Religião do antigo Egito - conclusão


O Livro dos Mortos

A ressurreição e o destino da alma: escuridão ou vida eterna; as incumbências dos deuses e o julgamento moral dos mortos - tudo isso está na coleção de textos religiosos conhecida como "O Livro dos Mortos", cujo verdadeiro nome é "Saída para a Luz do Dia", considerada como o primeiro livro da humanidade.

As pinturas de numerosos túmulos da antiga civilização egípcia mostram cortejos fúnebres em que as carpideiras choram pelo espírito do defunto. Os túmulos continham tudo que o morto iria precisar na outra vida, até mesmo suas sandálias. Enterravam-se os corpos virados para o sol poente, deixando ao seu alcance comida e diversos objetos pessoais. O costume de se preparar para a morte era tão difundido que nos primeiros tempos dos faraós se colocavam nos túmulos esculturas realistas para se receber o espírito do morto, com olhos de cristal que permitiriam ao defunto ver a outra vida. Acreditavam que os túmulos monumentais garantiam vida eterna, não só ao faraó, como também, por meio de sua sobrevivência, aos seus súditos.

Para os egípcios, o que havia de mais terrível era a idéia do esquecimento; que não conseguissem superar as provas necessárias para entrar no Mundo dos Mortos. Por isso, toda a viagem que esperavam realizar, da morte até a eternidade, é descrita em detalhes no Livro dos Mortos.

No começo da "Cerimônia da Abertura da Boca", pronunciam-se encantamentos sobre a múmia, a fim de lhe restituir as faculdades da vida, sobretudo a visão e a fala, das quais o espírito irá necessitar muito na viagem iminente. Cada sortilégio e cada invocação devem ser as certas, para que tudo corra bem. O Livro ajuda a alma a se refazer do susto da morte, quando ainda tenta voltar ao corpo (o que se alimenta e precisa dos objetos materiais é o 'duplo' do corpo físico, o 'CA', como explicado no primeiro post desta série). Porém, os deuses encarregados de guiá-la arrastam-na para longe do ataúde e a fazem atravessar uma região de trevas chamada "Aukert", que significa o "Mundo Subterrâneo", sem ar e água, difícil e muitas vezes obstruído. É graças ao Livro dos Mortos que o defunto pode vencer todos os obstáculos e ser convertido num "espírito santificado", após cruzar os "21 pilares", atravessar as "15 entradas" e passar pelas "7 salas". Depois, a alma terá de transpor 28 portas mais, para passar diante dos deuses guardiões do mundo dos mortos.

Depois de agradar a cada um dos deuses guardiões, a alma atravessa a porta seguinte e a viagem continua. O deus chacal, Anúbis, vai conduzi-lo ao "Amenti", onde mora Osíris, o deus maior dos egípcios. Lá, na "Casa das Duas Verdades", vai enfrentar a última prova, de onde seu espírito será ou lançado no inferno do esquecimento ou guiado ao paraíso. Então desfila perante o tribunal dos 42 deuses juízes (cada um representa um nome do Egito), e ante cada um declara sua inocência. O falecido deve interpelar a cada um dos 42 pelo seu nome e declarar não ter cometido determinado pecado. Osíris está presente - imóvel e enigmático, contempla a alma, tendo atrás de si sua irmã e sua esposa, Ísis e Néftis. Para comprovar que o defunto diz a verdade, são pesados ao mesmo tempo seu coração e uma pena, na balança da justiça, e Anúbis verifica o equilíbrio, ou seja, o coração não pode pesar mais do que a pena, senão... a fera Amud está pronta para devorar os corações manchados de pecados. Isto é feito na presença da deusa da Verdade, Maât, que não toma parte no julgamento. Se tudo correr bem, a alma é conduzida por Hórus, para fazer a "Confissão Negativa", que consta no "Papiro de NU":

"Nada surja para opor-se a mim no meu julgamento, não haja oposição a mim em presença dos príncipes soberanos, não haja separação entre mim e ti na presença daquele que guarda a Balança. Não deixe os funcionários da corte de Osíris cujo nome é 'O Senhor da Ordem do Universo' e cujos 2 Olhos são as 2 deusas irmãs, Ísis e Néftis, que estipulam as condições da vida do homens, que meu nome cheire mal! Seja o Julgamento satisfatório para mim, seja a audiência satisfatória para mim, e tenha eu alegria de coração na pesagem das palavras. Não se permita que o falso se profira contra mim perante o Grande Deus, Senhor de Amenti. Não roubei. Não agredi nenhum homem. Não causei dor nem fiz sofrer ninguém. Bebedor de sangue que vieste do matadouro, não sacrifiquei nenhum touro sagrado. Não capturei nenhuma ave nas reservas dos deuses, nem pesquei nenhum peixe em seus reservatórios. Não desviei a água de seu curso. Não coloquei represas em seu leito. Não sujei as águas".

Percebe-se nitidamente que a antiga religião egícpcia traz uma profunda consciência ecológica. Na sequência do processo do julgamento, se a alma finalmente for absolvida, Thot, deus da sabedoria, declara que o defunto tem a verdade na voz, fazendo o seguinte discurso aos deuses:

"Ouvi esse julgamento (recita o julgamento do morto), verificou-se que ele é puro, (recita os motivos) e ser-lhe-ão concedidas oferendas de comida e a entrada à presença de Osíris, juntamente com uma herança perpétua no Sekht-Ianru, o Campo de Paz (paraíso), como as que se consideram para os seguidores de Hórus".

Depois é conduzido perante Osíris, que o faz entrar no paraíso. Lá, no "Campo da Paz", será aperfeiçoado e elevado à condição de "santo", ou seja, digno do ambiente celestial. Assim poderá gozar para todo o sempre dos prazeres da vida eterna ao lado dos deuses.

Essa descrição é da época de Mencau-Ra (Miquerino em grego) e data de 3.800 aC., IV Dinastia. O papiro de NU permite observar que o código moral egípcio era muito abrangente, pois o falecido afirma ainda que... não lançou maldições contra um deus, não desprezou o deus da cidade, não maldisse o faraó, não praticou roubo de espécie alguma, não matou, não praticou adultério, nem sodomia, nem crime contra o deus da geração, não foi imperioso ou soberbo, nem violento, nem colérico, nem precipitado, nem hipócrita, nem subserviente, nem blasfemador, nem astuto, nem avaro, nem fraudulento, nem surdo às palavras piedosas, não praticou más ações, não foi orgulhoso, não aterrorizou homem algum, não enganou ninguém na praça do mercado, não poluiu a água corrente pública e não assolou a terra cultivada da comunidade.


Os Faraós

Máscara mortuária de Tutankhâmon (clique para ver detalhes)

Eram os soberanos absolutos do Egito Antigo, possuíam poderes plenos na sociedade, decidindo tudo sobre a vida política, religiosa, econômica e militar. A transmissão de poder no Egito era hereditária - desta forma, muitas dinastias perduraram centenas de anos no poder. Os faraós eram considerados deuses vivos, filhos diretos de Osíris, portanto agiam como intermediários entre os deuses e a população. Os impostos arrecadados no Egito também concentravam-se nas mãos do faraó, sendo que era ele quem decidia a forma como os tributos seriam utilizados. Grande parte deste valor arrecadado ficava com a sua própria família, sendo usado para a construção de palácios, monumentos, compra de jóias, etc. Outra parte era utilizada para pagar funcionários (escribas, militares, sacerdotes, administradores, etc) e fazer a manutenção do reino.

Ainda em vida o faraó começava a construir sua pirâmide, pois seria o seu túmulo, que deveria guardar, em segurança, seu corpo mumificado e seus tesouros. No sarcófago era colocado também o Livro dos Mortos com todas as coisas boas que o faraó fez em vida. Essa espécie de biografia era importante, pois os egípcios acreditavam que Osíris iria realmente utilizà-la para julgar os mortos.

Faraós famosos e suas realizações:

# Tutmés I – conquistou boa parte da Núbia e ampliou, através de guerras, territórios até a região do rio Eufrates.

# Tutmés III – consolidou o poder egípcio no continente africano após derrotar o reino de Mitani.

# Ramsés II – buscou estabelecer relações pacíficas com os hititas, conseguindo fazer o reino egípcio obter grande desenvolvimento e prosperidade.

# Tutankhâmon – o faraó menino, governou o Egito de 10 a 19 anos de idade, quando morreu, misteriosamente (assassinado? não se sabe ao certo). A pirâmide deste faraó foi encontrada por arqueólogos em 1922. Dentro dela foram encontrados, além do sarcófago e da múmia, muitos tesouros impressionantes.

# Amenófis IV - na verdade Akhenatom ou Amenhotep (Amenófis é a versão helenizada). O famoso "Faraó Herege", que implantou o monoteísmo no Egito, banindo todas as incontáveis divindades em benefício de Atom, o Sol, que passou a ser representado na forma de um disco. Pela primeira vez, um deus era representado sem corpo humano: impor aos egípcios a adoração de uma imagem não humana representou uma revolução sem precedentes. Logo após o seu reinado, o Egito retornou ao politeísmo. Ainda pretendo falar mais sobre ele, numa próxima oportunidade.


A maldição da múmia do faraó

No começo do século XX, os arqueólogos descobriram várias pirâmides no Egito Antigo. Nelas, encontraram diversos textos, entre eles, um que dizia: "...morrerá aquele que perturbar o sono eterno do faráo...". Alguns dias após a entrada nas pirâmides, vários arqueólogos morreram de forma estranha e aparentemente sem nenhuma razão lógica. O medo espalhou-se entre a população, e os jornais divulgavam que a "Maldição do Faraó" ou "Maldição da Múmia" estava fazendo vítimas. Alguns estudos verificaram que eles haviam morrido por inalar, dentro das pirâmides, fungos mortais e raros que atacam órgãos internos do corpo. Mas até hoje há quem não se dê por satisfeito com tal explicação...

O consagrado egiptólogo Zahi Hawass, que fez algumas das mais importantes descobertas arqueológicas nessa área, ao supervisionar a primeira tomografia computadorizada da múmia do faraó Tutancâmon (em 2005), declarou recentemente que "a experiência indicou que não se deve desacreditar totalmente a lendária 'maldição da múmia'". A tomografia computadorizada produziu imagens tridimensionais dos restos mortais do jovem faraó.

"Não posso descartar a lenda da maldição porque hoje muita coisa aconteceu. Quase sofremos um acidente de carro, houve um forte vento no vale dos Reis e o computador da tomografia ficou totalmente paralisado por duas horas", disse Hawass em declarações gravadas em vídeo e divulgadas recentemente por seu escritório.

Saiba mais aqui.


As Pirâmides


O período áureo da construção das pirâmides estendeu-se entre a III e a VI dinastias (de 2630 a 2150 aC). Nessa época quase todos os faraós e muitas de suas rainhas foram enterrados em túmulos com a forma de pirâmides. A maior parte das pirâmides dessa época foi construída na orla do deserto (que na época não era deserto) a oeste do Nilo, nas proximidades de Mênfis, entre a localidade de Meidum ao sul e Abu Rawash ao norte.

Em egípcio esse tipo de túmulo era chamado de "Mer", palavra que se supõe não ter tido qualquer significado descritivo. A palavra pirâmide, por sua vez, era grafada "pi-mar". Existe ainda um termo geométrico — "per-em-us" — usado em um tratado matemático egípcio para indicar a altura de uma pirâmide. Foram os gregos, entretanto, que chamaram tais monumentos de "pyramis" (plural 'pyramides'), o que resultou na palavra "pyramid" em inglês. Ao que tudo indica a palavra grega não deriva de nenhum vocábulo egípcio, mas trata-se apenas do nome que os gregos davam a uma espécie de doce feito com farinha de trigo. Acreditam os estudiosos que os antigos gregos associaram as pirâmides a essa guloseima, provavelmente porque quando vistos à distância os monumentos lhes pareciam enormes bolos.

Do ponto de vista construtivo, a pirâmide foi uma evolução do tipo de túmulo conhecido como "mastaba". De fato, a mais antiga que se conhece nada mais é do que a superposição de várias mastabas de dimensões progressivamente menores. Erguidas com rigor geométrico, as pirâmides estavam sempre perfeitamente orientadas em conformidade com os pontos cardeais e, sem dúvida, edificá-las exigiu impressionantes conhecimentos matemáticos e astronômicos. As três maiores, as de Gizé, foram orientadas com tanta precisão que se pode ver a estrela polar de qualquer ponto da estreita entrada.

Atualmente as pirâmides só nos transmitem um pálido reflexo do que foram um dia, pois nos mostram apenas a sua estrutura interna formada por imensos blocos de pedra, talhados e sobrepostos em degraus. Originalmente, porém, tais blocos eram cobertos por um revestimento uniforme e reluzente de pedra calcária e, assim, cada face formava uma superfície realmente impressionante e extremamente bela, plana e polida! Na pirâmide de Kéfren ainda hoje chama logo a atenção a permanência em seu topo de uma pequena parte desse revestimento de pedras calcárias. É muito difícil imaginar, hoje, o incrível esplendor original destes descomunais monumentos de mais de 140 metros de altura reluzindo à luz do sol ou da lua (Kéops=146m, Kéfren=143m - mais altas que os maiores edifícios da cidade de São Paulo, em pleno séclulo 21!)!

De modo geral elas comportavam em seu interior uma câmara mortuária contendo um sarcófago de pedra dura. Ao redor delas estendia-se uma ampla superfície coberta de lajes e delimitada por um muro. Elas não eram, entretanto, construções isoladas, mas sim faziam parte de um conjunto de edificações que as acompanhavam, principalmente templos e capelas, além de túmulos de familiares e dignatários do faraó. Na maioria dos casos o complexo piramidal era formado por uma pirâmide principal, uma ou mais pirâmides secundárias, um templo situado junto ao vale do Nilo, na orla da área cultivável, e outro localizado junto à pirâmide e, ainda, uma calçada, também chamada de avenida, que unia os dois templos, separados entre si, às vezes, por distâncias superiores a um quilômetro. Nas proximidades de todo esse conjunto e ocupando grandes extensões, as mastabas dos membros da família reinante e dos cortesãos, simétricamente dispostas, formavam grandes cemitérios.

É comum encontrar-se ao lado das principais pirâmides uma ou mais pirâmides menores chamadas subsidiárias ou secundárias. Supõem os arqueólogos que algumas se destinavam ao sepultamento das rainhas. Outras, entretanto, provavelmente não teriam tal finalidade, mas sim visavam sepultar as vísceras dos faraós, as quais eram retiradas dos corpos durante o processo de mumificação e guardadas nos vasos canopos.


A Esfinge


A esfinge egípcia é uma antiga criatura mística icônica usualmente tida como um leão deitado estendido — animal com associações solares sacras — com uma cabeça humana, usualmente a de um faraó. Vistas como guardiãs na estatuária egípcia, esfinges são descritas em uma destas três formas:

# Androsfinge (Sphinco Andro)- corpo de leão com cabeça humana;

# Criosfinge (Sphinco Oedipus)- corpo de leão com cabeça de ovelha;

# Hierocosfinge (Sphinco Oedipus Rex)- corpo de leão com cabeça de falcão.

A maior e mais famosa é Sesheps, a esfinge de Gizé, situada no planalto de Gizé no banco oeste do rio Nilo, feito em dois ao leste, com um pequeno templo entre suas patas. O rosto daquela esfinge é considerado a cabeça do faraó Kéfren ou possivelmente a de seu irmão, o faraó Djedefré, o que dataria sua construção à quarta dinastia (2723 aC–2563 aC). Contudo, há algumas teorias alternativas que redatam a esfinge ao Pré-Antigo Império – e de acordo com uma hipótese, a tempos pré-históricos.


Hieróglifos

Durante quase 15 séculos, a humanidade olhou fascinada para os hieróglifos egípcios sem lhe entender o sentido. Os sacerdotes egípcios do século IV de nossa era foram os últimos homens a utilizar essa linguagem. Eles, mantendo-a fechada, fizeram com que o significado das mensagens se perdessem. Os Europeus da época pensavam que os hieróglifos eram instrumentos místicos de algum rito demoníaco.

Os hieróglifos podem ter começado em tempos pré-históricos como uma escrita por meio de imagens. Embora os egípcios nunca tivessem formado um alfabeto como o conhecemos, estabeleceram símbolos para todas os sons consonantais da sua língua. O sistema mostrou-se notavelmente eficiente. Combinando-se fonogramas, formavam-se versões esquematizadas de palavras.

Nem todos os hieróglifos abandonavam a sua função de imagens de palavras para se tornarem símbolos fonéticos. Pelo menos 100 hieróglifos eram usados para representar a palavra que retratavam, sendo usados também como determinativos do significado das palavras.

Durante 3000 anos constituíram a linguagem monumental do Egito. A última inscrição conhecida é do ano de 394 dC, quando o Egito já era uma província romana. Já então, muitos hieróglifos tinham sido propositadamente obscurecido pelos escribas sacerdotais, fazendo com que os sinais fossem incompreensíveis para a maioria dos egípcios.

Em 1822, um linguista francês provou que os desenhos podiam formar palavras não relacionadas com a imagem. Só então os homens do Ocidente começaram a compreender que tinham diante de si toda uma linguagem que representava uma chave para um tão povo misterioso.



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Desde os tempos mais remotos, (II Dinastia), a religião egípcia chegou a tender para o monoteísmo, mas este só veio a aflorar na XVIII Dinastia, (1.500 aC), com Amenófis IV (Akhenatom), sua rainha Nefertiti, a Bela, e seu deus Aton - para quem constrói uma cidade fora de Tebas, Tel El Amarna. Esse culto durou apenas no seu reinado e, depois, foi proscrito de todo Egito. Essa história anda muito em voga hoje em dia. Como dito mais acima, gostaria de voltar a este assunto numa oportunidade futura, já que o tema por si só é suficientemente extenso para um post. De uma maneira diferente das nossas concepções atuais, mas não seria incorreto dizer que no Egito chegou a se desenvolver um códice de elevadas concepções morais e espirituais, extremamente maduras e sérias, entre elas, a idéia do Deus Uno, Auto Gerado e Auto Existente. Segue um trecho do Papiro de Hunefer (1.370 aC):

"Rendo homenagem a Ti, que és Rá quando te levantas e Temu quando te pões. És o Senhor do Céu, és o Senhor da Terra; o Criador dos que habitam nas alturas e dos que moram nas profundezas. És o Deus Uno que nasceu no principio dos tempos, criaste a Terra, modelaste o Homem, fizeste o grande aqüífero do céu, formaste Hapi, (o Nilo), criaste o grande mar e dás vida a quantos existem dentro dele. Juntaste as montanhas umas às outras, produziste o gênero humano e os animais do campo, fizeste os céus e a terra. Salve, oh Tu, que fizeste nascer a Ti mesmo. Salve Único Ser poderoso, de miríades, de formas e aspectos, Rei do mundo! Homenagem a Ti (...). És desconhecido e nenhuma língua será capaz de descrever o Teu aspecto; só mesmo Tu és Uno. Os homens Te exaltam e juram por Ti, pois és Senhor deles."




Egito hoje - Oficialmente República Árabe do Egito (R.A.E.), Estado do continente africano, com 1.000.000 de km2. População: 58.300.000 habitantes. Língua oficial: árabe. Religião: 80% islâmica (principalmente sunita). Muito diferente do tempo dos faraós, hoje, pouca chuva cai sobre o Egito, então quase todos moram ao longo da única fonte atual de água, o velho rio Nilo, que toca em apenas 4% as terras do Egito, fazendo dele uma das regiões mais abarrotadas do mundo. Cairo, a capital, é a maior cidade árabe e a maior cidade da África. É tão apinhada que as pessoas moram em prédios cuja construção ainda nem está terminada. A maioria dos egípcios descende dos antigos egípcios e dos invasores árabes do século VII, que se espalharam numa área hoje conhecida por Arábia Saudita. Além de ter a maior população árabe do mundo, o Cairo é um centro da cultura muçulmana.

Não deixa de ser deprimente a comparação entre o Egito que foi a maior nação da Terra, a mais rica e avançada em cultura e realizações prodigiosas e o o Egito de hoje.


* Foi recentemente criado um novo grupo intitulado 'Luxor Egiptology', cujo objetivo é divulgar informações e noticias e organizar eventos ligados à egiptologia na área de Luxor, destinando-se especialmente aos residentes e visitantes. O endereço do website é:

http://www.luxoregyptology.org/.

Veja um dos melhores sites da web sobre egiptologia disponíveis em língua portuguesa:

http://www.mariomarcia.com/Egipto.htm

Sobre o tesouro do faraó Tutankhâmon, com muitas fotos e notícias recentes:

http://www.starnews2001.com.br/egypt/pharao.htm



Fontes e bibliografia:
NEGRAES, E. de C. O Livro dos Mortos do Antigo Egito, São Paulo: Hemus Ed., 1996;
BUDGE, E. A. T. Wallis. A Religião Egípcia, São Paulo: Cultrix, 2005;
DAVIDOVITS, Joseph. As Pirâmides: a Solução de um Enigma, São Paulo: Record, 1988;
EDWARDS, I. E. S. The Pyramids of Egypt, New York: Penguin Books, 1978.



Religião do antigo Egito # 2

A lenda de Osíris


Fica claro para os egiptólogos a antiguidade do culto a Osíris, que alcançou o auge no Médio Império, quando foi explicitamente refletido nas práticas funerárias, independentemente do culto ao próprio deus em templos específicos. Mas... será que existiu um dia um personagem histórico chamado Osíris?


Osíris em "Amenti" - à esquerda, seu filho, o deus Hórus (falcão).


A saga de Osíris

Rá, o deus-sol, descobrindo que Nut, a senhora dos céus, estivera em companhia de Geb (Terra), lança sobre ela um terrível castigo: a deusa não poderia ser mãe em nenhum dia do ano. Mas o deus Thot, também apaixonado por Nut, em um jogo com a lua ganhou-lhe a sétima parte de cada uma de suas luminárias. Juntando essas partes, que formavam ao todo cinco dias, acrescentou-as aos trezentos e sessenta dias que o ano tinha até então. Por isso é que os anos têm 365 dias, e assim Nut pôde gerar filhos.

No primeiro dia lhe nasceu Osíris (que se tornaria o deus dos deuses); no segundo Hórus (o velho); no terceiro Seth; no quarto Ísis; e no quinto dia, Néftis. Seth casou-se com Néftis e Osíris com Ísis.

Osíris dedicou-se a civilizar seus súditos, os homens mortais, desviando-os do seu antigo estilo de vida nômade, indigente e bárbaro. Ensinou-os a cultivar a terra e a aproveitar da melhor maneira os seus frutos; ensinou-os a trabalhar com os metais e a fazer armas para se defenderem das feras. Convenceu-os a viver em comunidade e a fundar cidades; deu-lhes um conjunto de leis para que por elas o povo regulasse sua conduta e instruiu-os na reverência e adoração aos deuses.

Ísis, a irmã-esposa de Osíris, curava as doenças dos homens e expulsava os espíritos malignos com magia; fundou a família; ensinou os homens a fazer pão e às mulheres todas as artes femininas. Osíris decidiu levar esses conhecimentos ao resto do mundo e confiou a regência do seu trono a Ísis. Mas durante a ausência de Osíris, seu irmão Seth tentou apossar-se do trono. Foi frustrado em suas intenções por Ísis.

Osíris regressou de sua viagem, concluída com êxito, e Seth armou nova trama: tirou as medidas do corpo do irmão, em segredo, e mandou fazer uma bela arca, adornada e realçada com pedras. Deu uma festa em comemoração ao retorno de Osíris e propôs que presentearia com a arca a quem nela entrasse e a preenchesse com o próprio corpo.

Todos os convidados entraram na arca mas nenhum conseguia ocupá-la totalmente. Chegou a vez de Osíris, cujo corpo de grande estatura adaptou-se perfeitamente à arca. Mas o deus Seth, enciumado, junto com seus cúmplices fechou a arca, lacrando-a e lançando-a no rio Nilo.

O dia do assassinato de Osíris foi o 17º do mês de Háthor (novembro) quando o sol estava na constelação de escorpião. De acordo com alguns, Osíris estava no 28º ano de seu reinado e, de acordo com outros, no 28º ano de idade.

Quando a notícia do assassinato alcançou Ísis, que estava na cidade de Coptos, ela imediatamente cortou uma das mechas dos seus cabelos, colocou roupa de luto e vagou pelo país em estado perturbado procurando a caixa que continha o corpo de seu amado.

Sete escorpiões escoltavam a deusa que chegou à cidade de Pa-Sin em trapos e esgotada. Daquele jeito, e com tão ameaçadora comitiva, não encontrou quem a hospedasse. Uma mulher chamada Usa fechou-lhe a porta no rosto. Os escorpiões, vingando o insulto à deusa, injetaram seu veneno em sua dirigente, Téfen, que entrou na casa da mulher, encontrou o seu filho e picou-o. O veneno era tão poderoso que a casa foi envolvida em chamas. Usa não encontrou água para apagar o incêndio e correu em desespero com o filho nos braços. Ninguém a socorreu, mas a deusa Ísis acabou por ter pena dela e fez com que uma chuva apagasse o incêndio. Ordenou, também, que o veneno saísse da criança. Usa, reconhecendo a deusa, implorou-lhe perdão e ofereceu presentes a Ísis.

Uma outra mulher, de nome Taha, apiedou-se da deusa e a acolheu. Ísis continuou a sua busca e soube, por algumas crianças que brincavam à margem do rio, que a caixa procurada havia passado por ali em direção ao mar.

Nesse meio tempo as ondas carregaram a caixa para a costa da Síria e a lançaram em Biblos, e tão rápido repousou sobre a terra, uma grande árvore ('Erica') brotou dela de repente, desenvolvendo-se toda em torno da caixa, cercando-a por todos os lados.

O Nome do rei de Biblos era Melkart e o de sua esposa Astarte (ou Ishtar, Ashtoreth, Astarot, Astartéia...). Melkart viu a árvore de tamanho descomunal e mandou cortá-la para fazer com ela um pilar para o seu palácio. Ísis chegou a Biblos e soube da árvore que cresceu da noite para o dia e do destino que teve. Instalou-se à beira da fonte onde as criadas da rainha apanhavam água. Então conversou com elas, e enquanto isso começou a penteá-las, transferindo-lhes parte do perfume que emanava do seu corpo.

A rainha notou a diferença em suas criadas e isso despertou o seu interesse em conhecer quem as havia arrumado e educado. Ísis foi levada à sua presença, mas não se revelou. A rainha a fez ama do príncipe, a quem Ísis amamentou com o dedo em lugar do seio. Punha-o toda a noite no fogo para que este lhe consumisse a parte mortal. Transformava-se em uma andorinha e voava em torno da coluna lastimando seu próprio destino.

Uma noite a rainha entrou no quarto e viu o filho envolto em chamas e guardado por sete escorpiões. Gritou e o rei e os guardas a acudiram, mas ficaram paralisados diante da cena que presenciaram. Surgiu Ísis que, com um gesto, apagou as chamas, revelando-se para os reis. Contando a sua história explicou que, grata pela hospitalidade, decidira tornar o príncipe imortal, mas a mágica fora interrompida e não faria mais efeito.

A rainha se entristeceu, mas o rei ficou feliz, apesar de tudo, com a honra de acolher uma deusa, deu-lhe a coluna de madeira, de onde Ísis retirou a arca que continha o corpo de Osíris. Depois envolveu a coluna em linho, derramou sobre ela óleos perfumados e a devolveu aos reis como lembrança e relíquia poderosa.

A deusa voltou ao Egito escoltada por outros dois filhos do rei de Biblos. Em determinado ponto da viagem ordenou que a caravana parasse e abriu a caixa com o corpo do marido. Transtornada pela dor, gritou de forma tão espantosa que um dos filhos do rei ficou louco; o outro, que olhou a deusa em seu desespero, caiu morto de medo.

Ísis ficou só e tentou todas as fórmulas mágicas para trazer Osíris de volta à vida. Transformou-se em um falcão e agitou as suas asas sobre ele para restituir-lhe o sopro de vida. Num breve momento em que seu intento foi conseguido, Ísis foi fecundada. Continuou levando o corpo de Osíris para o Egito, e quando chegou ao seu país, escondeu a arca nos pântanos.

Enquanto caçava à luz da lua, Seth encontrou a arca, abriu-a e viu os restos do irmão. Furioso, despedaçou o corpo em catorze partes e as espalhou pelo Egito. Isso fez com que Ísis recomeçasse a sua busca, desta vez para reconstituir o corpo do marido. Ajudada por Anúbis, que tomou a forma de um chacal negro para farejar os restos de Osíris, Ísis conseguiu encontrar todos os pedaços, menos um: só não encontrou o falo do deus, que, atirado ao Nilo, fora devorado por um peixe. Ao contrário de Min, o deus da fecundidade - representado com o falo rígido - Osíris não tem pênis. Isso não faria muita diferença prática para os deuses egípcios, capazes de fecundar e gerar filhos assexuadamente, mas essa curiosa característica sem dúvida tinha algum significado próprio. Em cada local que Ísis descobriu uma parte do corpo de Osíris, foi levantada uma capela.

Então Ísis recompôs o corpo de Osíris, chamou sua irmã Néftis e os deuses Toth e Anúbis. Todos juntos tentaram restituir a vida a Osíris. Anúbis embalsamou o corpo do deus, e surgiu assim a primeira múmia, envolta em linho e em peles de animais, recoberta de amuletos. Nas paredes do sepulcro de Osíris foram gravadas fórmulas rituais e junto ao sarcófago foi colocada uma estátua semelhante ao deus que ressuscitou mas não podia mais reinar sobre a terra. Assim tornou-se "rei do lugar que fica além do horizonte ocidental".

Logo, o corpo de Osíris transformou esse lugar que era triste num local fértil e rico em colheitas.

Depois do sepultamento, Ísis voltou a se esconder nos pântanos. Quando nasceu o seu filho Hórus, a mãe deu-lhe amor e invocou sobre ele a proteção de todos os deuses. Hórus tem uma mecha de cabelo que nasce no meio da cabeça raspada - Osíris e Ísis têm forma inteiramente humana (excessão à pele verde de Osíris), mas Hórus tem cabeça de falcão. Ísis ensinou-lhe a magia e o educou em memória do pai. Hórus cresceu como o sol nascente. Ele próprio era um grande falcão que cortava os céus.

Quando Hórus ficou maior, finalmente Osíris voltou à terra, para fazer dele um guerreiro. Hórus reuniu todos os fiéis a Osíris e partiu sobre Seth para vingar a morte do pai, mutilando-o e esterelizando-o. Seth, por sua vez, transformou-se num grande porco negro e devorou o olho esquerdo de Hórus; e assim, a lua parou de iluminar a noite.

Ísis suplicou a seu filho que pusesse fim ao massacre, mas Hórus, num ímpeto de ódio, decepou a cabeça da própria mãe.

Thot curou-a colocando uma cabeça de vaca em lugar da sua. A batalha recomeçou, mas ficou sem vencedores nem vencidos.

Thot curou Seth, mas impôs que este restituísse o olho de Hórus. A lua, então, voltou a brilhar. Os deuses levaram a questão a julgamento e o processo durou oitenta anos. Seth acusou Hórus de ilegitimidade. Hórus acusou Seth pelo assassinato do pai. Por fim, os deuses decidiram que Hórus ficaria como rei do Baixo Egito e Seth como rei do Alto Egito.

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No dia 16 de fevereiro de 2000, arqueólogos descobriram um sarcófago de granito, numa tumba localizada a 30 metros de profundidade, próximo as pirâmides de Gizé, no Egito. Segundo o arqueólogo egípcio Zahi Hawass, o sarcófago pode pertencer ao verdadeiro Osíris!!

Um dos fatos mais admiráveis sobre a civilização egípcia é o cuidado que dedicavam ao sepultamento de seus mortos. Na verdade as múmias egípcias são quase como um símbolo do tempo dos faraós, e a prática milenar do embalsamamento fez chegar aos nossos dias, junto com os registros nos templos e nas paredes das tumbas, as marcas da vida que levavam os egípcios do mundo antigo.

Qualquer sociedade humana tem nas suas práticas um reflexo do seu universo mental. Não foi diferente com os egípcios. Eles eram extremamente ligados ao rio Nilo e à agricultura que as cheias lhes permitiam fazer, vinculando muitos dos seus símbolos míticos a elementos aquáticos e a fenômenos que podiam ser observados no seu próprio "em torno".

No cerne das práticas funerárias está embutida a lenda do deus Osíris, explicativa de um ideal que já foi exclusivo da realeza, até a quarta dinastia. Posteriormente, os ritos foram estendidos a membros da corte até serem difundidos por toda a população. Miticamente, a primeira de todas as múmias foi a de Osíris, dando assim justificativa à prática do embalsamamento. Essa lenda, mais que qualquer outra, exerceu uma enorme influência no espírito egípcio.



Fontes e bibliografia:
BUDGE, E. A. T. Wallis. Osiris and the Egyptian Ressurrection, 2 ed., New York: Dover Publications Inc. 1973;
Portal HistoriaNet.



Religião do antigo Egito

Osíris, Ísis e Néftis


"Tu és o Nilo, os deuses e os homens vivem da tua emanação."
Faraó Ramsés, "Hino à Osíris".

O Nilo, o "Rio dos Deuses", que corre ao longo de 6.400 Km - do coração da África até o Mediterrâneo - marcou todos os aspectos da vida e das crenças de diversos povos. Ainda podemos encontrar, até hoje, vestígios de antigos modos de vida nos planaltos da Etiópia, nos extensos pântanos do Sudão e nos campos do Egito. Foi às suas margens que surgiu a primeira das grandes civilizações do mundo.


No Egito, 6.400 anos atrás...

O Egito foi o berço da civilização ocidental. Foi ali que o homem fez as suas primeiras colheitas e que chegou mais próximo do antigo sonho humano de construir um paraíso na Terra, transformando as margens do Nilo numa espécie de “jardim do Éden”. Na atualidade, o talento dos antigos egípcios é cada vez mais reconhecido, e suas idéias ainda alimentam a nossa imaginação. Foram eles que inventaram a primeira língua escrita, gravando-a na pedra, e celebraram suas crenças em monumentos que permanecem através dos milênios. Criaram uma religião em que o homem e a natureza deveriam conviver em harmonia para sempre.

As crenças religiosas dos antigos egípcios tiveram uma influência importantíssima no desenvolvimento da sua cultura, embora nunca tenha existido entre eles uma verdadeira religião, no sentido de um sistema teológico unificado. A fé egípcia baseava-se no acúmulo não muito bem organizado de diversos mitos antigos, no culto à natureza e a inumeráveis divindades. No mais influente e famoso destes mitos desenvolve-se uma hierarquia divina e se explica a criação do mundo.

De acordo com o relato egípcio da criação, no princípio não existia nem céu, nem terra, e nada era senão o Oceano Primal, a água primeva sem limites, amortalhada, contudo em densa escuridão. Nessas condições, permaneceu por tempo incomensurável, muito embora contivesse dentro de si os germes de todas as coisas que, mais tarde, vieram a existir neste mundo, e o próprio mundo... Por fim, NU, o espirito da água primeva, o pai dos deuses, sentiu o desejo da atividade criadora e, tendo pronunciado a palavra, o mundo existiu - passou a existir imediatamente, na forma já traçada na mente do espírito. O ato da criação, seguinte à palavra, foi a formação de um germe ou ovo (segundo algumas versões de uma flor), do qual saltou Ra, o deus sol, dentro de cuja forma brilhante estava incluído o poder absoluto do espirito divino, o criador do mundo. Ra, o deus sol, adorado desde os tempos pré históricos, em 3.800 aC foi considerado rei dos os deuses (na IV Dinastia suas oferendas são apresentadas por Osíris que, mais tarde, suplanta o próprio Rá).

Rá deu à luz quatro filhos: os deuses “Shu” e “Geb” e as deusas “Tefnet” e “Nut”. Shu e Tefnet deram origem à atmosfera. Eles serviram-se de Geb, que se converteu na terra, e elevaram Nut, que se converteu em céu. Rá regia todas as coisas. Geb e Nut posteriormente tiveram dois filhos, “Seth” e “Osíris”, e duas filhas, “Ísis” e “Neftis”. Osíris sucedeu Rá como rei da terra, ajudado por Ísis, sua esposa e irmã. Mas Seth odiava seu irmão Osíris, e o matou. Ísis embalsamou o corpo do seu esposo com a ajuda do deus “Anúbis”, que desta forma tornou-se o deus do embalsamamento. Porém, os feitiços poderosos de Ísis ressuscitaram Osíris, que chegou a ser rei do mundo inferior, da terra dos mortos. “Hórus”, filho de Osíris e Ísis, derrotou posteriormente Seth, em uma grande batalha, tornando-se rei da terra.

Desse mito da criação surgiu a concepção da “Eneada”, grupo de nove divindades, e da tríade formada por um pai, uma mãe e um filho divinos - cada templo local tinha sua própria eneada e sua própria tríade. A eneada mais importante foi a de Rá, com seus filhos e netos. Este grupo era venerado em Heliópolis, centro do culto ao Sol no mundo egípcio. Já a origem das deidades locais é obscura: algumas vieram de outras religiões e outras de deuses animais da África pré-histórica - no cerne da antiga religião egípcia estava a crença de que homem e natureza deveriam conviver em harmonia, sendo de responsabilidade do homem zelar para que assim fosse.

A admiração dos antigos egípcios pelos elementos da natureza era tão grande que transformaram-nos em deuses. No antigo Egito o clima era muito mais úmido do que hoje, e as primeiras dinastias chegaram a conviver com elefantes, rinocerontes e girafas. Longe no Nilo, na Savana, viviam muitos grandes felinos e manadas de herbívoros, além de diversas outras espécies, uma harmonia de fauna e flora exuberantes. Assim, a fêmea do hipopótamo, voluptuosa e maternal, representava “Tauereth”, a deusa dos nascimentos. Seth, o deus do caos, era representado como um hipopótamo macho, já que à noite estes costumavam invadir os campos de colheita, provocando destruição e desordem. Graças à sua capacidade de enxergar além do horizonte, a girafa representava a previsão, e o búfalo era símbolo de poder e agressividade. O leão era rei, e o rei era visto e representado como um leão. Tábuas datadas de 3500 aC mostram o soberano egípicio como um feroz leão devorando seus inimigos. Mas não havia criatura mais bem adaptada para sobreviver no pântano do que o Íbis sagrado, que introduz no lodo o seu bico curvo, conseguindo assim capturar até a mais escorregadia das presas. Assim, “Thot”, o deus da sabedoria, era representado com corpo humano e cabeça de Íbis.

Todos estes elementos foram gradativamente se fundindo em uma complicada estrutura religiosa, ainda que relativamente poucas dessas divindades tivessem chegado a ser realmente importantes em todo o Egito. As divindades principais incluíam os deuses “Amon”, Thot, “Ptah”, “Khnemu” e “Hapi” e as deusas “Hator”, “Nut”, “Neit” e “Seket”. Sua importância aumentou com o crescimento político das localidades onde eram veneradas. Exemplo: a eneada de Mênfis era encabeçada por uma tríade composta pelo pai Ptah, a mãe Seket e o filho “Imhotep”.

De qualquer modo, durante as dinastias menfitas, Ptah chegou a ser um dos maiores deuses do Egito. De forma semelhante, quando as dinastias tebanas governaram o Egito, a eneada de Tebas adquiriu grande importância, encabeçada pelo pai “Amon”, a mãe “Mut” e o filho “Khonsu”. Conforme a religião foi se desenvolvendo, muitos seres humanos glorificados após a morte acabaram sendo confundidos com deuses. Assim Imhotep, que originariamente fora o primeiro ministro do governador da III Dinastia Zoser, chegou a ser conceituado como um semideus. Durante a V Dinastia, os faraós começaram a atribuir a si mesmos ascendência divina, e desde essa época foram venerados como filhos de Rá. Deuses menores, os demônios ocuparam também um lugar hierárquico entre as divindades egípcias.


Relação de alguns dos principais deuses e seus atributos (em ordem alfabética):

Anúbis - dos mortos e do submundo. Bastet - fertilidade, protetora das mulheres grávidas. Chu - ar seco, luz do sol. Geb - deus da terra. Hathor - amor, alegria, dança, vinho, festas. Hórus - deus Céu. Ísis - amor, da mágica. Khnum - criatividade, controlador das águas do rio Nilo. Maet --- justiça e equilíbrio. Osíris* --- ressurreição, vida pós morte, fertilidade, vegetação. Ptah --- obras feitas em pedra. --- deus Sol, o maior dos deuses, ao lado de Osíris. Seth --- tempestade, mal, desordem e violência. Sobek --- paciência, astúcia. Tefnut --- nuvens e umidade. Toth --- sabedoria, conhecimento, representante da Lua.




* Osíris era representado como um ser de pele verde (fertilidade da terra), sempre segurando um cajado de pastor numa mão e um mangal para cereais na outra - a mais perfeita imagem que se poderia conceber para o "senhor da vida".


Alguns conceitos básicos da antiga religião egípcia

Desde o momento em que o homem superou o animal e despontou como ser reinante sobre a terra, começou a enterrar os seus mortos e a lhes oferecer meios de sobreviver na vida eterna. Em suas tumbas, numa prática de oferendas mortuárias que perdura até hoje, faz ofertas de alimentos, utensílios, flores e outras dádivas. No Egito, desde 4.400 aC, no reinado de "Mena" - o 1º rei histórico daquele país (I Dinastia) - o egípcio esperava comer, beber e levar uma vida regalada na região onde supunha estar o "Céu"; e ali partilhar, para sempre, em companhia dos deuses, todos os prazeres celestiais.

A religião egípcia, como todas as outras religiões antigas, com execeção do Budismo, apresenta os deuses com vícios e virtudes, assim como os homens; porém, muito mais sábios e detentores da magia que os torna poderosos.

Mumificação - Já na IV dinastia, (3.800 a.C.), todos os textos religiosos supõem que se possa imunizar o corpo por inteiro, mumificando-o. O procedimento era o seguinte:

Primeiramente o cérebro do cadáver era extraído, pelas narinas. Depois, as "entranhas" eram retiradas pelo ânus ou por uma incisão na barriga; por fim o coração era também retirado e substituído por um escaravelho de pedra. Seguia-se uma lavagem e salgação onde o cadáver ficava por um mês. Depois era novamente secado, por mais um mês ou dois. Para evitar a deformação, o corpo era recheado de argila, areia, rolos de pano de linho, com muita atenção às formas anatômicas, como os seios, e embebidos em drogas aromáticas, ungüentos e betume. Geralmente o amortalhamento era feito em vários ataúdes de madeira, uns dentro dos outros e, finalmente, o corpo mumificado era colocado em um sarcófago de pedra.

A religião egípcia elaborou um conjunto de conceitos complexo e sofisticadíssimo, para entender e explicar a natureza do homem. Segundo esta, a natureza humana é composta de 8 partes:

1 - O corpo físico era "CAT".

2 - Ligado a esse CAT estava o seu duplo, também físico - o "CA", cuja existência é independente do CAT, sendo livre para viajar para diversos lugares à sua vontade. Oferendas eram deixadas nos túmulos para alimentar o CA, que come, bebe e aprecia o cheiro do incenso.

3. À alma imaterial chamavam "BA" - algo sublime, nobre, poderoso. O BA morava no CA e tinha forma e substância. Nos antigos papiros, aparece como um falcão com cabeça humana.

4. "AB", o coração, que era a sede da vida humana.

5. A inteligência espiritual, ou o espírito do homem, era "CÜ", a parte brilhante e etérea do corpo, que vivia com os deuses, no Céu.

6. Outra parte do homem que também ia para o céu era o "SEQUEM", sua força vital.

7. "CAIBIT", ou sombra, era uma parte considerada sempre próxima à alma (BA).

8. Por fim, temos "REN" - o nome do indivíduo. Trata-se de uma de suas partes mais importantes, pois se o nome fosse eliminado, poderia se destruir o(a) próprio(a) homem(mulher) como um todo.

Resumindo, o homem se constituía de corpo, duplo, alma, coração, inteligência espiritual, poder vital, sombra e nome. Mas essas 8 partes em algumas citações foram reduzidas a 3: corpo, alma e espírito. Na V dinastia (3.400 a.C.) afirmava-se de modo preciso: "A alma para o Céu e o corpo para a terra".




Para imagens e maiores informações clique aqui, aqui e aqui. Arquitetura antiga egípcia aqui.


Pequena amostra do legado da inacreditável civilização egípcia:



Continua...
A seguir: A lenda de Osíris - O Livro dos Mortos - a "Maldição do Faraó" - as pirâmides do Egito - a Esfinge (fontes e bibliografia na conclusão).




Guia prático do buscador




Quatro anos antes de começar a escrever neste blog, numa fase profundamente introspectiva da minha vida, eu escrevi num dos meus cadernos de anotações algumas dicas, de mim para mim mesmo:


Regras para uma saudável manutenção da fé

1. CULTIVE CUIDADOSAMENTE O AMOR. POR VOCÊ, PELA VIDA E PELO TODO. ASSIM ESTARÁ AMANDO A DEUS E AO PRÓXIMO.

2. TODA REGRA TEM EXCESSÃO. ATÉ A REGRA Nº 2.

3. A VERDADE ESTÁ NOS PARADOXOS.

4. A VERDADE É UMA SÓ, MAS CADA UM SÓ PODE VÊ-LA DO LUGAR ONDE ESTÁ E COM OS OLHOS QUE POSSUI. ISSO NÃO SIGNIFICA QUE TODAS AS DOUTRINAS SÃO VERDADEIRAS. O BEM E O MAL EXISTEM, E OS SEUS CAMINHOS SÃO DISTINTOS E OPOSTOS.

5. A VERDADE ESTÁ LONGE DOS EXTREMOS.

6. SOMOS OS NOSSOS HÁBITOS.

7. NÃO PODEMOS SABER QUALQUER COISA DE MANEIRA REAL, ABSOLUTA, COMPLETA, CABAL E OU INCONDICIONAL. QUASE TUDO NESTE PLANO DEPENDE DE UM PONTO DE VISTA; DA FÉ, DE NOSSAS PREDISPOSIÇÕES, CAPACIDADES, ETC.

8. O MAL DO HOMEM É ESQUECER.

9. NÃO JULGUE.

10. NÃO COMPARE.

11. NÃO É POSSÍVEL VENCER PROBLEMAS PENSANDO, JULGANDO OU COMPARANDO, E NEM MESMO DIALOGANDO; SOMENTE É POSSÍVEL ENCONTRAR SOLUÇÕES OLHANDO-SE PARA DENTRO DE SI.

12. OLHAR PARA DENTRO DE SI SIGNIFICA UMA APROFUNDADA INVESTIGAÇÃO INTERNA; SEM JULGAMENTOS, SEM FAZER USO DE CONCEITOS ADQUIRIDOS, APENAS OBSERVANDO-SE E SENTINDO-SE VERDADEIRAMENTE.


Mesmo sendo uma coleção de aforismos pessoais, achei que poderiam ser úteis para mais alguém. Um lindo final de semana!

Stonehenge e seus mistérios


A silhueta enigmática e impenetrável de Stonehenge


Este é provavelmente o sítio pré-histórico mais famoso do mundo, e a maior realização artística conhecida de uma civilização desaparecida há milênios. Stonehenge fica ao sudoeste da Inglaterra, há menos de 200 Km de Londres, na acidentada paisagem da planície de Salisbury. Um conjunto apreciado por sua beleza mística e sua brilhante concepção, mas que se torna ainda mais impressionante quando consideramos o modo e a época em que foi construído, se é que podemos afirmar alguma coisa com precisão a esse respeito. A realização desse incrível monumento deve ter exigido o esforço de centenas de milhares de pessoas, e durou muitos séculos. Na verdade, ainda estão tentando descobrir quem criou essa obra enigmática e por quê...

Há cerca de 5 mil anos, os representantes de uma civilização muito avançada iniciaram o projeto de construção, que demorariam 2 mil anos para terminar! Um enigma tão grande quanto o das pirâmides do Egito ou o dos Moais da Ilha de Páscoa, não há nada semelhante a Stonehendge em todo o mundo. Os saxões chamavam-no "Stonehenge" ou "Hanging Stones" (pedras suspensas), enquanto que os escritores medievais se referiram a ele como "Dança de Gigantes". Sobre o que representava e para que servia exatamente, é provável que nunca tenhamos certeza absoluta: altar de sacrifícios (humanos e/ou animais), templo-calendário ou para rituais druidas, para cerimônias em homenagem ao sol, canal de ligação com outras dimensões ou portal de contato com seres de outros planetas... - todos têm seus palpites - arqueólogos, especialistas em História antiga, pesquisadores, místicos, esotéricos e curiosos de plantão.

As chamadas “pedras azuis”* usadas para construir parte de Stonehenge foram trazidas de cerca de 400 km de distância(!!), das montanhas dos sul de Gales, sendo necessária inclusive travessia marítima. Não há como precisar de que maneira esses pilares de 5 toneladas foram levados até a sua atual localização; e o que torna tudo ainda mais misterioso é que não faltavam pedreiras nas vizinhanças.

A mais antiga referência ao monumento conhecida é a que faz o grego Hecateu de Abdera na sua "História dos Hiperbóreos", datada de 350 aC: "ergue-se um templo notável, de forma circular, dedicado a Apolo, Deus do Sol...". Exemplo clássico de obra das civilizações megalíticas, Stonehenge começou a ser construído por volta de 3000 aC, em quatro etapas bem distintas, sendo cada uma delas mais elaborada que a anterior:

1ª – A obra começou com a escavação de um fosso circular. A terra retirada do fosso foi usada, mais tarde, para a construção de um muro ao redor do perímetro central. Em seguida, se traçaram duas linhas no centro do círculo, que assinalavam o ponto por onde nascia o sol nos solstícios de verão e inverno, e no final destas, depois da entrada do círculo, se fixou um monolito gigantesco, chamado hoje de “Calcanhar do Frade”.

2ª - Após um intervalo de quase 800 anos (por volta de 2100 aC.), iniciou-se a segunda fase, que prosseguiu de forma constante durante os 3 séculos seguintes. Formou-se um duplo anel das chamadas *pedras azuis dentro do antigo fosso - foram alinhadas na entrada do círculo com grande precisão, de forma que o nascer do sol no solstício de verão acontecesse exatamente através do arco central e por cima do “Calcanhar do Frade”.

3ª - Apesar dos espantosos trabalhos precedentes, esta terceira etapa, que se iniciou quase assim que terminou a segunda, é considerada uma das maiores proezas arquitetônicas de todos os tempos. As 80 pedras “sarcen”, utilizadas nessa fase, pesam acima de 50 toneladas cada uma(!!) e têm 5 metros de altura. Foram trazidas de uma pedreira localizada a mais de 30 Km de distância! Esse período se prolongou por mais de 500 anos e deu a Stonehenge o aspecto que tem hoje.

4ª - Terminado o círculo exterior, os construtores executaram a etapa final, construindo a “ferradura” de pedras interna.

Na composição final, o efeito de perspectiva é portentoso. A utilização de pedras mais estreitas na parte superior causa um efeito que faz Stonehenge parecer ainda maior do que é. Um artifício proposital, que foi usado também em templos da Grécia antiga.

Originalmente Stonehenge era um círculo externo e media 86 metros de diâmetro. O círculo interno, com as pedras maiores, media 30 metros. Havia ainda uma avenida de acesso principal onde ficavam os portais de pedra, marcando o alinhamento do sol e os ciclos da lua. Analisando-se as pedras viu-se que elas foram cortadas para encaixarem-se perfeitamente umas nas outras, o que é incrível, já que, oficialmente, acredita-se que na época não existiam ferramentas de construção com esse poder de corte, e menos ainda capazes da precisão ali encontrada.


Vista aérea (clique para ampliar)


Ao refletirmos sobre os mistérios de Stonehenge, vale lembrar que naquela época, diferentes tribos e autoridades contribuíram para a sua construção. Cada uma pode ter tido objetivos diferentes para a sua construção. Alguns relatos históricos contam que os druidas, uma tribo Celta que habitou a região da Inglaterra durante o império Romano, fizeram cerimônias ali, mas é certo que não foram eles que construíram Stonehenge, pois o monumento já existia quando chegaram. Mesmo assim os druidas podem ter herdado tradições, costumes e rituais dos primeiros moradores do lugar. Uma possibilidade bem aceita é que Stonehenge e outros sítios megalíticos tenham sido construídos pelos antepassados dos druidas deste milênio, por acreditarem que fossem lugares de grande força mística para seus rituais. Em vez de em templos fechados, eles se reuniam nos círculos de pedra, como se vêem nas ruínas não só de Stonehenge mas também de Avebury e Silbury Hill, entre outros.

Durante séculos, Stonehenge foi cenário de reuniões de camponeses e nos últimos 90 anos os "druidas" modernos celebraram ali o solstício de Verão. Durante aproximadamente 20 anos, milhares de pessoas se reuniram no local, todos os meses de junho, para assistirem ao festival. Mas, em 1985, as autoridades proibiram o festival, receosas de que esse grande patrimônio histórico da humanidade pudesse ser danificado.


Informações adicionais:

# Diversas pedras de Stonehenge tem desenhos ou inscrições feitas pelas antigas civilizações, embora bastante apagadas pelo tempo.

# O fim da construção de Stonehenge aconteceu por volta do ano 1600 AC. Foi a partir daí que começou sua destruição. Apesar do tamanho enorme, muitas das pedras desapareceram! As menores foram carregadas por visitantes que queriam levar uma "lembrancinha" para casa. A partir de 1918 o local começou a ser recuperado, e muitas das grande pedras que estavam inclinadas e ameaçando tombar foram reerguidas.

# Atualmente, o lugar é administrado pelo English Heritage, e como o número de visitantes é de cerca de 700.000 por ano, foram tomadas medidas mais rigorosas para garantir a preservação.

# Embora Stonehenge seja sua obra mais célebre, o povo misterioso que o construiu nos deixou, no total, mais de 900 obras circulares em pedra, e mais de 30 mil montes funerários. Apenas 30 Km ao norte de Stonehenge fica o magnífico assentamento de Avebury, com uma circunferência de mais de 1,5 Km! É o maior círculo feito em pedra do mundo. Avebury data também de 3000 aC e era provavelmente utilizado como local de reunião, com capacidade para 10.000 pessoas(!). Embora a obra de pedra de Avebury possa não ser tão elaborada quanto a de Stonehenge, suas dimensões são verdadeiramente impressionantes.

# O povo que construiu esses monumentos deixou muitos recipientes de argila em seus túmulos, em especial nos dos chefes e sacerdotes. Adagas de bronze e maças, também encontradas nos túmulos, demonstram que era uma sociedade com um grau de refinamento muito mais avançado do que imaginavam os historiadores mais tradicionalistas.

# Além de Avebury, ao redor do monumento principal existem outras obras intrigantes. A 800 metros ao norte de Stonehenge está o chamado “Cursum”. Semelhante a uma pista reta de corridas de cavalos, com 2,8 km de comprimento e 90 metros de largura, imagina-se que também era usado em cerimoniais religiosos e procissões. Alguns adeptos do estudo do fenômeno OVNI afirmam que seu objetivo era servir como pista de pouso para naves interplanetárias...

# Diz-se que depois de uma visita à Stonehenge ficam muitas dúvidas, algumas suposições e poucas certezas. Por que nossos ancestrais trouxeram pedras tão imensas e pesadas de tão longe, se haviam pedreiras próximas? Por que exatamente praquele lugar? Quem de fato construiu o monumento? Fizeram isso sozinhos ou tiveram ajuda de alguma outra civilização? Que civilização era essa, que em plena pré-história tinha conhecimentos tão profundos de astronomia, engenharia e matemática? Prato cheio pro Von Daniken...


Pra quando você for lá:

As ruínas de Stonehenge ficam próximas a Salisbury, duas horas de Londres. As agências inglesas vendem um passeio de um dia a partir de Londres, com parada também em outras ruínas, por cerca de US$ 80. Pode-se ainda ir de trem até Salisbury e de lá tomar um ônibus.


Imagens




Fontes e bibliografia:
Discovery Communications Inc
Barsa Planeta
Revista Turismo
Arquivo Unesco
Stonehenge.co.uk

Baal-Habab




Algumas representações de Baal-Habab

Vamos conhecer agora a história de "Baal", o deus cananeu tantas vezes citado no Antigo Testamento da Bíblia; um mito importantíssimo por muito tempo na terra de Canaã e em regiões vizinhas.

Desde a década de quarenta, a arqueologia tem possibilitado conhecer cada vez mais sobre os povos antigos do oriente, principalmente o povo cananeu e sua religião. Descobertas arqueológicas no local da antiga cidade de "Ugarit" mostraram centenas de placas de barro pertencentes à biblioteca do templo de "Ras Sharma". Esses textos religiosos provam que a oposição contra a qual a tradição de Moisés teve que lutar não era uma simples aglomeração de pequenos cultos de fertilidade presididos por insignificantes deuses e deusas, mas, pelo contrário, um dos mais elaborados sistemas religiosos do mundo antigo. A religião dos cananeus já era bem difundida e já estava estabelecida na Palestina antes da conquista israelita. Era uma religião com ritos bem elaborados e se identificava com os interesses de uma população agrícola. A religião dos cananeus era identificada com a natureza e tinha por objetivo ensinar os homens a cooperarem e a controlarem o ciclo das estações.

A história de Baal começa com a batalha entre Baal e “Yam-Nahar”, o deus dos mares e rios. Ela está contada em pequenas tábuas que datam do século XIV aC. Baal e Yam viviam ambos com “El”, o Sumo Deus cananeu. No conselho de El, Yam exige que Baal lhe seja entregue. Mas, durante a batalha, usando duas armas mágicas, Baal derrota Yam e está para matá-lo quando “Asherah” (esposa de El e mãe dos deuses) diz que é desonroso matar um prisioneiro. Baal envergonha-se e poupa Yam. Nesta batalha, Yam-Nahar representa o aspecto hostil dos mares e rios que ameaçam constantemente inundar a terra, enquanto Baal, o deus da tempestade, torna a terra fértil.

Em outra versão, Baal mata o dragão de sete cabeças “Lotan”, chamado em hebraico de “Leviatã”. Em quase todas as culturas, o dragão simboliza o latente, o oculto e o informe diferenciado; portanto, com um ato verdadeiramente primitivo, Baal interrompeu o retorno à informidade primal. Por essa razão, é recompensado com um belo palácio, construído pelos deuses em sua honra. No início da própria história da religião, portanto, a criatividade é vista como divina. E na verdade nós ainda usamos essa linguagem religiosa para falar da “inspiração criadora", que refaz a realidade e traz novo sentido ao mundo. Assim acontece nas artes plásticas, na música, na literatura, no trabalho, nas relações humanas...

Mas Baal sofre uma inversão: morre e tem que descer ao mundo de “Mot”, o deus da morte e da esterilidade. Quando sabe do destino de seu filho, o Sumo Deus El desce de seu trono, veste uma tanga e retalha as faces, mas não pode redimir o filho. É “Anat”, irmã e amante de Baal, que deixa o reino divino e vai em busca dele, na verdade sua alma gêmea, desejando-o, segundo o texto das tábuas, “como uma vaca deseja o seu bezerro e uma ovelha o seu cordeiro”. Encontra o seu corpo, e então prepara e oferece aos deuses e homens um banquete fúnebre em sua honra: pega Mot, abre-o com sua espada, divide-o, queima-o e tritura-lhe “como milho”, antes de semeá-lo ao chão. É assim que Baal se torna o deus do vento e do clima. De acordo com o baalismo, era ele quem enviava orvalho, chuva e neve e, conseqüentemente, quem dava fertilidade para a terra. Os cananeus acreditavam que era por causa de Baal que, ano após ano, a vegetação retornava após a estiagem, as fêmeas dos animais tinham inúmeras crias e as mulheres davam filhos e filhas para seus maridos.

Histórias semelhantes são contadas sobre as outras grandes deusas – Inana, Ishtar e Ísis – que buscam um deus morto e dão vida nova ao solo. Os cananeus estabelecem, entretanto, que a vitória de Anat deve ser perpetuada, ano após ano, em comemoração ritual. Mais tarde – não podemos saber ao certo como, pois as fontes são incompletas – Baal é trazido de volta à vida e devolvido a Anat. É uma apoteose de realização, inteireza e harmonia, simbolizada pela união dos sexos. E era celebrada numa grande festa, na antiga Canaã, com rituais bacanálicos, envolvendo sexo ritual, incesto e serpentes... não admira que, no texto bíblico do Antigo Testamento, o povo de Israel seja admoestado a manter distância das práticas do povo de Canaã...

Assim, ao imitarem os seus deuses, aqueles homens e mulheres acreditavam partilhar a luta deles contra a esterilidade e asseguravam a criatividade e a fertilidade do mundo. Mas a morte de um deus, a sua busca pela deusa e o posterior retorno triunfante à esfera divina eram temas religiosos presentes em muitas culturas antigas. Daí a completa originalidade da muito diferente religião do Deus Único adorado pelos hebreus. Uma novidade radical e inteiramente estranha, que exigia ascetismo, trazia regras de conduta moral e, mais do que isso, solicitava uma entrega amorosa. Uma proposta para um novo modo de vida, enfim; surgida num ambiente completamente hostil e que não conseguia compreendê-la. E que mesmo contra o tempo e todas as probabilidades naturais, superou tudo e todos e subsiste até os nossos dias.



Bibliografia:

ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus - quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo, São Paulo: Companhia das Letras, 1999;
MENDENHALL, George E. The Biblical Archeologist, Londres: London Publishing, 1962.



Fato histórico ou mito?

Esta é uma pausa na continuidade da 'enciclopédia das religiões' do a Arte das artes, para tratar de um assunto atual e de grande importância para todos os que se interessam pelos temas abordados neste espaço.




“No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe tetrarca da região da Ituréia e Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene…” - Lucas 3:1


Com o crescimento dos movimentos agnósticos e o significativo aumento do número de ateus no mundo, crescem também as tentativas de negação à existência concreta de Jesus, chamado o Cristo, como personagem histórico. Ocorre que o maior sonho de todo ateu sempre foi o de poder, um dia, ver a ciência provar que Jesus de Nazaré nunca existiu, que se tratou sempre de apenas um mito, criado com algum propósito delirante. Nessa hora, fazem questão de esquecer aquele princípio básico que eles mesmos pregam, o de que "a explicação mais simples é com certeza a explicação mais provável".

Digo isso porque é muito mais simples e sensato supor que de fato existiu um fundador para o movimento que mais tarde se denominou Cristianismo, do que imaginar que tudo foi apenas o fruto da imaginação de algum mega-gênio criativo que viveu há cerca de dois mil anos na região da Palestina: alguém que tramou, sabe-se lá com que propósito, a mudança mais radical no rumo da História, em todos os tempos... Aceitar que existiu um Jesus é bem mais simples do que supor que, do meio daqueles vilarejos paupérrimos de 2.000 anos atrás, daquele povo extremamente humilde, composto de iletrados e fanáticos religiosos que se horrorizavam só de imaginar algo que contrariasse a letra da Lei mosaica, foi elaborada uma tramóia absurdamente bem concatenada e a criação do mais brilhante personagem fictíco que jamais existiu.

Ainda mais, seria preciso aceitar que tantas e tantas pessoas simplesmente acreditaram gratuitamente, e piamente, nessa falsa história, a ponto de sacrificarem suas vidas em nome dela! Puxa, isso é o que eu chamo de teoria da conspiração... Uma super, ultra, giga-teoria da conspiração! Essa, definitivamente, não seria a explicação mais simples para o fenômeno Cristianismo.

Eu já participei de diversas reuniões de grupos ateus, e sempre achei muito interessante. Aprendi (e aprendo) muito com eles. A minha opinião é que essas pessoas cumprem um papel importante em nossa sociedade, até porquê a onda de fundamentalismo religioso que se instala no mundo de hoje é preocupante. Talvez estejamos precisando, sim, de um contraponto. Mas o que mais me fascina nos ateus é o fato tão contraditório de muitos deles encararem o ateísmo como uma espécie de nova religião, uma nova bandeira sagrada a ser levantada e defendida, com unhas e dentes, pelo bem da humanidade. É fácil encontrar, entre ateus atuantes, os mesmos erros que tanto condenam nos religiosos radicais: extremismo, negação ou desconsideração dos fatos, aquele típico ar de superioridade de quem não admite ser capaz de errar... Impressiona o sentimento genuinamente 'religioso' que move muitos dos céticos mais ferrenhos. - Acreditam piamente que livrar o mundo da “superstição” e da “ignorância” é a sua missão de vida.

Muitos ateus acreditam que desmoralizar as religiões é a melhor coisa que um ser humano realmente consciente poderia fazer para tornar o mundo um lugar melhor. Na opinião de muitos deles, religião e fé são os piores venenos que já existiram no mundo. É senso comum, entre eles, que todas as guerras, todas as mazelas e todo sofrimento da humanidade, no decorrer da História, foram provocados por culpa exclusiva das religiões e do sentimento religioso.

Mas, como em todo movimento, toda comunidade e em qualquer grupo, aí existem pessoas e pessoas. Não devemos classificá-los como 'bons' nem 'maus'. São apenas pessoas reunidas em torno de um ideal comum. Pessoas que acreditam que somos apenas acidentes de percurso: amontoados de “genes egoístas” buscando, cada qual, a própria sobrevivência. - Além da óbvia e imediata constatação de que essa teoria não explica o altruísmo humano e nem a nossa consciência do bem e do mal, é importante ressaltar que muitos dos mais importantes cientistas, físicos, biólogos e geneticistas do nosso planeta acreditam em Deus, como é o caso do biólogo (M.D., Ph.D.) Francis S. Collins, o diretor do Projeto Genoma (talvez o maior empreedimento científico de todos os tempos) que escreveu um livro onde apresenta evidências genéticas da necessidade da existência de um Organizador Inteligente para explicar o Universo dos seres vivos. Além disso, segundo a publicação científica referência "Nature"(2006), 59% dos maiores gênios científicos da atualidade acreditam em Deus. Maioria. Se a ciência pudesse comprovar, num ou noutro sentido, que Deus não existe, como explicar que a maior parte das mentes científicas mais brilhantes da humanidade acreditem em Deus?


"Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito de ciência nos aproxima dEle" - Louis Pasteur


Mas este post não é sobre ateísmo. É sobre um fato que os ateus ativistas gostariam muito que não fosse exatamente isso: um fato. Estou falando da existência histórica de Jesus, chamado Cristo, o maior revolucionário que já pisou o nosso planeta. Embora até mesmo alguns grupos céticos menos radicais aceitem a sua existência histórica, alguns outros insistem em que Jesus de Nazaré não teria existido de fato, tratando-se de apenas um mito. Estranhíssimo ver esses grupos (que se orgulham de alegadamente seguir princípios estritamente científicos), assumindo uma postura assim tão irracional, fechada em torno de uma idéia pré-concebida e indo contra a opinião dos mais ilustres historiadores do planeta.

É necessário, ao pesquisador seriamente comprometido com a Verdade, manter em mente que praticamente todos os mais reconhecidos pesquisadores do mundo reconhecem a existência histórica de Yeshoua (do hebraico ‘Jesus’) como fato real e historicamente atestado. Nos maiores centros universitários do mundo, os mais renomados eruditos consideram a existência de Jesus, personagem histórico e real, como ponto pacífico.

Essas lamentáveis contestações de um fato comprovado se baseiam, principalmente, na crença (errônea) de que não existem registros históricos de Jesus além dos Evangelhos. Pra começo de conversa, se há alguma carência de registros seculares (isto é, não ligados à esfera religiosa), isso não pode ser considerado em nada surpreendente. Por quê?

Primeiro: porque apenas uma pequena fração dos registros escritos desse período histórico sobreviveram ao tempo;

Segundo: porque existiam poucos - se é que de fato realmente existiam – escribas documentaristas da História naquela região da Palestina, no tempo de Jesus. Existe uma documentação muito maior retratando os costumes e acontecimentos nas regiões mais ricas ocupadas pelo império romano na época. Mas o que ocorria naquela região miserável realmente não era de maior interesse para os magistrados romanos;

Terceiro: porque os romanos viam o povo judeu como apenas mais um dos grupos étnicos que precisavam tolerar; eles tinham pouquíssima consideração para com aquela gente ingovernável;

Quarto: finalmente, porque os próprios líderes judeus mais influentes também ansiavam por fazer esquecer Jesus. Assim, os escritores seculares somente começaram a se referir ao Cristianismo quando este movimento tornou-se popular e começou a incomodar o estilo de vida que tinham.

Mas ainda que os testemunhos seculares extra-bíblicos sobre Jesus não sejam abundantes, eles existem, e não podem ser considerados raros. Muitos sobreviveram ao tempo e fazem referências a ele. Entre estes, os mais fidedignos são os de Justo de Tiberíades, Filon de Alexandria, Tácito, Suetônio e também Plínio, o Jovem, principais fontes seculares que fizeram alusão à figura histórica de Jesus de Nazaré em seus escritos. Sem contar Flávio Josefo, outra fonte isenta e importante, que pode ser contestada na forma, mas nunca na autenticidade. É importante esclarecer que, academicamente, essa quantidade de referências isentas é mais que suficiente para ser considerada como registro comprobatório de um personagem factual, histórico. Mas, no caso de Jesus, como tudo que envolve questões religiosas, sempre vai haver quem procure polêmicas.

Não é de se surpreender que os registros não cristãos mais antigos tenham sido feitos por judeus. Flávio Josefo, que viveu até 98 dC, era um historiador judeu romanizado. Ele escreveu livros sobre a História dos Judeus para o povo romano que figuram entre as principais referências daquele período histórico. Em seu grande tomo “Antiguidades Judaicas” ele faz referências a Jesus. Em uma delas, escreve:

“Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, que praticou boas obras e cujas virtudes eram reconhecidas. Muitos judeus e pessoas de outras nações tornaram-se seus discípulos. Pilatos o condenou a ser crucificado e morto. Porém, aqueles que se tornaram seus discípulos pregaram sua doutrina. Eles afirmam que Jesus apareceu a eles três dias após a sua crucificação e que está vivo. Talvez ele fosse o Messias previsto pelos misteriosos prognósticos dos profetas” - Josefo, “Antiguidades Judaicas” XVIII, 3:2


Em outras partes de sua obra, Josefo também registra a execução de João Batista (XVIII: 5,2) e o martírio de Tiago o Justo (XX: 9,1), referindo-se a este como “o irmão de Jesus, que era chamado Cristo”. Deve-se notar que o emprego do verbo 'ser' no passado, na expressão “Jesus que era chamado Cristo” testemunha contra possíveis adulterações, já que um cristão certamente escreveria “Jesus Cristo”, ou "Jesus que é o Cristo", e nunca "era chamado o Cristo".

O Talmude, outra fonte judaica importantíssima, também faz referências históricas a Jesus. Nele, os rabinos identificam Jesus e fazem referências nada simpáticas a ele e à sua Igreja. Esses escritos também foram preservados através dos séculos pelos judeus, de maneira que os cristãos não podem ser acusados de terem adulterado o texto. É interessante notar que o Talmude registra os milagres de Jesus e não tenta negá-los, mas sim relacioná-los com as “artes mágicas” do Egito(!). Também a sua crucificação é datada como tendo ”ocorrido na véspera da Festa da Páscoa”, em plena concordância com os Evangelhos (Lucas 22 - João 19). Ainda mais impressionante, e também de forma semelhante aos Evangelhos (Matheus, 27:51), o Talmude registra a ocorrência do terremoto e o véu do templo que se dividiu em dois durante a morte de Jesus(!). Mais uma vez, também Josefo, em sua obra Guerra Judaica confirma esses eventos.

Os romanos também escreveram sobre os cristãos e sobre Jesus. Plínio o Moço, procônsul na Ásia Menor, escreveu em uma carta dirigida ao imperador Trajano:

“…os cristãos têm como hábito reunir-se em uma dia fixo, antes do nascer do sol, e dirigir palavras a Cristo como se este fosse um deus; eles mesmos fazem um juramento, de não cometer qualquer crime, nem cometer roubo ou saque, ou adultério, nem quebrar sua palavra, e nem negar um depósito quando exigido. Após fazerem isto, despedem-se e se encontram novamente para a refeição…” - Plínio, Epístola 97


Uma atenção especial deve ser dada à frase “a Cristo como se este fosse um deus; trata-se de um testemunho secular, de pessoas que não acreditavam em Jesus como sendo o Filho de Deus, mas que apenas testemunham sua existência, de maneira real e incontestável. Também é interessante comparar esta passagem com Atos dos Apóstolos (20, 7 a 11), uma narração bíblica sobre a primitiva celebração cristã do domingo.

Um outro historiador romano, Tácito, reconhecido pelos modernos pesquisadores por sua precisão histórica, escreveu sobre Cristo e sua Igreja:

“O fundador da seita foi Crestus, executado no tempo de Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos. Essa superstição perniciosa, controlada por certo tempo, brotou novamente, não apenas em toda a Judéia… mas também em toda a cidade de Roma…” - Tácito, Anais: XV,44


Mesmo desprezando a fé cristã, Tácito tratou a execução de Cristo como fato histórico, fazendo relação com eventos e líderes romanos (novamente em conformidade com os Evangelhos - como em Lucas 3).

Outros testemunhos seculares ao Jesus histórico incluem Suetônio, - em sua 'Biografia de Cláudio', - Phlegan (que registrou o eclipse do sol durante a morte de Jesus!) e até mesmo Celso, um filósofo pagão não muito conhecido. Precisamos manter em mente que a maioria dessas fontes eram não só seculares (laicas) mas também anti-cristãs. Todos esses autores, inclusive os escritores judeus, não desejavam promover o Cristianismo, ao contrário. Eles não tinham motivação alguma para distorcer seus registros em favor do Cristianismo, mas sim para negá-lo.

O citado Plínio era um perseguidor do Cristianismo, que punia ou executava qualquer um que se confessasse cristão. Se Jesus fosse um simples mito e sua execução uma mentira, sem nenhuma dúvida Tácito teria relatado e divulgado tal fato a plenos pulmões, pois isso seria do seu máximo interesse. - Ele jamais teria ligado a execução de Jesus aos líderes romanos. - Esses escritos, portanto, apresentam Jesus como um personagem real e histórico, indubitavelmente. Negar a confiabilidade de todas as fontes que citam Jesus seria negar todo o resto da História antiga, e, seguindo essa mesma linha de raciocínio, teríamos que duvidar também da existência histórica de uma infinidade de homens e mulheres célebres, como Sócrates e Alexandre Magno, por exemplo.



"Jesus o Bom Pastor" - pintura do século II


Obviamente não é a minha intenção com esta postagem tentar 'provar' que esses antigos escritos seculares testemunhem que Jesus era o Filho de Deus ou o Cristo, e muito menos ratificar esta ou aquela religião. Isso é matéria de fé. - Mas esses registros demonstram, acima de qualquer dúvida, que um homem incomum chamado Jesus viveu em nosso planeta no início do século I da nossa era, e que iniciou um movimento que cresceu a proporções impressionantes e perdura até os nossos dias. Esse homem foi chamado de Rabi, Mestre, Cristo, Messias, Deus. Os cristãos do primeiro século já o consideravam divino. Por fim, como vimos, esses escritos suportam outros fatos encontrados na Bíblia a respeito da vida de Jesus. Logo, afirmar que Jesus nunca existiu, que a sua existência é um mito, é renegar a confiabilidade de todos os nossos métodos para estabelecer conhecimento a respeito da História antiga.


Enuma Elish


O “Enuma Elish” é o poema épico babilônico. Escrito em sete tábuas de argila, data do século XII aC, no mínimo, e foi encontrado no século XIX nas ruínas da biblioteca de Assurbanípal, em Nínive, próximo da atual cidade de Mossul, no Iraque. Nele é contada a história da origem dos deuses, dos homens e do universo.

Segundo o Enuma Elish, os deuses surgiram aos pares, de uma Massa informe, aguada – uma substância que pertencia, ela própria, ao mundo divino. No mito babilônico – como depois na própria Bíblia – não houve criação a partir do nada, uma idéia inexistente no mundo antigo. Antes que existissem os deuses ou os seres humanos, havia essa Matéria Prima Sagrada, desde toda a eternidade. Ao tentar imaginar esse material espiritual divino, os babilônios pensaram que deveria ser semelhante às terras pantanosas da Mesopotâmia, onde as inundações ameaçavam constantemente destruir as frágeis obras dos homens. No Enuma Elish, o caos não é, portanto, uma massa ígnea fervilhante, mas um bolo mole no qual não existem limites, definição ou identidade.

“Quando o doce e o amargo se misturaram, nenhum junco foi trançado, nenhuma palha sujou a água, os deuses não tinham nome, natureza ou futuro.” - Enuma Elish


Então surgiram três deuses do pântano primal: “Apsu”, o deus das águas dos rios, sua esposa “Tiamat”, deusa do mar salgado e “Mummu”, o “Ventre do Caos”. Mas esses deuses eram, por assim dizer, um modelo primitivo inferior, que precisava de aperfeiçoamentos. Os nomes “Apsu” e “Tiamat” podem ser traduzidos como “abismo”, “vazio” ou “fosso sem fundo”. Eles partilhavam a Informe Inércia original, e ainda não haviam atingido uma identidade nítida. Em conseqüência, emanou deles uma sucessão de outros deuses, num processo conhecido como “Emanação”, que iria se tornar muito importante na história da idéia de Deus. Os novos deuses surgiram, um do outro, aos pares, cada um dos quais adquirindo uma maior definição que o anterior, à medida em que avançava essa evolução divina. Primeiro vieram “Lahmu” e “Lahamn” (os nomes significam ‘aluvião’: água e terra continuam misturados). Em seguida “Ansher” e “Kishar”, identificados respectivamente com os horizontes do céu e do mar. Depois vieram “Anu” (o céu) e “Ea” (a terra), e pareceram completar o processo. O mundo divino tinha céu, rios e terra, distintos e separados uns dos outros. Mas a criação apenas começara: as forças do caos e desintegração só podiam ser mantidas à distância graças a uma luta penosa e incessante. Os deuses novos, dinâmicos, rebelaram-se contra seus pais, mas embora Ea conseguisse dominar Apsu e Mummu, não pôde submeter Tiamat, que produziu toda uma raça de monstros deformados para lutar por ela. Felizmente, Ea tinha um filho maravilhoso: “Marduk”, o deus sol, o mais perfeito de toda a linhagem divina. Numa reunião da Grande Assembléia dos deuses, Marduk prometeu combater Tiamat, com a condição de tornar-se governante deles. Contudo, só com grande dificuldade conseguiu matar Tiamat, após uma longa e perigosa batalha. Nesse mito, a Criação é uma luta, travada laboriosamente contra dificuldades arrasadoras.

Mas Marduk acaba de pé sobre o vasto cadáver de Tiamat, e decidiu criar um novo mundo: dividiu o corpo de Tiamat (o mar) em dois, para formar o arco do céu e dos homens; depois, criou as leis que iriam manter tudo em seu devido lugar. Devia-se alcançar a ordem. Mas a vitória não era completa. Tinha de ser restabelecida, por meio de uma cerimônia especial, ano após ano. Em conseqüência, os deuses se reuniram na Babilônia, centro da nova Terra, e construíram um templo onde se podiam realizar os ritos celestes. O resultado foi o grande Zigurate (torre-templo) em homenagem a Marduk, “o templo terreno, símbolo do Céu infinito”. Quando ficou concluído, Marduk tomou seu lugar na reunião e os deuses gritaram: “Esta é Babilônia, cidade querida do deus (Marduk), seu amado lar!”. Depois realizaram a Leitura Sagrada “da qual o universo recebe a sua estrutura, o mundo oculto se faz claro e os deuses têm seus lugares atribuídos no universo”. Essas leis e rituais são obrigatórios para todos; até os deuses têm de observa-los para garantir a sobrevivência da criação.

O mito expressa o sentido interior da civilização, na visão dos babilônios. Eles sabiam muito bem que haviam sido seus próprios ancestrais que tinham construído o Zigurate, mas a história do Enuma Elish articulava a crença em que sua empresa criativa só podia durar se partilhasse do poder do divino. O ritual da Leitura Sagrada que celebravam no Ano Novo fora criado antes que os seres humanos passassem a existir: estava escrita na própria natureza das coisas, à qual até os deuses tinham de se submeter. O mito também expressava a convicção de que a Babilônia era um lugar sagrado, centro do mundo e lar dos deuses - uma idéia crucial em quase todos os sistemas religiosos da Antiguidade. A idéia de uma cidade santa, onde homens e mulheres se sentiam em íntimo contato com o poder sagrado, fonte de toda existência e eficiência, seria importante em todas as três religiões monoteístas.

Por fim, quase como uma reconsideração, Marduk criou a humanidade. Pegou “Kingu” (o aparvalhado consorte de Tiamat), matou-o e modelou o primeiro homem misturando o sangue divino com o pó. Os deuses observaram, pasmos admirados. Há, porém, certo humor nessa visão mítica da origem da humanidade, que não é de modo algum o auge da criação, mas deriva de um dos deuses mais estúpidos e ineficazes. Mas a história estabelecia outro ponto importante: o primeiro homem fora criado da substância de um deus. Portanto, partilhava da natureza divina, por mais limitada que fosse a forma. Não havia fosso entre os seres humanos e os deuses. O mundo natural, homens, mulheres e os próprios deuses, todos partilhavam da mesma natureza e derivavam da mesma substância divina. A visão pagã era holística, isto é, deuses não eram separados de homens, numa esfera ontológica separada. A divindade não era necessariamente diferente da humanidade. Portanto, não havia necessidade de uma revelação especial dos deuses, que baixasse orientações divinas do alto à Terra. Os deuses e seres humanos partilhavam da mesma situação, sendo a única diferença que os deuses eram maiores, mais poderosos e imortais.

Essa visão holística não se limitou ao oriente médio, era comum no mundo antigo. No século VI aC, Píndaro expressou a versão grega dessa crença em sua ode sobre os jogos olímpicos:


Única é a raça, única,
de homens e deuses;
de uma única mãe uns e outros tiramos alento.
Mas uma diferença de poder
Em tudo nos mantém separados;
Pois um é o mesmo que nada,
mas o brônzeo céu continua
Um hábito fixo para sempre.
Contudo podemos, em grandeza da mente
Ou do corpo, ser como os Imortais.



Píndaro não vê os atletas como seres isolados, cada um lutando por si, mas os compara aos deuses, o padrão para toda realização humana. Os homens não imitavam os deuses como seres distantes, mas os entendiam como correspondentes ao potencial da sua própria natureza essencialmente divina.

O mito de Marduk e Tiamat parece ter influenciado o povo de Canaã, que contava uma história semelhante sobre "Baal-Habab", o deus da tempestade e da fertilidade, muitas vezes citado na Bíblia.


Continua...



Fontes e bibliografia:

ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus: Quatro Milênios de Busca do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, São Paulo: Companhia das Letras, 1999.



Mitos primordiais: Criação e Origens

Réplica do templo da antiga deusa Ishtar

De fato, tudo leva a crer que no mundo antigo as pessoas acreditavam que só participando da vida “mágica” é que se tornariam de fato humanas. A vida terrestre era obviamente frágil, convivia-se rotineiramente, e intimamente, com a mortalidade. Imagina-se que as expectativas do tempo de vida eram muitíssimo mais baixas do que as atuais. Mas, se imitassem as ações dos deuses, os humanos partilhariam, em certa medida, dos poderes e da eficiência superiores deles. Assim, ensinava-se que os deuses haviam mostrado aos homens como construir suas cidades e templos, cópias menores dos lares deles no reino divino. O mundo sagrado dos deuses, como contavam os mitos – era não apenas um ideal ao qual almejavam homens e mulheres, mas o protótipo da existência humana; era o modelo ou arquétipo original no qual se baseara a vida aqui embaixo. Acreditava-se que tudo na terra era uma réplica de alguma coisa do mundo divino, percepção essa que deu forma à mitologia, aos rituais e à organização social da maioria das culturas da Antiguidade, e continua a influenciar as sociedades mais tradicionais até os nossos dias!

No Irã antigo, por exemplo, acreditava-se que cada pessoa ou objeto no mundo material (‘getik’) tinha sua contraparte no mundo da realidade sagrada (‘menok’). É uma perspectiva difícil de ser entendida por nós, no mundo moderno, pois vemos a autonomia e a nossa independência como valores supremos. Mas o famoso provérbio “post coitum omne animal tristis est” (‘após o sexo, todos os animais ficam tristes’), ainda expressa uma experiência muito comum - essa expressão alude ao fato de que, após um momento intenso e avidamente esperado, muitas vezes sentimos que perdemos alguma coisa maior, que a felicidade real e perene, pela qual tanto ansiávamos, continua além do nosso alcance. Como alcançar aquele estado de perfeita e constante felicidade que tanto queremos? Nossos ancestrais tentaram fazê-lo buscando a perfeição que não se encontra nesta Terra ou nesta vida. Para tanto, imitar os deuses parecia ser a única maneira.

A imitação de Deus ainda é uma importante idéia religiosa: descansar no Shabat, lavar os pés de alguém na Quinta-feira Santa – atos em si desprovidos de sentido – são hoje significativos e sagrados porque as pessoas acreditam que foram praticados antes por Deus ou por uma manifestação Sua. Uma espiritualidade semelhante caracterizou o mundo antigo da Mesopotâmia. O vale do Tigre-Eufrates, onde hoje é o Iraque, foi habitado já em 4000 aC pelo povo conhecido como sumério, que estabeleceu uma das primeiras grandes culturas do Oikumene (mundo civilizado). Nas cidades de Ur, Erech e Kish, os sumérios criaram a escrita cuneiforme, construíram as extraordinárias torres-templos chamadas "zigurates" e desenvolveram uma legislação, literatura e mitologia impressionantes. Não muito depois, a região foi invadida pelos arcádios semitas, que adotaram a língua e cultura da Suméria. Ainda mais tarde, por volta de 2000 aC, os amoritas conquistaram a civilização arcádio-suméria e fizeram da Babilônia sua capital. Por fim, cerca de quinhentos anos depois, os assírios se estabeleceram na vizinha Ashbur e acabaram por conquistar a própria Babilônia no século VIII aC. Essa tradição babilônica também acabou por afetar a mitologia e a religião de Canaã, que viria a se tornar a Terra Prometida dos antigos israelitas. Como outros povos do mundo antigo, os babilônios atribuíam suas conquistas culturais aos deuses que haviam revelado seu estilo de vida aos místicos ancestrais deles. Assim, supunha-se que a própria Babilônia era uma imagem do Céu, sendo cada um dos seus templos uma réplica de um palácio celeste.

A "ligação com o mundo divino" era festejada e perpetuada todos os anos na “Grande Festa de Ano Novo”, que já se havia estabelecido firmemente no século VII aC. Comemorada na cidade sagrada da Babilônia no mês de nisan – nosso abril – a festa entronizava solenemente o rei e estabelecia seu reinado por mais um ano. Contudo, essa estabilidade política só podia durar na medida em que participasse do governo mais duradouro e eficiente dos deuses, que haviam trazido ordem ao caos primordial quando criaram o mundo. Os onze dias sagrados da Festa pretendiam extrair, assim, os seus participantes do mundo profano e lançá-los dentro do mundo eterno dos deuses, por meio de gestos rituais. Matava-se um bode expiatório para anular tudo que era velho e agonizante. A humilhação pública do rei e a entronização de um rei carnavalesco em seu lugar representavam o caos original. Por fim, uma falsa batalha reproduzia a luta dos deuses contra as forças da destruição.

A esses atos simbólicos eram atribuídos, portanto, valor sacramental: possibilitavam ao povo mergulhar no poder sagrado, ou “mana”, do qual dependia sua grande civilização. Sentia-se que a cultura era uma frágil conquista, que sempre poderia cair presa das forças da desordem e da desintegração (o fato de essa sensação permanecer fortemente sentida nos dias atuais seria mera coincidência?). Na tarde do quarto dia da festa, sacerdotes e atendentes entravam no aposento mais sagrado do templo para recitar o “Enuma Elish”, poema épico sobre o mito da criação, escrito em sete tábuas de argila, que comemorava a vitória dos deuses sobre o caos.

A história não era uma narrativa factual das origens físicas da vida na Terra, mas uma alternativa deliberadamente simbólica de sugerir um grande mistério e liberar seu poder sagrado. Uma versão literal da criação seria impossível; o mito e o símbolo eram, pois, a única maneira adequada de descrevê-los. Um breve exame do Enuma Elish nos oferece uma bela visão da espiritualidade que deu origem a diversas das idéias de Deus posteriores.


Tábuas do "Enuma Elish"


Embora a versão bíblica e também a versão corânica da criação tomassem, em última análise, uma forma muito diferente, esses estranhos mitos parecem não ter desaparecido por completo, pois há indícios de que acabaram por reentrar na história da idéia de Deus num período bastante posterior, revestidos de um idioma monoteísta.

A história do Enuma Elish começa com a criação dos próprios deuses – um tema que, como veremos, seria muito importante no misticismo judeu e muçulmano.


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