Um dia de cada vez

Eu idealizei este blog com a intenção de compartilhar as minhas descobertas, as minhas experiências e os conhecimentos que adquiri por meio de pesquisa, estudo e prática. Outro objetivo importante deste espaço sempre foi o de dar voz aos visitantes, para que pudessem também fazer o mesmo: compartilhar. Mais do que natural que nesse processo surjam discordâncias, pontos de vista contraditórios, às vezes opostos. Aprender com eles nem sempre é fácil, mas é primordial para quem realmente quer aprender. As dificuldades fazem parte. E aproveitar essas oportunidades para crescer, sem dúvida faz parte da Arte.

A idéia por aqui é doar e dividir. Na economia matemática, quem dá alguma coisa, perde. Quem divide, fica com menos. Na economia da sabedoria ocorre o exato oposto: aquele que mais dá, mais recebe. Quanto mais dividimos, mais temos. Nesse campo, o que se compartilha com o próximo, desapegadamente e sem medida, volta redobrado. Não é poesia. É constatação da verdade.

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Eu tenho muito carinho com o texto que segue, ele é muito especial para mim. Porque foi o primeiro post que eu publiquei na internet, há quase 2 anos, ainda na época que eu administrava um grupo do Yahoo onde eu escrevia pras moscas... Faz tempo que estou querendo republicá-lo aqui, e acho que agora é a melhor hora. Amanhã é sexta feira, então o seu conteúdo vem bem a calhar...



Se possível, leia ouvindo.


Hoje, eu tinha muitas coisas pra fazer. Compromissos. Deveres. Obrigações. Responsabilidades. Como sempre. Como todos os dias.

Saí de casa apressado, cheio de tarefas para cumprir. Quando cheguei no ponto de ônibus (eu viajo de ônibus quase todos os dias), lembrei que tinha esquecido uma coisa importante em casa, então teria que voltar, apanhar essa coisa e depois voltar para o ponto. Oohhh... e já eram 11:45 pm, eu estava em cima da hora pros meus compromissos... e com fome, porque estava ainda em jejum (acordei e fui direto pro computador, trabalhar, onde passei a manhã inteira). Soltei um suspiro, porque o tempo para ir e voltar era o tempo que eu tinha programado para o almoço - aproximadamente 10 minutos. Ficaria sem almoçar de novo (eu faço isso sempre). A diferença é que hoje eu estava com fome... mau-humor.

Pra piorar tudo, hoje é véspera de feriado prolongado, singinifica que se eu não resolver hoje, quinta feira, só na segunda. Serei punido com multa e juros... Irritação, mau-humor. Indignado comigo mesmo, maldito cabeça de vento que sou...

Foi aí que, de repente, resolvi:

Entrei num restaurantezinho simpático que fica ali mesmo, perto do ponto do ônibus, para almoçar tranquilo. Esqueci do mundo e comi sossegadamente, como deve ser; consciente de que eu sou mais importante do que os meus problemas. Adiei compromissos importantes... e daí?! Não me importa. "A cada dia cabem as suas preocupações" - diz o Mestre.

A única coisa tão importante que não pode ser deixada para depois é a própria vida. Então resolvi cuidar do mais importante: a própria vida. Almocei em paz, limpei a mente das pré-ocupações, terminei minha coca-cola calmamente e depois tomei o ônibus... não aquele, mas um outro. Pra onde? Bom, já não dava mais tempo para cumprir as minhas tarefas, então tomei o primeiro coletivo para o parque da Aclimação.

E aqui estou eu, agora. Em pleno parque ensolarado, escrevendo estas linhas num dos meus velhos cadernos, para depois passar tudo para o computador e compartilhar o que estou sentindo agora com quem vier a ler... compartilhar o quanto está sendo bom simplesmente me deixar ficar aqui um pouco, sem fazer nada, sem pensar em nada...

Estou deitado na grama, agora. São 14:30 hs. Do meu lado esquerdo há um arbusto muito belo, com folhas como de palmeira. Do lado direito uma árvore, provavelmente centenária, belíssima, tronco retorcido, parecendo uma pintura de Renoir. Bem à minha frente um lago maravilhoso reflete a luz do sol, ameno, nesta época do ano. Temperatura perfeitamente agradável. Tudo está perfeito. Vez em quando passa um pato preguiçoso, deslizando sobre o espelho d'água bem diante de mim. Também vejo adiante garças, flamingos... O ruído predominante é o canto dos passarinhos...

Ups! Só porque escrevi isto, nesse exato instante, um deles acabou de executar um pequeno solo em lá menor, em minha homenagem!

Como é quinta feira, o parque está quase vazio, muito tranquilo! O único som levemente inconveniente que ouço é o ronco distante de uma daquelas máquinas de podar grama. Mas não chega a incomodar.

Como ficar aqui sem pensar em nada é bom... Sinto-me em perfeita Comunhão com Deus e o Universo...

Bem, eu só queria dizer isso, mesmo: faça você também o que eu fiz hoje, de vez em quando! O dinheiro passa, os problemas passam, as "ondas" deste mundo ilusório vêm e vão, e um dia passarão. Mas momentos gratificantes e simples (e gratuitos) como esse, ficam para sempre. E o bem que fazem à alma são absolutamente impagáveis.


Que o Amor esteja com você


Uma última observação: O fim da história - sabe aqueles compromissos inadiáveis que eu tinha para hoje? Ao chegar em casa, descobri que poderia resolver a maior parte deles via internet, e que as questões financeiras tinham data marcada para sexta feira, amanhã, que não é dia útil. Isso significa que poderei honrá-las na segunda feira, normalmente, sem multas nem juros. Relaxei, tive uma tarde maravilhosa, e todos os meus compromissos estão em dia. Nesse momento, me lembrei de uma Regra Magna:

"Busca primeiro o Reino de DEUS, e as outras coisas"... se resolvem! Acho que foi isso que eu fiz hoje.





Coração valente - o desperto

Esta é a incrível história de um indiozinho, nascido na pitoresca tribo dos "Zuarekes", hoje extinta, cujos membros foram apelidados pelos pesquisadores de “rotativos”.

Essa tribo existiu até há pouco menos de um século, era nômade, e seus membros eram incansáveis andarilhos da região do alto Amazonas. Seus costumes eram algo semelhantes aos dos nossos demais povos indígenas, exceto por um fato curiosíssimo: Levavam suas vidas caminhando, mas confinados no interior de uma imensa clareira no meio da floresta, aberta há muitos séculos por seus ancestrais. Esta clareira era (e é) em forma circular, estabelecida ao redor de uma imensa rocha branca de cerca de 12 quilômetros de diâmetro, completamente circundada por mata densa, formando uma espécie de letra “O” gigantesca, encavada na terra pelos pés dos índios e contornando a rocha. Algo como uma estrada bem ampla, em torno da qual os índios andarilhos passavam suas vidas inteiras caminhando. Acreditavam que a colossal pedra branca era sagrada, um presente do “Espírito da Natureza” aos homens, e que a sua obrigação na Terra, enquanto vivessem, era caminhar e subsistir em torno dela. Aqueles que dela se afastassem, seriam imediatamente devorados pelos "Parauks", demônios terríveis que se alimentavam de almas humanas.

Esses curiosos selvícolas simplesmente levavam suas vidas inteiras vagando em círculos; montando, desmontando e voltando a montar suas cabanas, de tempos em tempos, em pontos sequenciais ao longo desta mesma rota. Em torno dela plantavam, somente dentro dos seus limites promoviam caças, e pescavam no lago "Poirok", situado no lado leste da grande trilha.

Assim foi por um longo tempo, possivelmente muitos séculos. O pajé proibia qualquer um de se afastar da trilha, dominando a tribo pelo terror e sendo cegamente obedecido. Que se saiba, as demais tribos das regiões próximas, nunca foram vistas pelos Zuarekes. Além disso, não havia por que invadir uma área relativamente insignificante, perdida na imensidão dos sete milhões de quilômetros quadrados do nosso Amazonas. Dentro de um mundo incomensurável, viviam como que num "planetinha" só seu.

Mas eu disse que contaria a história de um indiozinho, e aqui vai ela: o nome dele era "Kaituk", que significa “desperto”. Aqueles que acreditam no destino certamente dirão que os seus pais não lhe deram esse nome por acaso, quando conhecerem a sua impressionante história. Desde muito cedo, já aos cinco ou seis anos idade, ele começou a questionar os antigos costumes da tribo com sua mãe. Perguntava muitas vezes a razão de não poder avançar para fora dos limites da grande trilha considerada sagrada, a Puerap. E ganhava dela sempre o mesmo tipo de resposta: - "filho, quem deixar os limites da trilha eterna, será devorado por demônios horríveis. Você quer deixar sua mãe só?" - Com o pai, bastou puxar o assunto uma vez, para o velho bugre fazer valer o título de "selvagem": Aplicou-lhe uma tremenda surra por desrespeitar as tradições ancestrais.

Mas o tempo passou. Kaituk seguia inconformado, como era inconformado seu espírito por natureza. Aos 11 anos ele conseguiu, por intermédio de seu avô, homem sábio e respeitado, o direito a uma audiência com o pajé da tribo, o grande "Guassuk"...

- "A trilha sagrada 'Sourap' foi um presente do 'Espírito da Natureza' ao nosso povo. – começou o pajé - "Nosso antigo ancestral 'Huurap' e sua esposa foram os únicos sobreviventes da antiga geração de seres humanos que habitavam o nosso mundo antes da grande invasão dos demônios, que quase exterminaram a nossa espécie. Depois que quase toda a raça humana já tinha sido devorada, ele, já desesperado em sua fuga, encontrou a grande rocha branca 'Ruatunga'. Nesse momento lembrou-se de pedir ajuda ao Espírito da Natureza. Então ergueu os olhos ao céu e, tocando em Ruatunga, pediu por socorro. Foi quando ouviu um estrondo, e olhando atrás de si, viu o bando de demônios que o perseguia ser dizimado por uma chuva de pedras flamejantes. Então ouviu a voz do 'Espírito da Natureza' saindo de um grande pássaro brilhante que pousava diante dele, dizendo: ‘Como você se lembrou de pedir a minha ajuda, Huurap, vou permitir que você e a sua descendência sobrevivam à terrível era dos demônios. Porém, só viverão enquanto se mantiverem próximos desta grande rocha, que lhes servirá de refúgio. Por determinação minha, os demônios a verão de longe e a respeitarão. Enquanto estiverem próximos dela, à distância máxima de um tronco, não sofrerão nenhum mal!'. O pássaro disse isto e voou para o alto, deixando-o só com sua esposa. Desde esse dia vivemos conforme a sua orientação, e desse modo nos mantemos vivos e somos felizes".

- "Mas, e se os demônios já tiverem ido embora?"
– retrucou Kaituk - "Isso tudo aconteceu há tanto tempo..."

- "O Espírito da Natureza disse que voltaria para nos avisar quando a Era dos demônios tivesse terminado. Devemos confiar nele." – foi a resposta do Pajé, ou algo parecido com isto.

- "Mas, depois de tanto tempo, como saber se o 'Espírito da Natureza' ainda está por aí? E se ele tiver ido pra outro lugar? E se tiver esquecido de nós?" – era um indiozinho teimoso, este, sem dúvida...

Mas o pajé não queria brincadeira com as tradições antigas - "Kaituk! – tornou ele, gravemente – "O Espírito da Natureza sempre cumpre a sua palavra. Ele é eterno e nunca vai nos desamparar nem se afastar para longe."

- "Mas, se ele é eterno, como é que o senhor, que é só um homem mortal, pode saber o que ele pensa, onde está e o que vai ou não fazer?" – Agora ele tinha abusado da sorte, e o pajé, de pele-vermelha já começava a ficar meio roxo.

- "Kaituk, se você já fosse um homem, eu teria de castigá-lo severamente pelo que acabou de dizer. Mas como você ainda é uma criança e em consideração ao seu avô, eu finjo que não ouvi. Contente-se em obedecer aos mais velhos e seguir os costumes, como todo mundo, e tudo ficará bem, para você e para todos nós".

Mas Kaituk não conseguia simplesmente se conformar com aquilo... Como podiam crer tão cegamente numa história só por ela ser muito antiga e ter sido repetida um montão de vezes? Apenas pelo conforto de se viver sempre com segurança, com a tranqüilidade de saber exatamente o que vem depois da próxima curva, o que vem depois de cada árvore no caminho?

E assim, ele, que possuía espírito e maneira de ser diferentes dos de seus irmãos, resolveu, num belo dia, fazer aquilo que seria inevitável que ele um dia fizesse: sair dos limites da trilha, ultrapassar os domínios de sua tribo, conhecer o mundo à sua volta.

Sua alma era sedenta por conhecer coisas novas, ele queria encontrar novos significados para a palavra "desafio", e esta sede já era maior do que ele podia suportar. Tinha quatorze anos de idade (portanto já um adulto, segundo os costumes indígenas) quando resolveu enfim levar a cabo os planos que vinha formulando em sua cabeça há meses. Ele esperou o momento antes do amanhecer, e assim, apenas alguns instantes antes da hora de todos despertarem, deixou sua cabana. Antes de passar pela cortina de palha que servia como porta, não pôde deixar de olhar para sua mãe que dormia, tranqüila em sua simplicidade, sob as tênues manchas da luz da alvorada. E não pôde deixar de se sentir um pouco traidor, pensando que se as lendas estivessem certas e ele viesse mesmo a ser devorado por seres abomináveis, ela sofreria muito por sua causa. Mas havia dentro dele algo que o impelia a querer descobrir mais da vida, algo maior até mesmo que seu amor por sua mãe. Então se afastou depressa da cabana, o mais rápido que pôde, para não ter tempo de mudar de idéia, afinal isso já acontecera antes.

Ao deixar a trilha tão familiar e pisar com seus pés curiosos dentro da mata fechada, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Seus olhos estavam fixos na escuridão diante dele, e todo seu corpo tremia. Mas ele venceu o medo e avançou...

E o que ele encontrou depois de pouco mais de duas horas de caminhada, nem em seus sonhos mais alucinados poderia ter previsto:

Fontes de água pura, cascatas cristalinas, vegetação magnífica, flores e árvores distribuindo em excesso frutos diversos, deliciosos, como ele jamais vira ou provara! Isto sem falar nos novos animais e a variedade de pássaros multicoloridos que cantavam e planavam alegres, uns ao seu redor, outros acima das copas das árvores. Kaituk tinha razão! Ele sempre estivera certo, o tempo todo! E estava radiante!

Kaituk experimentou prazeres completamente novos para ele. Uma alegria incontida crescia, sem parar, dentro do seu espírito, ele mal podia extravasar tanto contentamento! Se esbaldou com as frutas deliciosas que colhia dos muitos pés e arbustos carregados. Correu, pulou, dançou, nadou, perseguiu animaizinhos que não curiosos...

Depois de aproveitar por todo o dia as muitas maravilhas do admirável mundo novo que acabara de descobrir, ao entardecer estava como que anestesiado por uma ressaca de felicidade. Estava exausto. E, então, lembrou-se da sua gente. E se imaginou voltando para a tribo, triunfante, cheio de orgulho pela sua grande façanha. Oh, ele estivera certo todo esse tempo! Já podia até ver a cara de constrangimento do seu pai, por aquela surra homérica! E sua mãe iria ficar tão orgulhosa... Talvez a tribo até o promovesse a novo pajé! Afinal, o valor da sua descoberta era extraordinário! Mas, o melhor de tudo é que a sua gente seria para sempre liberta da monotonia da vida vivida em círculos.

O sol já tinha se despedido quando Kaituk, ainda perdido em devaneios, chegou de volta a Puerap. Pisar de novo aquela terra batida quase estragava o seu ânimo.

Mas, o que aconteceria depois que ele contasse pra todo mundo!.. seu coração pulava dentro do peito! Kaituk correu até sua cabana e encontrou sua mãe com o rosto inchado de tanto chorar... abraçou-a, carinhoso, mas percebeu uma reação estranha da sua parte. Ela estava diferente... Kaituk via todos os seus irmãos da tribo olhando para ele como quem olha um ser de outro mundo. Muito esquisito... mas não havia tempo para tentar descobrir o que estava acontecendo ali. Correndo foi ao encontro do pajé, que a esta altura já tinha sido avisado do seu retorno.

O pajé tinha mandado chamar toda a tribo, que se reuniu em volta do garoto, e Kaituk pôde assim contar a sua maravilhosa história para todos de uma só vez, o que ele mais queria, com um grande sorriso no rosto.

E esse grande sorriso ainda estava em seus lábios quando ouviu o pajé pronunciar a sua sentença de morte, por se deixar encantar e ser usado pelos demônios, para enganar e atrair o seu povo para a morte. Assim foi feito. Kaituk foi executado com a aprovação de todos os membros da tribo, incluindo a sua família.




Esta história é totalmente fictícia, um conto de minha autoria.



Finalmente, o Terceiro Segredo


A Igreja finalmente revelou ao mundo o terceiro segredo de Fátima. No dia 26 de junho do ano 2000, mais de 80 anos(!) após ter sido manifestado aos três "pastorinhos", as autoridades do Vaticano afinal o trouxeram a conhecimento público, a pedido do papa João Paulo II.

Esta é a terceira parte do segredo revelado em 13 de julho de 1917, na Cova da Iria, em Fátima (original em português de Portugal):

"Escrevo em acto de obediência a Vós Deus meu, que mo mandais por meio de sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria e da Vossa e minha Santíssima Mãe.

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: 'Penitência, Penitência, Penitência!' E vimos n'uma luz emensa que é Deus: algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante. Um Bispo vestido de Branco - tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre. Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproximavam de Deus."

Fonte: Site oficial do Vaticano


Aí está a revelação do misterioso Terceiro Segredo (ou Terceira Mensagem) de Fátima, guardado e trancafiado a sete chaves por mais de oito décadas, escondido do público em cofres lacrados e alvo de incontáveis especulações e interpretações por parte de religiosos, pesquisadores, místicos, esotéricos e curiosos de plantão. Especulação e curiosidade que até se justificam, devo conceder, uma vez que a revelação do segredo foi tantas vezes postergada.

Mas, como já seria de se esperar, as especulações não pararam com a declaração oficial do Vaticano. Segundo alguns, esta seria apenas uma parte da mensagem completa. Outros não aceitam a interpretação oficial da Igreja. Recentemente, surgiu um texto misterioso na internet, supostamente revelando a parte faltante da mensagem de Fátima, falando de catástrofes e de uma grande hecatombe. Particularmente, ao ler esse texto, não dei a ele nenhuma importância, porque achei que se tratava de puro sensacionalismo. Além disso, profecias catastróficas (que quase nunca se cumprem) fazem parte do folclore popular e da mitologia humana desde tempos imemoriais.

No entanto, acabei por descobrir (de fonte segura e para minha surpresa, como explicarei adiante) que a nova mensagem, contida nesse texto de autoria desconhecida, faça ou não parte do que se convencionou chamar "O Terceiro Segredo", foi de fato escrita por Irmã Lúcia, no interior da clausura do convento em que viveu a maior parte de sua vida. Segue abaixo a íntegra do texto (segundo Irmã Lúcia, são palavras diretas da Virgem Maria para ela) :

"Veja, minha filha eu mostrei para o mundo o que acontecerá entre os anos 1950 - 2001. Os homens não estão pondo em prática os Mandamentos que Nosso Pai nos deu. Satã está dirigindo o mundo, semeando ódio e discórdia em todos os lugares. Os homens fabricaram armas mortais que destruirão o mundo em minutos, a metade da humanidade será horrorosamente destruída, a guerra começará. Contra Roma, haverá conflitos entre ordens religiosas. Deus permitirá que todos os fenômenos naturais, como a fumaça, o granizo, o frio, a água, o fogo, as inundações, os terremotos, o tempo inclemente, desastres terríveis e invernos extremamente frios, acabem pouco a pouco com a Terra; estas coisas de qualquer maneira acontecerão nas proximidades do ano 2000. Esses que não querem acreditar, agora é tempo, a Mãe Sagrada da humanidade lhes fala.

Pratique atos de caridade com seu próximo que necessita. Dos que não se amam uns aos outros como meu Filho os tem amado, alguns destes poderão sobreviver, mas eles quererão ter morrido; milhões destes perderão a vida em segundos. A classe de castigos que estão em frente a nós, na Terra, é inimaginável, e eles virão, não há nenhuma dúvida. Nosso Senhor castigará duramente a quem não creia nele, aos que o rejeitam, e aqueles que não tiveram tempo para Ele. Eu chamo a todos que venham para meu Filho Jesus Cristo; Deus é ajuda para o mundo, mas todo aquele que não der testemunho de fidelidade e lealdade, este será destruído de forma terrível".


Ainda segundo esse mesmo texto de origem obscura, que foi divulgado em diversos sites, revistas e programas de TV, Pe. Agustín, um conhecido pároco residente em Fátima, afirmou que o papa Paulo VI lhe deu permissão para visitar Irmã Lúcia na clausura, e esta o recebeu com o coração partido. Na ocasião da visita ela teria lhe relatado o seguinte:

''Padre, Nossa Senhora está muito triste porque quase ninguém se interessou pela profecia dela em 1917; assim os bons têm que caminhar por uma estrada estreita, e deste modo, os maus irão por uma estrada larga que os levará diretamente à própria destruição; e me acredite Padre, o castigo virá muito em breve. Muitas almas podem perder-se e muitas nações desaparecerão da Terra. Mas, apesar de tudo isso, se os homens meditarem, rezarem levarem a término ações boas, o mundo poderá ser salvo. Caso contrário, se os homens insistirem em suas maldades, o mundo humano se perderá para sempre.

Chegou o tempo para todos de transcrever a mensagem de Nossa Senhora para seus familiares, seus amigos, para os amigos deles e para o mundo inteiro. De começar a rezar, de elevar seus espíritos, de fazer penitências e de se sacrificar.

Nós estamos a cerca de um minuto do último dia, e a catástrofe se aproxima. Devido a isso, muitos que estão afastados se voltarão aos braços da Igreja de Jesus Cristo. Todos os países, Inglaterra, Rússia, China etc... todos os religiosos, os protestantes, os espíritas, os muçulmanos, os budistas e os judeus. Todos regressarão, adorarão e crerão em Deus, em seu enviado Jesus Cristo e em sua Santa mãe. Mas o que nós devemos esperar? Em todos os lugares se fala de paz e tranqüilidade, mas o castigo virá.

Um homem em uma posição muito alta será assassinado e isso causará a guerra. Uma armada poderosa caminhará através da Europa e a guerra nuclear começará.

Essa guerra destruirá tudo, a escuridão cairá sobre a Terra durante 72 horas. Apenas uma terça parte da humanidade sobreviverá a estas 72 horas de escuridão e terror e começará a viver em uma era nova: serão as pessoas boas.

Em uma noite muito fria, 10 minutos antes da meia-noite, um grande terremoto sacudirá a Terra durante 8 horas. Este será o terceiro sinal de que Deus é quem governa a Terra. Os bons, aqueles que propagarem esta mensagem, a profecia da Santa Mãe Maria anunciada em Fátima, não devem temer, não tenham nenhum receio. O que fazer? Ajoelhe-se peça perdão a Deus. Não deixe a sua casa e não deixe ninguém estranho entrar. Porque só o bom não estará em poder do mal e sobreviverá à catástrofe. De forma que você deve se preparar e permanecer com vida. Como meus filhos que são, lhes darei os seguintes sinais:

A noite será extremamente fria; soprarão ventos muito fortes; haverá muita angústia e em pouco tempo começará um grande terremoto, que fará estremecer toda a Terra. Em sua casa, feche portas e janelas e não fale com ninguém que não esteja em sua casa. Não olhe para fora, não seja curioso, porque esta é a Ira do Senhor. Acenda velas bentas, porque por três dias nenhuma outra luz se acenderá. O movimento da Terra será tão violento que moverá o eixo da Terra (23 a 20 graus); depois ela regressará à sua posição normal. Então uma escuridão absoluta e total cobrirá a Terra inteira. Todo espírito maligno andará solto, fazendo muito mal às almas que não quiseram escutar esta mensagem de advertência e para aqueles que não quiseram se arrepender.

Que as almas benignas cristãs se lembrem de acender as velas santificadas, preparar um altar sagrado com um crucifixo para comunicar-se com Deus através de Seu Filho, e Lhe implorar sua Infinita Misericórdia. Tudo estará escuro. Então, uma grande Cruz Mística aparecerá no céu, lembrando o precioso preço que o Seu Filho pagou por amor à humanidade e pela nossa redenção.

Na casa, a única coisa que poderá dar luz são as velas santificadas de cera, que uma vez acesas nada poderá apagar até que terminem os três dias de escuridão. Todos também devem ter consigo água benta, que aspergirão pela casa inteira, em especial nas portas e janelas. O Senhor protegerá as propriedades dos eleitos. Ajoelhem-se diante da cruz poderosa do Seu divino Filho, rezem com devoção e depois digam o seguinte:

- 'Oh Deus, perdoai os nossos pecados, salvando-nos do fogo do inferno. Levai para o Vosso Lado todas as almas, especialmente aquelas mais necessitadas da Tua Misericórdia. Doce Mãe Maria, intercede por nós! Nós te amamos, salva o nosso mundo.'"


Como disse, esse texto é de fonte obscura e não há informações disponíveis ao seu respeito. Devemos lidar com ele, no mínimo, com muita cautela. Além de tudo, ele está repleto de afirmações no mínimo estranhas para uma revelação dessa natureza, como a definição exata de quantos graus a Terra se deslocaria do seu eixo natural, o que poderia se tratar de um enxerto feito posteriormente à carta de Lúcia, já que em diversas fontes da web encontramos versões dessa mesma carta com ligeiras diferenças entre uma e outra. Em algumas, as datas das previsões vão de 1950 a 2012 (e não 1950 - 2001 - possivelmente uma deturpação para fazer o texto concordar com outras profecias modernas que aludem ao 'fim do mundo' ou a uma 'transformação global' em 2012). Em outras, o termo "água benta" foi substituído por "água magnetizada", mais ao gosto dos esotéricos.

Mas eu disse que, mesmo assim, a carta contida no texto provavelmente teria sido mesmo escrita por Irmã Lúcia. E foi por isso que resolvi publicá-la aqui, como complemento às postagens sobre as aparições de Fátima. Tomei essa decisão depois de ter visto na TV o célebre Pe. Quevedo (que apesar de toda polêmica é um pesquisador importante em fenômenos supranormais e reconhecido internacionalmente), declarar que de fato a carta foi escrita por Irmã Lúcia na clausura; embora na opinião dele o seu conteúdo deva ser desconsiderado, devido a idade já avançada da irmã na época em que a escreveu e o fator "falibilidade humana". Ainda segundo o Pe. Oscar Gonzales Quevedo, profecias catastróficas sobre o fim dos tempos geralmente não devem ser levadas a sério, uma vez que nas Escrituras o próprio Cristo afirma que “Acerca daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem os anjos no céu e nem mesmo o Filho, senão o Pai" (Marcos, 13:32).

Popularmente acreditava-se que as profecias de Irmã Lúcia se cumpririam após a sua morte. Ela faleceu em 11 de fevereiro de 2005. Disseminou-se também, desde a época das aparições, a informação de que após o Papa Pio VI, haveriam 12 papas que chegariam ao fim de seus papados (João Paulo II era o décimo segundo) e que o papa que o precederia (o 11º) teria um período muito curto no papado (o Papa João Paulo I morreu um mês após ter sido eleito). Ainda consta dessa tradição popular (não oficialmente) que o 12º dos sumo pontífices teria um papado longo (João Paulo II ficou 27 anos no papado, de 1978 a 2005 - o 3o papado mais longo da história), e que o seu sucessor (Bento XVI) provocaria uma revolução dentro da Igreja...

Finalizando, acho que temos que reconhecer que Irmã Lúcia, diferente de muitos falsos "videntes" e "profetas" que surgiram ao longo da História, acertou com precisão todos os acontecimentos que previu, tanto os da sua vida particular quando os que se referiam ao destino da humanidade. Ela previu a morte precoce dos seus primos (e que sobreviveria a eles), o fim da Primeira Guerra Mundial e o advendo da Segunda, entre outros eventos históricos. Curiosamente, no exato instante em que eu começava a escrever esta sequência de postagens, há alguns dias, ficava sabendo, pelos telejornais, da ocorrência do terrível Terremoto no Peru e a chegada do Furacão "Dean".



Maria de Fátima




As aparições da Virgem Maria para Bernardete Soubirous ainda não tinham sido plenamente reconhecidas pela Igreja quando ocorreram as aparições em Fátima, Portugal, fenômeno que segundo o aclamado teólogo Michael o’Carrol, “tocaria a Igreja, no grau de papado, mais do que qualquer outro de sua espécie”. Houve um interesse extraordinário, demonstrado não só por uma sucessão dos sumo pontífices, como também por milhões de estudiosos, católicos ou não, do mundo inteiro. Os “três segredos”, que a vidente Lúcia dos Santos alegava ter recebido da Virgem, receberam especial atenção.

A determinação das autoridades em extrair de Lúcia o que ela proclamava saber sobre o futuro da humanidade era até mais implacável do que a que foi exercida sobre os videntes de Salete. Imediatamente após ter conhecimento desses alegados segredos, o prefeito do vilarejo de Fátima, cético e anti-religioso ferrenho, mandou chamar Lúcia e seus dois primos mais moços, Francisco e Jacinta Marto (nessa ocasião, Lúcia acabara de completar 10 anos, Francisco estava para completar 8 e a menor, Jacinta, tinha pouco mais de 7 anos) à presença dele, e lhes disse que revelassem tudo e prometessem não voltar mais ao lugar da alegada aparição. Como nem subornos nem ameaças tivessem nenhum efeito sobre as crianças, o prefeito preveniu Lúcia de que ele obteria o que queria mesmo que isso significasse tirar-lhe a vida(!). O prefeito então mandou prender os três e avisou que, enquanto estivessem na cadeia, um caldeirão de óleo fervente estaria sendo providenciado. Lúcia e os primos ficaram muitas horas à espera, apavorados, atrás das grades, até serem tirados de lá, e, um de cada vez, receberem a notícia de que aquela era a última chance de dizerem o que sabiam, e caso se negassem a dizer a verdade, seriam atirados no óleo. Mas nenhum dos três disse nada que contrariasse o que haviam afirmado antes!

Derrotado, o prefeito determinou que as crianças fossem interrogadas por uma equipe de teólogos e religiosos, o que durou dois meses. Dois meses de interrogatórios e pressão psicológica contínua sobre crianças muito simples - crianças criadas no campo, iletradas e acostumadas a dizer sempre a verdade. E durante todo esse período, a única informação obtida pelas autoridades sobre os segredos foi a declaração de Francisco de que o povo ficaria triste se os ouvisse. O que Lúcia lhe contara fora apenas isso, disse o menino.


Os pastores Lúcia, Francisco e Jacinta, em foto de 1917


Lúcia era sem dúvida a principal protagonista dos fenômenos ocorridos em Fátima. A primeira aparição, no lugar conhecido como Cova da Iria, onde as crianças estavam pastoreando ovelhas, aconteceu em 13 de maio de 1917. Como descreve Lúcia, “uma Senhora vestida de branco, mais brilhante que o sol, reluzindo mais clara e intensamente que uma taça de cristal cheia de água cristalina, atravessada pelos raios de sol mais ardentes”, apareceu diante das três crianças enquanto elas descansavam à beira de um carvalho. Francisco e Jacinta disseram ter ouvido a mulher em branco dizer: “Eu venho do Céu. E os convido a estar comigo aqui, durante seis meses consecutivos, sempre no dia 13, à mesma hora. Então eu lhes direi quem sou e o que quero”. A Senhora lhes dissera outras coisas, os menores acrescentaram, mas apenas Lúcia saberia repeti-las. Depois, a prima mais velha advertiu Jacinta e Francisco de que não dissessem nada a ninguém sobre o que acontecera. Mas Francisco não podia se conter e exclamou: “Ah, mas que linda Senhora...” diversas vezes depois de terem voltado para casa. Foi Jacinta quem disse aos pais que ela e o irmão tinham visto “Nossa Senhora”. Lúcia, quando lhe perguntaram sobre o seu pedido de silêncio feito aos primos, explicou que não estava muito certa de que a “moça bonita” que eles viram fosse a Virgem Maria, e queria evitar o ridículo.

A mais moça de sete filhos, Lúcia era considerada em sua aldeia uma menina excepcional, de memória extraordinária e grande capacidade de distrair os outros. Nas festas, as irmãs a vestiam e pintavam, e faziam com que ela cantasse e dançasse. Todos a admiravam. Aprendeu o catecismo aos cinco anos e teve permissão para fazer a primeira comunhão aos seis, embora o habitual fosse fazê-la aos dez anos. Lúcia perdeu sua posição especial aos sete anos, quando a mãe a mandou pastorear o rebanho da família. Quando as irmãs de Lúcia se opuseram a essa ordem, a mãe respondeu que sua filha mais moça era “exatamente como os outros”.

Em um ano, as outras meninas que acompanhavam Lúcia na tarefa de cuidar do rebanho de ovelhas entre as colinas, nos arredores da aldeia, começaram a relatar experiências memoráveis. Em 1915, um grupo de meninas contou ter visto uma figura semelhante a “uma estátua de neve” em cima de um arvoredo. Lúcia pediu que elas não contassem aos outros aldeões. A própria mãe de Lúcia chamou essas narrativas de “bobagens de criança" e a menina tornou-se alvo de brincadeiras para muitos em sua própria vila.

A segunda aparição ocorreu na Cova da Iria em 13 de junho, dia de Santo Antônio. Lúcia ficou preocupada ao ver que havia uma multidão à sua espera quando chegou, com Jacinta e Francisco, à Cova da Iria naquela manhã. Enquanto os dois primos almoçaram e brincaram com outras crianças, Lúcia permaneceu sentada, em silêncio, com uma expressão séria. Passava pouco do meio dia quando a menina mais velha chamou os primos: ”Nossa Senhora está chegando”. Os três correram para o carvalho, onde a mulher vestida de branco, segundo disseram, havia aparecido. Lúcia levantou as mãos juntas e disse: ”A Senhora me pediu que eu viesse aqui; por favor, me diga o que a senhora quer”. Logo, muitos da multidão ouviram um barulho que descreveram como ”o zumbido de uma abelha”. Momentos depois, as pessoas ouviam um barulho “que parecia o som de um foguete, bem demorado”, como disse uma testemunha, mas só puderam ver que havia uma pequena nuvem a alguns centímetros do carvalho que se ergueu lentamente e desapareceu na direção do leste, enquanto os três videntes olhavam fixamente naquela direção. Depois de algum tempo, Lúcia gritou: ”Ela foi para o Céu! As portas se fecharam!” Conforme o relato das testemunhas, os brotos novos do topo da árvore se inclinaram para o leste. As pessoas começaram a subir na árvore, arrancando ramos e folhas dos galhos mais altos. Lúcia gritou, pedindo que eles só os tirassem da parte mais baixa da árvore, não tocada pela Virgem.

Havia uma multidão muito maior à espera de Lúcia e dos primos na Cova da Iria, no mês seguinte, dia 13 de julho. Dois homens se prestaram a manter afastados os que estavam na frente, para impedir que Jacinta e Francisco fossem esmagados. A uma certa distância, Lúcia ajoelhou-se e rezou o rosário. Depois, levantou-se rapidamente, olhou para o leste e pediu para que as pessoas fechassem suas sombrinhas porque Nossa Senhora estava chegando. O pai de Francisco e Jacinta, Manuel Marto, homem cético, disse que olhou atentamente, mas não conseguiu ver nada; depois notou que havia uma nuvenzinha cinzenta pousada no cimo da árvore e que sentiu uma “deliciosa brisa fresca”. E também ouviu um zumbido, disse Manuel, como se fosse “um mosquito dentro de uma garrafa vazia” (palavras dele). A uma certa altura, Lúcia ficou ”mortalmente pálida”, lembrou-se Manuel, e repetiu ”Nossa Senhora”, com voz amedrontada, muitas vezes. (Foi nesse momento que ela recebeu os segredos da Virgem, como explicaria Lúcia mais tarde) Ele então ouviu um estrondo forte como o de um trovão, contou Manuel. Então Lúcia levantou-se, apontou para o céu e gritou: ”Lá vai ela!”

Depois daquele dia, Manuel passou a acreditar nas aparições, assim como muitos outros habitantes céticos da aldeia. Os três videntes ainda continuavam sendo ridicularizados pela maioria dos vizinhos, mas uma minoria importante, constituída de pessoas respeitadas na comunidade, passou a tratá-los como santos. Homens do campo prostravam-se aos pés das crianças, implorando-lhes que pedissem algum favor à Virgem. A mãe de Lúcia, entretanto, apenas se mostrava mais determinada a obrigar a filha a admitir que tudo não passava de mentira, e, de vez em quando, recorria às surras de vassoura. Lúcia continuava insistindo que estava dizendo a verdade, e, na Cova da Iria, as multidões aumentavam a cada mês.

Quase 70 mil pessoas(!), entre elas repórteres de jornais de Lisboa, Madri e Paris, estavam presentes para testemunhar a última aparição, em 13 de Outubro. A maioria estava ensopada; a região fora assolada por uma tempestade de proporções monumentais, no entardecer do dia 12, e a chuva continuou durante toda a manhã seguinte. Lúcia e Jacinta, usando vestidos novos e coroas brancas nas cabeças, foram levadas, debaixo de guarda-chuvas, ao local da aparição, acompanhadas de Francisco. Um padre que passara a noite ali, rezando, perguntou quando a Virgem apareceria. Lúcia gritou que seria ao meio dia. O padre olhou o relógio, disse que já era meio dia, e depois acrescentou que a Virgem não mentia. Poucos minutos depois, o padre começou a gritar dizendo que já passava de uma hora, que a aparição era uma ilusão e que as crianças deveriam ir para casa. Lúcia, quase em lágrimas, disse que os outros poderiam ir embora, mas que ela ficaria. Apenas alguns minutos se passaram antes que a multidão visse a menina se virar para o leste, depois dizer a Jacinta que se ajoelhasse, porque ela havia visto relâmpagos e sabia que a Virgem estava chegando.

Lúcia pediu que a multidão se calasse, e que fechassem os guarda-chuvas. Naquele momento, segundo testemunhas (entre as quais renomados repórteres ali presentes), a chuva parou repentinamente e as nuvens se abriram. Lúcia levantou o rosto e gritou: “Olhem para o sol!” O seu pedido foi atendido pela multidão, e muitos começaram a chorar. De maneira claramente anormal, após o aviso de Lúcia, as escuras nuvens de chuva haviam se aberto e o sol se mostrava por inteiro. Mas o mais impressionante aconteceria logo depois. Até os repórteres presentes ali na Cova da Iria afirmariam depois ter visto o sol “estremecer e dançar, e emitir feixes de luzes de cores mais brilhantes do que o mais vívido arco-íris”. Muitíssimos presentes afirmaram ter visto o sol girar como uma roda gigantesca, depois avançar em direção à Terra, como se fosse incendiá-la! Um destacado grupo de céticos, quase todos jornalistas, declarou que o sol naquele momento irradiou um calor incomum, o que fizera, em poucos minutos, suas roupas ensopadas ficarem completamente secas.

A Virgem apareceu novamente vestida de branco, Lúcia disse posteriormente, acompanhada de São José, que carregava o menino Jesus. Subitamente, Maria se mostrou muito triste, e ao lado dela surgiu Jesus adulto, olhando com uma expressão de piedade para a multidão; então ergueu sua mão para abençoá-la. No final do êxtase, disse Lúcia, ela viu a imagem da Virgem como “Nossa Senhora do Monte Carmelo”, vestida de marrom escuro. Jacinta e Francisco disseram que viram apenas Maria com São José e o Menino Jesus; Jacinta disse ter ouvido algo que a Virgem dissera, e Francisco contou que não ouvira nada da Virgem, apenas a vira.

O interesse cada vez maior pelas aparições pouco ajudou Lúcia em sua terra natal. A maior parte dos moradores da aldeia passou a se esquivar da menina depois que um padre muito querido abandonou a paróquia de Fátima para evitar qualquer relação com o que estava acontecendo ali. Menos de um ano após as aparições, houve na região uma epidemia de gripe e a senhora Santos (mãe de Lúcia) foi uma das vítimas. Convencidas de que a mãe estava à morte, as irmãs de Lúcia pediram-lhe insistentemente que rezasse à Virgem. Depois disso, a senhora Santos melhorou, mas mesmo assim negou-se a mudar sua opinião. ”Que estranho”, declarou na ocasião a mãe de Lúcia, ”Nossa Senhora me curou, e mesmo assim, eu não acredito!” Mais tarde, quando lhe contaram que havia pessoas na aldeia que se preparavam para matar sua filha, a mãe de Lúcia disse que não se oporia, “desde que a obriguem a confessar a verdade”!

Francisco e Jacinta ficaram doentes de gripe durante uma epidemia, e nenhum dos dois se recuperou totalmente. Francisco morrem em abril de 1919, aos 11 anos, conforme previsto por Lúcia, que também já havia avisado sobre a morte da irmã Jacinta, então com 9 anos, que dez meses depois também faleceu.

Lúcia estava com 14 anos quando entrou para o colégio das Irmãs de Santa Dorotéia, em Vilar do Porto, em 1921. Em 1925, ela entrou para a ordem e fez seu postulado em Pontevedra. Ali, sozinha em sua cela, ela recebeu a primeira de uma série de visões que acabariam por convencê-la a revelar o que ela anteriormente jurara manter em segredo. No dia de Natal, disse Lúcia, a Virgem lhe apareceu acompanhada de uma criança que se ergueu numa nuvem luminosa. A Virgem mostrou um coração rodeado de espinhos e a criança pediu que ela tivesse compaixão de sua Mãe Santíssima. Menos de dois meses depois, enquanto ela estava trabalhando no jardim do convento, Jesus lhe apareceu como menino e perguntou se ela dissera ao mundo o que a Virgem queria. No final de 1927, depois que seu diretor espiritual lhe pedira um relato escrito de suas experiências, Lúcia foi ao Tabernáculo levar a questão a Deus. Enquanto rezava, não via Jesus, mas o ouvia dizer que ela devia escrever o que o padre pedira, com exceção do último dos três segredos, que não deveria ser contado. A última aparição da Virgem relatada diretamente pela própria Lúcia ocorreu em 13 de junho de 1929, na capela do convento de Tuy, onde ela viveu seus últimos setenta anos. Ela recebeu o pedido, contou, de se sacrificar por aqueles que pecavam contra o Imaculado Coração de Maria.

O bispo de Leiria, em 1930, declara as aparições de Fátima ”dignas de crédito”, mas estas só se tornam conhecidas em Portugal no início da década de 1940, quando memórias de Lúcia começam a ser publicadas. A descrição de Lúcia dos dois primeiros segredos que recebera foram bastante detalhadas. A Virgem mostrou, a ela e a Jacinta, uma visão do Inferno semelhante a um mar: “Mergulhados nesse fogo, demônios e almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas, como formas humanas que flutuassem no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam, juntamente com nuvens de fumaça caindo para todos os lados, como o cair de fagulhas de um grande incêndio, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero, o que nos horrorizava e fazia estremecer de pavor” . O segundo segredo explicava que a devoção ao Imaculado Coração de Maria poderia salvar as almas dos pecadores. Lúcia escreveu que a Virgem lhe dissera que o que ela conhecia como Primeira Guerra Mundial terminaria logo, mas que, se a humanidade não deixasse de ofender a Deus, outra guerra pior surgiria no pontificado de Pio XI. Mais uma vez, suas previsões vieram a se cumprir.




Depois de publicado o último volume das Memórias de Lúcia, os pedidos insistentes para que ela revelasse o terceiro segredo, então ainda secreto, aumentaram. O bispo de Leiria era a autoridade responsável pela mulher então conhecida como “irmã Lúcia”, mas ele relutava em mandar que ela revelasse o último segredo que recebera. No verão de 1943, porém, Lúcia adoeceu gravemente, conforme já esperado por ela própria. Afinal, em setembro daquele ano, o bispo encontrou-se com ela na enfermaria, em Tuy, e perguntou se ela poderia escrever o terceiro segredo para que este ficasse registrado. Um mês depois, ele ordenou que ela o fizesse. A superiora de Lúcia no convento contou que, em 2 de janeiro de 1944, a Virgem aparecera para a irmã Lúcia pela primeira vez em 15 anos, e, durante esse encontro, a autorizara a deixar registrado o terceiro segredo. Em 17 de junho de 1944, uma carta escrita com a letra de Lúcia foi enviada ao bispo de Leiria. Embora Lúcia tivesse lhe permitido a leitura da carta, o bispo se negou a lê-la, e depois fez o possível para que as autoridades eclesiásticas superiores se responsabilizassem pela guarda do documento. Uma oportunidade de livrar-se do fardo apresentou-se ao bispo no início de 1957, quando a Congregação para a Doutrina da Fé pediu as fotocópias de todos os escritos de Lúcia. O bispo então enviou o original e a única cópia do terceiro segredo para Roma, num envelope lacrado.

“Irmã Lúcia” tinha àquela altura se tornado uma espécie de tesouro vivo da Igreja. Escondida atrás das paredes do convento em Tuy, Lúcia era um personagem de enorme importância e mistério para muitos católicos e religiosos em geral. Em 1954, ela deu sua primeira entrevista, para publicação, ao fundador do “Movimento por um Mundo Melhor”, que perguntou se a organização que fundara era a resposta à mensagem de Maria. Lúcia respondeu que, dada a situação da humanidade, naquele momento, apenas um número limitado de pessoas seria salvo. Ela estava dizendo que muitas pessoas iriam para o inferno? – foi o que ele perguntou – sim, era isso. Lúcia respondeu: “Muitos se perderam” A segunda entrevista de Lúcia foi dada em 1957 ao padre mexicano que fora designado para advogar pela beatificação de Jacinta e Francisco. Durante essa conversa, Lúcia divulgou uma notícia que viera à tona dez anos antes, a de que o terceiro segredo de Fátima seria revelado em 1960. Então, irmã Lúcia deu o primeiro e único sinal do que poderia ser o conteúdo do terceiro segredo, explicando que a Virgem Santíssima estava empenhada numa luta decisiva contra Satanás, que sabia que o tempo dele seria breve, e que, portanto, estava determinado a roubar tantas almas quanto pudesse. “Quando essa luta chegar ao fim”, disse Lúcia, as pessoas serão “ou de Deus ou do Maligno”. Ela acrescentou que, ”se a Rússia não se converter, o país tornar-se-á um instrumento do castigo de Deus para o mundo todo, e muitas nações serão aniquiladas”.

Agora podemos entender porque ela relutou tanto em escrever o terceiro segredo, e porque todos os responsáveis por ele, ao longo dos anos, relutaram ainda mais em revelá-lo. Ao observar o impacto dos comentários de Lúcia nos católicos, muitas autoridades levantaram objeções. Era extremamente perigoso, escreveu um teólogo, quando “as afirmações de um indivíduo, mesmo uma mulher sincera e santa como a irmã Lúcia, são tratadas como se fossem a Palavra de Deus”.

A única cópia existente do terceiro segredo de Fátima estava guardada num cofre de madeira, onde se lia a inscrição “Secretum Sancti Offici”, sobre uma mesa no apartamento privado do papa Pio XII. A importância que a Santa Sé atribuía às aparições ocorridas na Cova da Iria foi formalmente reconhecida em 29 de Outubro de 1950, quando, em meio a muita fanfarra, a “Estátua Peregrina” da Virgem de Fátima chegou a Roma depois de viajar pela Europa por quase três anos. Exatamente no dia seguinte, numa reunião de que participaram mais de 400 bispos, o papa Pio XII anunciou sua intenção de definir o dogma da Assunção, considerando que a Virgem Maria subira ao Céu integralmente, em corpo e espírito. Mais tarde, naquele mesmo dia, Pio XII deu uma volta a pé, sozinho, nos jardins do Vaticano onde havia sido posta uma estátua da Virgem de Fátima. Ele estava passeando pela esplanada de Lourdes, contou o papa, quando de repente viu o sol se transformar “num globo amarelo-claro, opaco, circundado de um halo luminoso”. O halo parecia ter sido formado de uma nuvem muito tênue, que cobria o globo, disse Pio XII, o que possivelmente permitia que ele olhasse diretamente para a luz sem nenhum dano ou mesmo incômodo para sua vista. O globo então começou a se movimentar, afastando-se, girando lentamente sobre o próprio eixo, primeiro deslocando-se da esquerda para a direita, depois da direita para a esquerda, antes de voltar a ser o sol como ele o conhecia.

Depois da morte do papa Pio XII, em 1959, a caixa que continha o terceiro segredo de Fátima foi enviada para o novo papa, João XXIII, que leu a carta de Lúcia, mas não fez nenhum pronunciamento público. Amigos íntimos de João XXIII contaram que o papa lhes dissera que o texto não pertencia ao seu tempo, por isso ele preferia deixar que seus sucessores dispusessem sobre o documento. O papa Paulo VI leu o terceiro segredo pouco depois de sua coroação em 1963, ma também não se pronunciou publicamente sobre o assunto. Não se sabe se João Paulo I leu o terceiro segredo durante as poucas semanas de seu fatídico papado, mas imediatamente antes da sua eleição, o papa de vida curta tinha feito uma peregrinação a Fátima, e, depois, tivera um encontro privado com Lúcia.

Publicaram-se relatos afirmando que João Paulo II lera o terceiro segredo pouco antes de sua visita a Fátima, em 1982, mas o papa, mais uma vez, negou-se a comenta-lo. Entretanto, em 1984, o então cardeal Ratzinger (atual Bento XVI), braço direito de João Paulo II, confirmou que o papa lera o terceiro segredo, mas que não levaria essa informação a público. E o assunto não foi adiante, a não ser por duas breves declarações feitas por João Paulo II. Numa, em 1982, ele diz que “Fátima é mais relevante e mais presente do que nunca”, e na outra, em 1991, que “Fátima é a capital mariana do mundo”.

Segundo o consagrado especialista e pesquisador investigativo Fr. Benedict Groeschel, PhD em psicologia e referência mundial absoluta para casos de fenômenos sobrenaturais e supranormais (sobre quem pretendo voltar a falar em breve), as aparições da Virgem Maria em Fátima, em 1917, representam o maior caso de Teofania da era moderna. Teofania é um acontecimento sobrenatural de primeira ordem, literalmente, uma “Manifestação Divina” visível e incontestável, algo como um “contato imediato de terceiro grau” com a Realidade Divina. Neste caso, o fenômeno mais tremendo foi o aparecimento do “sol que girava”. Não poderia ser realmente o sol, já que o observatório de Greenwich não fica muito longe do local e eles não perceberam nada. Mas, exaustivamente comprovado, numa área de aproximadamente 60 Km quadrados(!), todos os que lá estavam, todos, crentes e não crentes, pessoas atentas e pessoas desatentas, viram esse Sinal que descreveram como o sol girando, multicolorido, e descendo na direção deles. Muitos dos que estavam presentes se jogaram no chão. Houve casos muito impressionantes, como o de um maçom, socialista convicto, que fora até lá com a única intenção de se divertir e rir do que considerava uma “grande lorota”, e depois precisou ficar hospitalizado por três dias, dado o trauma causado pela experiência que viveu. A cena que presenciou o deixou em severo estado de choque, incapaz de se mover ou se comunicar!

É isso que a Teofania faz, porque ela se manifesta concretamente no mundo exterior, independente do que achamos que “sabemos”, do que queremos, do que cremos, da religião que escolhemos seguir ou do que achamos “justo”, “coerente” ou “sensato”.




"Outros casos de Teofania ocorreram na História recente, mas os ocorridos em Fátima constituem a Teofania mais assombrosa da era moderna”.

Fr. Benedict Groeschel, doutor em teologia e fenômenos paranormais, PhD em Psicologia pela Universidade de Columbia e pesquisador emérito.


"Meu Deus, eu creio, adoro, espero e Vos amo. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam."

Oração ensinada em Fátima, 1917


Veja aqui a reportagem original do jornal português "O Século", de 1917, sobre o Milagre do Sol.


Algumas informações adicionais (em inglês):



Fontes e bibliografia:
"Encontering Mary" - Sandra L. Zindais Swartz (Princeton University, 1991)
"Making Saints: Who Becomes a Saint, Who Doesn't and Why" - Keneth Woodward (Simon & Shuster, 1990)
"A Still Small Voice" - Benedict Groeschel" (Ignatius Press, 1993)
"Detetive de Milagres" - Randall Sullivan (Objetiva, 2005)

Rainha dos Santos


O texto que segue abaixo foi escrito pelo meu amigo Tiago Miziara, e eu resolvi usá-lo como um prólogo para o nosso próximo tema: as impressionantes aparições da Virgem Maria em Fátima. Portugal – o maior e mais tremendo caso de Teofania da História moderna. Acho importante esclarecer que eu não pretendo, com esta série de posts sobre as aparições da Virgem Maria, convencer a quem quer que seja a respeito da veracidade dos fenômenos em si, até porque a bibliografia sobre o assunto é vasta, o material para pesquisa está à disposição, e com um pouco de boa vontade e esforço, os interessados poderão atingir uma compreensão mais aprofundada do tema. A intenção também não é uma pregação religiosa nem uma defesa deste ou daquele ponto de vista teológico. O objetivo é trazer os fatos. Apenas isto. Ocorrências supranaturais legítimas como estas, e assim tão grandiosas, sem dúvida merecem espaço em qualquer sítio ou publicação séria que se proponha a tratar de espiritualidade. Também devo acrescentar que o momento atual me parece especialmente oportuno para abordar o assunto. Os fenômenos são reais e foram soberbamente estudados, sob as mais diversas perspectivas (filosóficas, religiosas, científicas...), ao longo dos anos. Até hoje, a ciência não conseguiu apresentar nenhuma explicação natural convincente para eles.

O meu propósito aqui é o de apenas apresentar os fatos para que cada um possa chegar às suas próprias conclusões - a respeito destes intrigantes fenômenos, e também, principalmente, do seu real significado. O texto a seguir foi escrito por um católico. O que se justifica, já que os referidos fenômenos ocorreram (e ocorrem) quase que exclusivamente em ambiente cristão católico.


Y Y Y


Maria, Rainha dos santos

Em âmbito cristão, quando o assunto é Maria, os ânimos sempre se exaltam e sempre há discussões... isso se dá por um motivo óbvio - a relação filial dos católicos com Maria é tão intensa que pode em alguns casos chega a "tampar", na devoção popular, o brilho da verdadeira Luz, que é o PAI. Mas, por que Maria é assunto tão controverso?

Tal fato se deve à crença de que Maria não é uma santa comum, mas sim a designada, desde o princípio dos tempos, a ser a Rainha de todos os santos, rainha dos homens e dos anjos, pois Maria faz parte do plano da Salvação de seu Filho Jesus, o Cristo. Ela é a mulher do início, do meio e do fim dos tempos... a nova mulher... a nova EVA. A primeira criação de Deus se tornou rebelde (e por Eva veio o pecado). Mas Deus prometeu à serpente: "A mulher pisará tua cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar... e colocarei inimizade entre a tua geração e a dela".

Pela primeira mulher, Eva, veio o pecado. Por Maria nos vem a graça e a salvação. Maria, portanto, é a nova Eva... a verdadeira Eva. Verdadeira Rainha - no livro do Apocalipse, Maria é tratada como Rainha e sua realeza é celeste: "Surgiu um grande sinal no céu, uma mulher vestida de sol, a lua debaixo dos pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas..." Portanto, Maria é a mulher dos desígnios de Deus, destinada desde sempre a ser o sacrário vivo de Deus, habitação tanto do ESPÍRITO quanto do FILHO (o novo Adão). Honra e felicidade teve o anjo em sua presença a afirmar "RAIRA MARIA, KERRARITOMÉNE... KYRIUS META SU!" (Ave Maria, és cheia de Graça, pois o Senhor é dentro de ti). Veja que as traduções tradicionais não trazem a certeza da presença de Deus em Maria: "O senhor está contigo" é diferente do original grego que diz KYRIUS (SENHOR) META (internamente, profundamente, intrinsecamente) SU (você, tu). O Senhor está em ti. Foi isso que o anjo disse.

Observe que foi apenas uma saudação; Maria ainda não se encontrava Grávida do Cristo, logo essa passagem sequer se referia à presença de Cristo em seu ventre (como muitos pensam). Deus, na sua infinita bondade e misericórdia, não podou o livre arbítrio de Maria, mas fez um convite à sua serva. Maria quis participar dos planos de Deus por sua própria vontade. E foi o seu SIM, a sua vontade que permitiu que o plano da Salvação se concretizasse. É por isso que ela é a bem-aventurada, pois confiou nas promessas de Deus e agiu conforme sua Vontade e seus Desígnios. Ela é o modelo perfeito de pureza e servidão - mesmo sendo a criatura mais importante entre as criaturas, pouco é falado sobre ela nas escrituras... Se quisermos ter mais acesso, é possível ler o Alcorão, onde há muito mais sobre Maria do que na própria Bíblia sagrada.

Concluindo: por que Maria é motivo de tanta controvérsia? Lembrem-se dos postulados das Igrejas cristãs sobre os espíritos (especialmente no que diz respeito a não tentarmos buscar comunicação com os mortos). Maria tem se comunicado com a humanidade desde os primeiros tempos pós-morte de Cristo. Mas suas aparições são mais do que aparições de espíritos, pois são indubitavelmente reais (vêm acompanhadas de numerosas e incontestáveis evidências e provas inclusive no âmbito material) e trazem consigo até mesmo um caráter coletivo (várias pessoas presenciam a aparição conjuntamente, independente da ação de médiuns ou ‘pais de santo’). As constantes aparições fizeram com que a Igreja reformulasse o dogma da comunicação com os mortos, ou postulasse um novo Dogma...

Baseada nas diversas e abundantes evidências de aparições através dos séculos, a Igreja postulou um Dogma que dá origem a controvérsias até hoje: a Assunção de Maria (Assunção significa que ela foi arrebatada, elevada aos céus pelo poder de Deus, diferente da Ascensão de Jesus Cristo, que significa que ele, por sua própria vontade, elevou-se de volta aos céus de onde viera para cumprir sua missão). Em algumas passagens bíblicas, Cristo dá a entender que um dia voltaria para buscar sua Mãe. Partindo-se do pressuposto que Deus cumpre suas promessas (ela própria diz no ‘Magnificat’: "as gerações me proclamarão bem-aventurada, porque serão realizadas as promessas que me foram confiadas por Deus"), Maria pode mesmo ter sido arrebatada (a exemplo do profeta Elias, que não morreu, mas foi levado aos céus por uma carruagem maravilhosa), como antecipação da salvação futura... A igreja acredita que MARIA é o exemplo único de criatura humana que prova, de corpo e alma, da presença de Deus. Dessa forma, a Igreja acredita que o poder de Deus preservou Maria da morte e ela vive, assim como seu Filho, o Cristo, na Bem Aventurança Eterna... É por isso que até hoje, Maria aparece pela Terra, aconselhando e pedindo conversão, vigília e oração.

Particularmente interessante é notar que, há na História conhecimento das tumbas e dos relatos de todos os lugares onde os santos morreram e foram sepultados. Mas quando a questão é Maria, não há nada... Nenhum registro histórico de morte, sepultamento ou coisa do tipo. É como se ela tivesse sumido da Terra da noite para o dia... Uma de suas primeiras aparições se deu 70 anos depois de Cristo e ao que tudo indica, Maria não foi interpretada como um espírito, mas como ela mesma aparecendo ainda viva...


A Virgem Maria é uma só - a mãe de Jesus Cristo - mas cada nação, tradicionalmente, cultiva sua visão própria. Além disso, em cada uma de suas aparições, ela se manifestou sob diferentes formas. Daí os muitos títulos e formas com as quais é representada. Acima, uma curiosa concepção da Virgem Maria numa versão asiática, encomendada a um artista de uma comunidade cristã chinesa, intitulada "Nossa Senhora de Peking"



Uma Iluminação



Quando temos algum problema que nos perturba a paz de espírito, impedindo o desenvolvimento pleno das nossas vidas, em algum nível - e quando meditamos sobre este problema, quando nos empenhamos seriamente em encontrar uma solução - acontece às vezes de a resposta surgir de repente, como que por encanto, normalmente no momento em que menos esperávamos por ela. O conhecimento necessário, e com ele a compreensão do assunto que nos estivera incomodando tanto, subitamente nos “toma de assalto”, e assim resolver o problema fica fácil. A solução surge na forma de um “insight”, às vezes desencadeado por uma palavra dita por alguém, uma frase que lemos em algum livro, jornal ou revista, um sonho ou mesmo uma imagem aleatória com que nos defrontamos... Não sei se isso acontecer depende do nosso merecimento, em algum nível, mas imagino que esteja mais relacionado à questão de estarmos preparados para receber aquela dádiva em especial.

Mas, como é que podemos nos preparar para receber um presente como esses? Bem, eu vivenciei isto na minha vida, algumas vezes, por isso me atrevo a deixar a minha resposta: A maneira de nos prepararmos para a “iluminação” a respeito de algum assunto que não estejamos conseguindo desvendar por nossas próprias forças (isto é, fazendo uso apenas do nosso intelecto limitado), é simplesmente direcionando suavemente todas as nossas forças neste sentido. Ou seja, tentando sinceramente resolver o assunto, refletindo sobre ele e desejando verdadeiramente enxergar a resposta onde quer que se encontre, para que possamos compreendê-la definitivamente. Para os que têm fé, pedir também ajuda, e muito. Assim chegamos às soluções necessárias.

Resolvi compartilhar com vocês (devidamente autorizado) uma situação que ocorreu com a minha esposa. Ela sempre teve enormes dificuldades para lidar com as falhas das pessoas do seu convívio, tanto no trabalho quanto em nível pessoal, se ela não conseguisse compreendê-las. Hana nunca teve problemas para lidar com as fraquezas e dificuldades alheias, desde que ela pudesse entender os "porquês". Mas ela não conseguia se conformar e ficava muito aborrecida quando alguém lhe fazia algum mal gratuitamente - isto é, se ela não conseguisse entender as razões que levavam alguém a lhe prejudicar, isso a deixava realmente furiosa!

Numa certa ocasião (aconteceu logo no começo do nosso relacionamento), ela se encontrava num momento difícil no trabalho, se sentindo incompreendida e sem saber direito como solucionar certas dificuldades com alguns colegas. O problema começou logo depois que houve uma troca de pessoal na empresa em que ela trabalha, num dos setores com o qual ela precisa interagir diretamente em sua rotina diária. Ela se aborrecia especialmente ao considerar o enorme contraste entre o comportamento da antiga turma e o dos seus novos colegas.

Depois de alguns tropeços, ela estabeleceu para si mesma, como prioridade, a solução urgente dessas dificuldades. E a resposta demoraria bem menos do que ela poderia esperar. Aconteceu depois de alguns dias concentrada na busca de uma solução, numa manhã como qualquer outra, quando se dirigia para o trabalho. Ela estava com a mente fresca, depois de uma boa noite de sono, e naquele momento preciso não pensava em nada especificamente. Foi aí que, subitamente, ouviu uma voz dentro da sua mente. Uma voz que ela descreveu como "sem tonalidade definida, sem gênero ou personalidade própria, uma voz a um só tempo inaudível e perfeitamente nítida". Uma voz que lhe falou apenas uma frase, apenas uma vez, mas de uma maneira muito clara e inequívoca.

A voz lhe disse, incisivamente: “Não compare! Nunca, jamais faça comparações entre pessoas...”. Logo depois, ela entrou num estado de grande paz de espírito e compreendeu, profundamente, a resposta que procurava: boa parte das dificuldades nos relacionamentos humanos se dá por conta das comparações que fazemos. À noite, ao chegar em casa, ela me disse que tinha recebido uma “iluminação” semelhante a algumas das experiências pessoais que eu já tinha lhe relatado.

Depois de entender esse princípio - que ela já “sabia”, intelectualmente, do qual já tinha ouvido falar e lido a respeito, mas que nunca compreendera, verdadeiramente, em essência – ela passou a enxergar os novos colegas com outros olhos, sob um novo ponto de vista, parou de resistir às dificuldades com as características únicas e pessoais de cada um, e essas relações passaram a fluir naturalmente. Ela não precisou tomar nenhuma medida mais dura contra nenhum dos novos contratados, como já vinha pensando em fazer, e hoje conta com boas novas amizades dentro do ambiente profissional.

Estamos sempre comparando pessoas, elegendo os “melhores” e os “piores” em tudo. Comparamos a nossa(o) namorada(o) atual com a(o) anterior. Comparamos nossos amigos. Comparamos nossos professores, nossos líderes, comparamos os membros das nossas famílias. Quantos consideram os pais ou os irmãos dos seus amigos melhores ou mais bacanas do que os seus próprios?.. Queremos sempre exigir de uns o mesmo comportamento ou as mesmas qualidades de outros! Quando isso não acontece (quase nunca), julgamos e criamos conflito, gratuitamente...





Se por um lado somos todos um só, todos membros da imensa família humana, comungando de uma só existência nesta grande Casa que é o planeta Terra, por outro lado cada ser humano neste mundo representa um universo particular, cada um é único e complexo, com suas próprias qualidades e fraquezas, seus desejos e anseios, suas paixões e seus medos, sonhos e angústias... Cada um de nós teve uma experiência de vida única, uma história diferente, relacionada ao seu lugar, sua cultura, costumes... Cada um nasce com um código genético exclusivo, que nunca tinha existido antes e que jamais se repetirá enquanto houver a “espécie” humana. E isso é muito belo. Precisamos aceitar os pontos fortes e fracos que todos nós trazemos. O segredo do bom convívio é respeitar e aceitar a individualidade de cada um.

Eu me lembro de quando ainda era uma criança, e apenas aceitava simplesmente o que cada um era e tinha para oferecer. Sem julgamentos. Sem comparações. Todos os meus relacionamentos eram perfeitos, porque o meu modo de me relacionar com a vida e com as pessoas ainda era puro.

Ninguém é igual a ninguém, e somente o próprio indivíduo é que conhece - às vezes nem ele - as razões de ser o que é. Mas que essas razões existem, não há dúvida. E cada um de nós está sempre fazendo o melhor que pode para chegar a um objetivo. Cada um está empenhando o melhor de suas forças para obter felicidade. Infelizmente, parece que alguns ainda acreditam que para serem felizes precisam atrapalhar a felicidade alheia, o que obviamente é um equívoco, mas ainda assim, com certeza, mesmo estes têm as suas razões para se comportar dessa maneira. Particularmente, acredito que cada um tem um propósito a cumprir, um espaço específico a preencher no grande quebra-cabeça da existência. E talvez a missão de alguns seja mesmo a de levantar obstáculos para outros que tentam criar algo de bom para todos.

Talvez alguns estejam aqui para serem ajudados, e outros para ajudar. Mas nos é fundamental compreender que cada um é um e que cada um de nós tem as suas próprias razões, e exatamente por isso não devemos fazer comparações entre seres que são únicos. Não devemos comparar. Nós não temos o direito de fazê-lo, porque nós também não somos iguais a ninguém, e é a nossa história única que nos leva a ser o que somos e pensar como pensamos.

Isto por certo não significa adotar uma postura de total resignação, nem que devemos aceitar tudo ou considerar qualquer comportamento como justo ou mesmo aceitável. Significa, isto sim, compreensão. Não comparar é igual a não julgar.


Gato que nasceu com asas (não é montagem!), na China . Leia a notícia aqui.



A Fiandeira Fátima


Como o conto que eu escrevi, baseado na tradição do sufismo, teve uma repercussão que me agradou muito (uma boa história é aquela que faz pensar), resolvi publicar uma outra história, que eu extraí do livro 'Histórias dos Dervixes' (Editora Nova Fronteira, 1976) que ensina de uma maneira diferente o mesmo princípio essencial da história de Zadig. A narrativa desta vez é mais leve, mas não deixa de levar a uma reflexao profunda sobre as causas ocultas em nossas vidas.

Numa cidade do mais longínqüo Ocidente vivia uma jovem chamada Fátima, filha de um próspero Fiandeiro. Um dia seu pai lhe disse:

— Filha, faremos uma viagem, pois tenho negócios a resolver nas ilhas do Mediterrâneo. Talvez você encontre por lá um jovem atraente, de boa posição, com quem possa e então se casar.

Iniciaram assim sua viagem, indo de ilha em ilha; o pai cuidando de seus negócios, Fátima sonhando com o homem que poderia vir a ser seu marido. Mas um dia, quando se dirigiam a Creta, armou-se uma tempestade e o barco naufragou. Fátima, semiconsciente, foi arrastada pelas ondas até uma praia perto de Alexandria. Seu pai estava morto, e ela ficou inteiramente desamparada.

Podia recordar-se apenas vagamente de sua vida até aquele momento, pois a experiência do naufrágio e o fato de ter ficado exposta às inclemências do mar a tinham deixado completamente exausta e aturdida.

Enquanto vagava pela praia, uma família de tecelões a encontrou. Embora fossem pobres, levaram-na para sua humilde casa e ensinaram-lhe seu ofício. Desse modo Fátima iniciou nova vida e, em um ou dois anos, voltou a ser feliz, reconciliada com sua sorte. Porém um dia, quando estava na praia, um bando de mercadores de escravos desembarcou e levou-a, junto com outros cativos.

Apesar dela se lamentar amargamente de seu destino, eles não demonstraram nenhuma compaixão: levaram-na para Istambul e venderam-na como escrava. Pela segunda vez o mundo da jovem ruira.

Mas quis a sorte que no mercado houvesse poucos compradores na ocasião. Um deles era um homem que procurava escravos para trabalhar em sua serraria, onde fabricava mastros para embarcações. Ao perceber o ar desolado e o abatimento de Fátima, decidiu comprá-la, pensando que poderia proporcionar-lhe uma vida um pouco melhor do que teria nas mãos de outro comprador.

Ele levou Fátima para casa com a intenção de fazer dela uma criada para sua esposa. Mas ao chegar em casa soube que tinha perdido todo o seu dinheiro quando um carregamento fora capturado por piratas. Não poderia enfrentar as despesas que lhe davam os empregados, e assim ele, Fátima e sua mulher arcaram sozinhos com a pesada tarefa de fabricar mastros.

Fátima, grata ao seu patrão por tê-la resgatado, trabalhou tanto e tão bem que ele lhe deu a liberdade, e ela passou a ser sua ajudante de confiança. Assim ela chegou a ser relativamente feliz em sua terceira profissão.

Um dia ele lhe disse:

— Fátima, quero que vá a Java, como minha representante, com um carregamento de mastros; procure vendê-los com lucro.

Ela então partiu. Mas quando o barco estava na altura da costa chinesa um tufão o fez naufragar. Mais uma vez Fátima se viu jogada como náufraga em uma praia de um pais desconhecido. De novo chorou amargamente, porque sentia que nada em sua vida acontecia como esperava. Sempre que tudo parecia andar bem alguma coisa acontecia e destruia suas esperanças.

— Por que será — perguntou pela terceira vez — que sempre que tento fazer alguma coisa não da certo? Por que devo passar por tantas desgraças? — Como não obteve respostas, levantou-se da areia e afastou-se da praia.

Acontece que na China ninguém tinha ouvido falar de Fátima ou de seus problemas. Mas existia a lenda de que um dia chegaria certa mulher estrangeira capaz de fazer uma tenda para o imperador. Como naquela época não existia ninguém na China que soubesse fazer tendas, todo mundo aguardava com ansiedade o cumprimento da profecia.

Para ter certeza de que a estrangeira ao chegar não passaria despercebida, uma vez por ano os sucessivos imperadores da China costumavam mandar seus mensageiros a todas as cidades e aldeias do país pedindo que toda mulher estrangeira fosse levada à corte. Exatamente numa dessas ocasiões, esgotada, Fátima chegou a uma cidade costeira da China. Os habitantes do lugar falaram com ela através de um intérprete e explicaram-lhe que devia ir à presença do imperador.

— Senhora — disse o imperador quando Fátima foi levada até ele — sabe fabricar uma tenda?
— Acho que sim, Majestade —
respondeu a jovem.

Pediu cordas, mas não tinham. Lembrando-se dos seus tempos de fiandeira, Fátima colheu linho e fez as cordas. Depois pediu um tecido resistente, mas os chineses não o tinham do tipo que ela precisava. Então, utilizando sua experiência com os tecelões de Alexandria, fabricou um tecido forte, próprio para tendas. Percebeu que precisava de estacas para a tenda, mas não existiam no país. Lembrando-se do que lhe ensinara o fabricante de mastros em Istambul, Fátima fabricou umas estacas firmes. Quando estas estavam prontas ela puxou de novo pela memória, procurando lembrar-se de todas as tendas que tinha visto em suas viagens. E uma tenda foi construída.

Quando a maravilha foi mostrada ao imperador da China ele se prontificou a satisfazer qualquer desejo que Fátima expressasse. Ela escolheu morar na China, onde se casou com um belo príncipe e, rodeada por seus filhos, viveu muito feliz até o fim de seus dias.

Através dessas aventuras Fátima compreendeu que, o que em cada ocasião lhe tinha parecido ser uma experiência desagradável, acabou sendo parte essencial da sua felicidade.



Este conto é popular em especial na Grécia. Esta versão é atribuída ao Xeque Mohamed Jamaludin de Adrianópolis, fundador da Ordem Jamalia.



Um conto: Zadig

Escrevi este conto baseado numa antiga lenda árabe, com origens na tradição mística sufi. Conta a história de como Zadig, um herói espiritual mítico, aprendeu uma das maiores lições da sua vida.

Zadig era um buscador. Nada para ele importava mais do que encontrar a Verdade e alcançar a liberação dos sentidos. Ainda bastante jovem, amealhava um profundo conhecimento dos textos sagrados da Torá e dedicava todo o seu tempo livre ao estudo do Corão. Quase nunca empenhava energia em passatempos, e a vida social não tinha para ele tanta importância quanto para os outros rapazes da sua idade. Tinha consciência plena de que a vida terrena era breve, e que os dias dos homens passam com a velocidade de uma tempestade no deserto, por isso lhe importava mais juntar tesouros no Céu eterno do que nesta Terra temporária. Num belo dia, Zadig voltava da escola para casa, quando encontrou no caminho um alarde e um princípio de confusão, causados pela presença em sua vila de um famoso homem santo. Dizia-se dele que tinha o poder de curar doentes e confortar os desesperançados com palavras de pura sabedoria. O que alguém tão elevado teria vindo fazer na sua humilde vila? Zadig imediatamente entrou no meio da pequena multidão que se formava em torno de um ancião de vestes claras.

Quando finalmente conseguiu chegar próximo ao centro do tumulto, foi visto pelo velho sábio, que fez um gesto para que as pessoas que se agitavam ao seu redor se afastassem. Então voltou seus olhos na direção de Zadig e o chamou para perto dele. As pessoas da vila, espantadas, abriram espaço para a passagem do rapaz. Zadig se aproximou e o velho lhe passou os braços ao redor do pescoço, dando-lhe um beijo fraternal em cada uma das faces. Então o fitou fixamente no fundo dos olhos e disse: “Acabo de encontrar a razão pela qual sabia que deveria vir até esta vila”. Disse a Zadig que ele tinha um grande futuro pela frente, e que se realmente quisesse e demonstrasse empenho, iria conhecer grandes verdades da vida espiritual antes do que imaginava. Disse ainda que Zadig tinha vindo a este mundo capacitado de certos talentos especiais. Mas lhe fez uma imprescindível advertência: para que essas coisas se cumprissem, Zadig teria que abandonar tudo, naquele exato momento, e segui-lo aonde quer que fosse.

Zadig pensou em sua família, por algum tempo. Pensou nos seus pais, em sua casa, no conforto e em todas coisas materiais que teria que deixar para trás, se resolvesse seguir aquele homem estranho. Mas, olhando nos seus olhos, viu um fogo que o atraía tão fortemente que não pôde resistir. Respondeu que sim, abandonaria tudo e o seguiria a partir daquele momento, pra onde quer que ele fosse. O ancião ainda o advertiu: “Se você quiser realmente me seguir, tem que me dar a sua palavra de que vai confiar em mim, plenamente. Esta é a minha condição. Você confia e vai confiar para sempre em mim?” – Zadig nunca tinha visto aquele homem na sua frente, mas quando fitou novamente sua face, uma certa luz parecia emanar dela, e aquele fogo nos olhos novamente o atraiu tão fortemente que só pôde responder que sim. E o seguiu. Tomaram a estrada sem que Zadig soubesse exatamente para onde estavam indo.

E foi assim que Zadig, a partir daquele dia, tornou-se um viajante que não conhecia o próprio destino, ao lado de um ancião que nunca lhe revelava seu nome. Caminhavam juntos por dias inteiros, sem que Zadig jamais soubesse para onde estavam indo. O ancião só lhe dizia que a razão de estarem caminhando juntos por aquela estrada era que Zadig estava indo ao encontro de uma importante lição que lhe seria necessária para que pudesse depois concluir a sua missão e o seu caminho sozinho. E que fazia parte da sua própria missão conduzir Zadig.

Assim se passaram semanas. Caminhavam sempre os dias inteiros, e ao final do dia descansavam. Às vezes à beira da estrada, sob uma ponte ou uma árvore. Às vezes pediam abrigo em alguma casa ou hospedaria. Nem sempre eram bem recebidos pelos moradores das vilas por onde passavam, mas nunca deixavam de encontrar abrigo para passar a noite, um lugar para se banharem e o alimento necessário para cada dia. Nunca passaram fome, nem nenhuma necessidade realmente básica. Às vezes alguém aparecia do nada com dois pratos de comida quentinha, outras vezes alguém oferecia dinheiro para que pudessem comer em alguma estalagem. Nas noites de chuva sempre havia um teto acolhedor sobre suas cabeças. Conversavam por horas a fio, quase sempre sobre assuntos transcendentais. Zadig fazia perguntas e o ancião respondia, mas as respostas para alguns questionamentos era sempre o silêncio, como quando ele queria saber sobre o destino daquela viagem e a identidade do ancião. O máximo que obtinha como resposta era um suave “tudo tem o seu tempo certo...”.

Mas Zadig sempre aprendia coisas belas, todos os dias. Às vezes, o ancião permanecia mudo por longas horas ou mesmo um dia inteiro, como que num voto de silêncio não declarado. Zadig imaginava que aquilo devia ter uma razão de ser, e como fizera um voto, dizendo que sempre confiaria no seu tutor, quando percebia que o dia não seria de conversa, tentava aproveitar para meditar em silêncio, durante a caminhada, fortalecendo dentro de si os aprendizados recentes. Zadig realmente confiava no ancião, plenamente, e procurava cumprir todas as suas orientações com humildade, muito embora às vezes fosse difícil ou mesmo impossível compreender alguns dos seus atos.

Meses se passaram. Chegou um belo dia em que andaram pela estrada, como sempre, desde o nascer do sol até o entardecer. Mas dessa vez ainda continuaram caminhando, mesmo depois disso, até chegar noite alta. Finalmente, os dois parceiros de viagem chegaram numa vila muito pequena e humilde. Pela primeira vez, nada tinha acontecido, durante todo o dia, para que a fome de ambos fosse saciada. Ninguém lhes trouxera comida ou oferecido dinheiro para que pudessem matar a fome. Estavam em jejum desde o raiar do dia, caminhando sem parar até a noite escura, sem nenhuma refeição. Zadig estava realmente exausto e faminto, e para piorar, este havia sido um daqueles dias em que o ancião não lhe dirigira a palavra nem por uma vez sequer. Algumas vezes até tinha tentado iniciar uma conversa, principalmente com a intenção de perguntar a que horas comeriam, mas em todas fora interrompido por gestos do companheiro pedindo silêncio. Já dentro da pequena vila, o ancião, se comportando como se soubesse exatamente para onde estavam indo, tomou uma pequena ruela de barro, que os levou a um pobre, pequeno e muito velho casebre, que se encontrava quase oculto atrás de um extenso mato alto. O ancião, sem dizer uma palavra, abriu o pequeno portão de madeira que dava acesso ao singelo quintal, entrou e foi bater à porta tosca. Voltando-se para o exausto Zadig, falou pela primeira vez naquele dia inteiro: “Venha cá!” ..

Uma jovem senhora, de aspecto muito sofrido, veio atender. Já era tarde, e o semblante da mulher demonstrava que ela acabara de ser acordada pelas batidas na porta. Mesmo faminto e extenuado, Zadig sentiu-se desconfortável por acordar aquela pobre mulher àquela hora da noite. Mas ela prontamente convidou-os a entrar, e insistiu para que se sentassem à mesa muito simples. Enquanto mexia nos seus utensílios de cozinhar, explicou que ultimamente andava muito triste, pois além de ter ficado viúva um ano antes, recentemente perdera também o filho mais velho. “Meu outro filho, o mais jovem, está já dormindo. Perdoem-no, ele está muito cansado, trabalhou o dia inteiro na lavoura, e amanhã terá que acordar muito cedo”, ela disse. Nem perguntou se estavam com fome, porque isso era óbvio. Enquanto abria as portas do armário da cozinha, Zadig via que estavam praticamente vazios. Ela não tinha quase nada com que servi-los. Mas do pouco que tinha, pegou a última porção de arroz e o último pedaço de carne seca. Juntou tudo numa panela e em pouco tempo preparou uma deliciosa sopa para os viajantes esfalfados. Serviu Zadig e seu companheiro à mesa, com toda gentileza, e tirou do fundo de um pote o último pedaço de pão para acompanhar a sopa. Zadig estava esfomeado e devorou tudo rapidamente, mas sentia uma ponta de remorso por pensar que estavam comendo todo o alimento que aquela pobre mulher provavelmente tinha guardado para o dia seguinte. Depois da refeição, ela contou como havia perdido seu filho mais velho há pouco tempo, assassinado por salteadores no campo, e que desde então se encontrava muito deprimida. Zadig se apiedou profundamente daquela dona tão simples e bondosa. Ele sabia que o sábio ancião poderia reconfortá-la com algumas palavras de luz e de verdade (ele era muito bom nisso), mas ele nada dizia. Num dado momento, Zadig chegou inquiri-lo, para ver se respondia com alguma pérola de sabedoria, algo que a tranqüilizasse ou trouxesse alguma paz para aquela alma sofredora. Mas o outro permanecia em silêncio e assim ficou por todo o tempo que durou o jantar. Lágrimas corriam pelas faces da mulher, enquanto ela contava a história da morte do filho mais jovem. Zadig sempre querendo confortá-la, dizer alguma coisa que suavizasse o seu sofrimento... ele tinha aprendido tantas coisas importantes a respeito da vida, nestes dias de jornada ao lado do velho sábio, coisas sobre vida e morte, sobre o valor do sofrimento nesta vida... Mas ele não conseguia dizer uma palavra. Percebia naquele momento o quanto entender alguma coisa intelectualmente é diferente de compreender algo na prática, numa situação de vida real. Agora que precisava fazer uso de tudo que supostamente aprendera, simplesmente não era capaz de levar qualquer consolo para alguém que tanto precisava. Mas, acima de tudo, estava decepcionado com a atitude do seu tutor, que poderia ter feito algo de bom e nada fez.

Depois do jantar, a senhora pediu licença, dizendo que precisaria se ausentar por alguns instantes. Saiu por uma porta e Zadig pôde ouvir a sua voz abafada, vinda de trás da porta, acordando seu filho. Mesmo com certa dificuldade, era possível ouvir o que dizia: “Levante-se e vamos dormir no chão! Temos visitas!”..

Zadig não podia acreditar. Ele e seu companheiro estavam acostumados a dormir no chão. Qualquer lugar debaixo de um teto seria mais do que suficiente para que passassem uma noite confortável. Olhou para o ancião, esperando que ele impedisse aquele absurdo. Nada. Insistiu com ele para que não deixasse a mulher desalojar o filho da própria cama, mas ele o encarou com um olhar frio e respondeu: “Eu quero dormir numa cama macia, hoje. Você não?” – Logo a mulher voltou e disse: “Agora vou preparar um banho quente para vocês e vou me retirar, se não precisarem mais de mim. Neste quarto há uma cama pronta para cada um de vocês. Eu e meu filho dormiremos no chão esta noite. Não há nenhum problema com isso, estamos acostumados a fazer isso sempre que algum peregrino passa por aqui. Sabemos que são homens de Deus, por isso temos prazer em servi-los”. Zadig ainda esperava que seu companheiro impedisse aquela pobre e sofrida mulher de se sacrificar pelo conforto deles. Esperava que dissesse alguma coisa, mas ele nada disse. Apenas assentiu com a cabeça, aceitando todas as gentilezas. Zadig começava a se sentir muito confuso com tudo aquilo. Quando já estavam deitados, ainda perguntou o porquê do comportando estranho, mas só obteve uma resposta: “Apenas observe e procure aprender”.





No meio da noite, Zadig acordou com um ruído estranho vindo de um outro cômodo da casa. Pela luz da lua que passava por uma fresta da janela, pôde observar que o ancião não estava no leito ao seu lado. Achou estranho, levantou-se e, sem fazer nenhum ruído, foi até a porta. Ela não estava fechada, havia uma vão por onde ele podia ver o que acontecia do outro lado. A janela deste outro aposento estava aberta e a luz do luar iluminava bem o ambiente. Assim, Zadig pôde ver claramente a viúva e seu jovem filho dormindo no chão, abraçados, em cima de um velho cobertor. Vendo aquela cena se sentiu envergonhado, uma vez mais, por estar confortavelmente acomodado numa cama. Seu tutor o obrigara a aceitar a hospitalidade da mulher e ele o fez, esperando que houvesse um bom motivo para aquilo. Então, desviando o olhar, viu o seu tutor no outro canto do quarto, remexendo dentro de um velho armário. O que estaria fazendo, vasculhando sem autorização os pertences alheios? Ele se comportava como um ladrão, furtivamente, sem fazer barulho. Depois de algum tempo, encontrou um pequeno e velho baú de madeira escondido cuidadosamente atrás de outros objetos. Afastou-os e retirou cuidadosamente o baú, com as duas mãos. Colocou-o devagar sobre uma mesa e o abriu. Logo em seguida, retirou todo o seu conteúdo e espalhou sobre a mesa. Eram algumas pedras preciosas, que a viúva guardava. Provavelmente as economias de uma vida inteira ou a herança deixada por seu falecido marido. E então, Zadig quase não pôde acreditar no que seus olhos viram: O ancião recolheu todas as pedras que estavam dentro do baú e as guardou dentro de uma pequena trouxa que fez com um pano. Logo a seguir, guardou o baú no mesmo lugar onde o encontrara, escondeu a trouxa de pano entre suas vestes e se voltou na direção do quarto, sempre furtivamente. Zadig correu de volta para a cama, se deitou e se cobriu, fingindo que estava dormindo. Mas viu claramente o seu mestre entrar, abrir sua bolsa e guardar lá dentro a o produto do furto que acabara de cometer!

Zadig não podia acreditar naquilo! Estivera enganado o tempo todo a respeito de seu velho guru? Seria ele um enganador, apenas um ladrão muito hábil, que se fazia valer dos seus conhecimentos místicos para lesar o próximo? Um verdadeiro lobo em pele de cordeiro? Seria possível que em todo o tempo que permaneceram juntos ele não tivesse feito outra coisa senão deslumbrá-lo com belas palavras e falsos ensinamentos espirituais?

Amanheceu o dia. Zadig despertou. Ele não tinha conseguido dormir direito, mas o ancião continuava tranqüilamente deitado em sua cama, dormindo profundamente. Sua consciência parecia tranqüila como a de um bebê! Zadig sentia um misto de indignação e perturbação. Mas não queria aceitar que tinha abandonado sua família, a escola, o convívio dos amigos, tudo enfim, para seguir um patife travestido de sábio. Levantou-se, foi ao lavatório fazer sua higiene matinal. A dona da casa não estava, tinha saído cedo, ela também trabalhava no campo. Ao passar pela cozinha, viu que ela tinha guardado o último toco de pão que sobrara da noite anterior para que ele e o (falso?) “homem santo” pudessem fazer o desjejum. Zadig sentia-se profundamente confuso, sem saber o que fazer. Mas resolveu consigo mesmo que não diria nada ao ancião, porque não conseguia conceber que ele realmente levaria a idéia de roubar a pobre mulher adiante. Iria esperar até o fim, para ver onde tudo daria. Sentia o seu estômago se revirar, mas mesmo assim ainda se lembrava da promessa que tinha feito: confiaria no seu tutor até o fim.

O ancião acordou, lavou-se e voltou a cozinha. Comeu o último pedaço de pão sem oferecer a Zadig e sem se importar se a pobre viúva ou seu filho teriam o que comer naquele dia. Depois chamou Zadig para retomarem a estrada, dizendo que o seu aprendizado estava prestes a se completar. Zadig perguntou se ele tinha certeza de que não tinha nada a fazer antes de partirem, querendo dar uma chance ao ancião de se arrepender do seu ato execrável. Mas este o olhou tranqüilamente e respondeu com apenas um sonoro e tranqüilo “Óbvio que não”. Zadig quase não podia mais se conter, mas permaneceu em silêncio e voltou a seguir seu tutor. Quando saíram do velho casebre, o velho se dirigiu até uma pequena despensa que havia do lado de fora e pegou um recipiente que estava cheio da querosene usada para acender os lampiões. Sem dizer palavra, começou a espalhar o combustível ao redor de toda a casinha e nas paredes ressecadas. Os olhos de Zadig se arregalaram quando viram o ancião riscar um fósforo e atear fogo à humilde residência da viúva!

Zadig gritou, protestou, ele não podia acreditar no que estava acontecendo. As chamas já altas envolviam toda a casa, quando ele correu atrás do ancião, que já andava longe, se adiantando no caminho de volta à estrada. “O que acabou de fazer? O que está acontecendo, o senhor poderia me explicar?” – O velho o segurou forte pelos ombros, com um vigor incomum para um homem daquela idade, e olhando fundo nos seus olhos, perguntou: “Lembra-se do que você me prometeu, quando resolveu me seguir?” – e virando as costas retomou seu caminho para a estrada, sem dizer mais nada. Zadig estava transtornado, completamente confuso. E não saberia nem explicar o porquê, mas seguiu mais uma vez o ancião. Sem saber que o mais surpreendente ainda estava por vir.

O caminho para a estrada passava por uma velha e estreita ponte, sobre um rio de águas impetuosas. Zadig e o ancião estavam atravessando, e a cabeça do primeiro parecia girar, tão confuso ele estava com os acontecimentos recentes. Neste momento, quando estavam bem no meio da ponte, o ancião parou e pediu a Zadig que também parasse por um momento. Será que ele finalmente iria explicar o que estava acontecendo? Mas não haveria tempo pra isso. Logo a seguir, ouviu-se um grito, e do outro lado da ponte vinha correndo, desesperado, o filho mais jovem da pobre viúva. Quando os viu, perguntou o que estava acontecendo, disse que alguém o informara que sua casa estava pegando fogo. Zadig não soube o que responder, e o ancião não disse nada. O rapaz então retomou sua corrida, mas quando ia passando ao lado do velho, este o empurrou com um gesto vigoroso, para fora da ponte! O pobre rapaz despencou da ponte, gritando - em poucos segundos foi tragado pelas águas violentas, sendo arrastado até sucumbir às profundezas e dele não restar mais nenhum sinal. Tudo aconteceu tão rápido que Zadig não pôde fazer nada a não ser gritar, além disso ele não sabia nadar, e se tivesse se atirado naquelas águas terríveis para tentar salvar o garoto, não poderia ter feito absolutamente nada.

Esta havia sido a última gota d’água! Zadig entregou-se a uma fúria incontrolável, e não tentou mais conter uma reação violenta. Avançou para cima do seu ex-tutor, desferiu-lhe dois violentos socos na face, e quando este caiu aos seus pés, desabafou toda sua angústia em altos brados: “Você é o mais falso dos mestres! Amaldiçôo o dia em que o conheci, e maldito o dia em que resolvi segui-lo! Você não passa de um ladrão desprezível! Tudo que têm são palavras vazias! Aquela pobre mulher nos recebeu com amor e atenção, nos alimentou com as suas últimas provisões. Desalojou da cama o próprio filho, que era a última coisa que ela tinha nesta vida, e ela mesma abriu mão do próprio leito para nos dar conforto, e o que você fez? Como retribuiu a esta pobre viúva? Roubou-a vergonhosamente na calada da noite, tomou dela a única coisa de valor que ainda possuía, queimou a sua casa, e agora acabou de assassinar o seu único filho?? Eu o desprezo! Eu o odeio! Exijo que suma da minha frente, antes que eu acabe com a sua vida! - Zadig falava atropelando umas palavras com outras, sem respirar, o rosto distorcido pelo ódio e revolta - Mas não pense que não vou denunciá-lo às autoridades! Em pouco tempo você estará preso, e eu espero que seja executado ou que passe os seus últimos dias apodrecendo sua carcaça velha numa cela imunda!!”..

O ancião limpou o sangue que começava a escorrer do seu lábio inferior e se levantou tranqüilamente. Em seu rosto vermelho aparecia um sorriso, quando ele começou a falar: “ Nunca confie em ninguém, e às vezes nem mesmo em si mesmo. Está escrito: ‘Maldito é o homem que confia no homem’. Peça orientação aos Céus para saber o que é bom e o que é mau, e viva somente segundo a sua consciência e fazendo uso do seu discernimento em qualquer situação. De repente, a promessa que você me fez já não tinha a menor importância, diante do que você viu bem diante dos seus olhos, não é? Nossa jornada, juntos, está completa. Você acaba de aprender hoje a sua primeira real lição, porque a viveu na prática e a sentiu na pele”. Sim, aquilo fazia sentido, mas Zadig não podia acreditar que aquele velho insano tinha roubado e incendiado a casa de uma pobre viúva, e, além disso, assassinado uma pessoa apenas para lhe ensinar uma lição! Isso não fazia nenhum sentido! Mas o ancião continuou falando: “Eis a sua lição: Não julgar nunca as intenções de Deus! Não pretender jamais trocar a confiança na Sua Sabedoria pelo grosseiro intelecto humano! Frágil mortal! Pare de questionar O que você deveria reverenciar!”...

Zadig ainda não entendia nada, e ainda sentia vontade de socar seu antigo professor. Mas subitamente, percebeu, estarrecido, que as formas do ancião estavam mudando. Sua aparência e as formas do seu corpo se alteravam. Sua pele começava a se deformar e expandir em todos os lados, e todo seu corpo se tornava uma massa desfigurada, que inflou até que o que antes fora pele se rompesse e se rasgasse em muitas partes, que caíram por terra, se tornando em cinzas. Zadig olhou e viu o que havia por baixo da aparência do ancião: um ser maravilhoso, de pele reluzente como metal polido e asas flamejantes! Sua estatura era grande e seu semblante era terrível como o de um ser para o qual tempo e espaço significam nada. Zadig caiu prostrado, aterrorizado. Então aquele que um dia se parecera com um velho voltou a falar, agora com uma voz que ressoava como um estrondo:

“Você não me reconhece? Eu sou o anjo da morte! Eu cumpro os desígnios do Altíssimo. Fui enviado para cumprir uma missão especial, porque com ela alguém importante deveria aprender algo fundamental. Este alguém é você. Uma grande missão também o aguarda neste mundo, mas você não será capaz de cumprí-la se não tiver aprendido a lição que eu lhe trouxe. Vou lhe explicar tudo o que você pensa que viu, para que finalmente entenda:

A mulher que nos recebeu tem um futuro luminoso, que nunca poderia se cumprir sem a minha intervenção, que é o cumprimento da Vontade de Deus. Antes da nossa chegada, ela precisou sofrer, porque só assim saberia estar apta a valorizar devidamente e saber desfrutar das grandes bênçãos que irá receber. Ela perdeu seu marido, violento e infiel, que só lhe deu desgostos. Quanto ao filho mais velho, saiba que o seu assassino não foi um salteador, mas seu próprio irmão mais novo, por inveja - o mesmo que eu acabei de precipitar desta ponte, cumprindo a minha tarefa de ceifar sua vida. Você me viu empurrá-lo, mas todos entenderão o ocorrido como um acidente. E na verdade, foi isto que realmente aconteceu, porque eu não existo no seu mundo, e assim todas as minhas ações são como acidentes ou reveses naturais da vida. Esse rapaz cruel já tinha decidido assassinar, nesta manhã, também a sua própria mãe, para ficar com a propriedade e com as pequenas pedras preciosas que ela guardava e eu escondi esta noite. Quando chegamos, ele pensou em aproveitar a nossa presença para culpar-nos pelo crime. Só por não ter encontrado as pedras no lugar de sempre foi que resolveu adiar seus planos. Tencionava antes descobrir onde sua mãe tinha guardado as pedras, para depois concretizar seu plano. As pedras encontram-se neste exato momento no meio das cinzas da casa incendiada, e serão ainda hoje encontradas pela dona. Mas já não serão mais tão importantes, porque com o incêndio da velha casa a viúva vai descobrir algo que se encontrava escondido, enterrado sob a sua fundação há muitos anos: um tesouro que foi ali colocado pelo antigo proprietário, antes de falecer. Somente com o incêndio total do velho casebre é que ela poderia encontrar o tesouro. Mas não é só. Também por causa deste incêndio, virão algumas pessoas do vilarejo vizinho, por curiosidade, e entre elas um homem solteiro, gentil e atencioso, que vai conhecer a viúva e em breve se tornará seu marido. Eles viverão felizes e terão dois filhos bons e atenciosos. Por fim, o rapaz que você viu cair da ponte não morreu. Ele está inconsciente agora, mas será transportado por seu próprio anjo de guarda para um lugar distante, onde vai cumprir o seu destino. Um dia ele voltará para confessar o seu crime e se desculpar com sua mãe”.

Zadig estava ainda atordoado, mas agora a serenidade finalmente começava a surgir em seu espírito. O anjo perguntou: ”O que você aprendeu?” E Zadig respondeu: “Esta foi a minha lição: Nem tudo é o que parece. Nunca mais duvidarei da perfeição dos desígnios divinos. Nunca vou querer julgar com medidas humanas as Razões e a Perfeição de Deus. Cada pequeno acontecimento tem um excelente motivo, mesmo que eu não compreenda, em princípio”.

O anjo sorriu, mostrando-se satisfeito, e concluiu: “Lembre-se sempre, esta é a maldição do tempo, fazer com que os homens não percebam o espaço entre causa e conseqüência, ação e reação. Agora volte para a sua casa e se esforce para aprender sempre mais, porque o seu tempo ainda não é chegado. Meu nome é Yesod, e no dia da sua libertação, voltaremos a nos encontrar” . Dizendo isto, o anjo da morte elevou-se ao céu, até acima das nuvens, desaparecendo num clarão fulgurante.