O que é a morte? - parte 2



"Eu ouvia, quando os médicos anunciaram a minha morte, mas nesse momento, era como se eu estivesse nadando em um espaço escuro. Não há palavras para descrever a sensação. Era completamente escuro ao redor, e só longe, muito longe, via-se luz. Era uma luz muito brilhante, mesmo que parecesse pequena inicialmente. À medida que eu me aproximava, a luz aumentava. Eu me deslocava velozmente em direção à luz e sentia que dela emanava o bem. Sendo cristão, lembrei-me das palavras de Cristo: ‘Eu sou a luz do mundo’ e pensei: ‘Se isto é a morte, sei quem está esperando por mim’" (‘Life after Life’, pág.62).


"Eu sabia que estava morrendo, e nada podia fazer, para avisar alguém, já que ninguém me ouvia... Eu estava fora do meu corpo... isto com certeza, porque eu via o meu corpo lá na mesa de operação. Minha alma tinha saído do corpo. Por isso, sentia-me perdido, mas depois vi essa luz diferente. Inicialmente, era pouca luz, mas depois tornou-se mais brilhante. Eu sentia o calor da luz. A luz cobria tudo, mas não atrapalhava a minha visão da sala de cirurgia, médicos, enfermeiras, etc... Inicialmente, eu não entendi o que estava acontecendo, mas depois a voz da luz perguntou-me se eu estava pronto para morrer. A luz falava, tal qual um homem, mas não havia ninguém. Era a Luz que perguntava... Agora eu entendo, que a Luz sabia que eu não estava pronto para morrer, mas queria me testar. A partir do momento que a Luz começou a falar, eu fiquei bem, eu sentia que estava seguro e que a Luz me amava. O amor, que emanava da Luz, era inimaginável, indescritível" (Idem, pág.63).


Todos os que viram a Luz e depois tentaram descrevê-la, não conseguiram achar as palavras adequadas. A Luz era diferente da luz que conhecemos por aqui. "Aquilo não era uma luz, mas sim uma ausência da escuridão, total e absoluta. Essa Luz não criava sombras, não era visível, mas estava em todo lugar e a alma permanecia na Luz" (‘Recollections of Death’, pág.66). A maioria testemunha sobre a Luz, como sendo um “ser” moralmente bondoso, e não como uma energia impessoal. As pessoas religiosas tomam essa Luz por um Anjo ou Jesus Cristo - em todo caso, sempre alguém que leva paz e Amor. No encontro com a Luz, eles não conversavam em nenhum idioma. A Luz se comunicava com eles “mentalmente”. Nesse momento, tudo era tão claro, que seria absolutamente impossível esconder algo da Luz.

5. Revisão e julgamento: Alguns, que sobreviveram à morte temporária, descrevem a etapa de “revisão da vida” que tiveram. Às vezes, a revisão ocorria durante a etapa da visão da Luz, quando o homem ouvia da Luz uma pergunta do tipo: “O que você fez de bom?" A pergunta não era feita para se saber algo, mas para que a pessoa pudesse recordar a sua vida. E assim, o “filme” da vida terrena individual “passava” perante a sua “visão espiritual”, começando na tenra infância. O “filme da vida” se move como uma seqüência de quadros de episódios da vida, um após o outro, e a pessoa vê claramente e com detalhes tudo que aconteceu com ela. Nesse momento, se revive conscientemente e se reavalia tudo aquilo que se viveu.

Eis um dos casos típicos, que ilustra o processo da revisão: "Quando a Luz chegou, ouvi a pergunta: ‘O que você fez em sua vida? O que pode me mostrar?’ ou algo semelhante a isso. E então, começaram a aparecer esses quadros. Eram quadros muito nítidos, coloridos, tridimensionais e em movimento. Toda a minha vida passou por mim... Eis eu, ainda uma menina pequena, brincando com a irmã perto do riacho... Depois, os acontecimentos da minha casa... escola... casamento... Tudo seguia na minha frente com todos os detalhes minúcias. Eu revivia esses acontecimentos... Eu vi às vezes em que fui cruel e egoísta. Senti vergonha de mim mesma e desejava que isto nunca tivesse acontecido. Mas, era impossível mudar o passado..." (‘Life after life’, pg. 65-68)

Reunindo muitos relatos de pessoas que passaram pela revisão da vida, deve-se concluir que ela sempre deixa nelas uma impressão profunda e benéfica. Realmente, durante essa revisão, a pessoa é forçada a reavaliar seus atos, fazer o balanço do seu passado e assim é como se fizesse um julgamento sobre si mesmo. Na vida diária, as pessoas escondem o lado negativo do seu caráter e escondem-se atrás de uma “máscara de virtude”, para parecerem melhores do que realmente são. A maioria das pessoas está tão acostumada com a hipocrisia, que deixaram de ver o seu verdadeiro eu: freqüentemente orgulhoso, ambicioso e avarento. Mas, no momento da morte, essa máscara cai e a pessoa se vê tal qual realmente é. Principalmente, no momento da revisão, torna-se visível a cada um os seus atos ocultos - ouve-se cada palavra dita, cada acontecimentos esquecidos é revivido. Nesse momento, tudo que se conseguiu durante a vida - situação sócio-econômica, diplomas, títulos, etc... - perde seu sentido. A única coisa que serve para avaliação é o lado moral dos atos. E, nessa hora, a pessoa se julga não apenas pelo o que ela fez, mas também, como seus atos e palavras influenciaram outras pessoas.

Outra pessoa descrevendo a revisão da sua vida: "Me senti fora do meu corpo, flutuando sobre um edifício, e vi o meu corpo deitado lá embaixo. Depois, uma luz me envolveu e nela eu vi como se fosse um filme de toda a minha vida. Senti-me muito envergonhado, porque muito do que eu antes considerava normal e aprovava, agora entendi que não era bom. Tudo era extremamente real. Eu sentia que um julgamento ocorria comigo e que uma razão superior me comandava e me ajudava a ver. O que mais me impressionou foi que me foi mostrado não apenas o que fiz mas como meus atos influenciaram outros... Aí eu entendi, que nada se apaga e nem passa em branco, mas que tudo, até os pensamentos, tem conseqüências." (‘Reflections on Life after Life’, pg.3,4-5)

Os próximos dois trechos de relato de pessoas que sobreviveram à morte temporária, ilustram como a revisão os ensinou a encarar a vida de uma nova forma..."Eu nunca contei a ninguém o que eu passei no momento da minha morte, mas, quando voltei à vida, senti-me dominado por um desejo enorme e ardente de fazer algo de bom para os outros. Eu sentia vergonha de mim mesmo..". "Quando voltei, resolvi que era necessário que eu mudasse. Sentia arrependimento, e a minha vida passada não me satisfazia, em absoluto. Resolvi iniciar um outro modo de vida, completamente diferente" (‘Reflections on Life after Life’, pg.25-26).

Um criminoso ou alguém que durante a sua vida causou muito sofrimento a outros, morre, e vê todas os seus atos em todos os detalhes. E aí a sua consciência, há muito adormecida, inesperadamente até para ele mesmo, acorda sob a ação da Luz e ele sente remorsos terríveis. Tortura insuportável, desespero, quando ele nada mais pode fazer, nem para corrigir nem esquecer. Isto vai se tornar para ele o início de tormentos insuportáveis, dos quais não haverá para onde fugir. A consciência do mal praticado, o dano que causou à sua alma e a de outros, vai se tornar para ele um "verme imorredouro", um "fogo inapagável".

6. Um Novo Mundo: Algumas diferenças nas descrições das experiências da vida após a morte se explicam pelo fato que aquele mundo é totalmente diferente do nosso, no qual nascemos e no qual se formaram todas as nossas noções. No outro mundo, o espaço, o tempo e objetos têm um conteúdo totalmente diverso ao qual os nossos órgãos dos sentidos estão acostumados. A alma, que vai para o mundo espiritual pela primeira vez, experimenta algo semelhante ao que pode experimentar, por exemplo, um ser subterrâneo que subisse pela primeira vez à superfície da terra. Ele vê pela primeira vez a luz solar, sente o seu calor, vê a bela paisagem, ouve o canto dos pássaros, sente o perfume das flores. Tudo isto é tão novo e belo, que ele não encontra palavras, nem exemplos para contar sobre isto aos outros habitantes do mundo subterrâneo.

Da mesma forma, as pessoas, que durante a sua morte encontram-se no outro mundo, vêem e sentem muitas coisas que são incapazes de relatar. Assim, por exemplo, as pessoas perdem a noção da distância, tão comum para nós. Alguns afirmam que puderam, sem dificuldade, somente com a ação do pensamento, transportar-se de um lugar para outro, independente da distância. Assim, por exemplo, um soldado, ferido gravemente no Vietnã, durante a cirurgia, saiu do seu corpo e observou as tentativas dos médicos para revivê-lo. "Eu estava lá, mas o médico, é como se estivesse e ao mesmo tempo não estivesse lá. Eu o toquei, e foi como se simplesmente o atravessasse... Depois, de repente, eu estava no campo de batalha, onde fui ferido e vi enfermeiros, recolhendo os feridos. Eu quis ajuda-los, mas, de repente fui parar na sala de cirurgia novamente... Era como se, num piscar de olhos, bastando desejar, eu me materializasse aqui ou lá..." (‘Recollections of Death’, pg. 33-34).

Há outros relatos semelhantes de deslocamentos inesperados. Ocorre "um processo puramente mental e agradável. Basta desejar - e lá estou eu." "Eu tenho um grande problema. Estou tentando transmitir algo que sou obrigado a descrever em três dimensões... Mas, o que ocorria realmente não era em três dimensões" (‘Life after Life’, pág.26)

Se perguntar a alguém que experimentou a morte clínica, quanto tempo durou este estado, normalmente ele não é capaz de responder. As pessoas perdem completamente a noção do tempo. "Poderia ter sido alguns minutos, ou anos, não há nenhuma diferença" (‘Reflections on Life after Life’, pág.s 101; ‘Recollections of Death’, pág.15)

Outros, que sobreviveram à morte temporária, aparentemente foram parar em mundos mais distantes do nosso mundo físico. Eles viram a natureza do "outro lado" e descreveram-na em termos de morros, plantas verdes de um verde que não existe na Terra, campos inundados por uma luz dourada maravilhosa. Há descrição de flores, árvores, pássaros, animais, canto, música, campos, jardins e cidades de uma beleza incrível... Mas eles não encontravam as palavras certas para transmitir suas impressões.

7. O aspecto da alma: Quando a alma abandona o seu corpo, ela não reconhece de imediato. Assim, por exemplo, desaparecem marcas da idade; as crianças se vêem adultos, os velhos - moços (‘The Light Beyond’, pág.75-76). As partes do corpo, por exemplo, mãos ou pernas perdidas por algum motivo, aparecem novamente. Os cegos voltam a enxergar.

8. Encontros: Alguns relatam encontros com parentes ou conhecidos já falecidos. Esses encontros às vezes aconteciam em condições terrenas, e às vezes em ambientes do outro mundo. Assim, por exemplo, uma mulher que passou pela morte temporária, ouviu os médicos dizendo para seus parentes, que ela estava morrendo. Tendo saído do corpo, viu os seus parentes e amigos falecidos. Ela os reconheceu e eles estavam alegres por reencontrá-la. Outra mulher viu seus parentes que a cumprimentavam e apertavam suas mãos. Eles estavam vestidos de branco, estavam contentes e pareciam felizes... "...e de repente, virando de costas para mim, começaram a afastar-se. A minha avó, virando-se por sobre o ombro, me disse: ‘Nós te veremos mais tarde, não desta vez’. Ela tinha morrido aos 96 anos, mas lá parecia ter 40-45 anos, sadia e feliz". (Life After Life, pág.55)

Um homem conta que, enquanto ele estava morrendo de ataque cardíaco em um canto do hospital, sua irmã estava à morte, de coma diabético, no outro canto do hospital. "Quando saí do corpo, - conta ele- de repente encontrei a minha irmã. Fiquei muito contente, porque gosto muito dela. Conversando com ela, quis segui-la, mas ela, virando-se para mim, mandou eu permanecer aonde eu me encontrava, explicando que a minha hora ainda não tinha chegado. Quando voltei, contei ao meu médico que tinha encontrado a minha recém - falecida irmã. O médico não acreditou. No entanto, atendendo ao meu pedido insistente, ele mandou a enfermeira averiguar e soube que a minha irmã tinha falecido recentemente, tal qual eu contei". (‘The Light Beyond’, pág.173)

A alma, chegando ao outro mundo, caso encontre alguém, serão pessoas que eram próximas a ela. Algo familiar atrai as almas.

Basicamente, os relatos das pessoas que foram parar "do outro lado" dizem a mesma coisa, mas os detalhes variam. Às vezes, eles vêem o que esperavam ver. Os cristãos vêem anjos, a Virgem Maria, Jesus Cristo, os Santos. Os não religiosos vêem templos, figuras de branco ou jovens, e às vezes, não vêem nada, mas sentem a "presença".

9. A Linguagem da Alma: No mundo espiritual, as conversas ocorrem por meio apenas do pensamento e não por meio de alguma linguagem. Por isso, quando voltam, as pessoas têm dificuldade em relatar as palavras exatas da conversa com a Luz, Anjo ou alguém que elas encontraram. Conseqüentemente, no outro mundo todos os pensamentos são ouvidos.

10. O Limiar: Alguns, estando no outro mundo, contam de algo que parece ser uma divisa ou fronteira. Alguns a descrevem como sendo uma cerca ou grade na extremidade de um campo, outros como beira de um lago ou de um mar, outros ainda como um portão, rio ou nuvem. A diferença na descrição decorre de novo da recepção subjetiva de cada um. Por isso, não há como definir com exatidão a aparência dessa fronteira. O importante, no entanto, é que todos a compreendam exatamente como uma fronteira, atravessando a qual, não há mais retorno ao mundo anterior. Depois dela, começa a viagem para a eternidade. (‘Life after Life’, pág.73-77; ‘Recollections of Death’ , pág.51)

11. O Retorno: Às vezes, é dado ao recém - falecido a possibilidade de escolha - ficar "lá" ou retornar à vida na Terra. A voz da Luz pode perguntar, por exemplo: "Você está pronto?" Assim, o soldado ferido seriamente no campo de batalha, viu seu corpo aleijado e ouviu a voz. Ele pensava que quem conversava com ele era Jesus Cristo. Foi lhe dado a possibilidade de voltar ao mundo terrestre, onde ficaria aleijado ou ficar no "além." O soldado preferiu voltar.

Muitos são atraídos de volta pelo desejo de concluir a sua missão terrena. Tendo voltado, eles afirmavam que Deus permitiu a eles retornar e viver porque a missão da vida deles não estava concluída. Eles ainda manifestavam a certeza de que a volta deles foi resultado de sua própria escolha. Esta escolha foi satisfeita porque ela era fruto do senso de dever e não por motivos egoístas. Assim, por exemplo, alguns deles eram mães querendo voltar para seus filhos pequenos. Mas, também havia aqueles que foram mandados de volta, contrariando o desejo deles de permanecer lá. A alma deles já foi preenchida com sentimento de alegria, amor, paz, ela estava bem ali, mas a sua hora ainda não havia chegado. As tentativas de reação para não voltar ao corpo não adiantaram. Alguma força puxava-os de volta.

12. Uma Nova Atitude em Relação à Vida: Pessoas que estiveram lá apresentam grandes mudanças. Segundo afirmativa de muitos deles, ao voltar, procuram viver melhor. Muitos deles passaram a crer em Deus com mais convicção, mudaram seu modo de vida, tornaram-se mais sérios e mais profundos. Alguns até mudaram de profissão, indo trabalhar em hospitais e asilos de velhos, para ajudar os que necessitam. Todos os relatos de pessoas que passaram por morte temporária, falam de fenômenos totalmente novos para a ciência, mas não para as religiões.



4 Continua...



O que é a morte?


"Eu estava deitado na sala da UTI do hospital infantil de Seattle, Estado de Washington, EUA, quando, de repente, senti-me em pé, movendo-me com incrível velocidade através de um espaço escuro. Eu não via paredes em minha volta, no entanto, parecia ser algo como um túnel. Não sentia vento, porém, percebia que me deslocava com incrível velocidade. Apesar de não entender o porque e para onde eu estava voando, sentia que no final do meu vôo algo muito importante me esperava e eu queria chegar ao meu destino o mais rápido possível. Finalmente, eu me via em um lugar repleto de luz brilhante e então percebi que havia alguém perto de mim. Era alguém alto, com longos cabelos dourados; vestia roupa branca amarrada no meio com um cinto. Ele não dizia nada, mas eu não tinha medo pois, uma enorme paz e amor emanavam dele. Se não era Cristo, devia ser um de seus anjos".


Depois disso, o garoto Dean, de 16 anos, cujos rins pararam de funcionar, sentiu que retornou ao seu corpo e voltou a si. Estas impressões, tão curtas mas muito fortes, deixaram uma marca profunda na alma de Dean. Ele tornou-se um jovem religioso, o que influenciou positivamente toda a sua família.

Este é um dos relatos típicos, reunidos pelo médico pediatra americano Dr. Melvin Morse e publicados no livro "Closer to the Light" (Mais Próximo da Luz).

Ele observou o primeiro caso de morte temporária em 1982, quando conseguiu fazer reviver a menina Catarina, de 9 anos, que se afogou numa piscina pública. Catarina conta que, durante o tempo em que esteve morta, encontrou-se com uma adorável "senhora" que disse chamar-se Elizabeth. Ela acolheu com muito carinho a alma de Catarina e conversou com ela. Ciente de que Catarina ainda não estava pronta para passar para a vida espiritual, Elizabeth permitiu que ela retornasse ao seu corpo. Durante este período de sua carreira médica, o Dr. Morse trabalhava em um hospital da cidadezinha de Pocatelo, no estado de Idaho, EUA.

O relato da menina teve um profundo efeito nele (que até então era cético em relação a todo fenômeno espiritual), uma impressão tão forte que ele resolveu estudar mais profundamente a questão “o que acontece com uma pessoa logo após a sua morte”. No caso de Catarina, Dr. Morse admirou-se particularmente com a descrição detalhada de tudo que sucedeu na hora em que se encontrava morta clinicamente, - tanto no hospital, como em sua casa - como se ela estivesse alí presente. Dr. Morse verificou e se convenceu da veracidade de todas as observações de Catarina.

Após ter sido transferido para o Hospital Infantil Ortopédico de Seattle, e mais tarde, ao Centro de Medicina de Seatle, Dr. Morse começou a estudar sistematicamente a questão da morte. Ele questionava muitas crianças, as quais tiveram a experiência com a morte clínica; comparava e documentava seus relatos. Além disso, ele continuava a manter contato com seus jovens pacientes e observava o seu desenvolvimento intelectual e espiritual a medida que eles cresciam. No seu livro, Dr. Morse afirma que todas as crianças que ele conheceu, que sobreviveram à morte temporária, ao crescer, tornaram-se jovens sérios e religiosos, moralmente mais "puros" que outros jovens que não passaram por isto. Todos eles aceitaram suas experiências como manifestação divina e como um sinal superior de que é preciso viver para o Bem.

Relatos semelhantes sobre a vida após a morte, até há pouco tempo, eram publicados apenas na área da literatura religiosa. As revistas populares e livros científicos, via de regra evitavam esses temas. A maior parte de médicos e psiquiatras mantinham uma postura negativa em relação a essas manifestações. Há apenas pouco mais de vinte anos, representantes da medicina começaram a se interessar seriamente sobre a questão da existência da alma. Um dos impulsos para este movimento foi o livro do Dr. Raymond Moody - "Vida depois da vida", publicado em 1975. Nesse livro, Dr. Moody coletou uma série de relatos de pessoas que tiveram experiências com a morte clínica. Relatos de alguns conhecidos levaram Dr. Moody a interessar-se pela questão, e quando começou a coletar informações, para seu espanto, descobriu que existiam muitas pessoas, as quais, na hora em que tiveram morte clínica, tiveram visões fora de seus corpos. Porém, essas pessoas não o contavam a ninguém para não serem ridicularizadas ou consideradas “loucas”.

Logo após o lançamento do livro do Dr. Moody, a imprensa sensacionalista e a TV divulgaram amplamente os dados coletados por ele. Começaram acaloradas discussões e debates públicos sobre o tema “vida após a morte”. Até que médicos, psiquiatras e líderes espirituais, considerando-se afetados em seu campo de perícia por fontes incompetentes, resolveram conferir os dados e as conclusões do Dr. Moody. Muitos deles ficaram surpresos ao verificar a veracidade de suas observações - ou seja, que mesmo após a morte a existência do homem não termina, e sua alma continua a ouvir, pensar e sentir.

Entre as pesquisas sérias e sistemáticas sobre a questão da morte, inclui-se a realizada pelo Dr. Michael Sabom. Professor de medicina na universidade de Emory e médico no hospital para veteranos da cidade de Atlanta, publicou um livro com dados precisos e documentados, bem como análises aprofundadas a respeito do assunto.

Também é valiosa a pesquisa sistemática do psiquiatra Kenneth Ring, publicada no livro "Life at Death" (Vida na Morte). Dr. Ring montou um questionário para ser respondido pelos sobreviventes à morte clínica. Nomes de outros médicos que se envolveram nessa questão estão citados na bibliografia ao final do texto. Muitos deles eram céticos que mudaram sua perspectiva ao analisar muitos e sempre novos casos confirmando a realidade da continuidade da consciência (alma) após a morte física.

O que a alma vê no "outro mundo"...

A morte não é como muitos a imaginam. Na hora da morte, teremos que ver e passar por muitas coisas para as quais não estamos preparados. Bem, se cada um de nós terá de atravessar esta fronteira, deveríamos nos preparar para isto...

Reunindo os relatos das pessoas que sobreviveram à morte clínica, emerge o seguinte quadro do que a alma vê e experimenta, ao separar-se do corpo: Quando a morte se processa e a pessoa atinge o limite de desfalecimento, ela ouve quando o médico a considera morta. Em seguida, ela vê seu "sósia" - um corpo inerte - deitado abaixo dela, e muitas vezes médicos e enfermeiros tentando revivê-lo. Essas imagens inesperadas provocam um grande choque na pessoa, porque, pela primeira vez na vida ela se vê do lado “de fora”. E aí verifica que suas capacidades habituais - ver, ouvir, pensar, sentir etc. - continuam a funcionar normalmente, só que agora independentes do seu invólucro exterior. Flutuando no ar, acima dos outros que se encontram no quarto, a pessoa instintivamente tenta comunicar-se, dizer algo ou tocar alguém. Mas, para seu horror, percebe que está isolada dos outros e que ninguém reage aos seus apelos. Além disso, ela fica admirada ao sentir alívio, serenidade e até alegria indescritíveis. Não há mais aquela parte do "eu" que sofria, exigia algo e queixava-se sempre de tudo. Sentindo tal alívio, a alma normalmente não quer voltar ao corpo.

Na maioria dos casos documentados da morte temporária, a alma, após observar por alguns momentos o que se passa ao redor, volta ao seu corpo físico, e nesse momento, o conhecimento do outro mundo é interrompido. Mas, às vezes, a alma dirige-se adiante para o mundo espiritual. Alguns descrevem essa sensação como movimento num túnel escuro. Após isso, as almas de algumas pessoas vão para um mundo de grande beleza, onde, às vezes elas encontram parentes, que morreram anteriormente. Outras vão parar numa região de luz e encontram-se com um ser de luz, do qual emanam grande amor e compreensão. Alguns afirmam que é Jesus Cristo, outros que é um anjo. Mas todos concordam que se trata de alguém repleto de bondade e compaixão. Alguns, ainda, vão parar em lugares tenebrosos e, voltando, descrevem terem visto seres cruéis e repugnantes. Ás vezes, o encontro com o misterioso ser luminoso é acompanhado de uma "revisão" da vida, quando a pessoa começa a lembrar do seu passado e faz uma avaliação moral dos seus atos. Após isto, alguns vêem algo semelhante a uma “divisão” ou fronteira. Eles sentem que, uma vez ultrapassada esta fronteira, não poderão voltar ao mundo físico.

Mas nem todos os que sobreviveram à morte temporária passaram por todas essas fases. Uma grande porcentagem das pessoas que voltaram à vida não se lembra de nada. As etapas citadas são colocadas em ordem de sua freqüência relativa, começando com as que ocorrem mais freqüentemente e terminando com as que são mais raras. Segundo os dados do Dr. Ring, aproximadamente um de cada sete que se lembram da existência fora do corpo, viu a luz e interagiu com o ser de luz.

Graças ao progresso da medicina, a reanimação dos mortos passou a ser um procedimento quase padrão em muitos hospitais atuais. Antigamente, isso quase não existia. Por isso, existe uma certa diferença entre os relatos da vida pós - morte na literatura antiga, mais tradicional, e na moderna. Os livros religiosos mais antigos, relatando sobre a aparição da alma dos mortos, contam sobre visões do paraíso ou do inferno e sobre encontros com anjos ou demônios. Esses relatos podem se chamar de descrições do "cosmo distante", já que retratam o mundo espiritual distante de nós. Os relatos modernos, anotados pelos médicos, descrevem principalmente quadros do "cosmo próximo" - as primeiras impressões da alma que acaba de deixar o corpo. Esses relatos são interessantes, pois complementam a primeira categoria de relatos (dos tempos mais antigos) e nos dão a possibilidade de entender com mais clareza aquilo que espera cada um de nós. Entre estas duas categorias, está a descrição de K. Ixcul, publicada pelo Arcebispo Nikon em 1916 sob o título "Inacreditável Para Muitos, Mas Aconteceu" que abrange os dois mundos - o "distante" e o "próximo”. Em 1959, a obra foi reeditada.

K. Ixcul era um típico jovem intelectual da Rússia antes da revolução. Ele foi batizado quando criança e cresceu no meio ortodoxo, mas como era comum entre os intelectuais, era indiferente à religião. Às vezes entrava numa igreja, comemorava as festas de Natal e Páscoa, até comungava uma vez por ano, mas considerava muitos ensinamentos da religião ortodoxa como sendo superstições arcaicas, inclusive o ensinamento sobre a vida após a morte. Ele tinha certeza que com a morte terminava a existência do homem. Certa ocasião, ele teve uma grave pneumonia, que se tornou séria e demorada, e enfim foi internado. Ele não pensava sobre a morte que se aproximava e esperava ficar bom logo e recomeçar suas atividades habituais. Certa manhã, ele de repente, sentiu-se muito bem. A tosse passou, a febre baixou. Ele pensou que estava curado. Mas, para seu espanto, os médicos ficaram preocupados e trouxeram oxigênio. E depois - calafrios e completa apatia por tudo que estava em sua volta. Ele conta:

"Toda a minha atenção concentrou-se em mim mesmo... é como se ocorresse bipartição... apareceu o ‘homem interior’ - o mais importante, que tinha total indiferença ao corpo exterior e ao que ocorria com ele... Era espantoso ver e ouvir e ao mesmo tempo sentir desinteresse em relação a tudo. O médico faz uma pergunta, eu ouço, entendo, mas não respondo - não tenho porque falar com ele... E de repente, fui puxado para baixo, para a terra, por uma força enorme. Eu me agitei. ‘Agonia’ - disse o médico. Eu entendia tudo, não sentia medo. Lembrei-me ter lido que a morte é dolorosa, mas não sentia dor. No entanto, sentia um pesar. Eu era puxado para baixo... Eu sentia que algo deveria desprender-se... Fiz um esforço para me libertar e de repente, senti-me leve. Eu senti paz. Lembro-me claramente do restante. Eu estou em pé no meio do quarto. A minha direita, formando semicírculo em torno da cama, estão os médicos e as enfermeiras. Eu estava surpreso - o que eles estão fazendo lá, já que eu não estou lá, estou aqui. Aproximei-me para olhar. Deitado sobre a cama estava eu. Ao ver o meu ‘dublê’, não me assustei, mas fiquei surpreso - como é possível? Eu quis tocar a mim mesmo - minha mão atravessou, como se tivesse atravessado o vazio. Não consegui também tocar os outros. Não sentia o chão... Eu chamei o médico, mas ele não reagiu. Eu entendi que estava completamente só, e entrei em pânico. Olhando o meu corpo físico, pensei: "Será que eu morri?" Mas, isto era difícil de admitir. Eu me sentia mais vivo que antes, sentia tudo e entendia. Após um certo tempo, os médicos saíram do quarto, os dois enfermeiros começaram a discutir detalhes da minha enfermidade e da morte, e a auxiliar fez o sinal da Cruz e em voz alta desejou-me o habitual: ‘Que ele tenha o Reino dos Céus, e paz eterna’. Mal ela pronunciou estas palavras, apareceram dois anjos. Um deles, eu imediatamente o reconheci, era o meu Anjo da Guarda, o outro eu desconhecia. Os dois anjos, pegando-me sob os braços, levaram-me para a rua, direto através da parede do hospital. Já escurecia e nevava. Eu via isso, mas não sentia nem o frio e nem mudança de temperatura. Nós começamos a subir rapidamente".

Graças às novas pesquisas na área da reanimação e coletando diversos relatos dos sobreviventes à morte clínica, há possibilidade de formar um quadro detalhado, sobre o que a alma vivencia logo após a separação do corpo. Claro, que cada caso tem suas características individuais, que os outros não têm. E isto é natural, porque quando a alma vai parar no "além" é como se ela fosse um bebê recém nascido com a visão e audição ainda não desenvolvidos. Por isso, as primeiras impressões das pessoas, que "emergiram" no "outro mundo", têm caráter subjetivo. No entanto, no seu conjunto, elas ajudam a formar um quadro bastante sólido e coeso, ainda que não totalmente compreensível para nós.

A seguir, os momentos mais característicos das experiências do "outro mundo" cuja fonte são os estudos recentes sobre vida após a morte.

1) Visão do "dublê": Tendo morrido, o homem não se dá conta disso, imediatamente. E só depois de se ver deitado e inerte, embaixo de si mesmo, convence que é incapaz de comunicar-se, e percebe que a sua alma saiu do corpo. Às vezes, acontece que, após um desastre inesperado, quando a separação do corpo físico ocorre brusca e inesperadamente, a alma não reconhece o seu corpo e pensa que está vendo alguém parecido com ele. A visão do “dublê” e a incapacidade de comunicar-se provocam um grande choque na alma, de modo que ela não tem certeza se isto é sonho ou realidade.

2) Consciência não rompida: Todos os sobreviventes à morte temporária testemunham que conservaram totalmente o seu "eu" e todas as suas capacidades mentais, sensoriais e de vontade. Mais que isso, a visão e a audição tornam-se até mais aguçadas, o raciocínio fica mais claro e torna-se mais enérgico e a memória torna-se lúcida. Pessoas que he muito tempo perderam alguma capacidade em conseqüência de doença ou da idade, a recuperam. Percebe-se que é possível ver, ouvir, pensar e sentir, mesmo não tendo órgãos físicos. É particularmente fantástico, por exemplo, que um cego de nascença, tendo saído do corpo, viu tudo que era feito com o seu corpo pelos médicos e enfermeiros; e ao retornar, após relatar todo o ocorrido, voltou a ser cego. Os médicos e psiquiatras, que associam as funções de pensar e de sentir aos processos químico-elétricos no cérebro, devem levar em conta esses dados modernos, compilados por médicos - reanimadores para entender corretamente a natureza humana.

3) Alívio: Normalmente, a morte é precedida pela doença e sofrimento.Ao sair do corpo a alma se alegra, pois nada mais dói, nada oprime, nada sufoca, a mente funciona claramente, os sentimentos apaziguados. O homem começa a identificar-se com a alma, e o corpo parece ser algo secundário e inútil, como tudo que é material. "Eu saio, e o corpo é um invólucro vazio" - explica um homem que sobreviveu à morte temporária. Ele assistiu à sua cirurgia cardíaca como se fosse um "espectador." As tentativas de reanimar o seu corpo, absolutamente não o interessavam. Aparentemente, ele tinha se despedido mentalmente da vida terrena e estava pronto para iniciar uma nova vida. Entretanto, permanecia com ele o amor pela família e preocupação com os filhos que deixava. Deve-se notar que, nesse momento, mudanças radicais no caráter do indivíduo não ocorrem. O indivíduo permanece o mesmo que era. "A suposição que, abandonando o corpo, a alma imediatamente passa a conhecer e entender tudo, é falsa. Eu vim para esse novo mundo do mesmo jeito como saí do velho," - conta K. Ixcul.

4) O Túnel e a Luz: Após a visão do seu próprio corpo físico e do ambiente que o rodeia, algumas almas continuam no outro mundo espiritual. Enquanto outras, não passam pela primeira fase ou não reparam nela e vão direto para o segundo estágio. A passagem para o mundo espiritual, alguns descrevem como sendo uma viagem através do espaço escuro, lembrando um túnel, no final do qual eles vão parar numa região de luz não terrena. Existe um quadro do século XV de Jerônimo Bosch, intitulado "Ascensão ao Empírico" que representa algo semelhante à passagem da alma pelo túnel. Isso pode significar que mesmo naquele tempo alguém já tinha acesso a esse conhecimento.


>> Continua...

Alegra-te Maria!


Atendendo a pedidos, uma série de postagens vão tratar de um assunto muito importante não só para o Cristianismo como também para qualquer pessoa que busque respostas na Espiritualidade: a importância do papel da virgem Maria, nossa senhora, a mãe de Jesus.

Mas para falar desse assunto, sinto que é necessário tratar, antes, de um aspecto que considero de fundamental importância, para que não pairem as mesmas velhas dúvidas de sempre a respeito do tema 'devoção aos santos': Eu sei muito bem que hoje, por conta do avanço das linhas evangélicas no Brasil, muitas pessoas não aceitam e criticam a devoção aos santos, dentre os quais Maria é considerada a “rainha”. E por que isso ocorre?

Principalmente por puro desconhecimento. E para lançar alguma luz sobre a questão, nada melhor do que, primeiramente, definir o significado da palavra ‘santo’:

Dentro das páginas do Velho Testamento, três diferentes palavras hebraicas são traduzidas como 'santo': 'qadosh', 'qodesh' e 'qaddiysh'. Essas palavras são variações da mesma raiz e geralmente se referem ao que é sagrado e bondoso, devoto, piedoso. Em diversas passagens, dirigem-se a anjos ou pessoas 'justas' que já haviam morrido. - A mesma palavra hebraica é usada para convidar o povo consagrado a louvar a Deus.

No Novo Testamento, é a palavra grega 'hagios', que se traduz como santo ou santos. Ela define o sagrado, o puro, sem culpa, religioso e, principalmente, consagrado. Santo é aquele ou aquilo que está separado do mundo ou do pecado e, portanto, consagrado a Deus: é sagrado. Da mesma maneira, é correto dizer, por exemplo: 'A hora do almoço, para mim, é sagrada'. – Significa que aquele horário está 'separado', 'reservado' para a alimentação. Os autores originais dos textos bíblicos usaram a palavra santo para descrever pessoas santificadas (fiéis) que deviam e devem orar umas pelas outras (como se vê, por exemplo, em Tiago 5:16 e 1 Timóteo 2:1). Essa palavra, portanto, nada mais significa do que estar ‘separado ou reservado para Deus’.

Até aí, nenhum conflito com o texto bíblico. Continuemos então o nosso raciocínio. - Ocorre que os que criticam a devoção à virgem Maria são os mesmos que acreditam que os santos, ao morrer, vão para um plano espiritual de bem-aventurança e perfeita alegria mais próximo de Deus (que se convencionou chamar ‘Céu’). Também acreditam plenamente na afirmação bíblica de que “a oração de um justo pode muito” (Tiago 5:16). Mas essas mesmas pessoas não aceitam (ou não entendem) a idéia de que alguém que já passou para este outro plano superior possa fazer pedidos a Deus em nossa intenção, e que justamente por se tratarem de 'justos', as possibilidades de esses pedidos serem atendidos seja maior.

Resumindo: Se eu acredito que orar a Deus traz resultados, e se eu acredito que devemos orar uns pelos outros... Se eu acredito que as pessoas que já morreram santificadas estão agora mais próximas de Deus... Então qual o problema em pedir auxílio a esses homens e mulheres que foram verdadeiros exemplos de fé e fidelidade?

É curioso observar que, nesse momento, católicos e espíritas se aproximam, pois ambos acreditam que é possível a comunicação entre vivos e mortos. Também acho curioso observar a atitude de negação dos protestantes/evangélicos com relação a esse assunto, sendo que a própria Bíblia, base absoluta da sua fé, declare abertamente que sim, isso é possível e acontece. Eu os considero (os protestantes e evangélicos) como verdadeiros irmãos em Cristo, como já falei em outras oportunidades, mas parece que eles 'pulam' essa parte da Bíblia! O texto bíblico não nega a possibilidade da comunicação com os mortos, por meio de 'médiuns' ou 'videntes'. Senão vejamos...

Aqui, o rei Saul manda evocar 'a sombra' de Samuel:

“Vendo Saul o arraial dos filisteus, temeu e estremeceu muito o seu coração. Pelo que consultou Saul ao Senhor, porém o Senhor não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.

Então disse Saul aos seus servos: 'Buscai-me uma necromante, para que eu vá a ela e a consulte'. Disseram-lhe os seus servos: 'Eis que em En-Dor há uma mulher que é necromante'.

Então Saul se disfarçou, vestindo outros trajes; e foi ele com dois homens, e chegaram de noite à casa da mulher.

Disse-lhe Saul: Peço-te que me adivinhes pela necromancia, e me faças subir aquele que eu te disser. A mulher lhe respondeu: Tu bem sabes o que Saul fez, como exterminou da terra os necromantes e os adivinhos; por que, então, me armas um laço à minha vida, para me fazeres morrer? Saul, porém, lhe jurou pelo Senhor, dizendo: 'Como vive o Senhor, nenhum castigo te sobrevirá por isso'. A mulher então lhe perguntou: 'Quem te farei subir?' Respondeu ele: 'Faze-me subir Samuel'.

Vendo, pois, a mulher a Samuel, gritou em alta voz, e falou a Saul, dizendo: 'Por que me enganaste? pois tu mesmo és Saul'. Ao que o rei lhe disse: 'Não temas; que é que vês?' Então a mulher respondeu a Saul: 'Vejo um deus que vem subindo de dentro da terra'. Perguntou-lhe ele: 'Como é a sua figura?' E disse ela: 'Vem subindo um ancião, e está envolto numa capa'.

Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra, e lhe fez reverência. Samuel disse a Saul: 'Por que me inquietaste, fazendo-me subir?' Então disse Saul: 'Estou muito angustiado, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se tem desviado de mim, e já não me responde, nem por intermédio dos profetas nem por sonhos; por isso te chamei, para que me faças saber o que hei de fazer'. Então disse Samuel: 'Por que, pois, me perguntas a mim, visto que o Senhor se tem desviado de ti, e se tem feito teu inimigo? O Senhor te fez como por meu intermédio te disse; pois o Senhor rasgou o reino da tua mão, e o deu ao teu próximo, a Davi. Porquanto não deste ouvidos à voz do Senhor, e não executaste e furor da sua ira contra Amaleque, por isso o Senhor te fez hoje isto. E o Senhor entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus. Amanhã tu e teus filhos estareis comigo, e o Senhor entregará o arraial de Israel na mão dos filisteus'.

Imediatamente Saul caiu estendido por terra, tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel; e não houve força nele, porque nada havia comido todo aquele dia e toda aquela noite"
(I Samuel, 28:5-20)


A tradução para o português é a 'Almeida Revisada Imprensa Bíblica', uma das mais precisas. Mas este é só um exemplo; existem outros. A Bíblia diversas vezes se refere a 'mediadores' entre os vivos e os mortos, normalmente chamando-os de 'necromantes' (= pessoa que invoca o espírito dos mortos) ou 'adivinhos'... A Bíblia não nega a realidade dessas práticas, apenas as condena, e com veemência:

"Não se dirijam aos necromantes, nem consultem adivinhos, porque eles tornariam vocês impuros." (Levíticos, 19:31).

"Quem recorrer aos necromantes e adivinhos, para se prostituir com eles, eu me voltarei contra esse homem..." (Levíticos, 20:6).

"Quando entrares na terra que o Senhor teu Deus te der, não apreenderás a fazer conforme as abominações daqueles povos. Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tais coisas é abominação ao Senhor; e por tais abominações o Senhor teu Deus os lança de diante de ti. Perfeito serás para com o Senhor teu Deus. Porque estas nações, que hás de possuir, ouvem os prognosticadores e os adivinhadores; porém a ti o Senhor teu Deus não permitiu tal coisa." (Deuteronômio, 18:9-14).


Mas condenar alguma coisa, ou desaconselhar a sua prática, é diferente de negar que exista. E é exatamente aí que está a raiz do problema. Porque baseados nesse mesmo princípio, os que negam a possibilidade da comunicação com os mortos negam também a possibilidade da intercessão dos santos, que são simplesmente nossos irmãos que estão mais próximos do Eterno.

Mas é importante que se diga que não faz parte da tradição do Cristianismo “invocar” estes santos para perguntar coisas, para que nos digam o futuro ou saber como é o lugar onde estão; e sim pedir orações a eles, para que intercedam junto ao Pai em nosso favor. - São coisas bem diferentes. - E pedir a algum santo não deve excluir a importância da oração feita diretamente a Deus, em nenhuma hipótese.

Da mesma forma ocorre com a questão da virgem Maria. Como já deixei transparecer em outros posts, eu nunca nutri pela figura de Maria qualquer devoção especial. Nunca tive por hábito orar à Maria, nem senti por ela algum tipo de carinho diferenciado. Muito provavelmente por conta da minha fase como evangélico, eu sempre vi esse amor e essa devoção dos católicos pela mãe de Jesus como algo equivocado e/ou pecaminoso. Lembro-me de ter assistido a centenas de sermões de pastores sobre esse tema. Diziam que chamar Maria de “mãe de Deus” era uma inominável blasfêmia, e que pedir qualquer coisa a Maria seria um pecado terrível. No dia 12 de Outubro, muitas pessoas da congregação batista que eu freqüentava reclamavam do feriado, chegando a dizer frases como: “Hoje é feriado em honra de ‘nossa senhora apodrecida’”...

Mesmo que naquela época eu fizesse parte daquela egrégora e concordasse que a veneração à Maria fosse um erro, eu nunca gostei desse tipo de radicalismo. “Se Deus a escolheu para ser a mãe do Cristo, o Deus encarnado, ela com toda certeza foi a mulher mais santa que já existiu”, eu pensava comigo.

Mesmo assim, a "propaganda negativa" feita na minha cabeça, intermitente e por anos a fio, me trouxe o hábito de manter sempre um 'pé atrás' quando o assunto era 'nossa senhora'. Somente depois que encontrei o meu caminho e vi que dentro dele havia um espaço importante reservado à figura da “mãe de Deus”, foi que voltei a me debruçar sobre esse assunto com real atenção e seriedade. Minha alma curiosa de buscador sempre está presente, e é útil nos momentos em que preciso compreender alguma coisa. - Nunca tomo decisões a respeito das coisas que eu não entendo a fundo (o que não é um hábito comum em nosso país, infelizmente).

Então, lá me fui a estudar e procurar conhecer o assunto em detalhes, usando não só da pesquisa pessoal, dos livros e do aconselhamento dos especialistas como também (e principalmente) procurando ouvir a minha própria consciência.

Seguem as minhas conclusões, que servirão como pano de fundo para o assunto da próxima postagem:


Ocorre que após a ressurreição de Jesus, as comunidades dos seguidores de Cristo começaram a se agrupar para garantir o crescimento da sua fé naquele que mudara a vida e todos os conceitos que até então existiam. No centro dessas comunidades estava a Palavra, que juntamente com o Pão partilhado, nutria-lhes e confirmava-lhes a opção de vida que tinham feito, de entrega a Cristo Jesus. A primeira referência a Maria, mulher simples do seu povo, está na Carta aos Gálatas em que Paulo ensina que, na plenitude dos tempos, Deus se fez homem, nascido de uma mulher.


Maria inaugura a plenitude desses tempos

Maria é a mulher que oferece seu corpo e sua vida para realizar o Grande Plano. Assim como seu Filho, sua missão também é estar a serviço da humanidade, para que também nós pudéssemos ser filhos do Deus do Amor. Ela é a mulher que, livremente, vive um itinerário humano de total abertura ao Senhor. Esposa e mãe, acompanhou Jesus do berço ao calvário, aprendendo com Ele a ser também discípula. No Evangelho de Marcos, a primeira síntese a ser escrita após a morte de Jesus, temos uma clara noção do que significa ser discípulo - O discípulo é alguém a quem o Senhor olha profundamente e a quem escolhe e chama, no cotidiano da própria vida, na rotina do trabalho: "Deute opiso mou!" (Vinde após mim!). Esse é o convite para acolher o Caminho e o estilo de vida de Jesus, e trabalhar em comunidade, a serviço do seu Reino.


Maria está entre os discípulos

Ao chamar os primeiros discípulos, Jesus lhes fala junto ao lago, lugar de seu trabalho. Quando aceitam o convite, o Mestre os leva para a montanha, para os constituir como tais. Para subir ao monte é preciso um esforço, uma mudança, um “sair do chão raso”: O monte é o lugar da revelação, da escolha e do envio. O destino dos discípulos será o de acompanhar e seguir sempre a Jesus, e a missão de pregar a Boa Notícia libertadora. A experiência do discipulado começa com a resposta pessoal, consciente e livre a um Convite. E isso significa mudar totalmente de vida, porque nos tornamos mensageiros de algo que em muito nos ultrapassa: a Boa Nova da salvação e da libertação. Quem quiser viver essa experiência passa ser a família de Jesus. Cumprir sua missão é a nova realidade dos que aceitam, como Maria, a "peregrina da fé", seguir Jesus incondicionalmente.

Todos buscam Jesus, cada qual por um motivo, mas, no contexto daquela multidão, podemos identificar três grupos: os adversários, sua família e seus discípulos. Transparece, da narrativa de Marcos, que nem todos de sua família estivessem compreendendo a real missão de Jesus e acham que ele está "exagerando". Não é o que pensa sua mãe. Todavia, quando seus familiares o procuram novamente, Jesus pergunta ao povo que o escuta: "Quem é minha mãe e meus irmãos?" A nova família do Senhor é formada por aqueles que fazem a vontade de Deus.


Maria fez sempre a vontade de Deus

Num terceiro texto de Marcos, vemos que aqueles que ouviam maravilhados o que Jesus dizia, perguntavam-se: "Não é este o carpinteiro, o filho de Maria...?" Essa pergunta e todas as outras a respeito de quem era ele são importantes para estabelecer a identidade messiânica de Jesus. É que o povo ainda não sabia quem era Jesus verdadeiramente, e o título "filho de Maria", que poderia colocar em dúvida seu caráter divino, acabou por tornar-se a própria identidade humana do Salvador. Como mulher de seu povo, Maria é presença silenciosa. Ao mesmo tempo que não ouvimos sua voz, vemos sua presença ativa e serviçal, sempre atenta e próxima, sempre a serviço do Evangelho. No livro de Mateus, Jesus é o cumprimento pleno das esperanças do povo de Israel, e Maria participa do "cumprimento das Escrituras" tendo uma missão especial. Mateus insiste em frisar que Jesus descende de Davi. Destaca também a figura de José, que sendo pai adotivo, não é por isso menos importante e responsável. Há de se notar ainda que Mateus traça um paralelismo entre o livro do Gênesis e a genealogia de Jesus, como a indicar que, com Ele, começa a nova criação. O "novo povo, o novo Israel”, brota de Jesus, o Cristo, através de Maria. A concepção do Cristo, por obra do Espírito Santo, é um acontecimento excepcional, e a partir dele Mateus ensina sobre o mistério de Jesus. Ele é o Filho de Deus e seu nascimento de uma virgem confirma o que os profetas haviam predito. Maria é, pois, a Mãe do Emanuel e tem papel importante "no Mistério da Salvação".

Três são as exigências que Mateus destaca para quem quer ser discípulo de Jesus: 1) Amor incondicional; 2) Tomar a cruz e seguir Jesus; 3) Perder a vida por Jesus (a 'antiga' vida). - Não se trata de uma passividade mórbida, mas de uma escolha radical, de uma ação consciente de tomar posição a favor dele, deixando para trás o mal e a morte. É isso que prova se somos ou não dele.


Maria cumpre as três exigências: ama-o acima de tudo, segue-o e sofre com Ele, e nada teme. Por seu Amor, Maria é modelo no seguimento de Jesus

Lucas, o terceiro evangelista, era provavelmente grego, homem de muita cultura, estudioso da exegese judaica. O seu evangelho nos apresenta uma outra face de Maria: uma mulher ativa, comprometida, livre, disponível a colaborar com o Grande Plano, a serva que se entrega sem reservas. Fica claro que Maria não tem uma identidade e uma vocação próprias, mas dentro e a serviço do Cristianismo. Ela se enriquece plenamente por / para Jesus. Na anunciação, o Senhor chama Maria a entregar sua vida toda a serviço da missão de Jesus, centro e plenitude da História. E o “sim” de Maria é uma tarefa salvífica.

Quando o Anjo saúda Maria diz: “Alegra-te!”, fazendo uso de uma saudação dirigida a ela como Filha de Sião. Maria é, pois, convidada a transbordar de alegria, a exultar com a libertação que chega, com a presença de Deus que será, a partir de seu consentimento, total e definitiva. Se para Zacarias falar com Deus foi preciso entrar no santuário, no centro do templo, no caso de Maria é o próprio Deus que desce e entra em sua casa, o lugar da presença salvadora do Senhor nos novos tempos!

Se Deus realiza em Maria o ato mais extraordinário de presença e de revelação, é porque Maria é, em algum nível, o templo, o santuário, a morada de Deus; onde o Senhor pode ser encontrado, celebrado e amado. Mesmo assim, ela a si mesma só atribui um título: “a serva do Senhor”.

A fé de Maria é um ato de oferenda, pois ela está totalmente disponível ao plano divino; é um ato de obediência, pois ela aceita sua vocação não como honra, mas como serviço; um ato de confiança, pois ela acolhe o desígnio de Deus, apesar de tudo mostrar-lhe o contrário.


“Alegra-te, Maria, cheia de graça!”





Sempre e sempre Amor


Quando eu tomei conhecimento do Grande Princípio: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, eu era ainda muito jovem, e me lembro de ter ficado aturdido...

Amar o meu próximo como a mim mesmo? Como é possível amar a quem quer que seja como a mim mesmo? E mais: afinal de contas, quem é o meu próximo? Bom, a resposta para essa última pergunta não demorou. Ela está expressa, muito claramente, na mensagem conhecida como “A Parábola do Bom Samaritano”:

“Mas ele (o doutor da Lei) querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo? Jesus então contou: Um homem viajava de Jerusalém para Jericó, e na estrada foi atacado por ladrões, que o roubaram; e depois de o terem espancado muito, fugiram, deixando-o meio morto. Logo depois, por acaso, passou pelo mesmo caminho um sacerdote, e o viu; mas passou adiante. Depois disso um levita, chegando àquele lugar, o viu, mas também o ignorou e continuou viagem. Mas então, um samaritano viajante, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas ungüento; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria, e tratou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro, dizendo-lhe: ‘Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei’. Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Respondeu o doutor: ‘Aquele que usou de misericórdia para com ele’. Então Jesus lhe disse: ‘Vai, e faz o mesmo’.” (Lucas: 10,29-37)

Mais claro que isso impossível! Informações básicas: Os sacerdotes eram tidos como homens santos pelos antigos judeus. Respeitadíssimos e vistos como intermediários entre Deus e os homens, eram considerados detentores da verdadeira Sabedoria. Os levitas eram os membros de um clã também muito respeitado, a tribo da qual provinham os sacerdotes. Já os samaritanos eram considerados impuros e heréticos; eram sumariamente desprezados e excluídos. Mas na história, o sacerdote não ajuda o homem ferido. Um levita passa por ali, vê o homem à beira da morte e também não faz nada... Aí um dos samaritanos aparece e ajuda o homem, cuida dos seus ferimentos, salva sua vida e o leva para lugar seguro...

Acho que está mais do que óbvio que a mensagem central da história é: “O seu próximo pode ser qualquer pessoa, talvez principalmente aquela que você menos espera. Todos são seus próximos”.

Por isso mesmo eu me perguntava: Como é que eu posso amar a todos como a mim mesmo; amar a qualquer pessoa, e talvez até principalmente àquelas que me pareçam as mais desprezíveis ou as mais irritantes? O desejo de resolver essa questão me levou a trabalhar muito (e ainda trabalho, é uma prática constante), mas eu só vim a conseguir entender essa questão, de uma maneira realmente perfeita, depois que eu tive um certo sonho. Foi assim que eu compreendi que todos nós somos parte de uma só e grande Família. Desse dia em diante, comecei a praticar um exercício que deve ser sempre constante, o de olhar para cada pessoa que cruzasse o meu caminho como meu filho, meu pai, meu irmão...

Imagino que talvez, falando assim, possa parecer maluquice, alienação... Mas não é. É uma prática que, uma vez iniciada, passa a fluir naturalmente. Exemplo: Estou no cinema, para assistir um filme muito esperado. Senta uma dupla de adolescentezinhas chatas, na minha frente, daquelas aborrecentes, mesmo, que não param quietas durante toda a sessão, entre risinhos e observações bobas em voz alta. Logo que a raiva começa a se insinuar, me lembro que eu também tenho uma filha nessa idade, que poderia ser aquela menina... "vejo" nelas a minha própria filha e... funciona!! De repente me pego achando até engraçadinhas as “macaquices” delas...

Todas as vezes que eu cheguei a comentar sobre esse assunto com alguém, a reação foi algo do tipo: “Ah, mas isso é muuuito difícil...” Bom, pra mim funciona, e não é assim tããão difícil... Claro, às vezes é impossível não se irritar, não xingar alguém ou perder a calma. Mas quem foi que disse que “amar” quer dizer nunca sentir raiva, nunca sair do sério ou ser sempre “bonzinho”? Será que existe algum ser humano que nunca se irrite, às vezes, mesmo com um filho ou com alguém que ame muito? Amar é querer bem, é compreender, é se colocar no lugar do outro e simplesmente aceitar as falhas alheias, até porque também somos falhos. E isso acaba levando a uma serenidade maior, o seu “normal” passa a ser um estado de calma e não o mau-humor típico daquelas pessoas que amam (e tratam) seus cachorrinhos como filhos mas parecem odiar a humanidade.

Mas o que me parece mesmo é que a grande maioria nem se dá ao trabalho de tentar... Muitos estão sempre no templo, não perdem os cultos, fazem a sua “obrigação” direitinho... e sempre deixam o mais importante pra depois.

Mas esse post não é sobre Amor ao próximo. É sobre Amor a Deus.

Como é que poderia eu "amar a Deus sobre todas as coisas"?? Será mesmo que alguém seria capaz disso? Como posso amar a Deus mais que à minha esposa, aos meus pais ou mais do que amo minha filha?? E esse é o primeiro Mandamento, o mais importante de todos!.. e agora?

Como eu sempre digo (parafraseando o Mestre): Se você buscar, vai achar. Se você bater, a porta vai se abrir. Se pedir, você terá!.. Eu pedi a Deus para entender como é que eu deveria amá-Lo, mesmo sem vê-Lo. Eu pedi para aprender a amar Deus. Eu precisava entender o que significava isso, para começar... e um belo dia, a resposta veio, naturalmente. “Surgiu” dentro da minha mente; ou melhor, ela já vinha surgindo, devagar, dia após dia. E de repente era como se eu tivesse sabido aquilo a minha vida inteira...

Se eu acredito em DEUS como o Criador, o Poder Absoluto e Autor do Universo... a Fonte da própria Vida... se, em última análise, DEUS para mim é a própria Vida... Então, como poderia eu pretender amar a qualquer pessoa ou qualquer coisa mais do que a DEUS? Isso seria impossível!

Quero dizer, quando vejo meus filhos, minha esposa ou qualquer outra pessoa que eu ame, eu sei que essas pessoas só existem porque DEUS assim o quis! DEUS está nelas, de algum modo! E elas só estão presentes na minha vida por intermédio dEle. Eu só vim a conhecer essas pessoas por dádiva de DEUS! Antes disso, eu só sou capaz de amar alguém ou alguma coisa por que esse DEUS me deu o dom de amar... E eu só estou aqui, antes ainda de qualquer outra coisa, vivo e fazendo parte da existência, porque DEUS em algum momento "me" pensou...

E se eu quisesse ir ainda mais longe, poderia até dizer que eu também sou parte desse DEUS! Amor e DEUS, em algum nível, são uma só coisa. Fez-se a Luz, e eu compreendi: DEUS realmente é Amor!

Aliás, a palavra "Deus" já está tão gasta pelo mau uso que dela foi feito no decorrer dos séculos, que a cada dia que passa ela se torna mais incapaz de fazer entender a Quê, exatamente, estou me referindo. Pior que se eu quisesse inventar alguma palavra nova, isso provavelmente só criaria mais confusão...

Eu achei que devia falar sobre Amor a DEUS, hoje. Talvez em breve eu me meta a besta e tente publicar um post falando sobre os conceitos de DEUS. Mesmo sabendo que, nesse caso, quanto mais falamos, mais estragamos tudo. O Vazio e o Silêncio sempre foram as melhores maneiras para se entender DEUS.

Desejo do mais fundo do meu coração, um lindo domingo para todos vocês. E lembrem-se: Amem a DEUS sobre todas as coisas, e aos seus próximos... Ah, vocês já sabem!



Lanciano

Este é o primeiro de uma série de posts que eu pretendo publicar, não necessariamente em seqüência, sobre o assunto “milagres”, que na minha visão são provas e/ou evidências verdadeiramente consistentes da realidade de uma outra existência, diferente desta em que vivemos, e que se convencionou chamar “espiritual”. Algumas orientações religiosas asseguram que esse tipo de fenômeno não existe, simplesmente não acontece. Afirmam isso partindo da lógica de que, se Deus estabeleceu regras para a sua criação e para suas criaturas, não teria Ele mesmo o direito de “quebrar” essas mesmas regras. Mas será que isso não seria “um pouquinho” de pretensão de nossa parte; pretender “policiar” Deus?? Determinar o que Ele pode ou deve e o que não pode ou não deve fazer?? Bom, acho que isso depende inteiramente da idéia que nós fazemos de Deus. Se acreditamos que há um ancião de longas barbas brancas, vivendo “lá em cima”, sentado numa nuvem e vestindo um camisolão, rodeado de “anjinhos” bochechudos, que de vez em quando manda raios para castigar os maus... Então, nesse caso, até poderíamos tentar imaginar o que ele faria e o que não faria... Mas, se eu acredito na Força suprema, que cria e rege o Universo (Pluriverso?), e que de alguma maneira permeia tudo que existe... bom, nesse caso eu seria totalmente, mas totalmente mesmo, incapaz de querer ensinar a quem quer que seja o que DEUS pode ou não fazer.

Na terminologia da Pesquisa Psi e da Parapsicologia, designa-se "fenômeno supranormal" aquilo que popularmente se chama de “milagre”. Nos últimos anos, desastradamente, esse termo (fenômeno supranormal) tem sido adotado por todo tipo de seita para designar todo e qualquer tipo de ocorrência extranormal, paranormal, extra-sensorial ou puramente espiritual. Tudo é chamado de "supranormal". Dentro da séria pesquisa PSI e da verdadeira parapsicologia (enquanto ramo da Ciência), Fenômeno Supranormal se reconhece: Pelo fato, em si mesmo, superior à natureza; Pelo modo, diferente da natureza; e Pelo intermédio de quem ou de quê se fez/faz. Assim, os fenômenos provocados pelo ser humano, ainda que inexplicáveis, não podem ser considerados como fenômeno supranormal.

Particularmente, acredito que só faz sentido falar de Deus como um Deus que age e se revela na história - um Deus que se faz conhecido, portanto, através de eventos históricos. Isso posto, vamos ao assunto:




mais de 13 séculos aconteceu aquele que é considerado por muitos, sejam cristãos, devotos, leigos e também muitos cientistas, como o maior e mais prodigioso Fenômeno “Supranormal” da História. Por volta do ano 700, na cidade italiana de Lanciano (Anxanum dos Frentamos), viviam no Mosteiro de São Legoziano os Monges de São Basílio, e segundo dados históricos, havia entre eles um que se fazia notar mais por sua cultura secular do que pelo conhecimento das coisas da fé. Sua determinação, a todos, parecia vacilante, e ele era perseguido todos os dias pela dúvida de que a Hóstia consagrada fosse "Corpo de Cristo" e o Vinho seu verdadeiro Sangue, como prega a tradição católica. Mas ele permanecia orando continuamente para que esse insidioso espinho saísse de sua mente (como sacerdote, obviamente, ele não poderia conviver com uma dúvida tão grande no que concerne justamente a uma das crenças básicas da fé por ele representada).

Essa situação persistiu até que certa manhã, celebrando a Missa, mais do que nunca atormentado pela sua dúvida, após proferir as palavras da Consagração, ele viu a hóstia converter-se em carne viva e o vinho em sangue vivo. Sentiu-se confuso e dominado pelo temor, permanecendo longo tempo transportado a um êxtase sobrenatural. Até que, em meio à transbordante alegria, o rosto banhado em lágrimas, voltou-se para as pessoas presentes e disse:

“Ó testemunhas afortunadas, a quem o Santíssimo DEUS, para destruir a minha falta de fé, quis revelar-Se a Si Mesmo neste bendito Sacramento e fazer-Se visível diante dos nossos olhos. Venham irmãos, venham todos e maravilhem-se com o nosso DEUS tão próximo de nós. Venham contemplar a Carne e o Sangue de nosso Amado Cristo”.


À estas palavras os fiéis se precipitaram para o altar e muitos começaram também a chorar... Logo a notícia se espalhou por toda a pequena cidade, transformando o monge numa espécie de “novo Tomé”. A Hóstia-Carne apresentava, como ainda hoje se pode observar, uma coloração ligeiramente escura, tornando-se rósea se iluminada pelo lado oposto, e tinha aparência fibrosa; o Sangue era de cor terrosa, coagulado em cinco fragmentos de forma e tamanho diferentes. Serenada a emoção, as relíquias foram protegidas num tabernáculo de marfim, que foi mandado construir pelas pessoas mais credenciadas do lugarejo.

A partir de 1713, e até hoje, a carne passou a ser conservada numa custódia de prata, e o sangue, num cálice de cristal. Os reconhecimentos eclesiásticos do Milagre aconteceram em 1574...

Até aí, tudo bem, nada que impressione um cético. Mais uma história inventada para reforçar a fé do povo, como tantas outras. Mais uma lenda piedosa, mais uma alegação sem provas. E assim lidaram com o Fenômeno os opositores da Igreja até o ano de 1970. Mas...

Como é de domínio público, o Vaticano em sua história moderna é sempre alvo de inúmeras críticas, muitas vezes por parte dos próprios fiéis, pelo fato de não divulgar abertamente, e com maior ênfase, casos de Milagres como este (concordo com essas críticas), e também por adotar uma postura extremamente rígida para com os casos de alegações de supostos milagres (já essa posição eu entendo, e estou de acordo com ela). E neste caso não foi diferente. As relíquias já vinham sendo mantidas como objeto de veneração há séculos, mas a Igreja se reservou a fazer o pronunciamento oficial a respeito, somente depois de confirmação científica.

E é exatamente por isso que acho este caso, em especial, no mínimo muito intrigante: em novembro de 1970 os Frades Menores Conventuais, sob cuja guarda se mantém a Igreja do Milagre (desde 1252 chamada de São Francisco), devidamente autorizados, confiaram a dois médicos de renome e idoneidade moral a análise científica das relíquias, que foi realizada por meio de minuciosas e rigorosas provas de laboratório.

Para tanto, convidaram o Dr. Edoardo Linoli, Chefe de Serviço dos Hospitais Reunidos de Arezzo e livre docente de Anatomia e Histologia Patológica e de Química e Microscopia Clínica, e o Profº Ruggero Bertelli, Profº Emérito de Anatomia Humana Normal na Universidade de Siena.

Procederam-se os exames. Após alguns meses de trabalho, exatamente no dia 4 de Março de 1971, os pesquisadores publicaram um relatório contendo os resultados das análises, o qual segue abaixo:

"A carne é carne verdadeira, o sangue é sangue verdadeiro. A carne é do tecido muscular do coração (miocárdio, endocárdio e nervo vago). A carne e o sangue são do mesmo tipo sangüíneo (AB) e pertencem à espécie humana. No sangue foram encontrados, além das proteínas normais, os seguintes materiais: cloretos, fósforos, magnésio, potássio, sódio e cálcio. A conservação da carne e do sangue, deixados em estado natural por 12 séculos e expostos à ação de agentes atmosféricos e biológicos, permanece um fenômeno extraordinário" (destaque da parte final meu).

Novas comprovações e verificações laboratoriais foram feitas em 1981 - As análises, procedidas com absoluto rigor científico e documental de uma série de fotografias ao microscópio, deram estes resultados:

# A carne é carne verdadeira. O sangue é sangue verdadeiro;

# A carne e o sangue pertencem à espécie humana;

# A carne pertence ao coração em sua estrutura essencial;

# Na carne estão presentes, em secções, o miocárdio, o endocárdio, o nervo vago e, pela expressiva espessura do miocárdio, o ventrículo cardíaco esquerdo;

# A carne e o sangue pertencem ao mesmo grupo sanguíneo: AB. - Aqui cabe uma observação e uma curiosidade: O sangue tipo AB é característico e predominante no povo judeu(!), e é do mesmo tipo do sangue encontrado no Sudário de Turim(!);

# No Sangue foram encontradas as proteínas normalmente existentes e nas proporções percentuais idênticas às encontradas no sangue normal FRESCO, como se RETIRADOS DE UM SER HUMANO AINDA VIVO;

# No sangue foram encontrados também os sais minerais em proporções idênticas àquelas de um ser humano VIVO normal: cloro, fósforo, magnésio, potássio, sódio e cálcio.

# A conservação da carne e do sangue, deixados em estado natural durante doze séculos e expostos aos agentes físicos, atmosféricos e biológicos constitui fenômeno extraordinário.


***


Três fatores importantes merecem, na minha opinião, especial destaque:

1 - O primeiro é que se trata de carne e sangue de uma pessoa VIVA, vivendo atualmente, pois que esse sangue é como que tivesse sido retirado, naquele mesmo instante, de um ser vivo!

2 - Um segundo fato que impressiona: a carne que lá está é carne do Coração. A carne do músculo que propulsiona o Sangue – e portanto a vida – ao corpo inteiro, do músculo que é também o símbolo mais manifesto e o mais eloqüente do Amor.

3 – O sangue, que hoje se encontra na forma de coágulos, que são em número de cinco, apesar de serem bastante diferentes em tamanho e forma, apresentam, todos, EXATAMENTE O MESMO PESO, e mais: pesando-se todos os coágulos juntos, se obtêm, também, exatamente o mesmo peso!! OU SEJA, O PESO DE CADA UM DOS COÁGULOS É IGUAL, QUE TAMBÉM É IGUAL AO PESO DE TODOS ELES JUNTOS!! Só este fato, por si só, já representaria um Milagre, dentro de outro Milagre!


Então, bem... aí estão os fatos. Tiremos nossas conclusões. Podemos agora tentar interpretá-los, buscar explicações diversas... Mas não podemos negar a existência de um fato. Um caso como este é intrinsecamente diferente de outros que poderiam ser explicados como ação do “poder da mente”, fenômenos parapsicológicos, etc., visto que a própria parapsicologia o classifica como “Fenômeno Supranormal”, ou seja, simplesmente não há sequer algum esboço de explicação científica natural para o caso. Não foi um fenômeno ocorrido num espaço determinado de tempo, trata-se de um assim chamado “Milagre Permanente”, ou seja, ocorreu há cerca de 1300 anos e continua ocorrendo até hoje, na preservação inexplicável do Material.


"'Comei e bebei todos vós, isto é o meu Corpo que é dado por vós' - Mais do que uma simples simbologia, como possa parecer, é o sinal divino de que no Sacramento da Comunhão está o alimento da nossa esperança nas Promessas de Cristo...” (Tomás de Aquino)











Assista o filme (em português):


Aposta errada!

O Sr. Silva era um homem muito piedoso e temente a Deus. Veio a falecer. Chegando lá do "outro lado", viu-se num lugar muito bonito, azul, cheio de luz e nuvens brancas em volta. Diante de si, viu um grande portão dourado, reluzente, trancado com um magnífico cadeado também dourado, e por detrás um ancião trajando uma longa toga branca, com um grande molho de chaves pendurado no cordão que lhe servia de cinto.

"São Pedro! Discípulo do Senhor!!" – Gritou o falecido, enquanto corria para o portão. Chegou bem diante do ancião, que o olhava com uma expressão curiosa: "Quem és?", perguntou ele; ao que o homem respondeu, desapontado: "Sou o Silva, ora essa! O seu Deus é o meu Deus! Ele me conhece! Por anos a fio freqüentei as Missas, todos os domingos. Deixei de assistir até aos jogos do meu time em final de campeonato, só para ir à igreja! Dízimo nunca paguei, mas sempre contribuí da melhor maneira que pude, ajudei em obras assistenciais... Sempre tentei ser um bom cristão, e, modéstia à parte, acho que consegui... Tenho certeza que mereço um cantinho aí dentro!"

O ancião continuava só encarando o recém chegado, parecendo cada vez mais curioso. Depois de um tempo, finalmente observou: "Não entendo o que dizes...". – Mas o falecido prontamente retrucou: - "Como não??! Então me chame aí o Francisco! Aquele, que veio de Assis, na Itália, amigo dos animais. Eu fui seu devoto a vida inteira!" - O ancião agora coçava a careca, confuso: "Não conheço essa pessoa...". O outro insistiu: "O quê?? Ele não está aqui?? Eu não posso acreditar! Onde poderia estar? Ele fez tudo e mais um pouco! Se ele não pôde entrar... então... coitadinho de mim!..”. – Ficou mudo, e, depois de um tempo, começou a chorar baixo. Logo depois estava soluçando copiosamente.

O ancião, vendo aquilo, sentiu-se penalizado e disse ao homem: "Olha, eu vou chamar aqui o meu Senhor, ele normalmente está muito ocupado ajudando seu Pai a governar o mundo, mas ele é um deus muito bom, eu vou ver o que posso fazer, está bem?”... – O Sr. Silva se animou num segundo: "Vou ver Jesus! Vou ver Jesus! Tenho certeza que vai me perdoar! Vai me deixar entrar!! Ele perdoou até o ladrão na cruz! E eu nunca roubei nada a minha vida inteira!.."...

O ancião desapareceu, portões adentro. Passou um tempo. Sr. Silva estava exultante: "Vou conhecer Jesus, em pessoa! Oh, esperei por isso a vida inteira!"... - Por fim, com um alto clamor, os portões dourados se abrem! Diante dele aparece uma figura imensa e majestosa. Sr. Silva se põe de joelhos, emocionado. A figura imponente se aproxima, fazendo sombra sobre ele... É um homem alto e forte, de longos cabelos dourados. Os olhos de um azul profundo fitam o pobre homem, ajoelhado diante dele: "Ele se parece mesmo com a imagem clássica renascentista!", pensa o Sr. Silva. Depois de um instante de silêncio, finalmente se ouve uma forte e retumbante voz, que pergunta: "O que queres, mortal?"; - Sr. Silva, gaguejando, mal consegue responder: "Senhor, eu tentei servi-lo o melhor que pude, a minha vida inteira. Sempre segui os seus ensinamentos e procurei ser bom e piedoso. Tudo que peço é permissão para entrar no seu reino!”. – Mas a resposta não poderia ser mais desconcertante: "Eu não te conheço! Quem és?!"... Ao ouvir isso, o pobre coitado se pôs novamente a chorar, enquanto balbuciava, entre soluços: "Por teu Pai, meu Senhor Jesus, não me digas isso!"

Mas ele nunca poderia imaginar, nem nos seus sonhos mais desvairados, o que ouviria como resposta. E não pôde acreditar nela, mesmo depois que a ouviu:

"Mortal, tu estás louco!! Quem é Jesus? Não o conheço! Meu nome é Thor, meu pai é Odin, e tu não te pareces com nenhum dos meus guerreiros!"


Foi só então que o Sr. Silva percebeu que aquela figura grandiosa trazia um enorme martelo preso ao cinturão...


*!*!*!*


Piadinha, só pra relaxar? Sim e não. Essa anedota tem um sentido muito profundo, por trás do tom irreverente e descontraído. Fala de um homem que fez uma escolha errada. Muito errada... ;-) Bem, ajudaria se ele tivesse nascido alguns séculos antes. Hehehe... Afinal, a antiga religião viking está extinta, então hoje ele não teria a menor chance de ir para o Céu. Ou melhor dizendo, para Valhalla... Mas a história fala de algo em que eu sempre acreditei: que o nosso caminho de vida não deveria ser escolhido sem que tivéssemos a certeza do que estamos fazendo. Afinal, até aonde poderia nos levar uma fé cega e que se limita apenas aos rituais?

Qual o verdadeiro Deus? Quero dizer, se há um Deus, como Ele é? Como chegar até Ele? Se esse Deus quer mesmo nos salvar, nos dar a salvação ou a liberação deste mundo caótico e desta vida curta e sem sentido, agora ou no futuro, então por que ele não nos mostra claramente o que quer?

"Por que esse 'não saber' é parte da Busca, faz parte de algo que nos tornará aptos a integrar algo melhor, quando estivermos prontos". - Essa é uma excelente resposta (e eu acredito nela)... Mas... Será que DEUS ou o Universo não nos daria nenhuma "dica", para que soubéssemos o que devemos fazer, qual o caminho certo a seguir? Se há mesmo essa coisa que chamamos "espiritualidade"; se há uma continuidade desta vida e se há certos princípios que devemos adotar, neste aqui-agora, para que essa "passagem" inevitável seja mais fácil ou mais feliz... Então porque não somos guiados de uma maneira mais objetiva?

Bem, estou convencido de que tive alguns Sinais... Mas será que os interpretei direito? Vocês poderão tirar as suas próprias conclusões, em breve. Isso tudo era só uma preparação para o próximo post.



O Fim e o Princípio - conclusão




Nota prévia: Nas vezes em que uso o termo “formas” no texto, estou me referindo aos modelos prontos para se vivenciar a espiritualidade, ou seja, religiões e/ou grupos constituídos. Por ser o post muito longo, foi dividido em três partes, com a intenção de facilitar a leitura. Você pode ler hoje a primeira, amanhã a segunda...


Primeira parte

Minha mente se abriu naquela noite, de um modo inteiramente novo. Meu entendimento despertou para um novo Universo de possibilidades. De algum modo, aquela pedra voltava a ser uma pedra, aquela nuvem voltava a ser apenas uma nuvem. A Paz que eu um dia conhecera, voltava a se fazer presente, suavemente.

Inacreditável como é absoluta a diferença entre saber e entender. Será que eu já não sabia, afinal, que o mais importante de tudo é o Amor? Será que todos aqueles princípios básicos que tinha acabado de ouvir da boca de Laurence Freeman eram novidades para mim? Claro que não! Eu já sabia de tudo aquilo, de cor e salteado. São fundamentos básicos, presentes em quase todas as principais religiões do mundo... Sim, eu já sabia. Mas não entendia. Até aquela noite. Agora me sentia como se o meu entendimento tivesse sido “aberto”, para a inserção de uma série de verdades essenciais. Uma vez ouvi falar que a distância entre o céu e o inferno é de apenas 2 palmos: A distância entre a cabeça e o coração. Em todas as decisões que precisamos tomar, a cada novo instante de nossas vidas, optamos sempre entre duas “forças” básicas: razão e emoção. Enquanto não aprendermos a usar essas capacidades com harmonia, uma vida feliz não vai passar de um projeto a ser realizado num futuro que nunca chega.

Quem voltou para minha casa, naquela noite, foi um outro homem. O “eu” que tinha saído, horas antes, havia morrido; para sempre. Tudo estava mudado na minha vida, a começar pela minha disposição. Depois daquela experiência, eu vivi dois dias belos, plenos e felizes... Dois dias de pura bem aventurança; de alegria perfeita, alternada com picos de euforia e fases prolongadas de suave serenidade. Por incríveis dois dias, eu dominei a capacidade de me manter calmo, de compreender as falhas no meu próximo e ver as coisas que eu acho insuportáveis de um jeito muito mais... Suportável. Hana chamou de “Efeito Iluminação”... gostei. Mas aquele estado de ser não era brincadeira. Ao contrário, era a coisa mais importante e mais desejável que eu jamais experimentara em toda minha vida. Era como chegar o mais próximo que eu podia da perfeição humana! Ia dormir rindo e despertava como se estivesse voltando do próprio “Paraíso”!..

Só um problema: durou dois dias. E agora, esse estado de completitude começava a se "esvair"... apenas dois dias depois da experiência transformadora, tudo estava se dissipando. Tudo acabando, as “peças psíquicas” todas querendo voltar aos seus lugares de origem; minhas velhas falhas reassumindo seus “postos” dentro de mim. E eu comecei a me sentir desesperado. Desesperado é a melhor palavra, porque eu não queria o “velho homem” de volta. Eu não queria mais sentir medo, não queria mais dúvidas, não queria mais olhar no espelho e ver um fraco... Eu experimentara a sensação de voar, uma vez, e agora voltar a rastejar me parecia simplesmente insuportável.

Todas as grandes experiências que eu tive na minha vida, que me fizeram crer perfeitamente, que me fizeram sentir um pouco mais "perto de Deus", trouxeram junto um turbilhão de sentimentos maravilhosos. Que me acompanharam por não mais que um dia ou dois. E depois voltavam os velhos e indesejáveis “companheiros”: Egoísmo, medo, dúvidas, “neuras”... O que eu mais desejei sempre foi encontrar um modo de me manter nesse estado elevado. Se não para sempre, ao menos na maior parte do meu tempo. Mas nunca consegui. Por mais que eu tenha experimentado e vivido maravilhas, minha mente sempre voltava ao estado "comum', logo em seguida. Num dia eu passeava pelo céu azul, dando voltas em torno do sol e brincado entre nuvens. No outro eu acordava duvidando da possibilidade de ter sido tudo real, desconfiando de Deus, da própria Vida e de mim mesmo... Por quê?? Nunca pude entender. Até aquele momento.

Na noite do quarto dia após o meu encontro com Dom Laurence Freeman, eu estava me sentindo arrasado, justamente por conta da prerrogativa de ter que voltar a regredir, voltar ao "buraco escuro" depois de ter contemplado o sol mais uma vez. E eu voltei a orar pedindo por orientação. Eu queria seguir meu Caminho do meu jeito, mas como sempre acontecia, quando tentava fazer isso, acabava me frustrando... Nessa mesma noite, percebendo meu estado de desânimo, Hana, ao chegar do trabalho, me convidou para jantar fora. Eu estava com meus pensamentos firmemente concentrados em receber a resposta para a pergunta que não queria calar: “Seria possível atingir a perfeita realização mesmo sem pertencer a nenhuma religião? Seria eu capaz de encontrar, e principalmente, me manter no meu caminho, estando completamente desapegado das formas (religiões e/ou grupos estabelecidos)?” A resposta viria tão rápido, e de forma tão clara, que me deixaria literalmente tonto...

Topei o convite para o jantar. Estava mesmo muito abatido, dentro de casa o dia inteiro, só pensando, naquele dia. Enquanto tomava um banho, e depois, me vestindo para sair, eu permanecia intensamente concentrado nessa questão: ”Seguir sozinho ou procurar apoio nas formas prontas?" Saímos de casa. Estávamos indo a um restaurantezinho muito simples, porém agradável, que fica duas ruas acima da de nossa casa. Andar um pouco e respirar o ar noturno me faria bem, pensávamos. Mas a “implicação” deste pequeno passeio seria muitíssimo mais importante do que o simples efeito do ar fresco...

Bem diante da minha casa, logo ao sair do portão; bem à minha frente... havia um pedaço de papel. Havia um pedaço de papel no meio do caminho... Um pequeno pedaço de papel dobrado, caído na calçada. E eu serei completamente incapaz de explicar, aqui, o porque de aquele pequeno retângulo de papel ter me chamado tanto a minha atenção. Foi como se, por um curto espaço de tempo, não superior a um ou dois segundos, aquele papelzinho tivesse brilhado no escuro, ali na calçada. Ou como se ele tivesse adquirido uma coloração muito viva, às minhas vistas, enquanto todo o ambiente ao redor se apagava num oceano sem cor. Gesto inevitável, apanhei o pequeno papel. Quero dizer que não o fiz por curiosidade. Eu não estava curioso pra saber o que era. Não pensei em nada, não raciocinei, absolutamente, sobre o que estava fazendo. Apenas apanhei o papel, e haviam coisas escritas. Desdobrei-o e li. Era um folheto com uma série de 6 máximas bíblicas, contidas em passagens do Antigo e do Novo Testamento, que diziam uma só coisa. O que estava escrito era o seguinte:


Este era o papel - clique para ampliar


DEUS DIZ QUE VOCÊ NÃO CONSEGUE CHEGAR SOZINHO (Romanos 3:23).

DEUS DIZ QUE VOCÊ NÃO PODE CONSTRUIR SEU PRÓPRIO CAMINHO (Efésios 2:8-9).

DEUS DIZ QUE ALGUNS CAMINHOS TERMINAM EM MORTE (Provérbios 16:25).

DEUS DIZ QUE PRECISAMOS FAZER MEIA VOLTA (Atos 3:19).

DEUS DIZ QUE SÓ EXISTE UM CAMINHO (João 14:6).

DEUS DIZ QUE VOCÊ PRECISA ENTREGAR A DIREÇÃO DA SUA VIDA A JESUS (João 1:12).


Segunda parte

O objetivo do passeio era relaxar e clarear a mente... Mas agora minha mente pegava fogo mesmo, mais do que antes! Mais um Sinal?! E dos mais óbvios. Fiquei abaladíssimo. Hana, vendo meu estado, se desesperava também... Durante o jantar, pouco conversamos. À noite, não conseguia dormir, olhos arregalados, olhando pro teto do meu quarto. Na TV, violências, como sempre... Mas eu não ouvia nem via nada. Apenas as palavras naquele folheto amarrotado ecoavam no meu pensamento...

Esse foi o exato instante em que entendi: Eu precisava das formas! Há uma razão de ser para que as formas existam!.. Dom Laurence tinha dito isso... mas eu sempre desprezara as formas. Desde que iniciei a minha busca, eu sempre recusei coisas prontas, me neguei a obedecer fórmulas preestabelecidas e a seguir sistemas acabados. Mas as fórmulas são necessárias, agora eu entendia! Talvez não para todos, mas são necessárias para a imensa maioria, e eram necessárias para mim! As formas servem para nos ajudar a nos mantermos no Caminho. Servem como guias, para que não nos desviemos de nossos propósitos... ou para que não nos esqueçamos de quem somos nem da opção que fizemos, para começar. As formas servem para que não nos esqueçamos. Porque o mal do ser humano é esquecer.

Todos os Sinais, todos os avisos e orientações que eu recebi, todos os acontecimentos que pareciam me guiar, tudo serviu para me mostrar essa Realidade irrefutável! Ingenuamente, procurei por tanto tempo um caminho certo para seguir, porque eu sabia que simplesmente parar não era uma opção - Se bem que eu tenha tentado, muitas e muitas vezes, apenas “parar” e passar o resto da minha vida sentado à beira do caminho, vendo a vida passar. Mas isso também seria uma ação, uma escolha, um outro “caminho” a se optar!.. Que não foi o meu. Meu destino seria muito mais bonito.

Assim, quando percebi que novamente começava a mergulhar no meu “abismo particular” de trevas e confusão, como sempre fazia e tinha feito, por toda minha vida; quando percebi que em breve estaria novamente engajado numa busca eterna e sem sentido, porque sempre precisaria saciar o meu desejo por Deus e pela Verdade... afinal... Eu tomei uma atitude, por mim mesmo. E mais uma vez, pela última vez, dentro desta narrativa, eu precisei me afastar do mundo.

Eu tinha que sair da minha casa. Tinha que me afastar de tudo, eu não queria olhar para as mesmas de sempre. Eu precisava de uma mudança radical na minha vida, precisava me aplicar uma espécie de “autochoque”. Além disso eu tinha decidido que a minha vida seria mudada naquele exato momento, não amanhã, não depois de cumprir alguma pequena tarefa qualquer... e para isso eu não deveria ser importunado por uma chamada de telefone, alguma visita indesejável, ou mesmo a tentação de ligar a TV ou o aparelho de som para relaxar um pouquinho... Avisei no trabalho que teria que me ausentar por alguns dias. Avisei Hana que eu precisava ficar só por um tempo. Ela já estava acostumada com minhas “esquisitices”, por isso nem tentou me dissuadir muito... Apenas me pediu, pelo telefone, umas duas dúzias de vezes, que eu tomasse cuidado...

Só queria e precisava ficar sozinho, por um tempo. O tempo que fosse preciso, uma hora ou um ano. Eu estava decidido que, dessa vez, a minha conexão com o “Eu Sou” não seria perdida. Ao menos não por falta de esforço da minha parte. Eu iria a luta, com todas as minhas forças e com todas as "armas" que conseguira conquistar em toda a história da minha vida. Eu não permitiria a volta do meu “velho eu”, ainda que tivesse que expulsa-lo a pontapés. Todas as portas seriam fechadas, trancadas a ferro. E se isso não adiantasse, eu demoliria a própria casa. Mas eu não voltaria a ser o velho frustrado / fracassado de sempre...

Saí de casa a pé, carregando apenas uma mochila com o meu velho companheiro caderno, uma lapiseira, uma borracha e uma garrafa de água. Tomei uma condução para o Parque Estadual do Pico do Jaraguá, oeste da Serra da Cantareira, uma imensa reserva florestal de 4.888.400 metros quadrados de área (!), onde se localiza o pico mais alto de São Paulo, com 1127 metros, de cima dos quais se pode observar toda a minha colossal cidade, em sua completa imensidão. Logo à entrada do parque, sentado numa pedra, fiz aquela que seria a minha única refeição nos próximos dias: Um pacote de 50 gramas de amendoim sem pele, comprado de um vendedor ambulante, dentro do ônibus. Bebi pouco mais da metade dos 500 ml da água da garrafa, e iniciei o longo percurso de subida até o alto do pico. Depois de mais de uma hora de subida esfalfante, entre pedras e mato alto (escolhi o percurso mais difícil), cheguei no topo. Ali me sentei e orei: “Guia-me, meu DEUS, mostra-me o meu caminho. E dai-me coragem e força para segui-lo. E que assim eu possa alcançar a Felicidade e a Paz, conforme a Tua Vontade. Amem”.

Permaneci no mesmo lugar, das 10:30 AM até as 17 horas, somente sentado, observando ora o céu, ora a linha do horizonte, e em outros momentos com meus olhos fechados. Eu meditei, orei, jejuei e chorei por todo o dia, até finalmente me sentir cansado de ficar ali, imóvel e inerte. Levantei-me, sentindo fome e vontade de voltar para conforto da minha casa. Mas eu tinha tomado uma decisão muito séria, comigo mesmo: Não voltaria para casa enquanto não tivesse resolvido a minha busca. E depois que entrei no parque, decidi, também comigo mesmo, que não voltaria a me alimentar enquanto não tivesse compreendido o que DEUS queria que eu compreendesse; enquanto não pudesse ver, claramente, e sem nenhuma dúvida, o meu caminho diante de mim, o que eu tinha que fazer para realizar a minha missão neste mundo.

Minhas intenções eram as de permanecer no alto do pico até que julgasse necessário. Passar a noite ali, se preciso fosse. Mas, pouco antes das 17 horas, descobri, através de um guarda, que as regras do parque tinham mudado, e que agora ele era fechado antes do anoitecer. Então precisei ir embora, mas ainda não podia voltar pra casa. Não sabia para onde ir, então resolvi tomar o metrô até a estação rodoviária do Tietê.


Terceira parte (final)

Por algum tempo passeei diante das bilheterias, procurando algum lugar interessante e distante pra onde pudesse comprar uma passagem. A idéia era passar a noite dentro de um ônibus, viajando pra algum lugar desconhecido, o que ajudaria minha mente a trabalhar melhor. Mas acabei desistindo. Encontrei um bebedouro, bebi um pouco de água e enchi a minha garrafa. Então passei a procurar, entre os muitos bancos de plástico do imenso saguão de espera, algum que me agradasse. Já era noite, e eu podia ver as estrelas pelas grandes janelas laterais. Às vinte e três horas, tudo estava muito quieto, eu estava praticamente sozinho naquele enorme ambiente cheio de cadeiras plásticas. Saquei meu caderno da mochila, rascunhei algumas palavras. Pensava em Hana... À uma da manhã, questionava a validade da minha intenção de encontrar a minha resposta por meio de completo afastamento do mundo. Por alguns segundos, pensei em desistir de tudo, sair correndo dali, tomar um táxi até minha casa e minha caminha, que agora me parecia tão distante, e me atirar sob os lençóis macios e nos braços quentes de minha amada Hana. Mas não fiz isso. Eu senti, naquele momento, algo que imagino como muito similar ao que teria sentido o personagem “Neo”, no filme “The Matrix”, quando Trinity, habitante de Sion (Sião) e conhecedora da verdade por trás das ilusões da Matrix o está levando até Morpheus, o que iria lhe possibilitar também ver essa verdade. No meio do caminho ele sente medo, quer desistir, mas quando abre a porta do carro em que o levavam, para desistir e ir embora, Trinity diz: “Você já esteve lá. Você conhece esse caminho. Você sabe onde ele vai dar, e não é onde deseja estar” . Eu também sabia o que aconteceria se eu voltasse, então fiquei. Passei a noite ali mesmo, no banco duro e laranja da rodoviária.




Foi uma noite de meditação, oração, jejum e lágrimas. Estava acostumado a jejuar. Mas naquela situação, acho que pela angústia, eu sentia desconforto e fome.

Amanheceu o dia. Talvez eu tenha cochilado naquele banco, por não mais do que 30 ou 40 minutos. Levantei-me. Eram 5:05. Fui ao banheiro, lavei o meu rosto com água fria, e saí da rodoviária com destino certo. Eu estivera sentindo falta do elemento água, que sempre me acalma e ajuda a colocar as idéias em ordem. Precisava da natureza, de preferência algum lugar onde houvesse água, um lago ou um rio. A escolha mais óbvia seria o Parque do Ibirapuera, mas ali eu enfrentaria um grande inconveniente: O parque é sempre muito cheio, há muita gente pra todo lado, principalmente em volta do lago. E eu queria solidão. Tomei novamente o metrô, até a estação Liberdade. Dali, caminhei por mais alguns quilômetros, em ruas que começavam a despertar, por uns quarenta minutos, até chegar ao meu destino: Parque da Aclimação. 118.787 metros quadrados de verde, tranqüilidade (poucos freqüentadores)... e um grande e bonito lago. Afinal cheguei. A caminhada tinha servido para me deixar mais desperto, centrado. Entrei e logo encontrei um bom lugar para me acomodar, bem diante do lago e debaixo de uma árvore frondosa.

Olhei em volta: eu ali sentado, árvores e natureza em volta, diante de um lago calmo. A cena me lembrou meu sonho. Os últimos acontecimentos da minha vida, ou melhor, a sucessão de acontecimentos da minha história recente, que me levaram a estar ali, naquele momento, de uma hora para outra começaram a desfilar, em seqüência, na minha “tela mental”: A Experiência na Toca de Assis, o fenômeno envolvendo os quadros, a natureza me dando um “recado” claro para desistir de procurar a tal “Igreja Essênia”, a descoberta tardia da Meditação Cristã, depois encontrar os livros de Dom Laurence Freeman e de minha amiga Dhyana, o encontro com o próprio Dom Laurence...

A resposta veio às três da tarde; clara e cristalina como água pura, inegável como qualquer realidade palpável. Imagino que o que eu senti naquele momento deve ter sido parecido com o que sentiu Arquimedes de Siracusa, que ao entrar para o banho, descobriu o princípio científico que leva seu nome, e saiu correndo nu pelas ruas da sua cidade, gritando “Eureka!” , ou então o que sentiu Newton quando aquela inocente maçã caiu em sua cabeça...

Porque tinha compreendido, finalmente, qual deveria ser o meu caminho. E assim, sabia também qual deveria ser o meu próximo passo. Procurei os sanitários, lavei meu rosto, demoradamente. O jejum prolongado, àquela altura, não me incomodava mais, nem um pouco (Jejum é uma prática curiosa: chega um estágio em que o desconforto desaparece por completo. Segundo ascetas que conheci pessoalmente, depois de uma semana você começa a crer que comer não é realmente necessário). E saí dali direto para a paróquia do meu bairro.

Passavam das quatro horas de uma terça feira, quando cheguei diante do templo católico. Entrei na secretaria, do lado externo da igreja, sem saber direito o que viria agora. Uma senhora idosa me recebeu com um seco “boa tarde”. Falei que queria ver o sacerdote. Ela me respondeu: “O Padre Aldo não faz aconselhamento às terças, ele tem outros afazeres nesse dia”. Eu não me movi nem falei palavra. Depois de alguns longos segundos de um silêncio constrangedor, ela me olhou de cima abaixo, e avisou: “Mas o senhor espera um pouquinho aí, que eu verifico se ele está...” e saiu por uma porta lateral. Não demorou cinco minutos, ela voltou e me orientou a entrar no templo e me dirigir até uma sala no final do corredor, à direita do altar, que o padre estaria me esperando. Entrei. A pequena igreja do meu bairro era toda revestida, internamente, de cacos de granito preto, cinza e amarelo. Na porta da sala ao fundo, um homem moreno e atarracado, de costas largas e vestido simplesmente, me aguardava. Me aproximei. Ele me recebeu, estendendo sua grande mão e dizendo: “A Paz... pois não?”

Eu, naquele momento, esperava para ver o que aconteceria. Estava muito decidido e acho que minha expressão estava, de algum modo, diferente, porque tanto a secretária quanto o padre demonstraram certa curiosidade ao me encarar. Olhando fixamente para o padre, falei: “Não sou católico. Não tenho religião, mas acredito plenamente em Deus. E tenho ótimos motivos para crer que Deus quer que eu prossiga com a minha busca dentro do catolicismo...”

Imaginava que o padre ficaria surpreso, coisas assim não devem acontecer todos os dias... Mas ele não demonstrou surpresa. Apenas me convidou a entrar em sua sala e me mostrou uma cadeira para sentar. Era um homem muito sério, de semblante duro, mas eu gostei dele logo de cara. Eu tenho uma facilidade enorme para, só de olhar, “ler a alma” das pessoas (METAFORICAMENTE FALANDO), e raramente me engano. E eu vi seriedade e verdade naquele homem. Soube rapidamente que estava diante de alguém sério, dono de uma fé autêntica. Seu olhar era expressivo, como se também ele estivesse, por sua vez, “lendo” a minha alma. Como é o Deus em que você crê? – perguntou. “Tudo e Nada”, respondi, de pronto. “Muito bom. Por que você está aqui?” Então contei para ele, longamente, a minha busca e os fatos recentes que tinham me levado àquela sala, naquele momento. Minha fala foi uma espécie de “resumão” de tudo que escrevi no Arte das artes até aqui. Pelo fato de estar diante de um sacerdote, sentia-me como se estivesse fazendo uma confissão, e isso me fazia muito bem... Ele ficou em silêncio, o tempo todo, analisando profundamente tudo que eu falava, me olhando nos olhos com aquela expressão circunspecta. Por fim concluí, e começamos a conversar.

Falamos sobre Universalismo, Amor, Vazio, ecumenismo, humanismo, erros da Igreja, Beleza, meditação, autoconhecimento, Contemplação, ascetismo, busca interior, Santo Antão, São João da Cruz, John Main, Thomas Merton (foi a segunda vez em que ouvi falar dele, mas até então não sabia nada a seu respeito), Budismo, orientalismo, reencarnação, ressurreição, medo, Consciência, espírito e espiritualidade, devoção, traumas, simbolismo, Teologia, idolatria, paganismo, dogmas, Nossa Senhora, a Arca da Aliança, Liberdade, verdadeiro Caminho de Cristo, Buda, esoterismo, gnosticismo, papado, Judaísmo, Pompeu e o Império Romano, a Bíblia, a capacidade do ser humano alcançar o que procura... e mais!

Enquanto conversávamos, eu analisava cada palavra sua, avaliava o sentido de tudo que estava sendo dito, meticulosamente. Cada afirmação, cada conclusão dele, era por mim "dissecada", fazendo uso do meu discernimento e da minha consciência, com a máxima seriedade. Estava ali, na prática, "pondo à prova" tudo que era dito, e ficando apenas com o que me parecia bom... E eu não pude discordar de nada, absolutamente nada daquilo que ouvi. Todas as suas afirmações já tinham sido comprovadas por mim, em minhas experiências pregressas. Todos os lugares por onde passei, todas as coisas que eu vi e vivi; toda a "pesquisa de campo" que fiz, finalmente me foi útil. Eu não era um ouvinte passivo. Minha “bagagem” me servia como instrumento para entender e separar trigo do joio.

Eu tinha ido até aquele lugar para fazer um teste. E levava dentro de mim uma espécie de senha, como uma seqüência de “palavras mágicas”, que precisariam ser ditas, para me convencer, fazer abrir meu coração. Aquele homem falou a senha, letra por letra, número por número. Aquele homem disse tudo.

Voltei pra casa. Já era noite. Depois de um longo banho, tomei um iogurte natural (depois de muito tempo sem comer, não é aconselhável ir com muita sede aos potes, ou com muita fome aos pratos). Quando Hana chegou e me viu, ficou muito feliz em me ver, e chocada com a minha aparência. Minha barba tinha crescido muito, nesses dois dias, de um modo anormalmente rápido (olhando no espelho, percebi que parecia que eu estava há duas semanas sem me barbear...).

Depois de me abraçar, a primeira coisa que fez, obviamente, foi perguntar como tinha sido o meu “retiro”, se eu tinha conseguido atingir meus objetivos. Eu respondi apenas: “Encontrei o que eu buscava desde a minha infância. Aquela sensação de agonia, de algo por fazer, passou. Mesmo não sabendo se será para sempre, sinto que encontrei o meu caminho. A partir de hoje, prosseguirei, em minha jornada pessoal, como um cristão católico".


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Hoje estou cursando Teologia e participando de diversas atividades promovidas pela Igreja. Só recentemente descobri, de um jeito maravilhoso, qual será a concretização da minha missão nesta Terra. E por favor não se espantem. A minha religião continua sendo a Verdade, sob qualquer forma em que se manifeste. Não pensem que eu algum dia vou me limitar sob qualquer rótulo, e muito menos me enquadrar no estereótipo do católico tradicional que a maioria logo imagina. Na verdade, eu brigo contra isso. Posso entrar em qualquer tipo de lugar e me sinto em casa, senão em todos, na maioria deles. Mas encontrei a minha casa. Todas as "formas" que eu precisava, toda a coerência que eu esperava da religião, acabei encontrando (por incrível que possa parecer) no catolicismo. Essa realidade já gritava dentro de mim há muito tempo, como acho que dá pra perceber nos meus últimos posts. Mas eu me negava. A última coisa que eu esperava e queria era me converter ao catolicismo. Isso me parecia tão improvável e sem sentido quanto está parecendo para muitos de vocês, agora. Mas todas as provas vieram, uma atrás da outra, e depois as confirmações de que eu estava fazendo a coisa certa (ainda falarei sobre isso). Nenhum buscador sincero é capaz de resistir ao Chamado, quando ele acontece. "Quem tem ouvidos para ouvir e olhos para ver"... quem tem entendimento para entender, que entenda.

Encontrei a Verdade, enfim, dentro da minha própria verdade. Não tenho como deixar de citar aquela velha lenda árabe (que virou livro do Paulo Coelho), do rapaz que se lançou numa grande Jornada ao redor do mundo, em busca de um tesouro, sem saber que esse tesouro estava dentro da sua própria "casa", bem debaixo do lugar onde ele dormia todas as noites. Comigo também foi assim. Todas as respostas que eu tanto busquei, em tantos lugares, que fui procurar nas mais distantes e exóticas tradições, crenças e filosofias, estava o tempo todo bem diante de mim, na religião dos meus pais; na qual eu fui batizado ao nascer... Mas a Busca era necessária, para mim. Ela tembém tinha uma razão de ser, e foi através das coisas que aprendi na estrada, que pude compreender o que antes não podia.

Façam suas próprias buscas. Não aceitem nada pronto. Não permitam nem queiram que outros pensem por vocês. Só assim vocês também poderão ver aquilo que está diante dos seus olhos.




Este foi o Fim e o Princípio da minha vida de buscador.