdas. Geralmente, as pessoas não entendem realmente o que é a verdadeira bondade e o que é o verdadeiro Mal, por isso não podem julgar simplesmente pelo que vêem como aparência.

Por exemplo, analisaremos a verdadeira e a falsa bondade. Surrar e xingar alguém ou roubar, são ações consideradas, pelo senso comum, más. Respeitar e ser gentil é geralmente considerado bom. Estas condutas não são necessariamente boas ou más, porque nós precisamos ir além para entendermos a motivação por trás delas. É somente assim que podemos saber se são verdadeiramente méritos ou deméritos. Popularmente, contanto que beneficie a humanidade, então espancar ou surrar alguém pode ser considerado mérito; ou então, se alguém age respeitando os outros e tratando-os com cortesia em função de interesses próprios de seu ego, isto é considerado um demérito. Portanto, o que beneficia os outros é um mérito, mas o que beneficia somente a si próprio e um demérito ou uma falsa bondade. Aquilo que vem de dentro do coração é a verdadeira bondade; se for apenas superficial e também para mostrar para os outros, então é falso. Se ao realizarmos uma boa ação sem esperarmos nada em recompensa, esta é a verdadeira benevolência.

E quanto à bondade honesta e à desonesta? Normalmente, considera-se uma pessoa prudente e flexível uma pessoa boa, mas muitas vezes aquelas que são ousadas e corajosas é que são verdadeiramente boas. Todos podem considerar que a pessoa que é cuidadosa e frágil, é uma pessoa boa, mas ela pode não possuir, realmente, qualquer objetivo ou espírito virtuoso. Utilizando estes conceitos, podemos julgar os outros na sociedade, mas o julgamento do Céu sobre o que é considerado bom ou mau nem sempre se eqüivale ao da Terra, aliás, na maioria das vezes difere.

Portanto, aquele que quer acumular méritos, não pode fazê-lo simplesmente seguindo o caminho mundano. Deve vir de dentro o pensamento de ajudar o mundo e não o de agradar o mundo. Querer ajudar os outros é a verdadeira bondade. Aquele que tem qualquer pensamento de agradar o mundo ou divertir-se ás suas custas, não têm bondade verdadeira.

A bondade pode ainda ser dividida em oculta e visível. Aqueles que realizam uma boa ação e todos ficam sabendo, realiza uma boa ação visível. E essas ações podem somente receber a recompensa de uma boa reputação. Enquanto as ocultas serão recompensadas ainda mais pelos Céus. Se a reputação de alguém está além de seu real valor, então estará acumulando para essa pessoa grandes problemas. Fama não é considerado uma benção porque muitas pessoas que têm uma boa reputação muitas vezes a obtém falsamente. Não há uma autêntica virtude por trás disto. Por isso que em muitas famílias com fama, podem ocorrer estranhos percalços. Ressalte-se a importância de não se ter mais fama do que realmente se merece. Aquele que não cometeu más ações, mas lhe foi atribuído um mau nome, e conseguir aceitar isso e não se perturbar, é uma pessoa de grande virtude. Muitas vezes, os filhos desta pessoa terão muito sucesso. De qualquer forma, a diferença entre a bondade visível e a oculta está no fato de uma ser conhecida e a outra não.

Na realização de boas ações, há também aquilo que parece ser bondade, mas na realidade não é. Por exemplo, no estado de Lu, a lei dizia que se houvesse pessoas que fossem capturadas por outro estado, e se alguém quisesse pagar o resgate para trazê-la, então o governo poderia recompensá-lo. Um dia, um discípulo de Confúcio, Tzu-kung, depois de ter pago o resgate para trazer algumas pessoas de volta, não quis receber a recompensa do governo. Quando Confúcio soube disso, ele repreendeu-o dizendo: "você está errado, porque o que um homem honrado faz, pode afetar toda a sociedade. Isso se toma um modelo para todos; você não pode agir pensando em si apenas. No estado de Lu há pouquíssimos homens prósperos e a maioria das pessoas é pobre. Se você começar com esse exemplo de que receber a recompensa do governo é uma ação vergonhosa, então quem terá condições e recursos para pagar a recompensa? A tradição de pagar a recompensa para trazer as pessoas capturadas irá então desaparecer!”

Em um outro exemplo, um discípulo de Confúcio, Tzu-lu, salvou uma pessoa de se afogar e recebeu uma vaca como símbolo de gratidão. Quando o mestre ficou sabendo, ele lhe disse: "Muito bom. Agora o povo do estado de Lu ficará feliz em salvar as pessoas que estão se afogando: um estará disposto a salvar, outro disposto a agradecer. Criou-se um modelo correto". E se pensarmos nos dois exemplos acima citados, uma pessoa comum veria a ação de Tzu-kung de não receber a quantia em dinheiro como uma coisa boa e a ação de Tzu-lu de receber a vaca como algo ruim. A visão de Confúcio é diferente desta. Portanto, quando alguém realiza uma bondade, não se pode apenas observar a conduta, mas considerar os seus efeitos. Não devemos ver apenas o presente, mas também o resultado final no futuro. Devemos não apenas avaliar o ganho pessoal, mas como nossa ação afeta a comunidade. Se eu realizo algo que parece ser bom, mas o resultado final fere as pessoas, então apenas parece bom, mas na realidade não é. Ou por outro lado, se o comportamento ou a conduta não é boa, mas o resultado beneficia os outros, então o resultado final é bom. Há outros exemplos do que parece ser bom, mas na verdade não é, tal como perdão e tolerância indevidos; elogiar excessivamente alguém pode fazê-lo perder o senso da realidade; manter uma pequena promessa e causar um grande problema; e por fim, mimar uma criança, causando problemas futuros.

Há ainda a bondade imprópria e a própria. Como se pode explicar isso? Existiu outrora, um primeiro ministro, Lu, que tirou férias e retomou para sua vila. Os moradores ainda tratavam-no com muito respeito. Um dia, um membro do vilarejo ficou bêbado e começou a xingá-lo. Sr. Lu não se preocupou com isto pensando que era devido ao fato de o homem estar bêbado e não o puniu. No ano seguinte; o mesmo homem tomou-se ainda mais agressivo em seu comportamento. Até que ele cometeu um crime, pelo qual foi sentenciado à morte. Desta vez, Sr. Lu sentiu muito remorso. Ele disse: "Se da primeira vez em que o rapaz causou problemas eu tivesse lhe punido e disciplinado, então isto o teria endireitado e talvez não tivesse cometido tal crime. Não deveria ter sido tão condescendente com ele". Este é um exemplo de como um bom coração pode causar o mal.

Podemos analisar um outro exemplo de como uma conduta desagradável pode produzir bons resultados. Uma vez, durante um período de fome, o povo tomou-se violento e começou explicitamente a roubar comida uns dos outros. Havia um homem rico que informou ao governo os acontecimentos, mas o mesmo não se importou, assim, o povo tomava-se ainda mais agressivo em seu comportamento. Nesta situação, a família deste homem começou a punir os saqueadores e a região finalmente obteve alguma paz. Todos sabemos que a bondade é algo correto e que a maldade, não. Mas ser bom levando a uma situação pior é incorreto também. Ser desagradável, mas levando a resultados bons, às vezes é necessário.

Devemos também entender o que é uma bondade completa e uma incompleta. No I-Ching é mencionado que se a bondade não e completa, então seu agente não se toma bem-sucedido. Se a maldade não é completa, não traz destruição. É como acumular coisas em um container: ao ser diligente enche-se rapidamente; ao ser negligente o container não se encherá. Por exemplo, havia uma mulher que foi ao templo rezar e que queria também oferecer algo, mas como era de uma família pobre, ela pôde oferecer apenas dois centavos; o abade do templo mesmo assim veio agradecê-la. Mais tarde, essa mesma mulher tomou-se rica e retomou ao templo trazendo ouro. Desta vez o abade mandou apenas um de seus subordinados para lhe agradecer. Assim, ela questionou: "Da última vez quando lhe ofereci somente dois centavos o senhor veio pessoalmente me agradecer. Hoje eu estou lhe oferecendo muito. Por que não me agradeceu pessoalmente?" O abade respondeu: “No passado, apesar de você doar pouco, você foi sincera. E mesmo o meu agradecimento em pessoa não fora suficiente. Hoje, apesar de sua grande doação, percebi que o seu coração não é tão sincero. Por isso, apenas enviei meu discípulo. Este é um exemplo em que muito ouro representa apenas uma meia bondade, e dois centavos representam uma bondade completa”.

Vamos discutir o fato de que a bondade pode ser qualificada quanto à sua grandeza, quanto à dificuldade ou à facilidade. Nos tempos antigos, existiu uma pessoa chamada Wei Chung-ta. Ele era um alto oficial do palácio. Quando seu espírito deixou seu corpo e foi levado para o inferno, o guardião do inferno pediu os registros das boas e das más ações de Wei. O registro das más ações ocupava todo o pátio e as boas ações não ultrapassavam algumas folhas. Foi pedido para que se pesasse os registros. Notou-se que os muitos livros de más ações pesavam menos do que algumas folhas que registraram as bondades. Wei ficou curioso e disse: "Eu tinha apenas quarenta anos. Como pude acumular tantas más ações?" - O guardião respondeu: ”Pensamentos maus também são registrados, mas não são necessariamente efetuados“. Então Wei tomou a perguntar: “Por que o registro das boas ações é mais pesado do que o das más ações?” - E obteve como resposta: "O imperador de tempos em tempos realizava grandes projetos de construção. Quando estavam prestes a construir uma ponte de pedras na província de Fukien, você propôs que ela não fosse construída, porque percebeu que aquilo impediria a passagem de muitos barcos, utilizados como meio de sobrevivência do povo da região. Você preocupou-se com o sofrimento de aproximadamente 10.000 pessoas". Wei respondeu que sua proposta não tinha sido aceita pelo Imperador e não estava entendendo como poderia ter sido registrado como uma boa ação se nem tinha sido realizada. O guardião lhe explicou: "Mesmo que o imperador não tenha realizado sua sugestão, você teve a intenção de uma boa ação que afetaria 10000 pessoas. Se a proposta tivesse sido aceita, então o peso das boas ações teria sido ainda maior".

Desta forma, quando se pensa no mundo, se isso afetar 10000 pessoas, ainda que a ação seja pequena o mérito pode ser formidável. Mas quando há a preocupação apenas com um indivíduo, e a bondade afetar apenas uma pessoa, o ato de bondade pode ser grande, mas seu efeito total é menor.

Para a realização de atos bons em situações difíceis ou fáceis, temos que começar pelas partes difíceis, assim não cometeremos erros fáceis. Exemplos de pessoas que realizaram boas ações sob difíceis condições: Sr. Shu utilizou dois anos do seu salário de professor para pagar a fiança de um homem da cidade para permitir que ele ficasse junto de sua família. Na província de Hunan, Sr. Chang usava o dinheiro poupado por dez anos para ajudar homens que haviam se endividado para salvar suas esposas e filhas. Cheng-chiang, um senhor que mesmo sem ter conseguido ter filhos, ainda recusava uma jovem moça oferecida por um vizinho como concubina como forma de gratidão.

Há exemplos de pessoas que doaram tudo o que tinham para beneficiar os outros, em todos esses casos seus agentes estavam fazendo além do que se espera que uma pessoa normal faça ou tolere. Este tipo de bondade é especial. Quando não se tem dinheiro ou poder, é mais difícil realizar boas ações e ajudar os outros, é ainda mais difícil. porém o mérito é muito maior.

Aquele que tem dinheiro e poder tem muito mais facilmente a oportunidade de realizar boas ações e de acumular méritos. Se, em uma situação onde é fácil de se acumular méritos e de fazer boas ações, a pessoa não o fizer, então estará desperdiçando não só a oportunidade, mas como também renunciando a si próprio. Como diz o ditado chinês: "Aquele que é próspero e não realiza boas ações. é como um porco gordo".

Falei até agora dos principios por trás da realização de boas ações. Agora falarei sobre como ajudar os outros através de outros métodos. O primeiro método é auxiliar as pessoas; o segundo é tratá-las com respeito e amor, o terceiro é facilitar a realização da vontade dos outros de realizar caridades; o quarto é encorajar os outros a fazê-las; o quinto é ajudar as pessoas em uma emergência; o sexto é dar assistência em projetos públicos; o sétimo é doar aos outros nossa prosperidade; o oitavo é proteger e amparar os professores espirituais; o nono é respeitar os idosos; o décimo é proteger os seres vivos.

1. O que significa auxiliar as pessoas? Um dos primeiros imperadores, Shun, quando era jovem, observava os pescadores na província de Shantung. Ele notou que os locais onde havia muitos peixes, como nas calmas águas profundas, eram geralmente monopolizados pelos jovens pescadores. E quando um fraco e velho pescador foi levado pela rápida correnteza, ele se sentiu muito triste. Então Shun decidiu juntar-se a eles para pescar e sempre que encontrava outro pescador que o expulsava e lhe tomava o lugar, ele o deixava em paz, sem causar brigas. Mas quando encontrava alguém que lhe desse a oportunidade de pescar, então ele o elogiava para os outros e a ele era grato. Após um tempo ele criou uma atmosfera de respeito mútuo. Por isso, no nosso comportamento ao viver, é importante não só utilizar nossas próprias boas idéias para esclarecer as dos outros, mas também não demonstrar publicamente nossa bondade com o intuito de evidenciar a maldade dos outros, e certamente não utilizar nossa inteligência para pregar peças nos outros. Deve-se sempre viver com humildade. Ao notarmos as falhas dos outros devemos ser tolerantes. Ao virmos alguém realizar uma boa ação, mesmo que pequena, devemos elogiá-la. E devemos manter uma conduta silenciosa com aqueles que são maldosos; não destruir sua reputação com palavras sujas, mas sim permitir que elas mudem vagarosamente. Portanto, se sempre pensarmos no bem-estar coletivo e protegermos a verdade, estaremos auxiliando os outros.

2. O que significa tratar as pessoas com respeito e amor? Se eu fosse julgar as pessoas pelo comportamento, a diferença entre um cavalheiro e um não-cavalheiro é às vezes muito difícil. Mas se eu fosse ver isto pelo aspecto da motivação, então seria muito fácil dizer a diferença. Há um ditado que diz que a diferença entre os dois está em seus pensamentos. Um outro ditado diz que o mesmo tipo de arroz alimenta cem tipos diferentes de pessoas. Apesar de as pessoas serem diferentes nos detalhes, nos níveis sociais e terem níveis variados de inteligência, ainda assim são somente pessoas. Portanto devemos tratá-las, sem exceção, com respeito.

3. O que significa facilitar para que os outros realizem boas ações? Na sociedade há poucas pessoas que fazem boas ações em comparação com o número das que fazem más ações. Normalmente, temos o hábito de defender e seguir aqueles que vivem da mesma maneira que nós e de nos afastarmos daqueles que são diferentes. Assim, um cavalheiro vivendo dentro do seu círculo de convivência, a menos que tenha grande determinação e coragem, encontrará certamente muitas dificuldades e obstáculos para manter sua postura. Geralmente, aqueles que têm motivação para realizar boas ações têm o discurso e a conduta diferentes do resto da sociedade. Eles são, via de regra, sinceros e desapegados, além de não se empenharem em exibir suas qualidades para receber congratulações. Por isso, aqueles que não possuem sabedoria costumam criticar essas pessoas e assim elas não têm chance de fazer caridades. Desta forma, devemos auxiliar aquelas que possuem um bom coração na realização de seus objetivos quando elas tentam ajudar o próximo. É como trabalhar com um jade. Não o jogamos fora como as outras pedras, mas o polimos para que se tome uma jóia.

4. O que significa encorajar os outros a realizar boas ações? Todos temos uma consciência, mas a confusão da vida e também os atrativos da fama e da riqueza geralmente nos levam à ruína. Portanto, ao interagir com um cidadão comum, é sempre importante lembrá-lo de fazer aquilo que é bom e o que é certo. Um ditado diz: "Para despertar as pessoas por um momento utiliza-se a boca, para despertá-Ias por cem gerações escrevem-se livros “.

5. O que significa ajudar as pessoas em uma emergência? Freqüentemente, em sua vida, alguém vai estar em uma situação de dificuldade, ou em infortúnio, então, quando encontrarmos alguém em tal situação, devemos tratá-la como se nós mesmos estivéssemos nessa situação e ajudá-las sem hesitar. Por exemplo, pode-se usar palavras para confortá-la ou usar outros métodos para ajudá-las.

6. O que significa dar assistência em projetos públicos? Significa prestar ajuda em trabalhos que beneficiarão outras pessoas. Construir represas, pontes e ajudar os necessitados são exemplos.

7. O que significa doar aos outros a nossa prosperidade? Nos ensinamentos de Buda há 10000 caminhos para se desenvolver espiritualmente, e o primeiro é ceder, doar e entregar. Doar é um desprendimento, um ato de desapego. Quanto mais envolvidos em doar estão nossos seis sentidos intemamente, com mais desapego refletimos externamente. E, tudo o que possuímos pode ser doado sem dor. Certamente, uma pessoa comum pode não alcançar este nível de evolução espiritual e geralmente acaba vendo a riqueza como sendo mais importante do que a vida. Desta forma o primeiro passo para tomar-se desapegado é começar doando aquilo que é mais difícil: o dinheiro. Ajudar os outros é construir os próprios méritos, é ajudar a si mesmo. Internamente, devemos extinguir o egoísmo, a avareza e externamente, devemos ajudar os outros em emergências que facilitarão o crescimento espiritual. No início, os atos parecerão dificultosos e forçados, mas depois se tornam muitas naturas, porque este é o nosso modo natural de ser, só que, oculto pelo tempo. Isto também neutralizará as falhas dos outros.

8. O que significa auxiliar os professores espirituais? Essas pessoas falam sobre o dharma, os ensinamentos de Buda. Esses ensinamentos fornecem um guia para se tomar livre, libertos da vida e da morte. Por isso, quando virmos templos, sutras e mestres de Buda, devemos tratá-los com respeito e protegê-los.

9. O que significa respeitar os idosos? Significa respeitar nossos pais, irmãos mais velhos, pessoas mais velhas, pessoas que são autoridades e especialmente aqueles que são virtuosos e sábios. Devemos tratar nossos pais com delicadeza e respeito. E na sociedade, não devemos ter um mal-comportamento mesmo que o "imperador esteja a milhares de quilômetros". É importante que ao punir um prisioneiro não o façamos além do que é necessário. Tudo isto se refere ao acúmulo de méritos ocultos.

10. O que significa proteger a vida dos seres vivos? Os antigos já diziam: "Quando alguém se preocupa com os ratos, guarda-se algum arroz para eles, e se alguém se preocupa com as mariposas, não se acende a lâmpada". Com certeza essas atitudes são difíceis de serem realizadas, mas é um lembrete de que todos temos uma compaixão inata. Por isto Mencius dizia: "Os cavalheiros devem manter-se distantes da cozinha" (naquela época, na China, os açougueiros ficavam na cozinha), como uma maneira de proteger a piedade inata. Ele dizia que mesmo aquele que não conseguisse tomar-se um completo vegetariano, deveria pelo menos ter consciência de que os animais criados por ele não lhe devem servir de alimento; que se ele vir ou ouvir um animal sendo morto, esta carne não deveria ser o seu alimento; que se um animal foi morto especialmente para ele, não se deveria comê-la. Esses são os quatro casos nos quais não devemos comer a carne de um animal, pelo menos para iniciar a construir nossa compaixão e também para expandir nossos méritos e nossa sabedoria.

Antigamente, ferviam-se os casulos de seda para se obter a seda utilizada na fabricação do vestuário e; atualmente, quando cultivamos esses casulos, nos livramos dos insetos. Como o suprimento de roupas e de alimentos envolve o matar é importante não desperdiçar comida ou roupas; assim estaremos indiretamente protegendo a vida. Às vezes, podemos acidentalmente ferir outros seres com nossas mãos ou nossos pés, por isto, devemos ser muito cuidadosos.

Os métodos pelos quais podemos acumular méritos são muitos e não podemos descrevê-los todos, em todos os detalhes, mas se ao menos pudéssemos iniciar com esses dez, já seria um bom começo.