Há o Mal? - parte 2


Na ânsia de compartilhar conhecimento, ultimamente tenho me atrevido demais a falar de coisas que são muito maiores do que a minha capacidade de compreensão, e mesmo que eu tenha encontrado as minhas respostas, não posso esperar que o leitor a tudo compreenda do mesmo modo. Por isso, o título desse post mudou de “A natureza do Mal” para “Há o Mal?” – assim mesmo, no interrogativo, que é a maneira que mais me agrada e que me parece a mais correta. O objetivo do blog é muito mais o de fazer perguntas que o de apresentar respostas, prontas, bonitas e reconfortantes (o que seria o caminho mais fácil, diga-se de passagem). Mais proveitoso é questionar, indagar, fazer pensar; tentar fazer com que os braços se descruzem, derrubar por terra todas as certezas que não venham da experimentação profunda. Eu confesso aqui, publicamente, que a minha intenção não é agradar o leitor nem incentivá-lo a permanecer “tranqüilo” como está. Minha intenção é mais a de tirar (expulsar, se me for possível) o leitor da sua (falsa?) zona de conforto. Então, ao trabalho...

Não devemos pensar no Mal. Não temos que ficar remoendo sobre o Mal; principalmente porque isso nos levaria a um nível mental prejudicial, para nós mesmos e para todos. Mas devemos ter muito claro em nossas mentes que, neste plano de existência, neste mundo fenomênico, ele existe. E nós vivemos no mundo fenomênico! Simples, portanto, entender a importância de se falar neste assunto, ainda que seja desagradável.

Mas será que o Mal não é um meio para o nosso crescimento, espiritual e humano, em todos os sentidos? Será que Deus, sendo o Sumo Poder da Existência, não seria capaz de subordinar esse Mal à sua Vontade, e assim, livrar-nos desse obstáculo de uma vez por todas? Ou será que o Mal na verdade seria mais um instrumento do próprio Deus neste mundo, com finalidades e propósitos específicos? Tomemos como base argumentativa a história de Lúcifer – se ele era um anjo que optou pelo Mal, isso implica que, de algum modo, o Mal já existia, certo? Só podemos optar por algo que já exista. Vale ainda lembrar que o texto bíblico nos conta, no livro de Jó, que Satanás se apresenta diante de Deus, para pedir autorização para tentar os homens. E Deus o permite, como uma prova de fidelidade. Histórias extremamente semelhantes constam no "Mahabharata", o mais antigo livro sagrado hindu; e em outras escrituras ancestrais. Então, se o Mal é apenas um instrumento de Deus, na Verdade não existiria essa “Batalha Cósmica” entre Bem e Mal, como entendem muitos, já que tudo é regido por um Poder que é Maior e Ilimitado. Tudo faria parte de um Plano muito maior do que tudo aquilo que poderíamos imaginar ou conceber.

Bem, esta é uma linha de pensamento válida, eu diria. Mas digo com muito mais veemência que essas questões estão muito além do nosso alcance, e assim é por Vontade de Deus. Então, será que a Inteligência Suprema não tem o melhor dos motivos para que assim seja? Não nos compete julgar essas coisas. Querer compreendê-las é caminho certo para a insanidade. Deixo meu testemunho pessoal que cheguei muito perto da loucura (não é só força de expressão) por pretender colocar a imensidão do oceano dentro da minha pequena xícara.

Mas um fato fácil de se constatar é que a existência do Mal é um fator essencial para o cumprimento da nossa missão neste mundo. Aprendemos através das dificuldades. “A espada que mais 'apanha' do mestre espadeiro se torna a mais resistente, a mais afiada e a mais perfeita” - diz um antigo provérbio samurai. Se nós estivéssemos aqui para viver como que num “mar de rosas”, imersos eternamente num oceano de bem-aventurança, sem enfrentarmos problemas e provas, teríamos ficado no lugar de onde viemos. Ou seja, não teríamos deixado a Fonte (Deus), nem perdido conexão com a Energia divina, para viver neste mundo duro e cruel, cheio de dificuldades e injustiças. Se eu creio e confio na Justiça, então eu creio que estamos aqui por um bom motivo, e esse motivo só pode ser o aprendizado. Assim, ao estudar um pouco a vida dos grandes espiritualistas e santos, descobrimos que muitas vezes as almas mais desenvolvidas foram justamente as que mais enfrentaram sofrimentos e tropeços em suas vidas. Permanecer no Caminho é custoso, dá trabalho. Por isso Jesus diz: “Entrem pela porta apertada e sigam o caminho estreito”. Mas os “mestres” do mundo dizem: “Entrem pela porta larga, sigam o caminho mais fácil e espaçoso! Deus aceita tudo! ” Se você citar Buda, Jesus ou qualquer buscador espiritual autêntico (já que todos, sem exceção, pregavam um trabalho de auto-aperfeiçoamento constante), esse falso mestre com toda certeza responderá algo do tipo: “Jesus também vale! Buda também vale! Tudo é bom, tudo é divino!” – “Faça o que tu queres pois é tudo da lei!” – É a filosofia do “oba-oba espiritual” em sua plenitude...

Akhenaton, Zoroastro (ou Zaratustra), Sócrates, Platão, Aristóteles, Confúcio, Sidarta (Buda), Bodhidharma, Nagarjuna (fundador da Escola do Caminho do Meio), Maomé, Rumi, Ramakrishna, Yogananda, Jesus... Todos estes (só para citar alguns) ensinaram que precisamos escolher entre Bem ou Mal, e anular nossos próprios egos para atingir a perfeita realização humana. “Há dois pássaros pousados no galho da árvore do meu eu. Ambos habitam o meu corpo. Um me chama a comer os frutos amargos, outro os deliciosos. Mas os amargos levarão minh’alma às delícias, e os deliciosos a levarão à amargura”provérbio hitita. Quem tem entendimento para entender...

Quero deixar uma conclusão importante: é exatemente quando estamos no bom Caminho, caminhando na direção certa, que as vibrações negativas tendem a se intensificar em nossas vidas. E muitas vezes acabamos nos desviando. Isso já foi observado muitas e muitas vezes ao longo da história (e inclusive por participantes deste blog). Para encerrar o assunto, deixo a história do famoso caso de uma bióloga ex-cética que foi curada em Medjugorje, um dos principais centros de aparições de Nossa Senhora no mundo (assunto que eu pretendo abordar em breve). Seu nome é Rita Klaus. Eu tenho a história em detalhes, contada com todas as minúcias pelo seu amigo pessoal, o repórter cético da revista Rolling Stone americana, Randall Sullivan, no seu livro “Detetive de Milagres”:

Essa cura, a da americana chamada Rita Klaus, foi a mais divulgada de todas as relacionadas às aparições de Nossa Senhora em Medjugorje. A atenção que a mídia internacional deu ao caso talvez tivesse muito a ver com o fato de ela ser uma ex-freira, que à época da sua cura, tinha perdido a fé havia quase três décadas. Ela abandonou a religião pela ciência e saiu do convento para fazer uma especialização universitária em biologia. Seu nome então era Rita McLaughlin. Pouco depois de se formar, foi diagnosticada uma esclerose múltipla nela, e, por causa da doença ela não conseguiu encontrar lugar como professora. A jovem chegou a encontrar trabalho no oeste da Pensilvânia, mas só pôde passar no exame médico ao inventar uma história de que tinha sido vítima de pólio na adolescência, e assim explicar a fraqueza muscular que sofria. Casou-se com um colega ateu e teve o primeiro de seus três filhos. Este tinha apenas alguns meses de idade quando sua mãe perdeu a capacidade de apreensão e o deixou cair no chão. A doença de Rita progredia. O grau de sua debilidade física era o que tornava o caso tão intrigante: Em 1986, ela estava já com a visão turva e sofria de incontinência urinária periódica, passando quase todas as horas do dia numa cadeira de rodas. Ela não era uma mulher pequena, e três pessoas levavam cerca de vinte minutos para levá-la para a cama, no andar de cima da sua residência, à noite. Com a degeneração dos músculos, as pernas começavam a apresentar deformações – para dentro, no joelho, e para fora, no tornozelo. Ela não podia nem sequer sentar na cadeira de rodas sem prender suas pernas em braçadeiras de aço.

Segundo o artigo do jornal "Pittsburgh Press", Rita, quando soube de Medjugorje no início de 1986, começou a rezar para a Virgem Maria. Na noite de 18 de Junho daquele ano, ela ouviu uma voz que acreditou ser da Virgem. E então uma oração emanou de dentro dela e um choque elétrico percorreu seu corpo. Na manhã do dia seguinte, quando acordou, Rita sentiu, pela primeira vez em anos, suas pernas; uma sensação que foi se firmando no decorrer do dia. À tarde, Rita desafivelou a braçadeira que prendia a perna direita e viu que a perna torta estava perfeitamente alinhada. Logo depois, ela soltou a perna esquerda e se levantou. Naquela noite, sem ajuda, ela subiu a escada que ia dar no seu quarto. Na manhã seguinte, Rita desceu e tornou a subir a escada correndo! Mais tarde, naquele mesmo dia, caminhou mais de 1,5 quilômetro para chegar à casa da amiga que tinha disso a primeira pessoa a lhe falar de Medjugorje.

Rita Klaus foi examinada por muitos médicos e esteve em muitas clínicas durante os anos em que esteve doente, e por isso tinha uma vasta documentação médica da sua doença. O que espantou a sucessão de médicos que a examinou, tanto antes como depois da sua cura, não foi o fato de sua recuperação ter sido total, mas principalmente de ter sido imediata. Uma melhora espontânea da esclerose múltipla seria inconcebível, mas o estrago nos músculos das pernas de Rita tinha sido tão grande que seriam necessários meses de fisioterapia para ela conseguir dar alguns passos sozinha. Subir e descer escadas correndo não poderia ser classificado de outro modo que não “completamente impossível”.

Abaixo, a transcrição do seu relato pessoal, dado diretamente a Randall Sullivan. Segundo ele, Rita Klaus hoje é uma mulher "grande e bonita, de bem cuidados cabelos brancos", muito equilibrada e segura. Esse relato fala do Mal e das experiências que ela viveu antes e depois da sua cura miraculosa. Os grifos são meus:

“Satanás existe, e o mal dentro de nós vem da tentação. Temos de tomar uma decisão, para o Bem ou para o Mal. Então, o Mal está dentro de nós, sim, como você acredita, mas está também fora de nós. E acredite, é real e difuso, muito. O melhor que o Diabo pode fazer é nos convencer de que ele não existe, porque se não existe, não temos nenhuma responsabilidade. Onde quer que Deus esteja presente, o Bem está presente. E onde quer que o Bem esteja presente, o Mal está presente. Isto procede da própria Base da Existência. Mesmo nas ciências, há a carga positiva e a negativa. Deus criou o Diabo como um anjo de luz. E também criou a liberdade de escolha, e o Diabo fez uma escolha muito ruim; originada do orgulho. O orgulho é a raiz de todos os pecados. É a sua própria essência. Sabemos um bocado sobre o orgulho. Mas todos temos o pecado do orgulho. É por isso que precisamos do Salvador. Erramos porque nos parece bom. Vou lhe contar a minha história. Não quero apavorá-lo, mas acho que você precisa ouvir.

A minha história começa realmente depois da minha cura. Mas vou retroceder no tempo, de todo modo, porque quero que você compreenda que o que ocorreu primeiro foi a minha cura espiritual, uns cinco anos antes, e foi muito mais importante. Uma amiga me chamou e perguntou se eu gostaria de assistir a uma cerimônia para cura na paróquia vizinha. Eu não queria ir, e disse: ‘Não acredito nisso’. Aquilo tudo me parecia tão medieval e distante... ‘não existem essas curas. Sou cientista, bióloga experimentada, não acredito em religião nenhuma.’ Ela me ligou muitas vezes, e a cada ligação eu ficava mais zangada. Ela é uma mulher instruída, e eu queria saber como era possível minha amiga acreditar naquela bobagem. Ela perguntou: ‘Você já o viu na TV?’ Ela se referia ao padre que estava ministrando a cerimônia. E eu lhe contei que o meu irmão, que é um repórter investigativo que trabalha na televisão, desmascarava esses charlatões o tempo todo. Ele mostrava como essas pessoas eram introduzidas no meio do público e como tudo não passava de armação. Por acaso, o meu marido estava presente e ouviu essa conversa. E me perguntou: ‘Por quê você está se comportando assim? Eu acho bom você ir’. Ora, meu marido não é religioso e muito menos católico. Eu disse: ‘Você está falando sério?’ E ele me disse que eu estava me tornando uma pessoa chata, irascível. ‘Até os nossos filhos estão com medo de falar com você, porque você parece sempre tão irritada com o que lhe aconteceu’. Eu respondi: ‘E como você acha que eu me sinto?’ - E muito desconfiada, perguntei à minha amiga: ‘Quando vai ser a tal cerimônia para cura?’ Ela respondeu: ‘Depois da missa.’ E eu: ‘Tudo bem, mas não vou me exibir, subindo no palco com as minhas muletas’.

Naquele dia a igreja estava entupida; qualquer um que tivesse uma pinta no nariz estava ali para ser curado e eu estava me divertindo com tudo aquilo. Eles me empurraram para um banco junto com os outros, e eu pus as muletas no chão. Os padres todos vieram pela nave central, e todo mundo se levantou para recitar o Pai-nosso. Então eu tentei me levantar. Eu estava com aquelas peças nas pernas que, quando eu me levantasse, prenderiam minhas pernas, mantendo-as firmes. Eu não tinha outro jeito de andar, senão com as muletas. Então eu tentei me levantar e as peças se fecharam. Agarrei nas costas do banco à minha frente e então escorreguei para baixo desse banco. As pessoas me agarraram, me puxaram para cima, tentando fazer com que eu voltasse a ficar de pé. Aquilo é que era exibição!”

Eu só queria sair dali, mas o padre me agarrava por trás e me empurrava para que eu me aproximasse do altar. Eu não podia fugir, porque ele me abraçava como um urso. Fiquei furiosa. ‘Como o senhor ousa me tocar sem a minha permissão?’ Eu estava vermelha, mas o padre já estava rezando e todos os outros padres também, e chegavam mais perto e punham suas mãos sobre mim. Eu me sentia simplesmente humilhada.

Então, de repente, algo aconteceu. Era como se eu não estivesse ali. Todo mundo tinha sumido. Havia só uma luz branca à minha volta. E eu me sentia extraordinariamente amada. Não dá para descrever o que se passava. Eu sentia uma paz e um amor intensos e era como se nada mais importasse. De repente me vi rezando... dizendo que estava bem, que Deus estava certo, fosse lá da maneira que fosse. Não houve nenhuma mudança no meu físico, mas eu estava curada por dentro. Quando fui para casa, eu era literalmente uma pessoa diferente. Eu tinha sido freira, mas nunca fui uma pessoa realmente religiosa. Mas naquele momento eu era.

Fisicamente, piorei muito nos cinco anos seguintes. Eu não podia mais andar nem de muletas. Mas nunca pedi a Deus que me curasse. Um dia, porém, eu estava tão cansada de tudo aquilo, que pensei: ‘Quando é que tudo isso vai terminar?’ e então ouvi uma voz que me disse: ‘É só pedir.’ Assim que a ouvi, me dei conta que era a voz da Mãe Santíssima. Então pedi, e em 24 horas eu estava curada, completamente curada, como se nada errado jamais tivesse acontecido comigo.

As pessoas acham que depois de ter havido uma cura, tudo se torna uma maravilha para a pessoa curada. E é uma maravilha. Mas quando Deus permite que algo muito bom nos aconteça, há uma razão para isso, e sempre há uma responsabilidade acompanhando essa dádiva. Então a minha vida não ficou mais fácil depois da cura, ficou até mais difícil. E depois, reparavam tanto em mim que eu não podia mais ir a lugar nenhum. O tempo todo tinha gente ao meu redor, nem que eu fosse só ao supermercado. Teve uma moça que chegou a desmaiar quando me viu andando pela primeira vez, ela simplesmente desabou no chão. Eles me conheciam e sabiam o que tinha acontecido. Era esse tipo de reação que eu causava nas pessoas.

Meu marido, então, ficou apavorado. Ele não sabia por que, não sabia como lidar com aquilo. Ele se perguntava se a melhora duraria: ‘Será que ela vai acordar doente amanhã? Se nossas ações não forem perfeitas, será que Deus vai voltar atrás nessa cura?’

Então, é aí que começa a história que eu quero lhe contar, e que ocorreu mais ou menos um ano depois da cura dos meus males físicos.



A continuação dessa história fica pra amanhã. Até lá!



Há o Mal?

Preciso falar de um assunto delicado. É um tema importante, que eu estou protelando já há um tempo, mas passou da hora de abordá-lo. É uma daquelas matérias fundamentais, que precisam ser compreendidas antes de nos aprofundarmos mais em outros assuntos.

A verdade é que nunca a sociedade esteve tão influenciada por idéias ocultistas, esotéricas, mágicas ou pseudomísticas, nestes mais de dois mil anos da Era Cristã, como nos dias de hoje. O movimento filosófico místico conhecido como "Nova Era", por exemplo, atrai cada vez mais adeptos, por uma razão muito simples: acena a todos com a promessa de “ser como Deus”. Mas a Nova Era não é uma religião única ou uma comunidade específica que possa ser como tal percebida. Trata-se de uma espécie de “rede”; um movimento maior, que não se pode “ver” nitidamente, mas cujos efeitos na sociedade são bem reais. A Nova Era não se apresenta como um movimento unificado, sob a direção de um líder único, mas é como uma constelação de pequenos movimentos.

“Enquanto a maioria das nossas instituições vem falhando, surge uma nova versão da velha relação tribal ou familiar: 'a Rede'. A rede é moldável, flexível. Para todos os efeitos, cada membro é o centro da rede. As redes são cooperativas, não competitivas. São como as raízes da grama: autogeradoras, autoorganizadoras, por vezes até autodestruidoras. Representam um processo, não uma estrutura organizada. Cada segmento dessa rede é auto-suficiente. Não se pode destruir a rede pela destruição de um dos líderes ou de algum órgão vital. O centro - o coração - da rede se encontra em todos os lugares. A conspiração aquariana é, na verdade, uma ‘Rede de muitas redes’ destinadas à transformação social. Seu centro está em toda a parte. A Conspiração não pode ser detida, porque é uma manifestação da mudança nos indivíduos.”

- Marilyn Ferguson, "A Conspiração Aquariana"


Corrompido pela decadência moral e pelo enfraquecimento dos princípios religiosos, o Ocidente é invadido por uma grande variedade de práticas pseudo-místico-religiosas. Com efeito, assistimos hoje ao surgimento de diversas seitas e/ou correntes religiosas - também denominadas filosóficas - que se infiltram entre os adeptos das religiões tradicionais e operam uma verdadeira revolução silenciosa.

“Todos os deuses, todas as crenças, todos os sistemas religiosos serão aceitos ao mesmo tempo. Como os antigos romanos, toleraremos todos, exatamente por não acreditar a fundo em nenhum deles. Nossa fé se reduziu à crença numa energia cósmica qualquer, uma "força". (...) Gnomos, espíritos, magos, anjos, duendes, demônios – um cortejo de quimeras extintas pela luz elétrica – ressuscitam, assim, no ecletismo da nova religião, a mais relativista que já houve, apta a admitir quaisquer fantasias e ignorar contradições entre elas.”

- Otávio Frias Filho, diretor do jornal “Folha de S. Paulo”




Estamos falando de um movimento organizado, que, por vezes, até se apresenta como "cristão". Seu nome não poderia ser mais genérico: Movimento da Nova Era (ou New Age), que nada mais é do que a reunião de várias correntes esotéricas diferentes falando a mesma língua, que almejam, segundo seus adeptos, o fim da chamada "Era de Peixes" e a instauração da "Era de Aquários". Durante as perseguições romanas, os primeiros cristãos usavam alguns símbolos como identificação de sua Fé. Um deles, presente nas catacumbas e em vários objetos da época, era o peixe, que em grego, escreve-se ixtus, cujas letras são as iniciais de Iéssus Xcristós Teou Yiós Sotér (Jesus Cristo - Filho de Deus - Salvador). Para alcançar seus objetivos, tais organizações não raramente se revestem de uma aparência cristã e difundem mensagens pacifistas, ecológicas e filantrópicas. Todavia seguem uma doutrina esotérica iniciática, isto é, tem sua parte principal escondida, oculta, acessível apenas a pessoas iniciadas, que são lentamente levadas a esquecer seus princípios.

O homem justo faz do amor a Deus o eixo da sua vida, pelo qual ele enxerga todo o resto, cumprindo, naturalmente, o maior dos Mandamentos: Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração de toda a alma, de todo o entendimento, e com todas as suas forças” (Marcos, 12:30). A “santidade” consiste em amar a Deus até o esquecimento do ego, a ponto de nos tornarmos um outro Cristo, ou, nas palavras de São Paulo: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”. Nesse Amor sublime, fruto da pureza da alma, reside a verdadeira felicidade e o tesouro mais precioso, onde “o ladrão não chega, nem a traça rói” (Jesus Cristo em Lucas, 12:33).

Para os adeptos dessa nova ordem que se infiltrou e cresce cada vez mais no inconsciente coletivo da humanidade, não é a Deus que devemos conhecer e amar, mas a nós mesmos. Pois, segundo imaginam, Deus não é superior aos homens e digno de ser amado sobre todas as coisas, mas é igual aos homens. Como conseqüência, o homem deve conhecer a si mesmo e perceber que ele é “Deus”. É o orgulho levado às últimas conseqüências, mediante o qual o homem se esquece de Deus e do seu próximo para amar a si mesmo sobre todas as coisas.

“Sereis iguais a Deus” – Satanás, em Gênesis, 3:5


Sem dúvida, Satanás foi o primeiro "igualitário". - E ao grito igualitário de Lúcifer; “Não servirei!” (Jeremias, 2:20) - respondeu Miguel Arcanjo, o príncipe dos anjos: “Quem é como Deus?”. Segundo a Bíblia e a tradição cristã, os anjos, assim como os homens, também tiveram sua “prova”, na qual deveriam escolher entre Deus e a si mesmos. Segundo Tomás de Aquino, alguns anjos desejaram diretamente a bem-aventurança final, não por uma concessão de Deus, por obra da Graça, e sim por sua virtude própria, como mera decorrência de sua natureza. Desse modo, quiseram manifestar sua independência em relação a Deus; recusaram a Deus como Criador e desejaram substituí-Lo e ter o domínio sobre todas as coisas (Gênesis, 3:5).

Muitos dos novos movimentos espiritualistas sustentam exatamente a salvação (bem-aventurança), não como obra da Graça, mas como decorrência da própria "natureza divina" do homem. Segundo a tradição cristã, Lúcifer era o anjo mais belo que Deus havia criado. Deste fato resulta o seu nome, que significa "aquele que ilumina", ou "aquele que porta a luz": Lúcifer. Jesus diz, no Evangelho segundo Lucas: “Eu vi Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lucas, 10:18). Aquele que iluminava, agora vive nas trevas desviando a humanidade. Imaginando-se Deus, o adepto naturalmente é levado a negar a Justiça divina (já que essa Justiça pressupõe Deus superior aos homens). A Nova Era afirma que o problema do homem não é o pecado, mas a ignorância. Conhecer-se a si mesmo, eis o lema. Não é mais a Redenção de Jesus Cristo que abre as portas da Eternidade, mas o próprio homem que se julga salvo pela sua natureza divina. Desta forma, o supremo ato de Amor de Deus é substituído pelo supremo ato de orgulho de quem julga ocupar o lugar de seu Criador. Não existe punição, portanto não há justiça. Pelo seus erros, o indivíduo não terá que responder num outro Plano além deste, mas numa encarnação mais sofrida: “aqui se faz, aqui se paga”, ou a chamada “Lei do Carma”.

Para esse fim nos levariam as artes do tarô, búzios, quiromancia, astrologia, numerologia, cristais, certos tipos de medicina alternativa e etc. Tudo é usado para dar uma nova visão ao ser humano, uma nova maneira de experimentar a realidade. Claro que algumas dessas práticas abrangem aspectos naturais que podem produzir resultados efetivos. Mas o uso destes métodos como uma maneira de "canalizar energias", atrair prosperidade ou levar a um grau de consciência superior significa, na realidade, uma volta ao paganismo primitivo que havia na infância da humanidade, com todas as suas idolatrias e superstições.

“Eis que eu vos envio como ovelhas entre lobos. Por isso, sede prudentes como as serpentes e sem malícia como as pombas”

- Jesus em Matheus 10:16


“O Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns homens renegarão sua fé, dando atenção a espíritos sedutores e a doutrinas de demônios”

- I Carta a Timóteo, 4:1


“Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. Pelos seus frutos os conhecereis”

- Jesus em Matheus 7:15


Abaixo, o filósofo, jornalista e escritor Olavo de Carvalho manifesta a sua opinião abalisada numa entrevista concedida ao blogueiro multifaces Yuri Vieira:





A terceira pergunta


"Ninguém pode se considerar apto para iniciar a Jornada, enquanto não for capaz de responder, de modo definitivo e com absoluta sinceridade, para si mesmo, a três perguntas fundamentais. Essas perguntas são o início de tudo. Estão interligadas, e de certa forma, uma depende da outra, mas devem ser respondidas individualmente. Tentar responder a cada uma dessas perguntas poderá levar a muitos outros questionamentos importantes."

Aqui vamos nós com a terceira pergunta essencial que o buscador deve fazer a si mesmo. E esta é a pergunta prática, aquela que tem a ver com a nossa realidade imediata e que nos levará a mudar, mais diretamente, o nosso modo de viver. Responder às perguntas anteriores (a primeira e a segunda) significava estabelecer bases. Esta terceira resposta implica o repensar do meu modo de vida:


"POR QUE ESTOU AQUI?"


Toda pessoa reflexiva, em algum ponto da vida, pelo menos alguma vez ponderou sobre esta questão. Desde os primórdios, o ser humano tem acreditado possuir um vínculo com o Infinito ou com uma Mente Superior . Acredita haver energias intangíveis e alguma inteligência psíquica que o liga à Causa Primeira de Tudo. Além disso, o homem tem mostrado propensão a considerar a mente superior à matéria. Tem, em geral, contestado a noção de que a totalidade da mente humana seja um subproduto da matéria. O homem tornou-se capaz de usar a mente para levar as forças físicas da natureza a obedecer à sua vontade. A mente tornou-o senhor do seu mundo. Conseqüentemente, pareceu coerente ao ser humano que uma Inteligência correspondente, porém superior, se encontrasse além da realidade perceptível. Parecia ilógico que o Cosmo fosse desprovido desse Poder de que o próprio homem tinha sido provido. Acreditava o ser humano que a Inteligência Infinita e Cósmica deveria também ter um Propósito final superior em relação à humanidade; e, por conseguinte, concluiu que essa Inteligência também o impregnara e estabelecera propósitos para ele.

Porém, nos é difícil conciliar as experiências humanas com a crença num Propósito divino, porque não há caminhos bem definidos que conduzam à felicidade que tanto queremos. O caminho da vida nos chega repleto de eventos variados. Alguns abrigam o Bem, outros, o Mal. A sorte humana varia quase diariamente, como uma folha solta numa ventania. Há quanto tempo a humanidade vem se lamuriando como o antigo filósofo epicureu, Lucrécio?

“Por que as estações do ano trazem doenças, em sua passagem? Por que a morte prematura, à espreita em toda parte? A criança recém-nascida enche o quarto de lamentos. Bem o faz, que seu destino será andar pela vida através de numerosos infortúnios”.

Aliás, foi essa mesma constatação trágica que levou Sidarta Gautama, o Buda, a iniciar sua grande jornada. Será o homem, afinal, apenas um produto das forças mecânicas do Universo? Deve ele andar pela vida sofrendo, apenas tentando minimizar as dores do seu destino? Se há uma missão para a humanidade, qual será? O grande problema é que, na grande maioria dos casos, ao buscar sua resposta, o homem busca a segurança; procura uma certeza pessoal que lhe possibilite a paz de espírito. Mas para nós, cegos, não existem certezas cósmicas, apenas possibilidades. E isso não é fácil de se aceitar com serenidade. Se um buscador abandona o Caminho, apenas porque o Caminho lhe mostrou respostas que em princípio não o agradaram, ele é digno de ser chamado buscador da Verdade? Existem nesta vida fatores tanto de miséria quanto de felicidade. Compete à mente humana determinar os valores e as relações corretas. Somos só nós próprios que podemos responder à questão; “Por que estamos aqui?”

Devemos, portanto, aprender a estabelecer um propósito sensato para nossas vidas. E este propósito depende do discernimento das relações que temos com o Cósmico, ou com nosso próprio conceito de Deus (por isso a necessidade de se responder antes à segunda pergunta). Consiste também na descoberta dos vínculos que temos com a Natureza e, principalmente, em aprender como estabelecer um relacionamento proveitoso com nossos irmãos humanos. Mais importante, e que deveria ser ponto de vista de todo ser humano: Deus, essa Mente Divina ou Cósmica, como queiram, é sempre uma experiência pessoal transcendente e imanente, isto é, íntima. Ela assume aparência e característica de acordo com a mente finita do indivíduo. Por conseguinte, não é possível uma definição que estabeleça a mesma configuração da consciência cósmica em todos os homens.

Por que estamos aqui? Esta pergunta também é feita pelas diversas correntes de pensamento advindas do estudo da Torá, cada uma ao seu próprio estilo. O Zohar afirma que Deus (ou D’us, como preferem os judeus) nos criou "para que Suas criações O conhecessem". O mestre cabalista Rabi Ysaac Luria diz: “Deus é a essência do bem, e a natureza do bem é conceder bondade. Porém a bondade não pode ser concedida se não houver ninguém para recebê-la. Com esta finalidade, Deus criou nosso mundo – para que houvesse receptáculos de Sua bondade”.

O ensinamento chassídico afirma que estes motivos, bem como as razões dadas por outras obras cabalistas e filosóficas, são apenas as várias faces de um singular desejo Divino para a criação, como expresso nos vários mundos ou “Reinos” da Criação de Deus. O chassidismo oferece também uma formulação deste divino Desejo que eu acho particularmente interessante: "Façamos uma ‘morada’ para D’us no mundo material." Um dogma básico desta fé é que "o mundo inteiro está repleto com Sua presença" e "não há lugar onde Ele não esteja". Portanto, não se trata de nós termos de trazer Deus ao mundo material – Ele já está aqui. Porém, Deus poderia estar no mundo sem se sentir em casa aqui. "Sentir-se em casa", neste caso, significa estar num lugar que seja receptivo à Sua Presença.

“Se há um aspecto comum às pessoas materialistas, é o seu egoísmo intrínseco, sua maneira de colocar o ego como alicerce e propósito da existência. Com cada molécula de sua massa, a pedra proclama: ‘Eu sou’. Na árvore e no animal, a preservação e propagação do ser é o foco de cada instinto e a meta de cada realização. Quem mais que o ser humano elevou a ambição a tal ponto que se transformou num ideal de consumo? A única coisa errada com todo este egoísmo é que ele ofusca a verdade daquilo que está por trás dela; a verdade de que a criação não é um fim em si mesma, mas um produto e veículo para Seu Criador. E este egoísmo não é uma característica casual ou secundária de nosso mundo, mas seu aspecto mais básico. Portanto, para fazer de nosso mundo uma ’morada’ para Deus, devemos transformar sua própria natureza. Devemos relançar as próprias fundações de sua identidade, de uma entidade auto-orientada para algo que existe com um propósito maior que si mesmo. Toda vez que tomamos um objeto ou recurso material e o colocamos a serviço de D’us, estamos efetuando esta transformação... quando separamos uma nota de dinheiro para caridade, quando utilizamos nossa mente para estudar um capítulo da Torá – estamos efetuando tal transformação. Em seu estado inicial, a cédula no bolso diz: ‘A ganância é boa’; na caixa de caridade, afirma: ‘O propósito da vida não é receber, mas dar.’ O cérebro humano diz: ‘Enriquece a ti mesmo’; o cérebro estudando Torá diz: ‘Conhece o teu D’us’. Portanto, quando você encontrar esta pessoa (materialista) na rua, simplesmente sorria, dizendo: ‘Bom dia!’ Convide-a para tomar um café na sua casa, ou para um jantar de Shabat. Converse sobre amenidades. Você não deve, a esta altura, sugerir quaisquer mudanças no estilo de vida daquela pessoa. Você apenas deseja que ela se torne receptiva a você e àquilo que você representa. Ostensivamente, você não ‘fez’ nada. Mas na essência, uma transformação mais profunda e radical ocorreu. A pessoa se tornou um receptáculo para a Divindade. Obviamente, o propósito de um recipiente é que seja preenchido com conteúdo; o objetivo de um lar é ser habitado. O Santuário foi construído para abrigar a presença de D’us. Porém, a confecção de ‘recipientes’ para a Divindade é o maior desafio da vida e a sua realização mais revolucionária.” - Rabino Beit Lubavitch

Mas a pergunta “Por que estamos aqui”, a meu ver, está ligada diretamente a uma outra pergunta tão fundamental quanto ela própria, já que somos aquilo que queremos: Esta outra pergunta é: "O que eu quero?"


O que você quer? Lá no fundo do fundo da sua alma, o que você mais deseja desta vida? Não vale responder “a felicidade”. A questão aqui é saber o que lhe traria a felicidade. Já parou alguma vez para pensar profundamente nisso? E esta pergunta remete a duas outras: O que me impede de conseguir isto? – e - O que eu vou fazer a respeito?

Só muito tempo depois (muito mesmo) de rabiscar as três perguntas no meu caderno, foi que eu descobri que outras três perguntas (muito parecidas) representavam os três pilares da Árvore da Vida para algumas linhas cabalistas, ocultistas, e também do chamado cristianismo místico: "Quem sou?", "Que queremos?" e "Por que estamos aqui?" Segundo estas correntes de pensamento, a pergunta "Que queremos?" é típica do lado esquerdo da Árvore e do Pilar masculino agressivo. A pergunta "Por que estamos aqui?" é típica do lado direito da árvore e do Pilar feminino passivo. A pergunta "Quem sou?" é típica do Pilar médio que é a harmonia dos outros dois Pilares.

Pode parecer um pouco confuso, mas não é: Não há nada errado em desejar, se nos foi dado um livre arbítrio e estamos “programados” com certos desejos. É parte importante do que somos. Mas a grande questão, aí, é que os nossos desejos devem estar em harmonia com a pergunta: "Por que estou aqui?” No fim, este é o segredo da Felicidade. Ainda que estejamos dispostos a dar o máximo para conseguir o que queremos, realmente estamos aqui para dar a vida. Ainda que desejemos obter o que achamos que temos direito, realmente estamos aqui para dar bem estar aos outros. Ainda que desejemos entender as coisas, realmente estamos aqui para crescer:

Ter Paz é alinhar o nosso desejo de viver com nosso desejo de dar a vida. Este é YESOD, o fundamento de todas as coisas.

Auto Realização é alinhar o nosso desejo de obter o que achamos que temos direito com a nossa capacidade de dar bem-estar aos demais.

A Sabedoria é alinhar o nosso desejo de entender com o nosso crescimento em Sabedoria (que é algo muito mais profundo). Esta é a denominada Sefirá Kether (Coroa) - o outro lado do que chamamos conhecimento.

A Felicidade está em sintonizar os nossos desejos com “O Que É”. Desta forma imitamos à própria Divindade. Quando a nossa vontade estiver sintonizada com "O Que É" (a Vontade de Deus), então ocorre a semelhança da imagem da divindade, no interior do ser humano.

Desta forma poderíamos chegar a ser o individuo que tentamos ser.

Por que estamos aqui? - ou - O que desejamos?..

Uma boa e produtiva meditação (cada um a seu modo) para todos!


“Para que acreditas que estás neste Planeta?... estás aqui para aprender o que é o Amor!”

– Richard Bach ('A Ponte Para o Sempre')



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A segunda pergunta

Esta é A pergunta. E provavelmente esta seja, sob muitos aspectos, a mais importante de todas as perguntas.

Mas então, por que é a segunda, e não a primeira pergunta? Porque esta só pode ser feita depois que a outra (a primeira) estiver satisfatoriamente respondida: ”...a primeira e a mais fundamental dessas perguntas, que eu preciso fazer a mim mesmo, é: QUEM SOU EU?”...

Além disso, antes de fazer a segunda e primordial pergunta, cabe a colocação de uma advertência importante, a mesma que eu escrevi num dos meus diários pessoais, há quase uma década:

“Ninguém pode se considerar apto para iniciar a Jornada em busca da Verdade, enquanto não for capaz de praticar a sinceridade consigo mesmo. Absoluta sinceridade é necessária, para que a Busca se torne possível. Enganar-se a si mesmo é o primeiro e o maior dos pecados. Não se permita o autoengano, por motivo nenhum. Não engane a si próprio, mesmo que isso pareça lhe trazer bem-estar ou uma felicidade aparentemente sublime, num momento específico. O erro é quase sempre muito agradável, e os descaminhos são muito atrativos; por vezes parecem mesmo elevados. Se assim não fosse, tantos não se entregariam à esses maus caminhos, e o nosso mundo seria muito melhor do que é hoje...”


Eu não serei capaz de compreender nada, a respeito de absolutamente nada, enquanto não estiver usando de total sinceridade para comigo mesmo. E, usando dessa total sinceridade, só serei capaz de compreender qualquer coisa em profundidade, quando eu puder compreender a mim mesmo. Então, somente depois de estabelecidas estas bases primordiais, estarei eu apto a me candidatar a responder a segunda e grande pergunta, sobre a qual falei naquele mesmo velho diário:

“Agora eu já posso me atrever a pelo menos me debruçar sobre a questão que tira o sono dos seres humanos desde tempos imemoriais; desde antes das civilizações, desde que o 'bicho homo sapiens' se reconhece como ser pensante...”


"...O QUE É DEUS?"


Sim... Essa pergunta precisa ser respondida, mesmo que saibamos que provavelmente não haverá uma resposta satisfatória. Pois, de que adiantaria ficarmos aqui conjecturando se Ele existe ou não, se, no fundo, não sabemos do quê estamos falando, para começar? E só o fato de nos fazermos esta pergunta já nos trará muitas revelações. Porque só em pensar em possíveis respostas, fatalmente iremos perceber que a grande e fundamental questão não é “Há um Deus?”, mas sim “O que é Deus?”.

Hoje, muitos propõem a religião sem Deus. Confesso que eu também já passei por uma fase assim, algo como uma necessidade de esquecer se há ou não uma Força superior 'lá fora', e simplesmente tocar a minha vidinha aqui, da melhor maneira que puder. Mas logo percebi que as razões que me levavam a isso eram um tanto quanto medíocres e sem sentido, - pra não dizer mesquinhas. Ao menos no meu caso, tratava-se de egoísmo puro. Deixar toda essa história de altruísmo pra lá, e simplemente querer ser feliz...

E engraçado que, ao menos para mim, essa foi exatamente a receita da infelicidade, viver uma vida centrada no meu próprio umbigo. Descobri que, se nós estivéssemos aqui somente para nascer, crescer, nos reproduzirmos e morrer, assim como um peixe, um besouro ou uma pulga, e apenas tentar extrair o máximo de prazer possível nesse processo, então não haveria esse tal sentido do espiritual, tão enraizado no mais profundo do nosso DNA (a ciência já comprovou isso, como veremos abaixo). Por que a natureza se encarregaria de nos dotar com esse "gene religioso", se não houvesse um bom motivo para isso? E se eu sou um ser espiritual, e se "espiritualidade" pressupõe a existência de uma Força invisível (mas não totalmente imperceptível) que a tudo permeia, e o Epicentro dessa Força incomensurável é algo que chamamos "Deus", então... Uma religião sem Deus seria como um pastel sem recheio!

Ou seria como ir a um cinema que não exibe nenhum filme! Você vai, senta na poltrona, a luz apaga e... nada acontece! Religião sem Deus é um automóvel sem motor. Um carro pode ser bonito, ter uma linda pintura, ótimos faróis e belas rodas. Pode até ser bem confortável, por dentro. Mas se ele não tiver motor... o principal está faltando! Até a própria palavra fica sem sentido: como posso chamar de automóvel se ele não á 'auto-móvel'? E é exatamente a mesma coisa com a religião: a palavra religião, que vem do latim re-ligare significa a religação do homem com o divino. – Se eu excluo Deus dessa equação, religar com o quê?

“Com você mesmo”, talvez se apressem em responder alguns pseudomísticos, eu sei. Mas... numa boa, eu já me sentia muito bem "religado" comigo mesmo, e algo ainda me faltava. Algo muito importante. E eu tenho que dizer que este "Algo" devia ser o mais importante de tudo, pois um vazio imenso dentro de mim ansiava por ser completo!..

Compreendo, clara e perfeitamente, que a questão aqui não é optar ou não em se priorizar Deus em nossas vidas. Mas sim de entendermos o que singifica "Deus" para nós, afinal.

No começo, os seres humanos acreditavam num Deus que era a Causa Primeira de todas as coisas e que era o Senhor do Céu e da Terra. Ele não era representado por imagens e não tinha templos nem sacerdotes a seu serviço. Era excelso demais para um culto humano inadequado. Aos poucos, foi-se esmaecendo da consciência de seu povo. Tornou-se tão remoto que eles decidiram que não o queriam mais. Acabaram por aceitar que ele desaparecera. Esta é uma teoria que foi popularizada pelo padre e pensador Wilhelm Schmidt em seu livro, 'The Origin of the Idea of God' ('A Origem da Idéia de Deus'), publicado originalmente em 1912. Ele sugeria que houve um monoteísmo primitivo antes de os homens começarem a adorar vários deuses. Originalmente, reconheciam apenas uma divindade suprema, que criara o mundo e o governava de longe. A crença nesse "Sumo Deus", às vezes chamado de "Deus do Céu", porque era relacionado ao céu, ainda é uma característica da vida religiosa de muitas tribos indígenas africanas. Eles anseiam por Deus nas preces. Acreditam que Ele os observa e punirá suas más ações. Contudo, está estranhamente ausente de suas vidas diárias; não está em nenhum culto especial e nem é representado em efígies. Os membros das tribos dizem que Ele é inexpugnável e não pode ser contaminado pelo mundo dos homens. Alguns dizem que Ele “foi embora”. Antropólogos dizem que esse Deus tornou-se tão distante e excelso que precisou ser substituído por espíritos menores e deuses mais acessíveis aos homens e mulheres. E foi assim, segundo a teoria de Schmidt, que nos tempos antigos, o Sumo Deus foi substituído pelos deuses mais atraentes dos panteões pagãos[1].

No começo, portanto, havia um Deus. Se assim é, o monoteísmo foi uma das primeiras idéias desenvolvidas para explicar o mistério e a tragédia da vida. Em cavernas ancestrais foram encontradas inscrições e desenhos que demonstram que desde o Período Paleolítico já existia a crença numa Força superior, capaz de influenciar o dia-a-dia das comunidades, que podia trazer sucesso para as caçadas e garantir a sobrevivência dos grupos, além de objetos de 50.000 aC ou mais, que demonstram que naquela época já se observavam cerimônias ritualísticas para honrar e/ou fazer pedidos a essa Força superior. Nos quatro cantos do planeta, as mesmas idéias e princípios básicos foram estabelecidos. Praticamente todos os povos da antiguidade chegaram às mesmas conclusões essenciais sobre o tema Deus:

1) É o Criador;
2)
Rege o Universo;
3)
É justo, porém misericordioso;
4)
Os seres humanos precisam dEle para alcançar a verdadeira felicidade[2].


A questão que estou querendo levantar aqui é: como surgiu essa Idéia, a idéia de Deus, tão antiga quanto a própria humanidade? O estadista e filósofo Edmund Burke já dizia que “o homem, na sua constituição, é um animal religioso”. Mas por quê é assim? E, principalmente, que Deus é esse??

Cientistas já encontraram o que chamaram de “ponto Deus” no cérebro, que não deixou de ser, claro, contestado por outros cientistas. Uma frente avançada das ciências, hoje, é constituída pelo estudo do cérebro e de suas múltiplas inteligências. Alcançaram-se assim resultados relevantes, também para a religião e a espiritualidade. Enfatizam-se três tipos de inteligência. A primeira é a inteligência intelectual, o famoso QI (Quociente de Inteligência), ao qual se deu tanta importância em todo o século 20. É a inteligência analítica pela qual elaboramos conceitos e fazemos ciência, com a qual organizamos o mundo e solucionamos problemas objetivos. A segunda é a inteligência emocional, popularizada especialmente pelo psicólogo e neurocientista de Harvard, David Goleman, com seu conhecido livro "A Inteligência Emocional" (QE = Quociente Emocional). - Empiricamente ele demonstrou o que já era a convicção de toda uma tradição de pensadores, desde Platão, passando por Santo Agostinho e culminando em Freud: A estrutura de base do ser humano não é razão (logos) mas emoção (pathos). Somos, primariamente, seres de paixão, empatia e compaixão, e só depois, de razão. Quando combinamos QI com QE conseguimos nos mobilizar a nós e a outros.

Mas a terceira é a Inteligência Espiritual. E a prova de sua existência deriva de pesquisas muito recentes, dos últimos 12 anos, feitas por neurólogos, neuropsicólogos, neurolingüistas e técnicos em magnetoencefalografia (que estudam os campos magnéticos e elétricos do cérebro). Segundo esses cientistas, existe em nós, empiricamente verificável, um outro tipo de inteligência, pela qual nós não só captamos fatos, idéias e emoções, mas percebemos também os contextos maiores de nossas vidas em sua totalidade, e nos faz sentir inseridos no Todo. Ela nos torna sensíveis a valores morais e éticos profundos, a questões ligadas a Deus e à transcendência. É chamada de inteligência espiritual (QEs = Quociente espiritual), porque é próprio da espiritualidade captar totalidades e se orientar por visões transcendentais. Sua base empírica reside na biologia dos neurônios.[3] Verificou-se que a experiência unificadora se origina de oscilações neurais a 40 herz, especialmente localizada nos lobos temporais. Desencadeia-se, então, uma experiência de exaltação e de intensa alegria, como se estivéssemos diante de uma Presença viva... Ou, inversamente, sempre que se abordam temas religiosos, Deus ou valores que concernem o sentido profundo das coisas, não superficialmente mas num envolvimento sincero, produz-se igual excitação de 40 herz.[4] Por essa razão, neurobiólogos como Persinger, Ramachandran e a física quântica Danah Zohar batizaram essa região dos lobos temporais de "O Ponto Deus".

Portanto, podemos dizer, em termos do processo evolucionário: O universo evoluiu, em bilhões de anos, até produzir no cérebro o instrumento que capacita o ser humano a perceber a Presença de Deus, que sempre esteve lá, embora não perceptível conscientemente. A existência desse ponto Deus representa uma gigantesca vantagem evolutiva da espécie humana. Ela constitui uma referência de sentido para a nossa vida. A espiritualidade pertence ao humano e não é monopólio das religiões. Antes, as religiões são expressões (ou tentativas de) do ponto Deus.


Mas eu ainda não respondi à pergunta, certo? Sim... Bem, o que eu descobri é que seria impossível encontrar essa solução tentando "construir" a minha própria resposta. Entender o que é Deus talvez seja a tarefa mais inglória de todos os tempos, apenas porque isso é totalmente impossível! Simples assim... Então, o único meio que eu podia conceber, para chegar a alguma conclusão, seria 'desconstruindo' todas as respostas já existentes e prontas.

E assim, pedindo por orientação ao próprio Deus, e mais uma vez usando de toda a sinceridade para comigo mesmo, me entreguei a um diligente trabalho de retirar todos os excessos que 'enfeitavam' a minha limitada e imperfeita imagem mental, o meu conceito pessoal de Deus. Me entreguei a essa espécie de 'faxina psíquica geral', eliminando tudo aquilo que eu sabia que Deus não era.


Algumas conclusões a que eu consegui chegar

Deus Não é um ser antropomórfico (não é um ancião de longas barbas brancas, sentado eternamente em cima de uma nuvem). Não é uma entidade provida das fraquezas humanas. Não se limita a nada, nem a nenhuma religião e nem as nossas especulações. Não se limita à sua criação e nem mesmo às formas sob as quais se manifesta aos homens. Não se dobra aos caprichos humanos. Os livros sagrados e os sistemas estabelecidos por homens não podem conter nem explicar esse Deus. Se eu creio em Deus como o Criador dos Universos, se eu creio nEle como Autor e Fonte da própria Vida, então eu tenho que crer que Ele seja Infinito em Poder e Sabedoria absolutas... Tenho que crer que Ele é Perfeito, até porque, como disse Descartes, se “eu, tão imperfeito, tenho a idéia de Perfeição, só posso tê-la recebido de um Ser perfeito que me ultrapassa e que é o autor do meu ser”.




As demais conclusões são pessoais demais para serem compartilhadas. E, assim, amigos, essa reflexão deve terminar por aqui, ao menos por enquanto. Mais uma vez, eu não tenho como levar esse post à uma conclusão definitiva. Assim como a resposta para a “primeira pergunta”, essa resposta também é pessoal, e deve ser encontrada individualmente por cada um de nós.

E mais uma vez, posso apenas deixar aqui uma pequena dica: Encontrar a sua resposta para essa pergunta vale à pena. Vale muito à pena.


“Não tenho a menor idéia do que é Deus. Contudo, tenho uma experiência do que é Deus. Existe algo muito real em relação a 'essa presença que chamamos Deus', embora eu não tenha a menor idéia de como definir Deus, de vê-lo como uma pessoa ou alguma coisa, isso eu não consigo fazer. Pedir a um ser humano para explicar o que é Deus é semelhante a pedir a um peixe para explicar a água em que ele nada.”

- Fred Alan Wolf, Ph.D em Física pela UCLA, cientista físico, professor, escritor e autor de diversos livros e tratados sobre Física Quântica e Astronomia.


"Até meus 27 anos, eu era um ateu convicto, do tipo que se irrita com as convicções das pessoas religiosas. Foi somente cursando a falculdade de medicina, e testemunhando o verdadeiro poder da fé religiosa entre meus pacientes, que a minha visão de mundo começou a mudar. A Ciência definitivamente não exclui Deus."

- Profº Dr. Francis S. Collins, médico, biólogo e geneticista, diretor do Projeto Genoma e autor do livro "A Linguagem de Deus" (2007, Editora Gente), no qual apresenta evidências científicas de que Ele existe.




Fontes e bibliografia:
1. ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus: 4000 anos de busca do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p.15,16;
2 Idem, p. 17;
3. MARINO JR., Raul, Prof. Dr. A Religião do Cérebro - As novas descobertas da neurociência a respeito da fé humana", São Paulo: CENEPSI (Centro de Neuropsicocirurgia Pesquisas em Fisiologia Cerebral Humana)/Editora Gente, 2005;
4. BOMILCAR, Nelson. O Melhor da Espiritualidade Brasileira, São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2006, p 115.



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A primeira pergunta



"Ninguém pode se considerar apto para iniciar a Jornada, enquanto não for capaz de responder, de modo definitivo e com absoluta sinceridade, para si mesmo, a três perguntas fundamentais. Estas perguntas são o início de tudo. Estão interligadas, de certa forma uma depende da outra, mas devem ser respondidas individualmente. Tentar responder a cada uma dessas perguntas poderá levar a muitos outros questionamentos importantes. E a primeira e a mais fundamental dessas perguntas, que eu devo fazer a mim mesmo, é: QUEM SOU EU?”


"QUEM SOU EU?"


A introdução acima, transcrita de um antigo diário pessoal meu, trata de uma pergunta aparentemente muito simples. Pergunta mais simples, seria impossível. Por isso mesmo tão difícil de ser respondida. Por que sempre nos prendemos a detalhes e nos ocupamos com superficialidades a maior parte do tempo, mas nos esquecemos do essencial? Quem sou eu?.. Obviamente, a pergunta não se referia ao meu nome, nº do RG, formação acadêmica, idade, gostos pessoais, experiências vividas ou opiniões alheias sobre mim... a pergunta propunha simplesmente o conhecimento profundo de quem era eu mesmo, de fato.

Quem sou eu?.. Já tinha pensado sobre isso, antes, mas aquela pergunta assim, incisiva, direta, era um convite para mergulhar na questão... Olhar para dentro de mim, observar, tentar encontrar, antes da resposta, a serenidade para reconhecê-la. Algo me dizia que conhecer esse segredo me levaria, de algum modo, à possibilidade de vislumbrar horizontes antes nem sonhados. E eu estava certo.

Gostaria que esse post pudesse despertar o interesse nessa pergunta fundamental. Quem é você? Quem é você realmente? Qual a sua essência, o que é que faz você ser? Você é o seu nome, a sua história? Você é o seu corpo? Ou existe algo que estava antes e que vai além de tudo isso?

Exercício de Visualização: Imagine...

Imagine-se desprovido de tudo que você tem hoje, não só dos seus bens como também dos seus amigos, sua posição social, seu trabalho, seus pais, sua família, seus amigos... Esqueça também da imagem mental que você faz de si mesmo(a). Vá além, e esqueça quem você é, esqueça-se da sua identidade social; seu nome, sexo, idade, suas crenças (das mais superficiais às mais profundas). Esqueça de quem ama ou um dia amou, esqueça dos seus ideais e desfaça-se, ainda que por um momento, de todas as suas idéias préconcebidas a respeito de tudo. Esqueça até dos seus sonhos mais acalentados, das suas metas e objetivos nesta vida... Agora vá um pouco mais longe e comece a prestar atenção em seu próprio corpo. Sinta seus braços, suas mãos, suas pernas, seus pés... Qual dessas partes é você? Concentre sua atenção, lentamente, em cada pequena parte do seu corpo, uma de cada vez... Sinta sua cabeça, seus olhos, orelhas... Sinta todo o seu físico, parte por parte. Você é isso?.. Repita a pergunta cada vez que focar uma nova parte do seu corpo: Sou isto? Ou isto apenas me pertence, mas eu mesmo, estou em outro lugar? E que lugar seria esse? E tente perceber: Quem é que está sentindo? Quem é que está atento, nesse momento? Quem observa quem? No sentido mais profundo que conseguir conceber, responda para si mesmo(a) a estas perguntas: "Eu sou apenas isso? Eu me resumo ao meu corpo? Ou existe algo mais? Onde está a minha essência, onde estou eu?"

Será que você é o seu cérebro? O cérebro humano pode ser comparado a um prodigioso software, pelo qual dirigimos nossas "máquinas" físicas. Mas onde está o "operador"? Onde está você, que dirige tudo isso? Que parte de você define o que é o bem e o que é o mal, o que é certo e o que é errado? Por quê você reage ao meio em que vive da maneira como reage? O que o(a) faz rir? O que lhe provoca tristeza e lágrimas? O que provoca raiva? Por que você tem vergonha de certas coisas? E porque algumas pessoas o atraem, enquanto outras lhe causam repulsa, mesmo que aparentemente não haja nenhum motivo para tanto? Quem é você?

Eu conheci alguém que parece ter encontrado essa resposta, a julgar pelo que ele conta da sua própria experiência:

“Até os meus 30 anos, eu era extremamente ansioso, sofria de depressão e tinha fortes tendências suicidas. Hoje, parece que estou falando da vida de outra pessoa.

Tudo começou a mudar pouco depois do meu aniversário de 29 anos, eu acordei certa madrugada com uma sensação de pavor absoluto. Não era a primeira vez que eu tinha uma crise de pânico, mas aquela, com certeza, foi a mais forte de todas. Tudo parecia aversão pelo mundo, e, principalmente, por mim mesmo. Qual o sentido de continuar a viver com o peso dessa angústia? Para que prosseguir com essa luta? Um profundo anseio de destruição, de deixar existir, tinha tomado conta de mim, tornando-se até mais forte que o desejo instintivo de viver.

‘Não posso mais viver comigo’, pensei. Então, de repente, tomei consciência de como aquele pensamento era peculiar. ‘Eu sou um ou sou dois? Se eu não consigo mais viver comigo, deve haver dois de mim: um eu e um
eu interior
, com quem o ‘eu’ não consegue mais conviver. ‘Talvez’, pensei, ‘só um dos dois seja real’. Fiquei tão atordoado com essa estranha dedução que a minha mente parou. Eu estava plenamente consciente, mas não tinha mais pensamentos. Fui arrastado para dentro do que parecia um vórtice de energia... eu estava sendo sugado para um vácuo que parecia estar dentro de mim e não do lado de fora. De repente, perdi o medo e me deixei levar. Não me lembro de nada do que aconteceu depois.

No dia seguinte, fui acordado por um pássaro cantando no jardim. Nunca tinha ouvido um som tão maravilhoso antes. meu quarto estava iluminado pelos primeiros raios de sol da manhã. Sem pensar nada, eu senti – soube – que existem muito mais coisas para vir à luz do que nós percebemos. Aquela luminosidade suave que atravessava as cortinas era o próprio Amor. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu percebi que nunca tinha reparado na beleza das pequenas coisas, no milagre da vida. Era como se eu acabasse de nascer de novo.

Durante os cinco meses seguintes, vivi em um estado permanente de paz e alegria. Depois, essa sensação diminuiu de intensidade ou talvez eu tenha simplesmente me acostumado com ela, pois se tornou meu estado natural. Embora eu continuasse vivendo normalmente, tinha percebido que nada que eu viesse a fazer poderia mudar realmente a minha vida. Eu já tinha tudo que necessitava.”


– Eckhart Tolle


Tirando essa parte da depressão (apesar de eu também já ter enfrentado muitas fases depressivas na minha vida) e mudando alguns detalhes aqui e ali, isso foi muito parecido com o que eu próprio senti, uns três ou quatro meses depois de me propor a "primeira pergunta". Esse foi o tempo que eu precisei "carregá-la" comigo, até finalmente a resposta surgir. Pra falar a verdade, acho que essa resposta foi surgindo aos poucos, se mostrando devagar, e quanto mais eu me maravilhava com a sua beleza e por finalmente estar compreendendo, mais ela se revelava e me surpreendia, cada vez mais forte e plena. Um belo dia, se mostrou por inteiro, calma e absoluta, lá no mais profundo do meu ser. Não digo que essa tenha sido a resposta definitiva, que agora já dominei o assunto e que nada mais de novo haverá para aprender. Cada ir dormir é uma espécie de morte, e cada nova manhã é um renascer para novos aprendizados. Mas eu pude me entender muito melhor, depois disso, e tudo ficou mais simples, mais claro e mais completo na minha vida.

"Entreabra seus olhos e deixe entrar a luz. Procure a sua essência em si mesmo e depois tome consciência do seu próprio Ser."

- Ramana Maharshi


Este é um post sem um final. Não haverá uma conclusão para essa história. Esta é uma daquelas coisas que não dá pra compartilhar, dividir com alguém. Quem sou eu, o que eu vi dentro de mim mesmo e os efeitos que essa descoberta trouxe, são coisas tão pessoais e tão íntimas que não faria nenhum sentido tentar “explicar” pra outra pessoa. Só posso deixar uma pequena dica, pra quem se interessar possa:

Aquela sensação que todos nós experimentamos nesta vida, num momento ou noutro, de que "falta alguma coisa", e que muitas vezes tentamos compensar com relacionamentos vazios ou com excessos, apenas como uma espécie de anestesia; essa sensação de não estar completo vai continuar, enquanto houver uma identificação da mente com os fatores externos. Porque nós tentamos desesperadamente extrair o sentido de quem somos das coisas que não tem nada a ver com o que realmente somos, como o "nosso papel" na sociedade, nossas propriedades, nossa aparência externa, nossos sucessos ou fracassos, nossas crenças, etc. Esse eu falso, o ego construído pela mente, sente-se vulnerável, inseguro, e está sempre em busca de coisas novas com as quais se identificar, para continuar reinando sobre o eu real, que somos nós de fato. Mas nada é suficiente para lhe dar uma satisfação duradoura. Por isso, o medo, a sensação de "falta" e a ansiedade permanecem. Boa sorte a todos os que quiserem se aventurar nesta Jornada.



Guia prático do buscador

Começo hoje a falar de alguns princípios essenciais que eu descobri há muito tempo, quando ainda era um buscador desesperado, querendo encontrar a Verdade hoje, agora JÁ!.. É que uma das primeiras coisas que eu entendi, quando comecei a me importar com espiritualidade, foi que o único dia real é hoje, e o único momento que existe é o agora. Isso muito antes do Eckhart Tolle lançar o seu livro “O Poder do Agora”, no se propôs explicar didaticamente esse princípio básico dos verdadeiros buscadores. Lembro-me que quando descobri a Meditação, a primeira “modalidade” que eu pratiquei foi a “MT” (Meditação Transcendental). E me encantei.

O que será que faz a diferença, numa prática espiritual (assim como em qualquer outro tipo de prática): as técnicas e métodos ou as capacidades naturais do indivíduo e, principalmente, as suas reais intenções? O que é primordial para nos levar ao sucesso ou ao fracasso, a encontrar ou não aquilo que estamos procurando? O método ou o indivíduo? Não estou falando da forma, aqui (ou de religião, em se tratando de espiritualidade), mas sim das técnicas; tais como a meditação, contemplação, oração, uso dos mantras, a prática das virtudes, etc...

Lembro-me de um bom exemplo, que eu conheci através de um livro de filosofia, há muitos anos, de cujo autor não me lembro mais: “Se o mais importante fosse o método, todos os colegas de classe do Albert Einstein teriam se tornado 'gênios', já que todos passaram pela mesma metodologia e aprenderam dos mesmos mestres. Mas só existiu um Einstein. O indivíduo Albert Einstein é que era um dos maiores 'gênios' da Ciência em todos os tempos, muito mais por suas capacidades inatas e devido aos seus esforços pessoais, do que por conta da sua formação acadêmica. Este exemplo demonstra que o método deve ser necessariamente considerado menos importante do que a capacidade individual e os esforços pessoais”.

Ou seja, a diferença estava mais nele, Albert Einstein, do que nas técnicas que "foram usadas" nele. Isso não deve ser entendido como um menosprezo às técnicas ou às formas - o praticante certo, usando a técnica certa, poderá atingir a perfeição muito melhor e mais rápido do que se tivesse escolhido uma via equivocada. Mas é um fato que as capacidades inatas do indivíduo, aliadas à sua real disposição em progredir, valem mais do que o formalismo puro e simples.

Estou falando nisso porque eu comecei a praticar Meditação muito mais para encontrar as respostas que eu buscava do que só para relaxar, diminuir o stress ou para me sentir “diferente”, orientalizado... Também não me interessava o lado puramente místico e os simbolismos que normalmente acompanham o “pacote” que nos é oferecido, quando procuramos meditação. O que eu queria era usar essa técnica como uma ferramenta para me ajudar na Busca. E também não queria ficar a mercê de qualquer energia. Não achava prudente simplesmente anular o meu ego, assim, “ir embora” sem mais nem menos e deixar minha mente “à deriva” no tempo e no espaço, para quem quisesse abarcar. Por isso, instintivamente, sempre fazia uma oração, entregando meu espírito a Deus, antes de iniciar a sessão. Acho isso importante, e acho que fez mesmo toda a diferença para mim. Anos depois, vim a descobrir que Meditação Cristã é exatamente isto, e os resultados me foram muito mais perceptíveis do que os de apenas anular o ego. Quando nos entregamos para alguma “força”; seja ela o Amor ou o ódio, seja um vício ou uma virtude, essa força toma conta de nós. Por isso, eu me entregava sempre ao Criador, ao Autor e à Fonte de toda a Vida e de todo Amor.

E descobri, ainda um pós-adolescente, que eu podia acalmar meus pensamentos conturbados; e principalmente descobri o maravilhoso efeito que esse processo me trazia, clareando a minha mente e abrindo o meu discernimento. Isso me foi de uma ajuda enorme.


Após as sessões de meditação, eu sempre me colocava a refletir, então com a mente calma e desanuviada, sobre as questões que me afligiam ou que eu considerava importantes. E naqueles preciosos minutos, eu fazia anotações num caderno que já deixava ao meu lado pra isso. Comecei a fazê-lo porque percebi que, pouco tempo depois que eu voltava ao meu “estado mental normal”, aquela imensa serenidade já começava a “desaparecer”, e, com ela, desapareciam as respostas que eu então tinha podido enxergar muito claramente. O efeito que o contato com essa “mente superior” me provocava, era rapidamente perdido, ao retornar para o chamado “mundo fenomênico” (o 'mundo dos fenômenos' esse nosso dia-a-dia corrido, nossa trivial rotina de acordar-trabalhar-dormir). E desse modo aprendi muitas coisas importantes. Às vezes, eu pegava o caderninho no dia seguinte e lia o que tinha anotado, e me pegava surpreso com o que estava escrito ali! Parecia ter sido anotado por uma outra pessoa! Certos princípios que eu nem sabia exatamente como tinham surgido na minha cabeça estavam lá, descritos em detalhes... Isso demonstrava a grande diferença entre a mente preocupada e estressada e essa mesma mente quando perfeitamente calma e serena, numa comunhão harmônica com o Universo, muito mais plena e desimpedida.

O fato é que, desse modo, aprendi muitas coisas comigo mesmo, como se eu fosse meu próprio “mestre”. Era como se, durante as sessões de meditação, a minha consciência aflorasse de modo especial, extremamente vívido, de lá do fundo do meu “eu” irrequieto, e assim eu pudesse me dar dicas e “toques” preciosos, a mim mesmo (soa meio maluco, eu sei). O que posso dizer é que comecei a seguir essas orientações, e assim obtive muito proveito, na minha busca. Eu guardo um grande coleção desses velhos cadernos até hoje. Quando fui morar com Hana, ela descobriu esse material, e todos os dias passava horas lendo minhas antigas anotações naquelas páginas amareladas, e quase sempre, depois vinha me abraçar, dizendo-se maravilhada... Bem, mas esses cadernos me acompanharam (e tem me acompanhado) por toda minha vida, e contém um farto material pra ser divulgado aqui no blog, entre aforismos, princípios básicos de vida e dicas práticas para o buscador.

Com o passar do tempo, eu acabei desenvolvendo um sistema próprio para buscar a Verdade, uma espécie de código de regras pessoal, que eu chamava de “Guia Prático Pessoal Para a Grande Arte” ou "Guia do Buscador". Ia sendo escrito baseado nas coisas que eu eu fui descobrindo aos poucos, através de testes, na prática, sempre fazendo uso da minha consciência. "Façam prova de todas as coisas e fiquem com o que é bom..." - pois é. Assim eu percebia o que que funcionava, para minha vida, e o que não funcionava. Foi vivenciando a espiritualidade dessa maneira, por meio de exercícios constantes, que eu comecei a abraçar certos princípios e certos autores, os que me foram úteis, e a descartar outros. As idéias de muitos autores considerados por muitos como “grandes mestres” (e que escrevem lindamente), se mostraram inúteis, e muitas vezes nocivas, na prática, enquanto outras se revelaram verdadeiramente produtivas. E é assim que a Busca funciona; há o que deve ser usado e o que deve ser descartado, embora todas as coisas cumpram seu papel específico no grande aprendizado que é a vida. Num belo dia, eu abri aquele meu primeiro caderno de anotações e lá estava escrito:

“Ninguém pode se considerar apto para iniciar a Jornada em busca da Verdade, enquanto não for capaz de praticar a sinceridade consigo mesmo. Absoluta sinceridade é necessária, para que a Busca se torne possível. Enganar-se a si mesmo é o primeiro e o maior dos pecados. Não se permita o autoengano, por motivo nenhum. Não engane a si próprio, mesmo que isso pareça lhe trazer bem-estar ou uma felicidade aparentemente sublime, no momento. O erro é quase sempre muito agradável, e os descaminhos são muito atrativos; por vezes parecem mesmo elevados. Se assim não fosse, tantos não se entregariam à esses maus caminhos, e o mundo não seria o que é hoje...”


A partir desse dia, ainda muito jovem, eu comecei a observar sempre uma profunda sinceridade e transparência para comigo mesmo; e praticando constantemente essa auto-observação, acabei me surpreendendo muitas vezes, pela freqüência com que eu mesmo me sabotava, em diversas situações do dia-a-dia; como me permitia enganar, ou pior, como eu mesmo me iludia, como que propositalmente, em troca de um conforto passageiro ou uma pequeno alívio das minhas dificuldades. E quanto mais fazia isso, pior a vida ia ficando, e mais longe estava da minha "Casa" e da minha proposta primeira, a de ser feliz. Porque não existe felicidade longe da Verdade. Essa prática me tornou um buscador mais apto.

Observe-se a si mesmo, e veja o quanto você se prejudica, por fazer escolhas ilusórias, apenas por um alívio temporário ou por comodidade. Vigie-se, e veja o quanto você anda se sabotando, e tente entender o porquê disso. Esta é a dica que eu queria dividir com você hoje.

“...quando você for capaz de viver assim, normalmente e sem esforço; quando a sinceridade for um hábito profundamente enraizado dentro de você; e quando ser sincero consigo mesmo for a sua realidade e a sua rotina, você estará apto a partir para o próximo estágio da via do buscador."

"Porque ninguém pode se considerar apto para iniciar a Jornada, enquanto não for capaz de responder, de modo definitivo e com absoluta sinceridade, para si mesmo, a três perguntas fundamentais. Estas perguntas são o início de tudo.”



Essas perguntas são o tema do próximo post. Por enquanto, pense na questão da sinceridade...



Maria de Lourdes



As aparições da Virgem Maria em Lourdes, na França, ocorreram 12 anos após as de Salete, e, no início, não foram menos controversas. Na realidade, a camponesa Bernadete Soubirous, então uma menina com 14 anos de idade, foi tratada pelas autoridades até com mais menosprezo do que Melanie Calvat e Maximin Giraud haviam sido. Seus pais eram trabalhadores temporários cuja moradia alugada foi descrita, num relato feito por um correspondente da época, logo após as primeiras aparições, como um “cômodo sujo e sombrio”, num prédio que um dia fora a cadeia do povoado, então abandonada por falta de condições sanitárias para os criminosos. O promotor de Lourdes descreveu a família Soubirous como “gente miserável”, cuja linhagem, inspirava "não só desconfiança, como nojo”.

Nas entrevistas com o comissário de polícia do povoado, Bernadete (ou Maria Bernarda) contou que as aparições começaram a ocorrer na manhã de 11 de fevereiro de 1858. Ela estava recolhendo ossos ao longo da margem do rio Gave de Pau, contou a jovem, quando ouviu um ruído farfalhante numa sebe acima da gruta chamada Massabieille. Levantou os olhos, viu a sebe se mexer e então percebeu uma forma branca atrás daquele arbusto, que foi se tornando a figura de uma moça. Bernadete chamou a aparição de “aquero”, que no dialeto local quer dizer “aquela”. Ela olhou fixamente para aquero por um minuto, então ajoelhou-se e começou a rezar. Aquero respondeu com um sorriso, disse a jovem, e depois desapareceu na gruta. Sua mãe lhe disse que a visão era um sonho, lembrou-se Bernadete, e sua tia descreveu-o como "ilusão".

Três dias depois, em 14 de fevereiro, logo após a Missa de domingo, Bernadete voltou à gruta com outras meninas, levando um frasco de água benta da igreja que freqüentavam. Elas se ajoelharam e começaram a rezar o rosário, quando aquero apareceu de novo, apenas para Bernadete, logo acima da entrada da gruta. Bernadete queria perguntar à aquero se ela estava ali em nome de Deus ou do diabo, conforme relatou, mas, naquele momento, uma menina que havia seguido o grupo atirou uma pedra; isso apavorou as outras meninas, e todas saíram correndo para o povoado. Aquero desapareceu. Quatro dias depois, Bernadete foi à gruta com uma senhora da sociedade local que estava intrigada com a história que ouvira da jovem. Juntas, ajoelharam-se e rezaram o rosário. Aquero então apareceu, disse Bernadete, e fez sinal para que se aproximasse. Quando a menina chegou perto, aquero lhe pediu que voltasse à gruta nos próximos 15 dias:


"Quer ter a amabilidade de vir aqui durante 15 dias?"


Alguns vizinhos sugeriram que Bernadete poderia estar vendo o fantasma de uma adolescente piedosa que morrera então recentemente. Bernadete disse apenas que aquero lhe parecia uma menina da sua idade, que usava um vestido branco com uma faixa azul na cintura e que trazia um rosário na mão. Conforme lhe tinha sido pedido, Bernadete voltou à gruta todas as manhãs entre 18 de fevereiro e 4 de março, e relatou as aparições ocorridas em todos esses dias, exceto em três deles. Já em 22 de fevereiro, quando um jornal local publicou um artigo sobre as aparições, muitos vizinhos acreditavam que aquela que Bernadete estava vendo era a Virgem Maria. Mas a menina, até então, nunca fizera essa afirmação.

As testemunhas, pessoas que agora acorriam em grande número à gruta, descreviam que Bernadete entrava em êxtase durante as aparições, e que ela se tornava rígida e imóvel, com os olhos abertos e fixos num ponto acima da gruta. A menina tornava-se muito pálida durante as aparições, disseram. Em certos momentos, seus lábios se mexiam, como se ela estivesse falando. Bernadete sorria de vez em quando, mas havia outros momentos em que seus olhos se enchiam de lágrimas. Fosse o que fosse, havia algo na menina que causava uma profunda impressão nos que estavam presentes ao acontecimento.

A multidão que foi à gruta na manhã de 25 de fevereiro era de mais de mil pessoas. Nesse dia, Bernadete assombrou os que a testemunhavam por ter se arrastado, engatinhando, até ao fundo da gruta, onde cavou, com as mãos nuas, um buraco que se encheu de água lamacenta. Após algumas tentativas, Bernardete conseguiu beber um pouco de água, sujando o rosto com lama. Depois, quando lhe perguntaram o que estava fazendo, disse que aquero mandou-a beber a água da fonte e levar-se nela. Mais tarde, naquele mesmo dia, algumas pessoas, usando pás, cavaram no mesmo lugar, e viram que na realidade havia uma fonte embaixo do solo! Bernadete obviamente não tinha como saber disso. As pessoas que cavaram, então, levaram frascos com a água ao voltarem para o povoado, e, numa semana, algumas pessoas juraram ter se curado de males diversos por ter bebido dessa água.

Em 4 de março, verificou-se que de 5 a 20 mil pessoas teriam ido à gruta para presenciar a última aparição à menina Bernadete! Um repórter de Paris ressaltou que todas as ruas, trilhas, montes e campos ao redor da gruta estavam cheios de gente. O barulho era ensurdecedor, observou ele, não só por causa das orações e invocações, mas também pelos insultos e provocações. Isso porque havia garotos pobres pendurados nas árvores, como macacos, e ricos que insultavam e tratavam os camponeses rispidamente, dizendo-lhes que não sujassem suas roupas... Bernadete apareceu, levando uma vela na mão, como de hábito, e parou para abraçar uma menina parcialmente cega chamada Eugenie Troy. A aparição daquela manhã foi breve: Aquero explicou que estava muito decepcionada com a descrença das pessoas presentes, segundo explicou Bernadete. Embora a própria vidente parecesse não ter notado, alguns presentes disseram que havia uma pomba adejando sobre a cabeça de Bernadete durante o êxtase. Seja como for, o resultado foi que os olhos de Eugenie Troy voltaram a enxergar, depois desse dia.


Trechos de cartas escritas por Bernadete:

"Eu tinha ido com duas outras meninas na margem do rio Gave quando eu ouvi um som de sussurro. Olhei para as árvores e elas estavam paradas e o ruído não era delas. Então eu olhei e vi uma caverna e uma senhora vestindo um lindo vestido branco com um cinto brilhante. Em cada pé havia uma rosa pálida da mesma cor das contas do rosário que ela segurava.”

"Coloquei a mão no bolso e encontrei o terço. Queria fazer o Sinal da Cruz, mas não pude levar a mão à testa. A mão caiu-me. O espanto apossou-se de mim mais fortemente, a minha mão tremia. A visão fez o Sinal da Cruz. Então tentei a segunda vez e pude. Logo que fiz o Sinal da Cruz, a grande comoção que sentia desapareceu. Pus-me de joelhos e rezei o terço na presença dessa linda Senhora. A Visão fazia passar as contas do Seu Terço com os dedos, mas não mexia os lábios. Quando acabei o terço, ELA fez um sinal para aproximar-me. Mas não ousei. Então desapareceu de repente".

“Eu perguntei as minhas duas companheiras se elas haviam notado algo e elas responderam que não tinham visto nada. Elas queriam saber o que eu estava fazendo, e eu disse que tinha visto uma senhora com um lindo vestido branco, embora eu não soubesse quem era. Disse a elas para não dizer nada sobre o assunto porque iriam dizer que era coisa de criança. Voltei no domingo ao mesmo lugar sentindo que era chamada ali.”

“Na terceira vez que fui, a Senhora reapareceu e falou comigo e me pediu para retornar todos os próximos 15 dias. Eu disse que viria e então ela disse para dizer aos padres para fazerem uma capela ali. Ela me disse também para tomar a água da fonte. Eu fui ao rio que era a única água que podia ver. Ela me fez entender que não falava do rio Gave e sim de um pequeno fio d’água perto da caverna. Eu coloquei minhas mãos em concha e tentei pegar um pouco do líquido sem sucesso. Aí comecei a cavar com as mãos o chão para encontrar mais água e na quarta tentativa encontrei água suficiente para beber. A senhora desapareceu e fui pra casa.”

“Voltei todos os dias durante 15 dias, e cada vez, exceto em uma Segunda e uma Sexta, a Senhora apareceu e disse-me para olhar para a fonte e lavar-me nela e ver se os padres poderiam fazer uma capela ali. Disse ainda que eu deveria orar pela conversão dos pecadores. Perguntei a ela, várias vezes, o que queria dizer com isto, mas ela somente sorria. Uma vez, finalmente, com os braços para frente, ela olhou para o céu e disse-me que era a ‘Imaculada Conceição’. Durante 15 dias ela me disse três segredos que não era para revelar a ninguém e até hoje não os revelei.”



No dia 1º de Março, a multidão que compareceu para acompanhar a aparição foi calculada em 1.500 pessoas, de todas as classes sociais. Despontava-se entre os presentes a batina preta do Padre Desirat. Ele não era de Lourdes e não sabia da proibição imposta ao clero pelo Abade Peyramale, que ainda via os acontecimentos com ceticismo. A presença do padre Desirat causou sensação e em pouco tempo ele estava na primeira fila, numa posição bem próxima à vidente. Segue sua descrição dos fatos:

"O sorriso (de Bernadete) ultrapassa toda expressão humana! O artista mais hábil, o ator mais consumado, nunca poderá reproduzir-lhe o encanto e a graça! Impossível imaginar. O que mais me tocou foi a alegria e a tristeza que se desenhavam no rosto da jovem. Quando um destes fenômenos sucedia ao outro, era com a rapidez do relâmpago. No entanto nada de brusco: uma transição suave e admirável. Eu tinha observado a criança quando ela chegou e se dirigia à gruta. Tinha-a observado com escrupuloso cuidado. Que diferença entre o que ela era e o que eu vi no momento da Aparição! Respeito, silêncio, recolhimento por toda a parte. Como era bom estar lá! Eu julgava-me no vestíbulo do Paraíso."


O abade Peyramale era um homem severo, muito exigente na observância do direito e da ordem. Já tinha ouvido os comentários sobre Bernadete e as Aparições na gruta, assim como as notícias de curas e os comentários maldosos do jornal local. Não se decidira sobre os fatos, mesmo porque não dispunha de elementos que lhe oferecessem condições de optar. Na sua posição, não podia considerar comentários e nem indícios, era preciso haver evidências sólidas, que se mostrassem de modo concreto, para que pudesse apreciar os acontecimentos. Segue abaixo o registro do interrogatório imposto a Bernadete pelo abade Peyramale:

"És tu que vais à gruta?"

- "Sim, Senhor Abade."

“E dizes que vês a Santíssima Virgem?”

"Eu não disse que era a Santíssima Virgem.”

"Então quem é essa Senhora?”

"Eu não sei."

"Ah, tu não sabes! Mentirosa! E no entanto esses que fazes correr atrás de ti dizem e o jornal imprime, que tu pretendes ver a Santíssima Virgem. Então o que é que tu vês?"

"Algo que parece uma Senhora."

"Ora essa!.."



Bernadete transmite a segunda parte do recado:

"(A Senhora diz:) Vai dizer aos sacerdotes para construírem aqui uma Capela."

"Uma Capela?.. Estás certa disso?"

"Sim, senhor Abade, estou certa."

"Ainda nem sabes como ela se chama!?"

"Não, Senhor Abade."

"Pois bem, é preciso perguntar-lhe."


Depois de responder mais algumas perguntas dos outros padres, despediu-se, e com sua acompanhante voltou para casa. No dia seguinte mais de 3.000 pessoas a aguardavam na gruta. A multidão rezava ansiosa desde muito cedo. Mas a Visão não apareceu. E como nos dias 22 e 26 de fevereiro, ela regressou perturbada. Todavia, neste mesmo dia, mais a tarde, voltou à gruta e desta vez encontrou-se com a Visão. Ao regressar à cidade, foi conversar com Peyramale:

"Senhor Abade, a Senhora sempre quer a Capela."

"Perguntaste-lhe o nome?"

"Sim, mas ela apenas sorriu."

"Troça valentemente de ti! Pois bem, se ela quer a Capela que diga o seu nome e faça florir a roseira da gruta. E então nós mandaremos construir uma Capela e não será muito pequena, será muito grande."


O dia 4 de março era aguardado com grande expectativa porque era o último da quinzena de aparições. A polícia pediu reforço policial de d'Argelès e de Saint Pé, cidades vizinhas de Lourdes, para ajudar na manutenção da ordem, no sentido de evitar tumultos. Para que Bernadete pudesse chegar ao local, fizeram uma passarela de madeira, que lhe facilitou o acesso. Ela veio acompanhada de sua prima Joana Véderè, que tinha 30 anos de idade, e ficaram juntas durante a Aparição. Começaram a rezar o terço. Bernadete entrou em êxtase. Nessa ocasião, o comissário Jacomet tirou o seu caderninho de notas e escreveu: ”34 sorrisos e 24 saudações em direção à gruta.” A multidão com o olhar acompanhava tudo. Terminada a Aparição, Bernadete apagou a vela e, indiferente à presença de toda aquela gente, tomou o caminho de volta à sua casa. Muitos ficaram desapontados, porque esperavam algum milagre ou revelação. Não aconteceu nada, visualmente. No ar ficaram muitas perguntas e uma grande expectativa: será que terminaram as Aparições? Bernadete foi encontrar-se com o Senhor Abade para lhe dar as notícias do encontro.

"Que te disse a Senhora?"

"Perguntei-lhe o nome... Ela sorriu. Pedi-lhe para fazer florir a roseira, ela sorriu outra vez. Mas ainda quer a Capela."

"Tu tens dinheiro para fazer essa Capela?"

"Não, Senhor Abade."

"Eu também não! Diz à Senhora que lhe dê!"



Peyramale estava desconsolado por não ter obtido nenhuma informação segura sobre a Aparição. Bernadete também, mas sem poder fazer nada, voltou triste para casa. No dia 18 de março, ela foi submetida a um severo interrogatório e declara: "Não penso ter curado quem quer que seja e de resto não fiz nada para isso. Não sei se voltarei à gruta."

Mas independentemente das aparições continuarem ou não, a afluência era cada vez maior. Diariamente muitas pessoas iam lá para rezar, para recolher água da fonte ou para bebê-la. Todos acreditavam que quem esteve lá foi a Santíssima Virgem Maria. Do dia 4 de março, quando ocorreu a última aparição, ou seja a 15ª, até o dia 25 do mesmo mês, Bernadete procurava levar uma vida normal, ao lado de seus familiares no "cachot", mas era impossível, porque a todo momento era solicitada para interrogatórios, por visitantes que faziam filas intermináveis à porta de sua casa, querendo conselhos, abraçá-la e pedir-lhe que tocasse com as mãos em objetos que levavam. Eram pessoas que buscavam graças e outras que vinham contar milagres alcançados por intermédio de Nossa Senhora. Bernadete jamais aceitou e não deixou que nenhum de seus familiares aceitassem gratificações em dinheiro ou presentes, por qualquer razão que fosse: "Isso queima-me! Por favor, não façam isso!" Na manhã do dia 25 de Março de 1858, Bernadete sentiu-se novamente como que pressionada para ir à gruta. Dizia que era uma força estranha que nascia em seu interior, que não sabia explicar. Mas era muito cedo e seus pais lhe aconselharam a esperar o dia clarear. Às 5 horas da manhã já se pôs a caminho. Lá chegando, começou a rezar o terço e logo entrou em êxtase. Então se levantou e viu mais uma vez a aparição diante de si. Segundo seu relato, caminhou em direção à Aparição e conversaram. Bernadete perguntou: "Mademoiselle, quer ter a bondade de me dizer quem és, por favor?”

"Aquero" sorriu e não respondeu. Bernadete insiste no pedido, duas, três vezes, obtendo como resposta, um sorriso carinhoso e modesto por parte da Visão. Mas Bernadete tinha a necessidade de saber o nome dela, precisava levar esta notícia ao Abade, porque caso contrário, ele não construiria a Capela. Por isso, com mais amor e decisão insistiu uma quarta vez, suplicando a ela que dissesse o seu nome. Desta vez a Aparição não mais sorriu, ficou séria. As mãos, que estavam unidas, afastaram-se, estendendo-se sobre a terra, e depois novamente se juntaram à altura do peito. Então, "aquero" levantou os olhos ao Céu num sinal de humildade e obediência a Deus, e disse:

"EU SOU A IMACULADA CONCEIÇÃO."

Dito isto, desapareceu. Bernadete retornou a si, e, para não se esquecer estas palavras, repetiu-as várias vezes em seguida, tropeçando nas letras que mal sabia pronunciar. Fugiu das perguntas de todos e correu para a casa do Senhor Abade Peyramale. Lá chegando, antes mesmo de cumprimentá-lo, gritou, no seu dialeto "patois" de Lourdes:

"Que soy era Immaculada Councepciou" - "Eu sou a Imaculada Conceição".

O Abade ficou perplexo:

"Pequena orgulhosa, tu és a Imaculada Conceição?"

"Não, não, não eu!"


Peyramale sentiu que estava diante de uma grande revelação: "A Virgem realmente concebeu milagrosamente, sem pecado". Apesar de ter sido decretado em 8 de dezembro de 1854 , o Dogma da Imaculada Conceição de Maria não era aceito por todos os católicos, principalmente por alguns teólogos que defendiam a universalidade da redenção e do Pecado Original. Isto é, atribuíam a Nossa Senhora o mesmo privilégio que teve João Batista, de ter a santificação antes do nascimento. Mas não aceitavam a imunidade do Pecado, isto é, não aceitavam que Maria Santíssima tivesse sido preservada do Pecado Original, mesmo considerando a sua condição especial de Mãe do Redentor. Por este motivo o Abade explodia intimamente de satisfação e se preocupava em querer saber da realidade. Por isso Peyramale se debatia:

"Uma Senhora não pode usar esse nome! Tu te enganaste! Sabes o que isso quer dizer?”

Bernadete disse que não, abanando a cabeça.

"Então como podes dizê-lo, se não compreendes o que é?”

"Repeti por todo o caminho..."



No silêncio que se seguiu, segundo testemunhas, Peyramale ficou pensativo, parecendo muito feliz e com um suave sorriso nos lábios. E a História viria a confirmar que, naquele momento, ele finalmente começava a acreditar! Bernadete interrompeu o silêncio e disse:

"Ela ainda quer a Capela...”


Vistas da magnífica Basílica da Imaculada Conceição de Nossa Senhora,
uma das três que foram construídas próximas à Gruta de Lourdes.
As outras são a Basílica de Nossa Senhora do Rosário e a da Cripta.
(Clique sobre a imagem para ampliar)


Papa João Paulo II no altar da Gruta de Lourdes,
onde Bernadete conversava com Nossa Senhora.


No dia 6 de abril, Bernadete sentiu-se novamente "pressionada" para voltar à gruta. Aquela força estranha e agradável a impulsionava para Massabieille. Como já havia passado das 15 horas, foi encontrar-se com o Padre Pomian no confessionário. Algumas pessoas que a observavam, se incumbiram de espalhar os boatos. A cidade ficou na expectativa de algum acontecimento. No dia seguinte, quarta-feira da Páscoa, antes do sol nascer ela já estava na gruta, acompanhada inicialmente por uma centena de pessoas que logo aumentou para 1.000, quando iniciou as orações do terço. Nas primeiras Ave Maria, entrou em êxtase. O Dr. Dozous, que vinha estudando o seu caso, surgiu no meio da multidão pedindo passagem, pois queria estar ao lado dela, para presenciar suas reações fisionômicas. Abrindo passagem entre o povo que rezava, dizia (conforme declarações posteriores): "Não venho como inimigo, mas em nome da ciência. Corri e não posso me expor às correntes de ar. Só eu posso verificar o fato religioso que aqui se dá, deixem-me prosseguir este estudo". Nesse dia, Bernadete utilizava uma grande vela que se apoiava no chão, fornecida por uma pessoa que dizia ter alcançado uma graça. Com sua mão tentava proteger a chama da vela da corrente de ar. Mas no transe em que se encontrava, não posicionou corretamente a mão esquerda em forma de concha sobre o pavio aceso, de modo que a chama da vela passava por entre os seus dedos. "Ela está se queimando!" - gritavam muitos. Mas o Dr. Dozous impedia que alguém fizesse algo. Ele não acreditava naquilo que seus olhos viam. Ora eram os sorrisos de Bernadete, ora sua fisionomia se tornava séria, em vários momentos, compartilhando duma tristeza da Visão e a chama da vela que passava por entre os seus dedos, sem queimá-los, sem provocar dores. Terminado o êxtase, examinou as mãos da vidente e não encontrou o menor sinal de queimadura. Para testar a sua sensibilidade, acendeu a vela e sem que ela percebesse, aproximou a chama de sua mão. Ela gritou e protestou: "Está querendo me queimar!?” – Dr. Dozous, antes cético, a partir daquele dia passou a divulgar o seu testemunho, convencido de que esteve diante do sobrenatural na gruta de Massabieille. No "Café Francês", ponto de convergência dos bate-papos, Dozous proclamava com segurança a existência do extraordinário em Lourdes. Em dado momento, ele assim se expressou:

"É um fato sobrenatural para mim, ver Bernadete em êxtase, ajoelhada diante da gruta segurando uma vela acesa e cobrindo a chama com a mão esquerda, sem que pareça sentir a mínima impressão do contato dela com o fogo. Examinei-a. Não encontrei nem o mais ligeiro sinal de queimadura".




Depois que as aparições terminaram, Bernadete foi levada de Lourdes para Cauterets. Dali, transferiu-se para o abrigo-escola administrado pelas Irmãs de Caridade em Nevers. Prestou dois testemunhos diante da comissão episcopal que investigava suas aparições, o primeiro em 1858 e o segundo em 1860, e em 1862, o bispo da sua diocese declarou suas aparições dignas de confirmação, e emitiu um decreto sancionando um culto de devoção no santuário de Lourdes. Bernadete entrou para a ordem das Irmãs de Caridade em 1866, tendo permanecido na casa matriz da ordem até a sua morte em 1879. Foi beatificada pela Igreja em 1925, e, com a comprovação de quatro curas milagrosas, foi canonizada em 1933. Até hoje, ela permanece o padrão que a Igreja Católica adota para julgar os seus místicos.


"Ó Mãe, quanta felicidade eu sentia,

Quando tinha a oportunidade de vos contemplar!

Naqueles momentos ao vosso lado, como é bom me lembrar

Da vossa bondade e misericórdia por toda Humanidade!.."

Versos escritos por Santa Bernadete em 1866.




***


Mais informações e fotografias aqui.



Abaixo, um filme em três partes com diversas imagens muito interessantes e informações adicionais sobre Bernadete e as Aparições em Lourdes (em inglês):

Parte I


Parte II

Parte III



Fontes e bibliografia:
SWARTZ, Sandra L. Zindais. Encontering Mary, Princeton: Princeton University, 1991;
WOODWARD, Keneth, Making Saints: Who Becomes a Saint, Who Doesn't and Why, New York: Simon & Shuster, 1990;
GROESCHEL, Benedict. A Still Small Voice, Fort Collins: Ignatius Press, 1993;
SULLIVAN, Randall. Detetive de Milagres, São Paulo: Objetiva, 2005