O Deus de Einstein



Em meados dos anos 1930, o diplomata e mecenas alemão conde Harry Kessler (1868-1937) se aproximou do já renomado Albert Einstein (1879-1955) e lançou: "Professor, ouvi dizer que o senhor. é profundamente religioso". Sem se alterar, o cientista respondeu: "Sim, você pode dizer isso. Tente penetrar, com os nossos meios limitados, os segredos da natureza. Você vai descobrir que, por trás de todas as concatenações discerníveis, há algo sutil, intangível e inexplicável. A veneração a essa força que está além de tudo o que podemos compreender é a minha religião...".

A resposta não dá muita margem a dúvidas: Einstein acreditava em Deus. E embora talvez seja menos complicada de entender do que a Teoria da Relatividade, a idéia que o gênio desenvolveu do Todo-poderoso é cheia de sutilezas e meios-tons. Isso fez com que, assim como suas descobertas científicas, seus conceitos religiosos gerassem controvérsias e discussões que chegam acesíssimas aos dias de hoje.

"Tudo é determinado por forças além de nosso controle. Isto é verdade para um inseto ou uma estrela. Seres humanos, vegetais, grãos de poeira... Todos dançam segundo uma melodia misteriosa, entoada à distância por um 'Flautista Invisível'". (Albert Einstein no 'Saturday Evening Post' de 26 de Outubro de 1929).


O "Flautista Invisível" representa um Deus que se revela através da "harmonia de tudo o que existe", no discorrer das transformações do mundo natural. Para Einstein, a ciência é essencialmente uma atividade religiosa. Religião, claro, que trata a natureza como metáfora do Divino e o cientista como se fosse o seu sacerdote, aquele capaz de desvendar os seus mistérios. Essa atitude pode ter suas raízes em Platão, que via a Essência do Divino na razão humana. Na elegância das figuras geométricas, com suas relações e proporções, Einstein viu uma forma de linguagem que usamos para decifrar o código usado por Deus para construir o cosmo. A matemática é o alfabeto da Criação.

Einstein argumentava que a religião organizada não seria necessária para estabelecer as bases de um comportamento ético. Impor o controle social pelo medo ou pelas crenças mostra o quão imaturo é ainda o homem. Acreditava que a essência do equilíbrio social não se encontraria necessariamente na religião, mas no respeito à vida, ao outro, ao mundo. - Einstein sobreviveu a duas guerras mundiais, foi testemunha do genocídio de 6 milhões de judeus pelos nazistas, de um número ainda maior de russos por Stálin, de centenas de milhares de japoneses pela bomba atômica americana. Se estivesse vivo hoje, infelizmente, veria que não mudamos muito.

“A causalidade mecanicista foi posta em dúvida pela ciência moderna. Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração pelo Espírito infinitamente superior que se revela no pouco que nós, com nossa fraca e transitória compreensão, podemos entender da Realidade. A moral é da maior importância para nós”. - Albert Einstein


No artigo "Religião e Ciência", que faz parte do livro "Como Vejo o Mundo", publicado em alemão em 1953, Einstein escreveu:

“Todos podem atingir a Religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de 'religiosidade cósmica' e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico (...) Notam-se exemplos desta religião cósmica nos primeiros momentos da evolução, em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas. (...) Ora, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido à imagem do homem, portanto nenhuma instituição religiosa ensina a religião cósmica. (...) Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza se assemelham profundamente”.


Max Jammer, professor emérito de Física e Reitor da Universidade Bar-Ilan, Israel, colega de Albert Einstein em Princeton, se debruçou com profundidade sobre esse lado infelizmente tão pouco abordado de Einstein. Releu seus textos e consultou papéis inéditos, guardados no Einstein Archive, em Jerusalém, e na Biblioteca do Union Theological Seminary de Nova York. O resultado desse esforço é a obra intitulada "Einstein e a Religião", onde, pela primeira vez, são tratados de forma conjunta e abrangente as concepções einsteinianas de Deus e o impacto da Teoria da Relatividade sobre a Teologia. A revolução realizada por Einstein em conceitos fundamentais, como os de espaço e de tempo, bem como a criação da cosmologia científica, que seus trabalhos inauguraram, deram início a um debate de altíssimo nível, que se estende até hoje, sobre a compatibilidade das visões de mundo professadas por cientistas e teólogos contemporâneos. Livro de leitura obrigatória.

No artigo "A Religiosidade da Pesquisa", no mesmo livro, Einstein defende que:

“O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. A religiosidade do sábio consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da Harmonia das Leis da natureza, revelando uma Inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos”.



Sim, foi o próprio Albert Einstein quem escreveu isso. Difícil acreditar que um dos maiores gênios da ciência de todos os tempos tenha declarado essas coisas? Isso torna ainda mais lamentável termos que nos defrontar, nos dias de hoje, com a nova leva de ateus (a la Richard Dawkins) que imaginam que a ciência, de alguma maneira, poderia "provar" que Deus não existe... triste.



Fontes e bibliografia:
Revista Galileu;
Profº Marcelo Gleiser;
Jornal da Ciência (JC E-Mail) - Instituto de Física;
Universidade Federal do Rio Grande do Sul;
DUKAS, H. Hoffmann B. Albert Einstein: O Lado Humano, 1984 - Editora da UNB;
JAMMER, Max. Einstein e a Religião, 2000 - Contraponto.



Mahavira

Templo jaina - Índia


O termo "Mahavira"* é um título dado a Nataputra Vardhamana, o reformador do jainismo e o último dos vinte e quatro "Tirthankaras" ('Construtores do Caminho'). Mahavira é também conhecido com os nomes de Vardhamana (o que sempre avança), e Sanmati. Segundo a tradição jaina ele nasceu em 599 aC em Kshatriyakundagrama ou Kundapura, perto de Vaishali, na Índia, e viveu até o ano de 527 aC, em Pavapuri.

Mahavira pertencia à casta guerreira (kshatriya), sendo o seu pai o rei Siddharta, líder de um grande clã, e a sua mãe Devananda, que pertenceria à casta dos brâmanes - outras tradições apresentam outros nomes para a sua mãe, como Trishala, Videhadinna ou Priyakarini, e colocam-na na casta guerreira. - Seus pais eram ambos seguidores do grande Parshva. Devananda era a irmã do rei Chetaka de Vaishali, a capital de uma federação onde o Jainismo de Parshva era popular.

Com a prosperidade do reino do seu pai, Mahavira cresceu num ambiente de luxo, entre riquezas e fartura principescas. Pela sua coragem e auto controle nas circunstâncias mais difíceis, foi-lhe dado o título de Mahavira, que significa "grande herói". Ele mostrou a sua coragem logo em criança, realizando ainda pequeno feitos como montar um elefante pelo dorso e agarrar uma imensa serpente e atirá-la para longe. Recebeu, provavelmente, a educação de um aristocrata em filosofia, literatura, ciências militares e administrativas, bem como nas artes.

Mahavira casou com a princesa Yasoda e tiveram uma filha, Anojja. Quando ele tinha por volta de 28 anos, morreram os seus pais. Quis renunciar ao mundo; mas, para agradar ao irmão mais velho, concordou em viver em casa durante mais dois anos, durante os quais, praticou rigorosa auto disciplina. No último ano de sua estada em sua casa, distribuiu todos os seus bens e praticou a caridade todos os dias.

Aproximadamente aos 30 anos de idade, abandonou de vez todas as suas posses para partir em busca da Verdade. Renunciou a toda sua riqueza, propriedades, mulher, filho, parentes e prazeres. No jardim da cidade de Kundapura, aos pés de uma árvore ashoka, sem mais ninguém estar presente, e depois de permanecer dois dias sem água, tirou todas as roupas, cortou seu cabelo e colocou uma simples peça de tecido sobre o ombro. Como se percebe, desde o nome do seu pai, tudo em sua história se assemelha aos acontecimentos da vida do Buda histórico, Sidarta Gautama (o Buda Sakiamuni), e o mais impressionante é que os dois foram contemporâneos: viveram ambos numa época em que as práticas religiosas tradicionais começavam a entrar em crise. Em particular, o sacrifício de animais e o sistema de castas eram postos em cheque, e tanto Mahavira quanto o Buda os rejeitaram.

Logo após deixar a sua vida confortável para trás, o Mahavira se entregou à rigorosas práticas ascéticas na esperança de alcançar a iluminação. Durante um ano usou roupa, mas depois passou a andar nú, como sinal de absoulta renúncia dos valores mundanos. Deixou que insetos o atacassem; sofreu ataques físicos e verbais; dormiu em locais inóspitos; praticou jejuns extremos; num período total de doze anos. Teve também particular cuidado em não fazer mal a qualquer forma de vida, desenvolvendo assim a teoria de "Ahimsa" ('Não-Violência'). É por isso que até hoje alguns monjes jainas (os da ordem svetambra) usam uma máscara de tecido usada sobre a boca ('mukhavastrika'), para não ingerirem, involuntariamente, pequenos insetos. Isso seria causar a morte de um ser vivo, o que geraria karma ruim.

Mahavira fez votos de negligenciar o seu corpo e sofrer sem resistência a todas as dificuldades, tanto as espirituais quanto as mundanas. Já antes de se casar, havia obtido os três primeiros níveis do conhecimento - conhecimento dos sentidos, conhecimento dos estudos e conhecimento da intuição - e diz-se que atingiu também o quarto nível do conhecimento, o qual inclui os movimentos psicológicos de todos os seres senscientes (que dispõe de consciência).

Mahavira tornou-se um sem-teto. Em certa ocasião, um pedinte brâmane, pediu-lhe uma esmola; ele, que já não tinha mais nada, deu-lhe metade da vestimenta do seu ombro. Treze meses depois, tinha oferecido tudo o que restava da sua roupa.

Após alguns meses de contemplação, Mahavira foi para um ashram em Moraga, onde foi convidado pelo abade, que fora amigo do seu pai, a permanecer ali durante os quatro meses da estação das chuvas. Ficou numa cabana com uma cobertura de palha. O verão tinha sido tão quente que a erva da floresta tinha desaparecido, e o gado começou a comer as cabanas de palha dos ascetas. Os outros ascetas espantaram o gado, mas Mahavira deixou os animais comerem a cobertura da sua cabana. Os ascetas então queixaram-se ao abade e Mahavira decidiu abandonar o ashram, passando a estação das chuvas na vila de Ashtika. Refletindo nessa experiência, resolveu seguir a rígida disciplina de nunca viver na casa de pessoas desagradáveis, mantendo o silêncio, comendo na sua mão como se fosse um prato e não mostrando delicadeza ou prestando honra aos donos das casas.

Mahavira permanecia habitualmente com o corpo rígido como uma estátua (kayostarga). Simultaneamente, praticava a meditação e austeridades severas. No verão meditava ao sol ou caminhava nos campos ardentes pelo calor extremo, enquanto no inverno meditava nu ao ar livre. Caminhava devagar, mantendo cuidadosamente os olhos no chão, para evitar pisar qualquer inseto. Vivia em casas abandonadas, crematórios, jardins ou qualquer lugar isolado.

A pouca comida, conseguia-a mendigando. Se via outro pedinte, animal ou ave esperando pela comida de uma casa, seguia silenciosamente para a casa seguinte. Em determinada ocasião, jejuou por 30 dias consecutivos. Durante longo período, sua vida foi cheia de aventuras, e o sofrimento era uma constante, mas ele manteve sua postura firme e meditativa.

Após o décimo segundo ano procurando a mais alta iluminação, Mahavira meditou durante seis meses sentado em quietude, mas falhou. Fazia penitência num cemitério, quando Rudra e a sua mulher o interromperam. Finalmente, no décimo terceiro ano de uma vida ascética, enquanto meditava e após dois dias e meio de jejum de água, Mahavira obteve o nirvana e a mais alta consciência, chamada "Kevala", ou "Sabedoria Absoluta". Diz a tradição que a primeira mensagem de Mahavira após a sua iluminação está registada no texto "Majjhima Nikaya":


"Eu sou toda a Sabedoria e todo o visível,
possuidor de um conhecimento infinito.
Tanto esteja a caminhar ou quieto,
tanto esteja a dormir, como acordado,
o supremo conhecimento e a intuição
estão presentes em mim
constante e continuamente.

Existem, oh Nirgranthas, alguns atos pecaminosos vividos
no vosso passado, os quais devem agora abandonar,
por esta forma extrema de austeridade.
Agora e aqui, vão viver reduzidos a observar
os vossos atos, discursos e pensamentos.
Isso irá trabalhar como não produção
de karma para o futuro.

Então, pela exaustão da força dos atos passados
através da penitência e da não acumulação de novos atos,
podem estar certos da paragem da maldição futura
e do renascer a partir de tal parar,
da destruição dos efeitos kármicos,
daí, da destruição da dor,
daí, da destruição dos sentimentos mentais,
e daí, da completa libertação
de todos os tipos de dor."


Um dia apareceram dois monarcas e nove escolásticos, e argumentaram com Mahavira - acabaram convertidos. A tradição Jaina diz que estes 11 trouxeram 4.400 discípulos para a nova fé. Aos poucos, Mahavira começou a converter toda a população com os seus discursos, incluindo os nobres daquela vasta região.

Depois disso, o Mahavira dedicou todos os anos restantes da sua vida a ensinar sua doutrina.


Doutrina

"Ahimsa" - Não Violência - não causar mal ou sofrimento a qualquer ser (mesmo vermes ou insetos);

"Satya" - Verdade - evitar a mentira;

"Asteya" - Honradez, Honestidade - não se apropriar do que não foi dado;

"Brahmacharya" - Castidade - abster-se das relações sexuais;

"Aparigraha" - Desapego - não se apegar às posses materiais, não ter apego pelas coisas mundanas.

Mahavira viveu toda sua vida imerso na autocontemplação. Ele soube que os prazeres do mundo são transitórios, e que eles reforçam as letras do karma. Ele soube que a renúncia conduziria ao alcance da eterna bem-aventurança. Mahavira faleceu aos 72 anos. O seu primeiro discípulo, Indrabhuti Gautama, morreu ao amanhecer do dia seguinte. Seus seguidores posteriormente organizado a religião jaina nos seus moldes actuais. - "Jaina" vem de "jina", que significa vitorioso ou conquistador.

As idéias metafísicas essenciais do Jainismo, estabelecidas por Mahavira, são consituídas por nove princípios cardinais:

# O Universo está dividido no que é vivo e consciente (jiva) e na matéria inerte (ajiva).

# As Jivas (almas) são tanto apanhadas pelo karma (ação) na roda de renascimentos (samsara) ou libertadas (mukta) e aperfeiçoadas (siddha). Apesar do seu número ser infinito, as jivas são individuais e cada uma contêm um potencial infinito de consciência, poder e benção.

# "Ajiva", a matéria, é feita de partículas eternas em tempo e espaço que podem ser alterados e parados.

# "Ashrava" - "jiva", a alma, é atraída para os objetos dos sentidos pelo princípio de Ashrava, que leva ao sofrimento (bandha) da alma pela ação do karma.

# "Punya", a virtude;

# "Papa", o vício;

# "Samvara', a alma evita "ashrava" (o 'influxo kármico') pela contemplação e a auto disciplina da mente, fala e corpo. Isto leva, eventualmente, a

# "Nirjara", a eliminação do karma;

# "Moksha", a libertação, é obtida. Na morte da última vida, o "Nirvana" (literalmente “ser extinto”) explica o fim da existência mundana da alma, a qual, então, se eleva ao mais alto Céu.


“Todos os objetos do mundo são passageiros como o mundo. Onde pode alguém conseguir a felicidade neste mundo, o qual é a morada da doença, do sofrimento, da dor e da morte?”

O Mahavira



*Nota: todos os termos em língua estrangeira deste post provém do sânscrito.


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Fontes e bibliografia:
"Lord Mahavir and Jain Religion" - Pravin K. Shah
Profº Vinay Lal;
Grupo Shunya;
Dharmanet.Com;
Wikipedia revisado.


Jainismo

"Buda? Não... Sou Mahavira!"

O jainismo ou "jinismo" é uma das religiões mais antigas da Índia. Alguns historiadores consideram que a sua origem seja anterior a do Bramanismo, embora seja mais provável que a sua forma atual tenha surgido no século V aC, resultado da ação religiosa de Nataputra Vardhamana, conhecido como Mahavira, o “Grande Herói”. Vista durante algum tempo pelos investigadores ocidentais como uma seita do hinduísmo ou uma heresia do budismo, devido à partilha de elementos comuns com estas religiões, ficou comprovado entretanto que o jainismo é um fenômeno original.

Ao contrário do budismo, o jainismo nunca teve um espírito missionário, tendo permanecido na Índia, onde os jainas constituem hoje cerca de quatro milhões de crentes. Pequenas comunidades jainas existem também na América do Norte e na Europa, em resultado de movimentos migratórios.

Sua visão básica é dualista: a matéria e a alma (ou 'essência vital', que no jainismo é chamada 'jiva') são de natureza distinta, e durante sua vida o ser vivente (seja humano ou animal) "tinge" sua alma conforme suas ações, boas ou más. Para se purificar, essa religião propõe um ascetismo extremo e a prática da Doutrina da Não-Violência = "Ahimsa".

Segundo historiadores da religião, o jainismo estabeleceu-se na Índia em meados do primeiro milênio aC. O seu fundador foi Mahavira, e existem duas propostas aceitas como possíveis para o período em que viveu: 599 a 527 aC (a data tradicional, adotada pelos jainistas) ou 540 a 470 aC (segundo grupos acadêmicos). Mahavira nasceu perto de Patna, onde é hoje o estado do Bihar. Tendo sido um contemporâneo do Buda, pregou na mesma região geográfica que este, embora não conste que estes dois buscadores tenham alguma vez se encontrado. Mahavira pertencia à casta dos guerreiros ('kshatriya'): casou e viveu no luxo, até que por volta dos trinta anos tornou-se um mendigo errante. Segundo a tradição, entregou-se a longos processos ascéticos até obter a Iluminação, tendo consagrado os restantes trinta ou quarenta anos da sua vida à pregação da sua doutrina. Faleceu em Pavapuri, no Bihar, que é desde então um dos principais centros da peregrinação jaina. Como se vê, a história de Mahavira e a do Buda são praticamente idênticas.

De acordo com os jainas, a sua religião é eterna, tendo sido a doutrina revelada ao longo de várias eras pelos 'Tirthankaras', palavra sânscrita que significa "Fazedores de Vau", ou seja, alguém que ensinou o Caminho. Os Tirthankaras foram almas nascidas como seres humanos que alcançaram a Libertação (Moksha) do ciclo dos renascimentos através da renúncia e que transmitiram os seus ensinamentos aos homens. Segundo o jaininsmo, até a presente Era existiram 24 Tirthankaras - o último desses Tirthankaras foi o Mahavira, que os jainas não consideram como o "fundador" do jainismo, mas sim que ele lhe tenha dado sua forma atual. O 23º Tirthankara foi Parshva, que os historiadores consideram ter sido provavelmente uma figura histórica que viveu cerca de três séculos antes do Mahavira. Os jainas acreditam que Parshva pregou os 4 grandes princípios do jainismo, a saber: Não-Violência ('Ahimsa'), evitar a mentira, não se apropriar do que não foi dado e não se apegar às posses materiais; o Mahavira acrescentou a estes mais um princípio: o da castidade.


Divisões internas

Os jainas encontram-se divididos em dois grupos principais: os digambara ('Vestidos de Espaço' ou 'Cobertos pelo Céu') e os svetambara (ou 'shvetambara', 'Vestidos de branco'). Cada um destes grupos encontra-se por sua vez dividido em vários subgrupos. A maioria dos jainas pertencem ao grupo Svetambara.

A origem destes dois grupos situa-se no século I dC (ou III dC, segundo alguns autores) e deve-se às disputas em torno dos textos que devem constituir as escrituras do jainismo. Os svetambara consideram que as suas escrituras estão mais próximas dos ensinamentos originais do Mahavira, enquanto que os digambara rejeitam uma parte considerável dessas escrituras. Os digambara consideram igualmente que a renúncia pregada pelo Mahavira implica para os monges a nudez total e que as mulheres devem primeiro renascer como homens para poderem atingir a libertação.

Geograficamente, os digambara concentram-se no sudoeste da Índia e os Svetambara ao noroeste (estados do Gujarate, Rajastão e Madhya Pradesh). O estátuário dos dois grupos são também diferentes: os Tirthankaras dos svetambara possuem roupas e uma decoração mais rica, enquanto que as dos digambara estão sempre nuas: estas diferenças fazem com que um adepto dos digambara não possa praticar o culto num templo svetambara.


Doutrinas

Deuses - Apesar de prestarem culto a diversos deuses e deusas, que crêem atuar no mundo físico, os jainas não crêem num Ser superior nem adotam a idéia do Deus Uno.

O Tempo - Os jainas consideram que o Tempo é infinito e cíclico. Ele é visto como uma grande roda dividida em duas partes idênticas: uma realiza um movimento ascendente ('Utsarpini'), enquanto que a outra um movimento descendente ('Avasarpini'). Cada uma destas partes divide-se em seis Eras ('Ara'). Durante o período ascendente os seres humanos progridem ao nível do saber, estatura e felicidade, enquanto que o período descendente caracteriza-se pela degradação do mundo, pelo esquecimento da religião e pela perda de qualidade de vida pelos humanos.

Segundo os jainas, vivemos atualmente num período de movimento descendente, numa Era de infelicidade ('Dukham Kal'), que começou há 2 500 anos e que durará 21 mil anos.

O Universo e os "Cinco Mundos" - Segundo o jainismo, o Universo divide-se em cinco mundos, sendo cada um deles habitado por determinado tipo de seres. O Universo é eterno, e crêem que no topo do Universo está a "Morada Suprema" ('Siddhashila'), que é o local onde habitam as almas que alcançaram a libertação (estas almas são denominadas 'Siddhas'). Abaixo encontram-se 'Trinta Céus', habitados por seres celestiais, alguns dos quais caminham para a morada suprema.

O "Mundo Médio" ou 'Terra Média' ('Madhyaloka') - nada a ver com Tolkien, a não ser que talvez ele tenha vindo buscar no jainismo a idéia do nome - inclui vários continentes separados por mares. No centro deste mundo encontra-se o continente 'Jambudvipa', considerado o único continente no qual as almas podem alcançar a libertação. Os seres humanos habitam este continente, bem como um segundo continente ao lado deste e parte do terceiro continente.

O "Mundo Inferior" ('Adholoka') consiste em sete infernos, onde os seres são atormentados por demônios e onde se atormentam uns aos outros. Abaixo do sétimo inferno encontra-se a base do Universo ('Nigoda'), habitada por inúmeras formas inferiores de vida.

"Karma" - À semelhança do hinduísmo, o jainismo partilha da crença no karma, embora de uma forma diferente. O karma no jainismo não é apenas um processo em que determinadas ações produzem reações, mas também uma substância física que se agrega às almas. As 'partículas' de karma existiriam no Universo e associariam-se à uma alma devido às suas ações (por exemplo, quando uma alma mente, rouba ou mata, provoca a agregação de karma negativo na sua alma). A quantidade e qualidade destas partículas determinam a existência que a alma terá, a sua felicidade ou infelicidade. Só é possível à uma alma alcançar a Libertação quando desta se retirarem todas as partículas de karma. O processo que permite a libertação das partículas de karma de uma alma denomina-se 'nirjara' e inclui práticas como o jejum, o retiro para locais isolados, a mortificação do corpo e a meditação.

Os doze "Anuprekshas" - a "Matéria de Pensamento Profundo" - das escrituras Jainistas:

1. Todas as coisas mundanas são temporárias.
2. Apenas a alma é o único refúgio
3. Este mundo é sem começo e deformado.
4. Nada ajuda a alma além de si mesma.
5. Corpo e mente são, essencialmente, separados da alma.
6. A alma é essencialmente pura, e o corpo e a mente são impuros.
7. O cativeiro da alma é devido a influência do karma sobre ela.
8. Todos os seres devem parar a influência do karma.
9. A liberação é alcançada quando se está absolutamente livre do karma.
10. A alma liberada preenche o espaço.
11. Neste mundo, ter um nascimento como ser humano e meditar na natureza da alma é a maior bênção.
12. Ter as três jóias comum descritas pelo onisciente é apenas moralidade.


Formas de vida religiosa jainistas

Monges e monjas - O jainismo considera a vida monástica como o ideal de vida dos seres humanos. Entre os svemtambara, a entrada na vida monástica é autorizada aos dois sexos a partir dos setes anos, mas realiza-se em geral numa idade mais avançada. O noviço deve abandonar todos os seus bens; por altura da sua ordenação ('diksa') sua cabeça é raspada e ele toma os cincos votos, que segue numa versão mais rigorosa do que a dos leigos ('mahavrata').

Os monges jainas levam uma vida itinerante, com exceção da época das monções, altura em que se recolhem numa determinada localidade. Dependem para a sua alimentação da caridade fornecida pelos leigos jainas, a quem oferecem em troca assistência espiritual.

Os monges do ramo svetambara podem ter apenas pequenas coisas, como uma fina veste branca, uma tijela onde recebem os alimentos dos leigos e uma máscara de tecido usada sobre a boca ('mukhavastrika'), cujo objetivo é evitar a ingestão involuntária de pequenos insetos. Os monges digambara interpretam o preceito do desapego de uma forma bastante rigorosa e por esta razão não usam roupas; as monjas deste ramo usam uma veste branca. Os monges digambara não possuem uma tijela e usam a mãos como recipiente dos alimentos. Os monges svetambara costumam se deslocar em pequenos grupos de cinco ou seis monges, enquanto que os digambara geralmente viajam sozinhos.

Todos os monges devem seguir as três regras, chamadas "guptis", que evitam a conduta incorreta: Ter cuidado com os pensamentos, com as palavras e com as ações.

Entre os svetambara o número de monjas ultrapassa o de monges. Isso porque as monjas digambara aceitam a doutrina que afirma que para se avançar no Caminho espiritual é necessário nascer com um corpo masculino.

Leigos - Os jainas que não são monges devem observar oito regras de comportamento e devem tomar doze votos. As oitos regras de comportamento variam, mas em geral incluem não comer durante a noite, não comer carne, não beber vinho e não comer certos vegetais nos quais se acredita que vivem determinados seres. Os doze votos podem ser divididos em três classes:

1) Anuvratas - são os cinco votos principais: abster-se de actos violentos, não mentir, não roubar, não cobiçar o parceiro de outra pessoa e limitar as possessões pessoais;

2) Gunavratas - são três votos que reforçam os cincos votos principais: restringir as atividades pessoais a uma área concreta ('digvrata'), restringir práticas que proporcionam prazer ('bhogopabhogavrata'), evitar atos que causem sofrimento ('anarthadandavrata');

3) Siksavratas - são quatro votos de disciplina espiritual: meditar, limitar determinadas atividades a certos momentos, adotar a vida de um monge por um dia, fazer donativos aos monges e/ou aos pobres.


Formas de culto

Gomateswara

Uma das principais formas de culto dos jainas leigos é prestar homenagem às estátuas dos Tirthankaras. Os jainas lavam as estátuas e dedicam-lhes oferendas, como mel, flores, arroz, etc. Alguns grupos jainas, como os "sthanakavasis" e os "terapanthis", são contra o culto de imagens. As estátuas podem ser adoradas nos templos ou então em pequenos santuários existentes nas casas. São representadas em posição de meditação, sentadas ou em pé.

Não é possível estabelecer qualquer forma de contato com os Tirthankaras através desta forma de culto, uma vez que estes, tendo alcançado a libertação, ficam fora do contato humano. Contudo, durante a Idade Média cada Tirthankara foi associado a uma deusa protectora, em relação às quais se desenvolveram formas particulares de devoção. As deusas mais importantes são "Ambika" (associada ao 22º Tirthankara, Arishtanemi), "Padmavati" (associada a Parshva), "Lakshmi" e "Sarasvati".

As orações jainas fazem referência aos grandes atos dos Tirthankaras e aos ensinamentos do Mahavira, sendo ditas num antigo dialeto do Bihar, o "ardha magadhi". A principal oração é o "Namaskara Sutra", através do qual o jaina presta homenagem às qualidades dos cinco grandes seres do jainismo. O ato de fazer doações para a construção de templos é também considerado uma forma de culto, assim como a prática de peregrinações.


Festivais

# Mahavira Jayanti - decorre em Março ou Abril e celebra a data do nascimento do Mahavira. Neste dia estátuas do Mahavira são levadas em procissões pelas ruas e os jainas reúnem-se nos templos para ouvir a leitura dos seus ensinamentos.

# Paryushana: durante o mês de Bhadrapada (Agosto-Setembro) os membros do ramo Svetambara do jainismo celebram um dos seus festivais mais importantes, Paryushana. Este festival está dedicado ao perdão e consiste na prática do jejum durante oito dias. No último dia do festival (Samvatsari) os jainas pedem perdão uns aos outros por ofensas que possam ter causado; aqueles que conseguiram jejuar durante os oito dias seguidos são levados para os templos em procissão. O festival equivalente na tradição Digambara denomina-se

#Dashalakshanaparvan, onde além da prática do jejum, é lido nos templos um importante texto, o Tattvartha-sutra.

#Divali (Festa das Luzes) - celebração comum a toda a Índia, é para os jainas a comemoração da altura em que o Mahavira deu os seus últimos ensinamentos e alcançou a libertação. Ocorre no mês de Kaartika, que corresponde no calendário gregoriano a Outubro-Novembro.

#Kartik Purnima - ocorre no dia de lua cheia do mês de Kaartika. Após terem permanecido numa determinada localidade durante os meses da monção, os monges e monjas jainas regressam à vida errante, sendo por vezes acompanhados por leigos no percurso que fazem para outro local. Neste dia muitos jainas realizam a peregrinação aos templos de Palitana, no estado indiano do Gujarate.

#Mastakabhisheka - Cada doze anos os jainas (principalmente os do ramo Digambara) reúnem-se no santuário de Shravana Belgola no estado de Karnataka, onde se encontra uma estátua de dezassete metros de Bahubali, que é alvo de libações com água, mel, leite, flores, preparados de ervas e especiarias.


Fontes:
Profº Vinay Lal;
Wikipedia revisado;
Syami Krishnapriyananda Saraswati (Sociedade Internacional Gita do Brasil).


Os Profetas - conclusão

Da semente esmagada brota a nova Vida


Como estavam junto aos rios da Babilônia, alguns dos exilados inevitavelmente achavam que não podiam praticar sua religião fora da Terra Prometida. Os deuses pagãos sempre tinham sido territoriais, e para alguns parecia impossível entoar cânticos a Javé num país estrangeiro. Um novo profeta, porém, pregava a calma. Nada sabemos dele, e isso pode ser significativo, porque seus oráculos e salmos não dão sinal de uma luta pessoal, como as travadas pelos sus antecessores. Como suas obras foram depois acrescentadas aos oráculos de Isaías, ele é em geral chamado de o “Segundo Isaías”. No exílio, alguns dos judeus teriam se passado para a adoração dos antigos deuses da Babilônia, mas outros foram levados a uma nova consciência religiosa.

O Templo de Javé estava em ruínas; haviam sido destruídos os velhos santuários em Beth-El e Hebron. Na Babilônia, os judeus não podiam tomar parte em liturgias que haviam sido fudamentais para sua vida religiosa na pátria-mãe. Agora só tinham Javé. O Segundo Isaías deu mais esse passo e declarou que Javé não era só o maior dos deuses. Ele era o Único Deus.

O Primeiro Isaías fizera da História um aviso divino; após a catástrofe, em seu Livro de Consolação, o Segundo Isaías traz nova esperança para o futuro. Se Javé já resgatara Israel uma vez, então podia fazê-lo de novo. Ele planejava as questões da História; a seus olhos, todos os gentios (estrangeiros) não passavam de uma gota d’água num balde. O segundo Isaías imaginava as velhas divindades da Babilônia sendo amontoadas numa carroça e afastando-se aos trancos na direção do poente. Acabara o tempo deles: “Porventura não sou eu Javé?” perguntam repetidas vezes seus escritos, “e não há outro Deus senão eu”.

“E que antes de mim nenhum deus se formou,
e depois de mim nenhum haverá.
Eu, eu sou Javé,
e fora de mim não há Salvador.”
- Isaías, 43:10-12

Este Segundo Isaías não perdeu tempo denuciando os deuses dos goym, que, desde a catástrofe, podiam estar sendo vistos como vitoriosos. Calmamente assumiu que Javé – não Marduk nem Baal – realizara os grandes feitos míticos que haviam criado o mundo. Pela primeira vez, os israelitas interessavam-se a sério pelo papel de Javé na criação, talvez por causa do renovado contato com os mitos cosmológicos da Babilônia. Não tentavam, por certo, uma versão científica das origens físicas do Universo, mas buscavam encontrar conforto no duro mundo do presente. Se o seu Deus derrotara os monstros do caos nos tempos primordiais, seria simples redimir os israelitas exilados. Vendo a semelhança entre o mito do Êxodo e as narrativas pagãs da vitória sobre o caos aquático no começo dos tempos, o Segundo Isaías exortou seu povo a esperar com confiança uma nova demonstração da força divina. Aqui, por exemplo, ele se refere à vitória de Baal sobre Lotan, o monstro marinho da mitologia da criação cananéia, que também se chamava Rahab, o Crocodilo (tannïn) e o Abismo (tehõn):

"Despertai, despertai! Vesti-vos de força.
Braço de Javé,
despertai, como antes,
em tempos de gerações há muito passadas.
Não dividistes Rahab em dois,
e varaste o Dragão (tannïn)?
Não secaste o mar,
as águas do grande Abismo (tehõn)
para fazer do leito do mar uma estrada
por onde os redimidos passassem?”
- Isaías, 51:9-10

Javé absorvera afinal seus “rivais” na imaginação religiosa de Israel. No exílio, a atração do paganismo finalmente perdera sua força, e nascera a religião do judaísmo. Numa época em que se poderia, razoavelmente, esperar que o culto de Javé perecesse, ele se tornou o meio que possibilitava às pessoas encontrar esperança em circunstâncias impossíveis. Javé, portanto, tornara-se o Único Deus.

Não houve tentativa de justificar filosoficamente essas mudanças. Como sempre, a nova teologia vencera não porque pudesse ser racionalmente demonstrada, mas porque era eficaz na prevenção ao desespero e inspirava esperança. Deslocados e afastados como estavam, os judeus não mais achavam estranha e perturbadora a descontinuidade do culto de Javé. Esta, na realidade, devia falar profundamente à condição deles. Contudo, o que permanece intrigante é que continuva não havendo nada de "aconchegante" na imagem de Deus do Segundo Isaías. Ela continuava, como sempre esteve, fora do alcance da mente humana:

"Porque Meus Pensamentos não são os vossos pensamentos,
mem os vossos caminhos são os Meus Caminhos.
Porque, assim como os Céus são mais altos que a Terra,
assim os Meus Caminhos mais altos que os vossos caminhos,
e os Meus Pensamentos mais altos que os Vossos Pensamentos."
- Isaías, 55:8-9

A realidade de Deus está além do alcance das palavras e conceitos. Tampouco iria Javé fazer sempre o que seu povo esperava. Num trecho inexplicável, de particular pungência hoje, o profeta aspira por um tempo em que Egito e Assíria também se tornassem o povo de Javé, juntamente com Israel. Javé diria:

“Bendito seja o povo do Egito e Assíria, a obra das Minhas Mãos, e Israel a Minha herança.” - Isaías, 19:24,25

A idéia de "O Senhor dos Exércitos" de Israel tornara-se o Símbolo de uma Realidade Transcendente que fazia as tacanhas interpretações da eleição do Israel como único povo de Deus parecerem mesquinhas e inadequadas. Mas as concepções de Deus do povo judeu permaneceram, como sempre foram, interpretações fiéis do que eles compreendiam da Verdade última, independentes do que gostariam de acreditar. Por mais que aquilo que entendessem da Vontade de Deus contrariasse suas expectativas e anseios (Jonas chegou a tentar fugir, literalmente), os profetas judaicos nunca renegaram a sua missão. De todas as religiões da antiguidade, a doutrina de Israel era a única que não aludia a algum "deus-joguete" em mãos humanas, passível de ser manipulado mediante sacrifícios e rituais. Este Deus não era moldável, mas moldava seus devotos: exigia justiça, serviço em prol dos sofredores e Amor incondicional. Se hoje esses princípios nos parecem comuns, é porque geralmente não conhecemos e tendemos a não levar em consideração o contexto histórico em que surgiram: uma Era de dureza e crueldade absolutas, em que apenas a força garantia conquistas, e as relações humanas eram puramente interesseiras. Os elevados ideais trazidos pelos profetas (os mesmos ideais que as sociedades modernas perseguem até hoje), surgiram na infância da humanidade, quando "religião" era sinônimo de sangue derramado, orgias sexuais e a adoração dos animais e dos elementos.

Os demais povos da região do "Centro da Terra" da Antiguidade nunca deixaram de se impressionar com as gritantes diferenças entre as concepções religiosas dos israelitas e as suas próprias. Quanto a nós, provavelmente nunca entenderemos a origem dos ideais que levaram os descendentes de Abraão a mudar, para sempre, o "Espírito da Terra".



Fontes e bibliografia:
Profº Shigeyuki Nakanose;
Profª Enilda de Paula Pedro;
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong.




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Guia prático do buscador

“Os encontros, descobertas e bençãos, no Caminho, se dão ‘sem espalhafato’. Quase tudo acontece naturalmente, normalmente, fluindo no cotidiano do dia-a-dia, simplesmente, sem a ocorrência de prodígios apoteóticos ou sinais de falsa grandiosidade.”


Vou falar um pouco sobre esse princípio, e sinto que de uma certa forma estou falando também comigo mesmo, como sempre acontece quanto trato do meu "guia prático do buscador".

Acontece que o buscador que inicia sua jornada corre o risco de cair em diversas ciladas. Ele pode se deslumbrar com a admiração dos amigos, por causa dos conhecimantos que está adquirindo, com certas capacidades intuitivas que pode adquirir ao se dedicar a essa busca ou qualquer outra coisa desse tipo.

Quando o caminhante começa a ler sobre espiritualidade, conhecer as histórias dos “grandes mestres” e tomar conhecimento das muitas tradições, algumas místicas, antes de se aprofundar de fato em qualquer uma delas, tende a se assoberbar. Começa a se achar especial. E aí fica esperando que aconteça na sua vida algo prodigioso, maravilhoso, algum fenômeno incomum, uma comprovação de que ele está no caminho certo, de maneira inequívoca. Espera que Deus (ou o que ele entende por 'Deus') envie 'anjos de luz' para saudá-lo, para confirmar-lhe que é um “escolhido”.


Mas Deus parece ter uma maneira peculiar de nos confirmar a fé. Ele se mostra sutilmente, naqueles detalhes a que, no maior das vezes, nem prestamos atenção. Sua Glória se revela tanto num sorriso de gratidão, de Amor gratuito, quanto nos grandes fenômenos inexplicáveis. Isso não quer dizer que tenhamos que desprezar os grandes Sinais. Eles têm um desígnio, são necessários para cumprir um propósito específico: muitas vidas são renovadas e consciências despertam pelo seu intermédio. Mas a Verdade não se resume ao maravilhoso. A verdade está também no que parece trivial, a Maravilha da vida está naquilo que tantas vezes desprezamos.

Muitos esperam uma confirmação maravilhosa, um Sinal dos Céus, um contato divino. Acham-se muito importantes, meio que sem perceber começam a crer que são mais especiais ou mais importantes que os outros. Mas tudo que Deus espera é que cumpramos a nossa missão específica nessa Terra. E por favor, não entendam por “missão” algo grandioso, mágico, tremendo... A sua missão pode ser apenas viver bem a sua vida, levando sempre que puder palavras de consolo a quem está desesperado, fazendo companhia aos velhinhos, espalhando a esperança, sendo, na medida das suas capacidades, uma luz no meio deste mundo tão mergulhado em trevas... Vou contar uma história para ilustrar o que estou tentando dizer:

Conheço uma moça (que não quer o seu nome revelado) que há pouco tempo resolveu participar como voluntária na Pastoral Carcerária da Igreja católica. Ela andava depressiva há meses, achando sua vida sem sentido e um tanto angustiada por conta de certos problemas familiares que vinha enfrentando. Uma pessoa negativa, chorosa e desagradável, do tipo que ninguém gosta de encontrar na rua, porque logo que você pergunta “como vai” ela logo começa a lamentar suas dores e tragédias pessoais. Uma colega do seu trabalho sempre a chamava para irem juntas visitar os detentos na carceragem, que é a missão da referida pastoral. - Levar esperança aos que já não têm, ou têm muito pouca; dar a essas pessoas um motivo pra viver, em cumprimento ao apelo do Mestre: "...estava na prisão e me visitastes. (...) sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes" (Matheus, 25:34-40). Mas ela nunca se resolvia a participar de fato, tinha medo e achava que aquilo não era pra ela. Na verdade, segundo me disse, não se sentia capaz de ajudar a quem quer que fosse. Andava por demais ocupada com seus próprios problemas; não tinha tempo para despender com auxílio filantrópico.

Mas quando seus dramas pessoais atingiram um nível quase insuportável, ela resolveu, mais para fugir do ambiente familiar, saturado de energia negativa, do que por qualquer outro motivo, participar da tal pastoral com a amiga. Na verdade, aquilo lhe parecia uma oportunidade de esquecer, ao menos por algum tempo, dos seus problemas e se distrair um pouco.


***


Hoje, um ano e tanto depois, ela olha para trás e se sente grata por ter um dia tomado aquela decisão. Segundo diz, os seus problemas parecem ter se resolvido “sozinhos” (talvez ela é que tenha começado a encará-los com uma outra disposição), e ela encontrou dentro de si uma fé que nunca imaginou que ali houvesse. É uma pessoa radiante, cheia de risos e brincadeiras, e cada vez que a encontro, é como recarregar minhas “baterias”. Uma pessoa negativa, depressiva e amargurada se transformou numa alma alegre e realizada, que parece emanar felicidade por onde passa. Ela passou, maravilhosamente, da condição do “vampiro psíquico” clássico para uma doadora de energia positiva inesgotável. Tudo porque começou a praticar a sua fé. Antes, apenas acreditava que fazer o bem era bom. Agora ela tem certeza, porque vive essa realidade no seu dia-a-dia. Passou a praticar aquilo que há muito tempo já sabia ser o certo. E a verdadeira "Mágica" aconteceu.

Encontrá-la agora é um prazer, uma felicidade, um ponto alto no dia de qualquer pessoa. Um amigo a descreveu, dia desses, como alguém que “parece viver no Céu, estando ainda na Terra”. Quanto a mim, acho que o Céu já está aqui, agora, em todos os lugares. Só é preciso que o encontremos, dentro de nós; que saibamos como nos “conectar” a ele. É o próprio Cristo quem diz:


“O reino de DEUS não vem com aparência exterior; não dirão: 'Ei-lo aqui!' ou 'Ei-lo ali!' pois o Reino de DEUS está dentro de vós.” – Jesus Cristo (Lucas, 17:21).


Só é preciso encontrá-lo! Esta é a verdadeira Busca, a verdadeira jornada. A jornada ao interior de si mesmo. Os que me enviam emails pedindo orientações (tadinho de mim!), aí vai a maior dica que eu posso dar: até onde eu sei, a melhor maneira de realizar a sua missão e encontrar o Caminho é servindo ao próximo. E não diga que não tem oportunidades, porque elas não faltam, estão em toda parte. Até aqui mesmo, neste blog, agora!




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Os Profetas #5

Visões - possíveis significações e mistérios

Ainda não havia nada muito parecido com o que os hindus chamavam de "Atman" (do sânscrito 'sopro de vida', o princípio divino imediato) no culto de Javé. Deus era vivenciado como uma Realidade externa, que transcendia completamente a matéria. Mas era preciso que essa idéia de Deus fosse humanizada de algum modo, para que parecesse menos distante. A situação política deteriorava-se: os babilônios invadiram Judá e levaram o rei e a primeira leva de israelitas para o exílio; por fim, a própria Jerusalém foi sitiada. À medida em que pioravam as condições, Jeremias continuava a tradição de atribuir emoções humanas a Javé; ele descreve Deus a “lamentar” seu próprio desabrigo, aflição e desolação; descreve Javé sentindo-se tão desorientado, ofendido e abandonado quanto seu povo. Em seus escritos, Deus estava tão paralisado quanto o próprio Jeremias.

A raiva que Jeremias sentia tomar conta de seu coração, ele atribui a Javé. Quando os profetas pensavam no homem, logo pensavam também em Deus, cuja presença, acreditavam, dependia de certa forma do homem para se manifestar no mundo.

Enquanto o inimigo estava às portas, Jeremias esbravejou com seu povo em nome de Deus, embora, diante de Deus, implorasse por eles. Assim que Jerusalém foi conquistada pelos babilônios em 587 aC, os oráculos de Javé se tornaram mais consoladores: prometia salvar seu povo, agora que tinham aprendido a lição, e trazê-lo de volta pra casa. As autoridades babilônias permitiam a Jeremias ficar em Judá, e para manifestar sua confiança no futuro ele comprou algumas propriedades: “Porque assim diz Javé Sabaoth (o ‘Senhor dos Exércitos’): ‘Ainda se comprarão casas, e campos, e vinhas nesta terra’” (Jeremias, 32:15).

Mas algumas pessoas em Israel culpavam Deus pela catástrofe. Durante uma visita ao Egito, Jeremias encontrou um grupo de judeus que fugira para a área do Delta e não queria saber de Javé. As mulheres deles alegavam que tudo estava ótimo enquanto haviam realizado os ritos tradicionais em honra de Ishtar, Rainha do Céu, mas assim que os tinham interrompido, estimulados por tipos como Jeremias, vieram a tragédia, a derrota e a miséria. Mas essa situação pareceu aprofundar a intuição de Jeremias. Após a queda de Jerusalém e a destruição do Templo, ele passou a compreender que tais aspectos externos da religião não passavam de símbolos de um estado interno, subjetivo. No futuro, a Aliança com Israel seria bastante diferente: “Porei a minha Lei no seu interior, e a escreverei em seu coração” (Jeremias, 31:33).

Curioso perceber que essa divisão entre duas linhas distintas do pensamento religioso permanece até os nossos dias: entre cristãos, persistem as disputas entre um grupo crescente que acredita que se aproximar de Deus só vale a pena se Ele os abençoar com todas as graças e bênçãos materiais possíveis (ontem era a colheita e a saúde dos rebanhos – hoje é uma promoção no emprego ou o sucesso nos negócios) e um outro grande grupo que entende essa Busca mais como entrega espiritual e aprendizado do que uma procura por um retorno material imediato. A meu ver, o que mais faltou até hoje na história do cristianismo, foi a noção do "Caminho do Meio" dos orientais. - Enquanto praticamente todos os maiores santos católicos escolheram uma vida de puro sofrimento em prol dos pobres e desfavorecidos, optando por um Caminho da Cruz estreitíssimo que só seria possível de ser seguido por poucos, a maioria dos "novos cristãos" (pentecostais e neo-pentecostais) persegue bençãos materiais abundantes e sucesso profissional, numa espécie de “barganha com Deus”, deixando de lado o sentido profundo e sublime da religião: o Amor ao próximo. A importância do Caminho do Meio continua distante e incompreendida, embora já tivesse sido vislumbrada há séculos por um dos maiores santos e pensadores cristãos da História, Agostinho de Hipona, que compreendeu que a melhor regra de disciplina é conservar a justa medida, longe dos extremos.



Tentativas de ilustrar as visões de Ezequiel - Rodas e criaturas híbridas


Os judeus que foram para o exílio não tiveram de assimilar-se, como ocorrera com as dez tribos setentrionais em 722 aC. Viviam em duas comunidades: uma na própria Babilônia e a outra nas margens de um canal que partia do Eufrates chamado Chebar, numa área que chamaram de “Tel Aviv” (‘Monte da Primavera’). Entre a primeira leva de exilados deportados em 597 aC havia um sacerdote chamado Ezequiel. Durante cerca de cinco anos ele permaneceu sozinho em casa sem falar com ninguém. Depois teve uma dilacerante visão do Divino, que literalmente o derrubou. É importante descrever sua primeira visão com um mínimo de detalhes, porque – séculos depois – se tornaria muito importante para os misticismo universal:

Ezequiel viu uma nuvem de fogo, cruzada por raios. Um vento forte soprava do norte. No meio dessa tempestuosa escuridão, ele pareceu ver – ele tem o cuidado de enfatizar a natureza provisória das imagens – uma grande Carruagem puxada por quatro fortes bestas. Pareciam os karibu (seres híbridos meio fera meio homem) esculpidos nos portões do palácio em Babilônia, mas Ezequiel torna quase impossível visualizá-las: cada uma tinha quatro cabeças – com o rosto de um homem, um leão, um touro e uma águia. Cada uma das rodas rolava numa direção diferente das outras. A imagística parece simplesmente servir para enfatizar o estranho impacto das visões que ele tentava articular. O bater das asas das criaturas era ensurdecedor, “soava como água correndo, como a voz de Shaddai, uma voz como uma tempestade, como o barulho de um acampamento”. Na Carruagem havia algo que “parecia ser um trono”, e sentado com grande pompa viu um ”ser que parecia um homem”: brilhava como bronze, e de seus membros se irradiavam raios. Era também “algo que parecia a ‘Glória’ (‘Kavod’) de Javé”. Ezequiel prostrou-se imediatamente no chão e ouviu uma voz que lhe falava...

A voz chamou-o de “filho do homem”, como que para acentuar a distância que naquele momento havia entre a humanidade e o Reino Divino. Também aqui a visão de Javé seria seguida por um plano prático de ação, Ezequiel devia disseminar a Palavra de Deus entre os filhos rebeldes de Israel. O tom não humano da Mensagem Divina era transmitido por uma imagem fortíssima: uma mão estendida para o profeta, agarrando um rolo, coberto de lamentos e gemidos. Ezequiel recebeu a ordem de comer o rolo, para ingerir a Palavra e fazê-la parte de si. Como de hábito, o Misterium era Fascinans, além de Terrible: o rolo revelou ser doce como mel. Por fim, disse Ezequiel: “O Espírito me levantou, e me levou; e eu me fui mui triste, pelo ardor do meu espírito. Porém, a Mão de Javé era forte sobre mim” (Ezequiel, 3:14-15). Chegou a Tel Aviv e ali quedou-se ”como estonteado” por toda uma semana.



Nos tempos modernos não faltaram interpretações ufológicas para as visões de Ezequiel



A estranha carreira de Ezequiel acentua como o Mundo Divino se tornara alheio e estranho para a humanidade. Ele próprio foi obrigado a tornar-se um sinal dessa estranheza. Com freqüência, lhe era ordenado que praticasse "mímicas" estranhas, que o separavam dos seres humanos normais. Essas mímicas ou interpretações parecem também se destinar a demonstrar os apuros de Israel durante essa crise, e, num nível mais profundo, mostravam que o próprio Israel estava se tornando um estranho num mundo pagão.

A visão pagã, por outro lado, celebrava a continuidade que se acreditavam existir entre os deuses e o mundo físico. Ezequiel não encontrou nada de consolador nessas velhas religiões, que ele chamava de impuras. Numa de suas visões, foi levado a uma torre dourada do Templo de Jerusalém. Para seu horror, viu que, mesmo encontrando-se à beira da destruição, o povo de Judá ainda adorava deuses pagãos no Templo de Javé. O próprio Templo se tornara um lugar como que de pesadelo: as palavras nas suas salas estavam pintadas com serpentes enroscadas e animais repulsivos; os sacerdotes realizavam ritos ”imundos” sob uma luz sórdida, como se dedicados ao sexo escuso. Em outra câmara, mulheres choravam pelo ‘deus sofredor’ Tammuz. Outros adoravam o sol, de costas para o santuário. “Viste, porventura, filho do homem, o que os anciãos da casa de Israel fazem nas trevas, cada um em sua câmara pintada?” (Ezequiel, 8:12). Por fim, o profeta viu a estranha Carruagem que lhe surgira na primeira visão voar para longe, levando consigo a Glória de Javé.

Contudo, Javé não era uma divindade totalmente distante. Nos derradeiros dias antes da destruição de Jerusalém, Ezequiel descreve-o fulminando o povo de Israel, numa tentativa de chamar sua atenção a reconhecê-lo. Israel só podia culpar-se a si mesmo pela catástrofe iminente. Javé encorajava israelitas como Ezequiel a ver que os golpes da História não eram aleatórios nem arbitrários, mas tinham lógica e justiça mais profundas, que os homens não podiam compreender.


Fontes e bibliografia:
Profº Dirceu Fernando Belotto;
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong.

Os Profetas #4

Abaixo a idolatria!

O o maior problema da idolatria obviamente está no fato de as pessoas confundirem uma imagem, seja pintura ou escultura, construída com amoroso cuidado, com a Realidade inefável a que ela se refere. Mais tarde, na história da idéia de Deus, cristãos e muçulmanos trabalharam essa noção primitiva da Realidade Absoluta e chegaram a uma concepção mais próxima das visões hindu e budista. Alguns, porém, nunca conseguiram dar esse passo completamente, achando que sua concepção de Deus seria idêntica ao Mistério Último.

Os perigos de uma religiosidade idólatra tornaram-se claros por volta de 622 aC, no reinado do rei Josias de Judá. Ele estava ansioso para reverter as políticas sincretistas dos seus antecessores, os reis Manassés (687-42 aC) e Amon (642-40 aC), que haviam estimulado o povo a adorar os deuses de Canaã juntamente com Javé. Na verdade, Manassés pôs uma estátua de Asherah no Templo, onde havia um florescente culto da fertilidade. Muitos israelitas eram devotos de Asherah, e alguns achavam que ela era “esposa” de Javé. Mas Josias estava determinado a promover o culto puro a Javé, e assim decidiu fazer extensos reparos no Templo.

Nessa mesma época, o sumo-sacerdote Ilquias descobriu um antigo manuscrito: uma versão do último sermão de Moisés aos filhos de Israel. Ele o deu ao secretário de Josias, Shapan, que o leu em voz alta na presença do rei. Ao ouvi-lo, o velho rei rasgou as vestes, horrorizado: não admirava que Javé estivesse tão furioso com seus ancestrais! Eles haviam deixado de obedecer, completamente, às instruções dadas a Moisés:

Em seu último sermão, Moisés é ordenado a dar uma nova centralidade à Aliança. Javé marcara seu povo, distinguindo-o de todas as outras nações, não devido a algum mérito, mas por seu grande Amor. Em troca, exigia completa lealdade e uma feroz rejeição a todos os outros deuses. É quase certo que o “Livro da Lei” descoberto por Ilquias era o núcleo do texto que hoje conhecemos como Deuteronômio. O núcleo do Deuteronômio inclui a declaração que mais tarde se tornaria a profissão de fé judaica:

“Ouve (shemá) Israel! Javé nosso Elohim é o único (ehad) Elohim! Amarás pois Javé com todo teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu poder. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração.” - Deuteronômio, 6:4-6

Quando recitam hoje o “Shemá”, os judeus dão-lhe uma interpretação monoteísta: nosso D'us é único. Mas o deuteronomista não atingira ainda essa perspectiva. “Javé ehad” não queria dizer, necessariamente, que só havia um Deus, mas que a um só era permitido adorar. Os outros deuses continuavam sendo um ameaça: seus cultos eram sedutores e podiam afastar de Javé os israelitas, que era um Deus “ciumento”. Se obedecessem as Leis de Javé, ele os abençoaria e lhes traria prosperidade, mas se o desertassem, as conseqüências seriam devastadoras.

“E desarraigados sereis da terra à qual tu passas a possuir. E Javé vos espalhará entre todos os povos, desde uma extremidade da Terra até a outra extremidade(...) E tua vida estará como em suspenso diante de ti (...) Pela manhã dirás: Ah, quem me dera ver a noite! E à tarde dirás: Ah, quem me dera ver a manhã! Pelo pasmo de teu coração e pelo que verás com os teus olhos.” - Deuteronômio, 28:64-68

Quando ouviram essas palavras no fim do século VII aC, o rei Josias e seus últimos súditos estavam para enfrentar uma nova ameaça política. Tinham conseguido manter os assírios a distância e assim evitar o destino das dez tribos do Norte, que haviam sofrido os castigos descritos por Moisés. Mas, em 600 aC, o rei Nabucodonosor, da Babilônia, esmagaria os assírios e começaria a erguer seu próprio império.

Nessa atmosfera de extrema insegurança. As políticas do deuteronomista parecem ter causado grande impacto. Longe de obedecer às ordens divinas, os dois últimos reis de Israel haviam deliberadamente cortejado a tragédia. Josias iniciou de imediato uma reforma, agindo com zelo exemplar. Todas as imagens, ídolos e símbolos de fertilidade foram retirados do Templo e queimados. Josias também derrubou a grande efígie de Asherah e destruiu os aposentos de prostitutas sagradas do Templo, que ali teciam suas vestes para ela. Todos os antigos santuários no país, que haviam sido enclaves do paganismo, foram destruídos. Daí em diante, os sacerdotes só tinham permissão de fazer sacrifícios a Javé no purificado Templo de Jerusalém. O cronista, que registrou as reformas de Josias quase trezentos anos depois, dá uma eloqüente descrição desse zelo:

“E derrubaram perante ele (Josias) os altares de Baalim; e cortou as imagens do Sol, que estavam acima deles; e os bosques e as imagens de escultura e de fundição quebrou e reduziu a pó, e os espargiu sobre as sepulturas dos que lhes tinham sido sacrificados. E os ossos dos sacerdotes queimou sobre seus altares; e purificou a Judá e a Jerusalém. O mesmo fez nas cidades de Manassés e de Efraim e de Simeão, e ainda até Naftali; em seus altares ao redor, assolados. E tendo derrubado os altares e os bosques e as imagens de escultura, até reduzi-los a pó, e tendo cortado todas as imagens do sol em toda a terra de Israel, então voltou para Jerusalém.” - II Crônicas, 34:5-7

Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém - Rembrandt

Os reformadores reescreveram a história de Israel. Os livros históricos de Josias, Samuel e Reis foram revisados segundo a nova ideologia, e depois os editores do Pentateuco acrescentaram trechos que davam uma interpretação deuteronomista do mito do Êxodo às demais narrativas, mais antigas.

Devemos observar que nem todos os israelitas endossavam o deuteronomismo nos anos que levaram à destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, em 587 aC, e à deportação dos judeus para a Babilônia. Em 604 aC, ano da ascensão de Nabucodonosor, o profeta Jeremias reviveu a perspectiva iconoclasta de Isaías, que virou a doutrina triunfalista e a crença de que os judeus eram o "povo eleito" de cabeça pra baixo: segundo ele, Deus usava a Babilônia como seu instrumento para punir Israel, e agora era a vez de Israel ser “posto em espanto”. Iriam para o exílio por setenta anos. Quando o rei Joaquim ouviu esse oráculo, arrancou o rolo da mão do escriba, rasgou-o em pedaços e o jogou no fogo. Temendo por sua vida, Jeremias foi obrigado a esconder-se.

A carreira de Jeremias mostra os imensos sofrimentos e esforço, implicados nessa concepção mais desafiadora de Deus. Ele detesta ser profeta, e estava profundamente angustiado por ter de condenar o povo que amava. Não era um agitador por natureza, mas um homem de coração manso. Quando lhe veio o Chamado, clamou em protesto: “Ah, Senhor, vede: eu não sei falar; sou uma criança!”. E o Senhor “estendeu a mão” e tocou os lábios dele, colocando-lhe na boca Suas Palavras. A mensagem que ele tinha de articular era ambígua e contraditória: Para arrancares, e para derrubares, e para destruíres, e para arruinares. E também para edificares e para plantares” (Jeremias, 1:6-10). Estes extremos, inconciliáveis entre si, provocavam agonia e tensão em Jeremias. Ele sentia Deus como uma dor que lhe convulsionava os membros, partia o coração e o fazia cambalear como um bêbado. A experiência profética do mysterium terrible et fascinans (‘Mistério Terrível e Fascinante’) era ao mesmo tempo violência e sedução:

“Seduziste-me, oh Senhor, e seduzido fiquei;
mais forte foste que eu, e prevaleceste (...)
Então disse eu: Não me lembrarei dele,
E não falarei mais no seu Nome;
Mas foi no meu coração como fogo ardente,
Encerrado nos meus ossos;
E fiquei fatigado de sofrer,
E não pude”
- Jeremias, 20:7-9

Jeremias sentia-se puxado por Deus para duas direções diferentes, ao mesmo tempo: por um lado, ele sentia uma profunda atração para Javé, o que tinha toda a doce entrega de uma sedução, mas em outros momentos sentia-se devastado por uma força que o carregava contra a sua vontade.

Desde Amós, o profeta era um homem entregue a si mesmo. Ao contrário de outras áreas do mundo civilizado na época, o Oriente Médio não adotou uma ideologia religiosa de ampla união. O Deus dos profetas obrigava os israelitas a desligar-se da consciência repleta de mitos do Oriente Médio e seguir numa direção bastante diferente da tendência geral. Na agonia de Jeremias, podemos ver que imensa sensação de deslocamento estava envolvida nisso.

Até o deuteronomista, cuja imagem de Deus era menos ameaçadora, via um encontro com Javé como arrasador e abrasivo: na sua descrição, Moisés explica aos israelitas, apavorados pela perspectiva de contato direto com Javé, que Deus lhes enviará um profeta em cada geração, para ajudá-los a suportar a força do impacto divino.



Fontes e bibliografia:
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong.



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Os Profetas #3

Amor, e não sacrifício!

As antigas religiões cananéias ainda floresciam em Israel. No século X aC, o rei Jeroboão I estabelecera o culto de dois touros nos santuários de Dan E Beth-El. Duzentos anos depois, os israelitas ainda participavam de ritos de fertilidade e sexo ritual ali, como vemos nos oráculos do profeta Oséias, contemporâneo de Amós. Alguns israelitas pareciam pensar que Javé tinha uma esposa: arqueólogos desenterraram recentemente inscrições dedicadas "A Javé e sua Asherah". Oséia irritava-se particularmente com o fato de Israel estar violando os temos da Aliança ao adorar "outros deuses". Como todos os novos profetas, ele se preocupava com o sentido interior e real da Religião. Ele esreve a Palavra de Deus:

“Eu quero o Amor (hesed) e não o sacrifício; e o Conhecimento de DEUS (daath Elohim), e não holocaustos”.

Não se referia a um conhecimento teológico, como entendemos hoje: a palavra “daath” vem do verbo hebraico “yada”: conhecer, que tem conotações íntimas e pessoais. Na velha religião cananéia, Baal "casara-se" com a terra, e o povo comemorava esse feito com orgias rituais. Oséias lembrava ao povo que, desde a Aliança, Javé substituíra Baal e “desposara” o povo de Israel. Eles tinham de compreender que era Javé, e não Baal, o portador da verdadeira Vida, em todos os sentidos:

“E será naquele dia, diz Javé,
que ela me chamará: ‘Meu marido’;
e não me chamará mais: ‘Meu Baal’.
E da sua boca tirarei os nome de Baalim,
e os seus nomes não virão mais em memória.”


Especialmente interessante é notar que essa passagem vai além de expor o erro do povo em clamar por algum "outro deus": ela dá a entender que esse povo estava, mesmo sem saber, clamando pelo Único Deus, equivocadamente, na figura inadequada de "Baal": "...não me chamarás mais: 'Meu Baal...'" - ou seja, é como dizer "não me chamarás por um nome impróprio. Não deverás continuar a me ver e compreender sob essa forma inadequada. Eu não estou realmente aí - eu sou outro, estou em outro lugar".

Enquanto Amós atacava as injustiças sociais, Oséias cuidava da falta de sentido real e interior na religião israelita: o “conhecimento” de Deus a que se refere se relacionava a “hesed” dando a entender uma apropriação e um vínculo interiores que seriam o real sentido da religião e que eram mais importantes do que as observâncias exteriores.

Oséias nos dá uma espantosa visão do modo pelo qual os profetas estavam desenvolvendo sua concepção de Deus. Veremos que eles muitas vezes eram inspirados a tornar suas próprias vidas como complicadas “mímicas” para demonstrar a difícil situação de seu povo. No caso de Oséias, isso se dá de maneira chocante. - Ele é orientado a se casar com uma “prostituta” (‘esheth zeunnim’), porque o país se tornara “nada mais que uma prostituta abandonando seu Deus”. Mas “esheth zeunnim” quer dizer, literalmente, “uma esposa de prostituição”, talvez uma mulher de temperamento promíscuo ou uma prostituta “sagrada” a algum culto de fertilidade. Talvez mesmo uma atendente do culto de Baal.

Queda dos profetas de Baal - Gustave Doré

Oséias conhece Gomer, se apaixona e a desposa. O seu casamento seria um símbolo do relacionamento entre Deus e a infiel nação Israel. De fato, depois do casamento, Gomer se torna adúltera e se prostitui, até deixar sua casa e ser comprada por um amante.

A infidelidade de sua esposa foi para o profeta Oséias uma experiência dilacerante. Ele pôde intuir como Javé deveria “sentir-se” quando seu povo e desertava e se prostituía em busca de deuses como Baal. No princípio, Oséias foi tentado a denunciá-la e nada mais ter com ela. Na verdade a Lei estipulava que o homem devia divorciar-se de uma esposa infiel. Mas Oséias amava Gomer, e acabou indo atrás dela e comprando-a de volta de um novo amo. Viu seu desejo de reconquistar a amada, mesmo que ela não o merecesse, como um sinal de que Javé estava disposto a dar uma outra oportunidade a Israel.

Os profetas atribuíam seus próprios sentimentos e experiências humanos a Deus: Isaías, membro da família real, via Javé como um Rei. Amós atribuía sua empatia com os pobres sofredores a Deus. Oséias via o Senhor como um marido traído que continuava sentindo Amor e compaixão por sua esposa. Toda religião deve começar com um certo antropomorfismo (isto é, atribuir características humanas à Divindade). A idéia de um Deus completamente distante, como o Motor Imóvel de Aristóteles, não poderia inspirar uma busca espiritual. Enquanto não se torna um fim em si, essa projeção pode ser útil e até benéfica. Deve-se dizer que esse “retrato imaginativo” de Deus em termos humanos inspirou uma preocupação que não está presente no hinduísmo, por exemplo, nem em outras religiões transcendentes antigas. Os judeus seriam o primeiro povo do mundo antigo a estabelecer um sistema assistencial aos pobres e desfavorecidos, que causava admiração nos seus vizinhos pagãos.

Mas a vitória de Javé (ou da idéia de Deus dos judeus) foi arduamente conquistada. Envolveu tensão, violência e confronto, e sugere que a nova religião do Deus único não se consolidou com facilidade entre os israelitas. Esta idéia de Deus não parecia capaz de transcender as velhas divindades de maneira natural, pacífica. Elas tiveram que ser expulsas do imaginário popular à força. Assim, no Salmo 82, nós vemos Javé fazer uma jogada pela liderança da Assembléia Divina, que desempenhara papel importantíssimo nos antigos mitos babilônico e cananeu:

“Javé está no conselho de El;
julga no meio dos Deuses:

‘Até quando julgareis injustamente,
e aceitareis as pessoas dos ímpios (selah)!
Fazei justiça ao pobre e ao órfão,
Justificai o aflito e o necessitado,
Tirai-o das mãos dos ímpios!
Eles não conhecem nem entendem, andam em trevas,
todos os fundamentos da Terra vacilam.
Eu disse: Vós sois Deuses,
E todos vós filhos de El Elyon.
Todavia morrereis como homens,
E caireis como quaisquer dos príncipes.”

A idéia do Deus de Israel se levantava para confrontar o conselho sobre o qual presidia El desde tempos imemoriais. Os “outros deuses” eram acusados de não corresponderem ao desafio social da sua época. Nos velhos tempos, a consciência dos israelitas estivera disposta a aceitar aos demais deuses como diferentes concepções da manifestação divina, como "filhos de El Elyon” (‘Deus Altíssimo’) mas agora essas concepções obsoletas estavam condenadas a murchar como homens mortais. Não apenas o salmista descreve Javé condenando seus “companheiros” divinos à morte, mas, ao fazê-lo, assume a prerrogativa tradicional de El, que, aparentemente, ainda tinha defensores em Israel.

A compreensão dos antigos judeus caminhava, lenta e inexoravelmente, para uma noção mais abrangente, evoluída, transcendental e elevada do DEUS UNO.


Fontes e bibliografia:
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong;
EstudosdaBiblia.Net (Karl Hennecke / Dennis Allan, USA).


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Você conhece os Mandamentos?

No Antigo Testamento, Deus entrega os Dez Mandamentos a Moisés no Sinai para ajudar seu povo eleito a cumprir a Vontade divina.

O Dez Mandamentos são também chamados de 'O Decálogo', e significam "Dez Palavras" (Êxodo 34:28). Estas Palavras resumem a Lei, dada ao povo de Israel no contexto da Aliança, por meio de Moisés. Este, ao apresentar os Mandamentos do Amor a Deus (os quatro primeiros) e ao próximo (os outros seis), traça o Caminho para uma vida liberta da prisão do ego e da escravidão dos sentidos.

De acordo com o livro bíblico do Êxodo, Moisés conduziu os israelitas que haviam sido escravizados no Egito, atravessando o Mar Vermelho dirigindo-se ao Monte Horeb, na Península do Sinai. Ali, no sopé do Monte Sinai, Moisés ao receber as duas "Tábuas da Lei" contendo os Dez Mandamentos, estabeleceu solenemente um Pacto (ou Aliança) entre YHVH e povo de Israel.

De acordo com a Bíblia, os Mandamentos nas duas Tábuas foram escritos pelo próprio Deus, sendo que os demais foram ditados e escritos em pergaminhos por Moisés. Em hebraico (língua original dos Dez Mandamentos, também chamado 'Decálogo'), o número de letras dos Dez Mandamentos é equivalente a 613, o número total dos mandamentos da Torá.

Os versículos 2 a 17 são a divisão natural dos Dez Mandamentos. Flávio Josefo separa o versículo 3 como o primeiro Mandamento, os versículos 4 a 6 como o segundo, o versículo 7 como o terceiro Mandamento, os versículos 8 a 11 como o quarto (o mais longo), e nos versículos 12 a 17 estão do quinto ao décimo (um versículo para cada Mandamento - "Antigüidades Judaicas", Vol. 3, Cap. 5 ). Outros, inclusive Agostinho, consideravam os versículos 3 a 6 como 1 só Mandamento, mas dividiam o versículo 17 em dois mandamentos; o nono contra a cobiça da casa do próximo e o décimo contra cobiçar os seus pertences. A divisão de Agostinho foi adotada pelas igrejas cristãs.

Jesus interpretou a Lei da seguinte maneira: "Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo". Assim, Cristo dividiu a Lei conforme suas Tábuas em Amor a Deus, na Primeira Tábua (1º ao 4º), e o Amor ao próximo na Segunda Tábua (5º ao 10º). Estas palavras resumem a Lei, dada por Deus ao povo de Israel no contexto da Aliança, por meio de Moisés. Definitivamente, sob qualquer ponto de vista, todos os Mandamentos se resumem em dois: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Se você ama a Deus não transgredirá os quatro primeiros Mandamentos, e se ama o seu semelhante não transgredirá os Mandamentos seguintes.




Você conhece os Dez Mandamentos? São eles:


#1- "Eu sou YHVH, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito, da casa dos escravos. Não terás outros deuses em desafio a Mim" (o Deus de Abraão).

#2- "Não farás imagem esculpida (em hebraico 'péshel', que se refere aos 'ídolos pagãos'; não necessariamente uma proibição total e irrestrita a todo e qualquer tipo de 'imagem') nem semelhança alguma do que há em cima nos ceús, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra - não as adorarás, nem prestar-lhes-á culto (como se vê, não é permitido reproduzir imagens com a finalidade de adorá-las), por que eu, YHVH, teu Deus, sou Deus zeloso ('Deus que exige devoção exclusiva', em hebraico 'El Qan-Ná' e em grego 'Theos Zelotes'), e que puno o erro dos pais nos filhos até a terceira geração e sobre a quarta geração dos que me odeiam, mas que uso de benevolência para com até a milésima geração dos que me amam e que guardam os meus mandamentos."

#3- "Não tomarás o nome de YHVH, teu Deus, em vão (ou 'de modo fútil'), pois YHVH não considerará impune aquele que tomar Seu Nome em vão."

#4- "Lembra-te do dia do Sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o Sábado (em hebraico, shabbáth) de YHVH, teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o YHVH o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso YHVH abençoou o dia do Sábado, e o santificou."

#5- "Honra a teu pai e a tua mãe, a fim de que os teus dias se prolonguem sobre o solo que YHVH, teu Deus, te dá."

#6- "Não matarás (ou cometer homicídio, em hebraico 'lo tir ca-vit')."

#7- "Não cometerás adultério (em hebraico 'lo tin-af')."

#8- "Não furtarás."

#9- "Não levantarás falso testemunho contra teu próximo."

#10- "Não cobiçarás (em hebraico, lo thahh-módh) a casa do teu próximo, nem a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu touro, nem seu jumento, nem qualquer coisa que pertença ao teu próximo."


"Mestre, qual é o grande Mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro Mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois Mandamentos dependem toda a Lei e os profetas." - Mateus 22:37-40


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Os Profetas #2

O sentido da Religião

Enquanto a idéia de Deus de Moisés era triunfal, a de Isaías estava repleta de mágoa. A profecia, como chegou até nós, começa com um lamento ofensivo ao povo da Aliança: "O boi e o asno conhecem seus donos, mas Israel não conhece nada...”. Javé se mostrava absolutamente revoltado com os sacrifícios de animais no Templo, enojado pela gordura dos bezerros, sangue dos touros e cabras e a fumaça que subia dos holocaustos. Não suportava as cerimônias de ano novo e as peregrinações deles. Isso teria chocado a platéia de Isaías: no Oriente Médio, essas celebrações cultuais faziam parte da essência da religião. Os deuses pagãos dependiam das cerimônias para renovar suas energias; o prestígio deles dependia em parte da magnificência de seus templos. Mas agora, Javé assumia de uma vez a sua condição de Deus UNO, revelando que, na verdade, essas coisas eram absolutamente sem sentido. Como outros sábios e filósofos no mundo civilizado (o Oikumene), Isaías sentia que a observância exterior não bastava. Os israelitas deveriam descobrir o significado interior de sua religião. Javé queria mais compaixão do que sacrifício:

“Até quando multiplicais a oração
não ouço,

porque vossas mãos estão cheias de sangue.
Lavai-vos, purificai-vos,

tirai a maldade de vossos atos de diante dos Meus Olhos:
cessai de fazer o mal;

Aprendei a fazer o bem;
procurai a justiça,
ajudai o opresso,
fazei justiça ao órfão,
tratai da causa das viúvas.”


Os profetas haviam descoberto o predominante dever da compaixão, que se tornaria a marca distintiva de todas as grandes religiões formadas na Era Axial. Todas as novas ideologias que, nesse período, se desenvolviam no mundo civilizado insistiam em que o "teste de autenticidade" da religião era que a experiência religiosa se integrasse a vida diária. Não bastava mais limitar a observância do Templo ao mundo extratemporal do mito. Após a iluminação, o homem ou mulher deve voltar ao cotidiano e praticar a misericórdia para com todos os seres vivos.

O ideal social dos profetas estava implícito no culto de Javé desde o Sinai: a história do Êxodo acentuava que Deus estava do lado dos fracos e oprimidos. A diferença era que agora os próprios israelitas eram castigados como opressores. O que mais impressiona na história de Isaías, é que na época da sua visão profética, dois profetas já pregavam a mesma mensagem(!) no caótico Reino do Norte! Como explicar? Se você pretende estudar religião, desista da arte de "entender" e aplique-se um pouco mais a do "aceitar"...

A Mensagem renovadora de Deus se revelava a todos, a um só tempo: ricos e pobres, nobres e plebeus. O primeiro destes profetas, atuando no Reino do Norte, Amós, não era aristocrata como Isaías, mas um pastor que vivia originalmente em Tekoa, no Reino do Sul. Por volta de 752 aC, assim como Isaías, Amós também foi arrasado por um súbito Chamado que o levou ao Reino Setentrional de Israel. Ele irrompeu no antigo santuário de Beth-El e despedaçou o cerimonial ali com uma profecia de condenação. Amazias, então o sacerdote de Beth-El, tentou mandá-lo embora. Podemos ouvir a voz do sistema da época, em sua pomposa repulsa ao insólito pastor - naturalmente, ele imaginava que Amós pertencia a uma das corporações de adivinhos que vagavam em grupos e liam a sorte por dinheiro. “Vai embora, adivinho!”, disse com desdém. “Volta à terra de Judá; ganha lá o teu pão, faz lá as tuas profecias. Não queremos mais profecias em Beth-El. Este é o santuário real, o templo nacional.” Imperturbável, Amós ergueu-se em toda a sua altura e respondeu que não era nenhum pseudo-profeta errante, mas tinha um mandato direto de Javé: “Eu não era profeta, nem filho de profeta, mais boieiro, e colhia figos bravos. Porém Javé me tomou de detrás do gado, e me disse: ‘Vai-te, e profetiza ao meu povo Israel’. Portanto, não queria o povo de Beth-El ouvir a mensagem de Javé?

O profeta Amós - Gustave Doré

Fazia parte da essência da profecia o ser solitário. Uma figura como Amós era sozinha. Rompera com os hábitos e deveres do seu passado. Não era coisa que escolhera, mas que lhe acontecera. Parecia que fora arrancado dos padrões normais de consciência e que não podia mais operar os controles habituais. Amós não fora, como o Buda, absorvido na aniquilação de si mesmo do Nirvana; ao contrário, Javé tomara o lugar do seu ego e arrebatara-o para outro mundo.

Amós foi o primeiro dos profetas a enfatizar a importância da justiça social e da misericórdia. Como o Buda, tinha aguda consciência da agonia da humanidade sofredora. Na voz de Amós, Javé falava em favor dos oprimidos, dando voz ao sofrimento mudo e impotente dos pobres. Logo no primeiro verso da profecia que nos chegou, Javé, de seu Templo em Jerusalém, clama contra a miséria em todos os países do Oriente próximo, incluindo Judá e Israel. O povo de Israel era tão ruim quanto os “goyim” (‘gentios’): ignoravam a crueldade e a opressão para com os pobres, mas Javé não o faria. Ele observava cada caso de trapaça, exploração e espantosa falta de misericódia. “Jurou Javé pela glória de Jacó: Eu não me esquecerei de todas as suas obras, para sempre”.

Tinham eles de fato a temeridade de esperar o Dia do Senhor, quando Javé exaltaria Israel? Então teriam um choque: “Ai daqueles que esperam pelo ‘Dia do Senhor’! Para que, pois, vos será este Dia de Javé? Trevas será, e não de Luz”. Achavam que eram o Povo Eleito? Tinham entendido totalmente errado a natureza da Aliança, que significava responsabilidade e não privilégio: “Ouvi esta palavra que o Senhor fala contra vós, filhos de Israel” - exclamou Amós - “contra toda a geração que fez subir da terra do Egito, dizendo:

De todas as gerações da Terra vos conheci só;
portanto, todas as vossas iniqüidades visitarei sobre vós.”

A Aliança significava que todo o povo de Israel era eleito de Deus, e tinha portanto de ser tratado com decência. Deus não intervinha na História para glorificar Israel, mas para assegurar justiça social. Esse era o seu empenho na História e, se necessário fosse, usaria o exército assírio para impor a justiça em sua própria terra.

Fica mais fácil compreender porque a maioria dos israelitas tinha reusado o convite do profeta a entrar em diálogo com Javé. Preferiam uma religião de observância apenas cultual e menos exigente, no Templo de Jerusalém ou nos velhos cultos da fertilidade de Canaã. Infelizmente, não só entre israelitas, mas em todo o mundo religioso, continua sendo assim: a Religião da misericórdia é seguida apenas por uma minoria. A maioria contenta-se com uma decorosa e conveniente adoração na sinagoga, igreja, templo ou mesquita.


Fontes e bibliografia:
Profº Airton José da Silva;
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong.



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Experiência da Dupla Fenda

A maioria de nós ao menos já ouviu falar no termo "Experiência da Dupla Fenda". Nestes dias de feriado prolongado, estou fazendo uma pequena pausa na nossa Enciclopédia das Religiões e postando sobre alguns temas que já venho programando para o blog há algum tempo. Resolvi aproveitar a oportunidade e abordar o assunto hoje.


não é novidade que a tão falada Física Quântica revelou muitas novas e estranhas propriedades do que chamamos matéria, de como ela se comporta intrigante e inexplicavelmente na realidade subatômica. A principal contribuição desta ciência avançada foi a quebra de muitos dos antigos (e 'quadrados') paradigmas cartesianos e a revelação, surpreendente e inequívoca, diante de uma comunidade científica embasbacada, de que a matéria não é assim tão "material" como imaginávamos até há pouco tempo.

Não são poucos os cientistas que, intrigados com alguns desses comportamentos inexplicáveis, vêm buscando conhecimento nos campos filosófico e metafísico. Isso talvez ainda não agrade a maioria, mas, para desespero dos céticos, alguns paradigmas da linha do pensamento comum científico está mudando para algo menos pragmático e um pouco mais abrangente.

Infelizmente, temos que reconhecer, também, que no mundo pseudo-esotérico a física quântica virou modismo e daí para o charlatanismo e enganação é um passo: não param de pipocar por aí novidades do tipo "tarô quântico", "reiki quântico", "terapias quânticas" das mais variadas e etc... O que não deve servir para banalizar nem diminuir a importância das novas descobertas.

O vídeo abaixo é um trecho do filme "What the Bleep do We Know!? - Down The Rabbit Hole" e demonstra o célebre "Experimento da Dupla Fenda", de um jeito leve e descontraído. Mais abaixo segue a tradução comentada para o português.


whatthebeeep.com



Tradução

E aqui estamos, para apresentar o vovô de todas esquisitices quânticas: o experimento da dupla fenda. Para entendê-lo, precisamos primeiro ver como as partículas agem. Se atiramos aleatoriamente pequenos objetos, digamos, bolinhas de gude, em um anteparo com uma fenda, veremos um padrão no muro atrás, conforme as bolinhas atravessam a fenda e o atingem. Agora, se adicionarmos uma segunda fenda, esperamos, logicamente, ver nessa segunda faixa, a duplicação do padrão anterior.

Vamos observar as ondas:

Uma onda atinge uma fenda e irradia para o muro com a maior intensidade diretamente alinhada àquela fenda - a linha brilhante no muro mostra essa máxima intensidade. Isto é similar à linha que as bolinhas fariam.

Mas, ao adicionarmos uma segunda fenda, algo diferente acontece. Se o "topo" (a parte mais alta) de uma onda encontra o "vale" (a parte mais baixa) de outra, elas se cancelam. Então, agora, há um padrão de interferência no muro lá atrás. Nos lugares onde dois topos de onda se encontram, onde há maior intensidade, temos linhas brilhantes, onde as ondas se cancelam não há nada. Então, quando atiramos coisas, quer dizer, matéria, através de duas fendas, temos isto: duas faixas de colisões. E com ondas temos um padrão de interferência com muitas faixas. Até aí, tudo normal...

Agora, vamos ao quantum:

Um elétron é um pequeniníssimo pedaço de matéria - uma diminuta "bolinha". Vamos atirá-los através de uma fenda. Eles se comportam exatamente como as bolinhas: uma única faixa. Então se atirarmos esses pequenos corpúsculos através de duas fendas devemos esperar ver, como nas bolinhas, duas faixas. Mas... O quê??! Um padrão de interferência?!! Nós atiramos elétrons! Pequenos pedaços de matéria! Mas obtivemos um padrão como o das ondas, não como o de pequenas bolinhas... Como? Como podem pedaços de matéria criar um padrão de interferência como ondas? Isso não faz nenhum sentido...

Mas os físicos são espertos, eles pensaram: "Talvez essas pequenas bolas estejam dançando umas em torno das outras e criando aquele padrão..." Então eles decidiram atirar um elétron de cada vez, para que não houvesse como interferirem um no outro. O que aconteceu: depois de horas, o mesmo padrão de interferência aparecia!!!

A conclusão é inevitável! Um único elétron sai como uma partícula, se torna uma onda de potenciais, atravessa ambas as fendas e interfere consigo mesmo para depois acertar o muro como uma partícula!!!

Matematicamente isto é ainda mais estranho! A matéria passa através de ambas as fendas e passa através de nenhuma! Ao mesmo e a um só tempo!!! E vai através de uma só e vai através só da outra! Todas essas possibilidades estão em superposição entre si!!!.. Os físicos ficaram completamente destruídos por causa disso. Estavam diante de uma realidade simplesmente (fisicamente) impossível, que contrariava todas as leis elementares que eles sempre acreditaram que regiam a matéria, até então!!

Mas não se dariam por vencidos. Decidiram investigar mais e ver em qual fenda o elétron realmente passava. Colocaram um aparelho de medida em uma fenda para ver em qual das duas o elétron passaria, e deixaram que ele viesse. "Agora sim", pensaram...

Ahá! Mas o mundo quântico é bem mais misterioso do que eles poderiam imaginar. Quando observaram, o elétron voltou a se comportar como uma pequena bolinha de gude, produzindo o padrão de duas faixas, e não aquele padrão de interferência com muitas faixas!?!?

O ato de medir ou observar, em qual das duas fendas ele passou, forçou-o a ir por apenas uma fenda e não por ambas?!?!

O elétron "decidiu" agir diferente, como se "estivesse ciente" de que estava sendo observado...E foi aqui que os físicos chegaram e pararam, para sempre, na estranha Terra do Nunca dos eventos quânticos... O que é a matéria? Algo como "bolinhas de gude" ou é constituída de "ondas"?? E ondas de quê??? E o que um observador tem a ver com isso????


...


Chame de força da mente, de poder da fé ou como quiser: o fato é que um observador altera a função da matéria/onda simplesmente... Por observar! E isso já não é mais teoria ou objeto de crença. O que a Religião vêm afirmando há milênios, desde a origem da humanidade, não é mais uma questão de fé. É uma realidade objetiva científicamente comprovada.