Verdade e auto-ilusão

Baseado num texto de Carlos Cardoso Aveline - Revista Planeta

Retomando com muito prazer o ritmo normal do Arte das artes, entendi que uma ótima maneira de efetivar essa volta seria com uma postagem que fala sobre a Verdade e algumas dicas de como buscá-la e como se proteger das muitas armadilhas do mundo. Um abençoado ano novo para todos!




Para não ser vítima das falsidades que envolvem a busca espiritual, é preciso, antes de mais nada, eliminar o processo de auto-ilusão.

Nenhum grupo ou instituição está livre de enfrentar o desafio da desonestidade. A vida é um grande teste para o discernimento daquele que procura viver em paz consigo e com os outros. Luz e sombra, verdade e mentira, joio e trigo - eles se misturam, a cada instante, neste nosso agitado mundo humano. Em conseqüência disso, a confiança cega raramente é uma boa base para as relações humanas e sociais. A qualidade dos relacionamentos só tem a ganhar quando eles se guiam por princípios como a transparência e a liberdade. A abertura ao diálogo e ao questionamento é um gesto preventivo que impede o surgimento da hipocrisia, das maldades açucaradas e das mentiras que parecem verdades.

Nenhum grupo ou instituição está livre de enfrentar o desafio da desonestidade. Nem sempre há um grau absoluto de sinceridade na relação de um casal ou entre amigos, irmãos e colegas de trabalho. Em qualquer profissão, país ou religião, pode haver gente honesta e boa, mas, ao mesmo tempo, existem outras pessoas que se julgam muito "espertas". A possibilidade de "picaretagem" está presente em todas as atividades humanas.

Existem também, ilusões e falsidades que envolvem a busca de ideais, a prática espiritual e a vivência do Sagrado. Elas afetam diretamente a relação da pessoa com a sua própria alma. Por isso, os líderes comunitários ou espirituais e todos os grupos voltados para o bem comum deveriam ser especialmente cuidadosos com questões como a capacidade de aprender com os próprios erros, a aceitação de opiniões divergentes, a liberdade de pensamento e a coerência entre discurso e prática.

Sempre que a ilusão envolve mais de uma pessoa, a velha lei de oferta e procura entra em vigor. Se alguém engana, é porque pessoas estão aceitando ser enganadas, ou, às vezes, até buscando isso inconscientemente. O cidadão que procura desesperadamente um alívio para os seus sofrimentos, mas prefere não assumir responsabilidade direta sobre sua vida, acaba criando uma grande oportunidade para a picaretagem. Uma tarefa dos líderes do século 21 é eliminar da cultura humana aquele falso "messianismo" pelo qual se cria a ilusão de que algum grande guru salvador – político, religioso ou outro – fará, sozinho, a tarefa que é de todos e de cada um. Não há muletas no processo da libertação, seja ela política, social ou espiritual.

Segundo a tradição, há cerca de 2.500 anos o grande rei Prasenajit, amigo e protetor de Gautama, o Buda, sugeriu ao iluminado que fizesse demonstrações públicas dos seus poderes mentais/espirituais. Assim, ele iria demonstrar a todos a força da sua sabedoria, e que realmente estava no caminho da Verdade. Gautama respondeu: “Grande rei, eu não ensino a Lei aos meus discípulos dizendo-lhes que usem os seus poderes sobrenaturais para fazer, diante dos brâmanes e dos notáveis, os maiores milagres que o homem já viu. Eu lhes digo, quando ensino a Lei: ‘Vivam, ó santos, ocultando suas grandes obras e exibindo seus pecados’".

Este não é um ensinamento exclusivo do budismo. No Novo Testamento, Jesus Cristo dá um exemplo de completa humildade pessoal e, em momentos decisivos do Evangelho, recusa-se a fazer milagres ou demonstrar os seus poderes, mesmo na ocasião da sua prisão, quando sabia que, por isso, seria torturado até a morte. São Francisco de Assis sempre falou de si como de um pecador: os outros é que o reconheciam como santo. As vidas dos verdadeiros grandes místicos de diferentes tradições mostram atitudes semelhantes, e não por acaso.

A cura da alma humana é um processo natural: a boa cicatrização ocorre de dentro para fora e só é possível quando a ferida está em contato com o "ar livre" da Verdade. O hipócrita pensa que é esperto e tapa suas feridas, mas isso o faz apodrecer por dentro. Os sentimentos negativos têm o mau costume de esconder a sua face, mas, quanto mais disfarçado estiver o egoísmo na alma do praticante religioso, maior é o perigo que o ameaça. Antigas escrituras do Tao dizem o seguinte:

“Não há nada neste mundo que não tenha duas versões, a verdadeira e a falsa. A prática do Caminho também pode ser verdadeira ou falsa, portanto, os estudantes devem, primeiro, distinguir as diferenças. (...) A verdadeira prática é a sinceridade total. Não é apenas evitar o mundo ou recitar as escrituras. (...) O falso é antagônico ao verdadeiro, assim, se não for eliminado, o falso prejudicará o verdadeiro. Mas você deve achar a maneira adequada de livrar-se dele. Se não achar essa maneira (...) o falso não poderá ser eliminado e o verdadeiro certamente ficará prejudicado.” - "Meditação Taoísta" (Thomas Cleary)

Para o taoísmo, o indivíduo deve se purificar por dentro antes de se purificar por fora. Toda religião autêntica ensina o desprezo pelas aparências. Armado de bom senso e discernimento; treinado nas artes da resistência - à dor, ao apego dos prazeres fúteis e aos apelos do ego, - o estudante da Sabedoria percebe que não existe uma linha divisória clara separando o mundo espiritual do mundo material. Fazer algo “em nome de Deus” não lhe dá garantia alguma de que sua ação seja boa ou correta. A história humana está cheia de comprovações desse fato. Também não basta crer em alguma coisa divina para que as causas da dor desapareçam. É necessário que o indivíduo compreenda gradualmente o modo como funciona o egoísmo em sua vida cotidiana, para que ele possa eliminá-lo aos poucos da sua vida e da sua prática religiosa, da sua militância social ou atividade espiritualista.

Não é fácil, mas vale a pena. A purificação das motivações pessoais é um processo fascinante e sagrado. Tudo depende das intenções, porque elas é que definem o nosso rumo. Mas a mudança para melhor é tão certa quanto a sinceridade do praticante. Durante muito tempo uma forte devoção espiritual pode servir de fachada para propósitos inconscientemente egoístas. Há pessoas que adotam algum objeto de devoção com a intenção de obter algo em troca. Muitas vezes, depois de algum tempo se decepcionam e repetem a tentativa com outro objeto de devoção. Esse tipo de praticante existe em todas as grandes religiões do mundo, e também em muitos círculos esotéricos e ditos espiritualistas. É cada vez mais comum ver o ingênuo e o desinformado buscando estabelecer uma relação de troca comercial com a Divindade(!). Eles desejam um investimento seguro. A maioria quer garantir vantagens materiais, mas também não faltam aqueles que visam "lucros espirituais", como vivenciar êxtases e experiências místicas, obter uma aura de "santidade" e ganhar prestígio social como "pessoas espiritualizadas". Assim, abrem as portas para todo tipo de falso guia tirar proveito da sua ignorância. O sábio indiano Ramana Maharshi (1879-1950) comentou essa questão com muita franqueza. Certa vez um aluno seu mencionou as dezenas de presentes que o sábio recebia, dos quais não parecia tomar sequer conhecimento. Os numerosos visitantes do ashram lhe traziam lembranças e oferendas com o objetivo de obter algum favor divino. Sri Ramana Maharshi respondeu perguntando:

“Por que me trazem presentes? Eu os quero? Mesmo que eu os recusasse, eles lançariam os presentes sobre mim! Para quê? Não é o mesmo que lançar a isca para fisgar o peixe? Na verdade, o pescador está ansioso para alimentar-se do peixe!” - "Ensinamentos Espirituais de Ramana Maharshi" (Arthur Osborne)

Ramana via esse tipo de devoção pessoal como uma tentativa de suborno, e uma forma de fuga daquilo que realmente interessa. Quando seus seguidores quiseram comemorar seu aniversário com uma grande festa, ele escreveu um protesto:

“Vocês, que querem comemorar aniversários, procurem compreender, primeiro, seus próprios nascimentos. O verdadeiro dia do nascimento de alguém é quando ele entra Naquilo que transcende o nascimento e a morte – o Ser Eterno. Pelo menos, em seus aniversários, vocês deveriam lamentar seu ingresso neste mundo ilusório. Glorificar-se nele e celebrá-lo é como enfeitar e dar grande importância a um defunto. Buscar o seu verdadeiro ser e mergulhar nele – isto é sabedoria.” - Idem

Alguns dos melhores instrutores preferem usar a linguagem direta. Discutindo a questão da falsidade, o grande místico espanhol São João da Cruz (1542-1591) escreveu:

“Não há mentira tão disfarçada e artificiosa que, se a examinarmos bem, não venhamos a descobri-la, de um jeito ou de outro. Nem existe demônio transfigurado em anjo de luz que, bem observado, não dê a perceber quem é. Nem há hipócrita tão esperto, dissimulado e fingido que, depois de poucas diligências e exames, não venhamos a descobrir.” - São João da Cruz (Obras Completas)

Para isso, porém, é preciso eliminar o processo de auto-ilusão. Só a honestidade consigo mesmo dá a alguém o discernimento necessário para identificar corretamente a falsidade no mundo externo. Portanto, uma das principais tarefas do buscador da Verdade é destruir as sementes da ilusão e da hipocrisia dentro de si. É claro que ele só pode fazer isso observando serenamente os seus erros. Mas para manter a serenidade há uma condição prévia central. Todos os sábios tiveram de passar pelo desafio. Ele deve ser indiferente em relação à dor e ao prazer pessoais.

Conta-se que certo dia, ao escutar a declamação de uns poucos versos durante uma reunião, São João da Cruz teve uma súbita expansão de consciência, imobilizou seu corpo físico e ficou durante um longo tempo em completo êxtase. Os cinco versos ouvidos por ele, de grande simplicidade, abordavam o princípio estóico da indiferença à dor. Eles estão publicados atualmente em suas Obras Completas, e são os seguintes:


“Quem não provou amarguras,
No vale humano da dor,
Nada entende de doçuras,
E desconhece o que é o amor;
Amarguras são o manto
dos que amam com ardor.”

-
São João da Cruz


Isso não quer dizer que temos que procurar a dor e o sofrimento. Mas sim aceitar as dificuldades, quando elas chegarem. Entendê-las, entender a sua razão de ser, compreender porque acontecem. A fuga automática e instintiva do sofrimento leva muitos a falsear a verdade, aceitar a mentira e abrir espaço para diferentes formas de desonestidade, consciente e inconsciente. Por esse motivo, os grandes sábios e filósofos de todos os tempos têm sido indiferentes às suas dores pessoais. Eles sabem que a Graça Divina surge de dentro para fora na alma que renuncia manipular a vida para satisfazer os caprichos do ego. A bem-aventurança procura fielmente aquele que não foge da dor ou da Verdade.

Muitas vezes, uma forte devoção espiritual pode servir de fachada para propósitos egoístas.


Como detectar um falso líder espiritual:

Em qualquer movimento comunitário ou espiritualista, quanto mais espírito crítico houver em relação aos processos de liderança, menor será o perigo da vaidade e do amor pelo poder. Os padrões de liderança corretos surgem junto com uma nova cultura da solidariedade. Não existe um método infalível para detectar falsidades. No entanto, aqui estão alguns pontos básicos que permitem avaliar melhor um líder ou guia espiritual e aumentar a autenticidade de nossos movimentos e instituições:

O uso da transparência – O bom líder faz da sua vida um processo aberto. Transforma, naturalmente, os outros em "fiscais" do que ele é e faz. Ele nunca considera como inimigo quem o questiona de modo sério e leal. Ele aprende, com as críticas, a aprimorar-se cada vez mais. O desonesto, por outro lado, é escravo da sua própria esperteza. Ele abusa da astúcia, constrói uma imagem falsa de si e é um manipulador de aparências – até que o feitiço se volte contra ele próprio.

Os mecanismos de poder – Os mecanismos de tomada de decisão do grupo ou comunidade que você quer avaliar são abertos ou fechados? A Comunhão Espiritual significa, entre outras coisas, confiança na assembléia, livre acesso à informação, avaliação crítica e autocrítica, escolha democrática dos rumos a seguir. O verdadeiro líder saberá apontar o melhor caminho de modo que todos o reconheçam como legítimo. Já o desonesto fará segredo de muitas coisas, alegará que está em contato direto com alguma inteligência "do além" e inventará desculpas variadas para decidir tudo sozinho.

A administração do dinheiro – Para manter a boa saúde ética e espiritual de um grupo humano, as questões materiais e que envolvem dinheiro devem ser abertamente discutidas, anotadas e resolvidas com toda clareza. As eventuais doações à instituição ou ao grupo devem ser feitas de modo claramente impessoal. Mesmo quando há uma liderança fortemente estabelecida, deve haver transparência e controle democrático em relação a tudo o que envolve dinheiro e poder de decisão. Os bons líderes crescem com a transparência.

A relação entre palavra e ação – Esta é essencial. Observe se o líder honestamente vivencia, na sua vida prática, o ideal que colocou diante de si. O líder autêntico luta consigo mesmo. Ele cai e se levanta inúmeras vezes até unir sentimento, pensamento, ação e palavras com o fio sólido da coerência e da lealdade aos seus princípios. Como diz o ditado popular, "papagaio também fala", e é um colosso o que podemos encontrar de "papagaios" por aí, que falam muito e falam maravilhosamente. Viver e agir em acordo com o discurso, bem, isso é bem mais difícil, e é exatamente aí que está a raiz da questão. O líder autêntico não teme o aparecimento dos seus erros. O falso guru não acredita no seu próprio coração e, por isso, procura viver das aparências. Em alguns casos ele diz uma coisa, pensa outra, deseja uma terceira coisa e faz algo que nada tem a ver com os itens anteriores. Ou, então, diz uma coisa para cada pessoa, tentando agradar a todos e causando, assim, grande confusão.

O método de tentativa e erro – Se o líder se comportar como se possuísse capacidades especiais, ou como se fosse, em algum nível, superior aos demais, mau sinal. Caso a instituição se declare capaz de explicar, em detalhes, as realidades superiores e a sabedoria profunda oculta nos Mistérios inefáveis, esclarecer minúcias sobre os insondáveis mundos espirituais, o caso é grave. O bom líder se protege das suas próprias ilusões estimulando o espírito crítico nos demais, e não deixa nunca de assumir as suas próprias limitações enquanto ser humano.

A questão pedagógica – Para os esquemas desonestos, é fundamental vender a ilusão de que alguns podem e outros não. Assim, os falsos guias espirituais transformam os buscadores em meros consumidores e ouvintes. A verdade, porém, é que ninguém sabe tanto que necessite falar o tempo todo, e ninguém sabe tão pouco que não tenha nada de importante a compartilhar e ensinar aos demais. O instrutor é apenas um auxiliar do processo autônomo de aprendizagem. Ele se coloca a serviço do aprendiz. Não pretende colocar o aprendiz a seu serviço.