A Verdade onde menos se espera - parte 3

Minha chegada até o endereço da Toca de Assis, o que havia encontrado naquele site abandonado, foi uma verdadeira epopéia...

Viver numa cidade do tamanho de São Paulo (bem maior do que muitos países) e estar sem carro próprio significa viver uma nova aventura a cada dia. Em nosso país, infelizmente, o sistema público de transportes, não é exatamente o que se poderia chamar de eficiente, e pra complicar ainda mais, as distâncias são simplesmente imensas.

O endereço que eu tinha ficava no bairro Vila Sônia, Butantã, região que fica no extremo oeste de São Paulo. Considerando-se que eu morava na região leste, isso quer dizer que eu teria que empreender uma verdadeira volta ao mundo, uma cansativa maratona para atingir meu objetivo. Recorri ao meu sempre útil "Guia de ruas e avenidas de São Paulo" e encontrei o nome da rua que eu procurava bem entre duas páginas. Arranquei as duas, dobrei e guardei no bolso de trás da minha calça.

Depois de constatar que o endereço que eu procurava era bastante inacessível, e que aquele local não era servido por nenhum tipo de transporte público, percebi que o máximo que poderia fazer seria encontrar um ponto próximo, para chegar de ônibus, de onde pudesse seguir a pé (num primeiro momento, calculei uns dois quilômetros). Assim embarquei, literalmente, para mais uma jornada dentro da grande Jornada que é a Busca espiritual.

Tomei o primeiro ônibus, até um importante terminal rodoviário urbano, onde fiz a baldeação para o segundo ônibus, que me levaria até a Av. Lineu de Paula Machado, onde fica o Jóquei Clube, aguardar pelo terceiro coletivo, o que me levaria até o ponto mais próximo possível do meu destino. Ali eu vi algumas garotas de programa (muito bonitas, por sinal) desfilando em cima de seus saltos altos, preenchendo provocantemente suas justas micro-saias, curvando-se às janelas dos sedans luxuosos que paravam, negociando o melhor preço para seus corpos bem cuidados. Fiquei olhando por alguns instantes, e de repente, inconscientemente, estava viajando em delírios eróticos na minha imaginação... Logo me lembrei do lugar pra onde estava indo, quais os meus objetivos e o porque daquela viagem, e tratei de limpar meus pensamentos.

O próximo e último ônibus enfim chegou. Ao descer no meu ponto olhei para o relógio: 16:03 PM. Eu tinha saído de casa às 13 horas (!) Foi com prazer que troquei a o abafo do interior dos coletivos para ganhar o ar livre das ruas. Ar livre, sim, mas nem um pouco fresco. Alto verão, horário de verão, e o sol ardia, impiedoso (Esse sol dos novos tempos, causticante, ameaçador, tão diferente do sol da minha infância, amigo e benéfico. Como é possível que estejamos conseguindo destruir até o clima?)... Tirando meu mapinha do bolso, observei bem o percurso que teria de fazer a pé. Logo descobri que a distância seria maior do do que eu tinha imaginado a princípio... Três quilômetros ou um pouco mais. Mas eu estava muito animado com tudo que vira e ouvira falar dos “toqueiros”, acreditando que o esforço valeria a pena.

Descida, depois subida. Uma viela. Algumas ruas estreitas e tortuosas. O sol queima. Suor escorre pela testa. Para completar, o lugar é um tanto quanto “barra-pesada”. Vez em quando, figuras mal-encaradas cruzam meu caminho. Um vendedor de picolés aparece, eu aproveito e peço um de limão (era o último de limão, lembro-me bem). Mas a minha sede só aumenta. Paro num bar para um refrigerante gelado, e ao sair percebo que o tempo estava mudando depressa. Em poucos minutos, o céu havia se encoberto completamente. Nuvens escuras... Depois de todo aquele calor, uma chuva forte seria de se esperar. Nova olhada no mapinha, e agora eu deveria “apertar o passo”, se quisesse chegar seco ao meu destino.

Uma encruzilhada logo à frente, e depois uma bifurcação, com nomes de ruas que não constavam no guia (oh, não!..) Pedi informações num posto de gasolina logo ali, mas ninguém ouvira falar da rua que eu procurava. Mas eu sabia que o endereço estava à frente, então, diante da bifurcação, escolhi a rua da esquerda, já que a da direita era uma subida muito íngreme, e eu já estava cansado. Mas quando cheguei no final desta, descobri que a opção certa teria sido a rua da direita. Voltei tudo e retomei meu caminho, desta vez pelo lado certo (só aí devo ter perdido uns quinze minutos).

A chuva chegou. Uma chuva mansa, agradável, que até servia para refrescar do forte calor. Mas logo foi ficando mais e mais intensa, até que eu percebi que teria que me abrigar se não quisesse me ensopar. Olhei o relógio: 16:47... Era uma segunda feira, e eu, além das minhas atividades artísticas, trabalhava num laboratório de análises clínicas, no plantão noturno, que começava às 19:45. Se eu parasse para me abrigar da chuva, que não estava com jeito de que pararia logo, perderia minha hora, e depois de tanto esforço, eu não estava nem um pouco disposto a deixar minha visita à Toca de Assis para um outro dia. Então continuei minha caminhada, sob a chuva cada vez mais forte. Depois de mais uma longa subida, finalmente cheguei ao endereço procurado. Puxa, o lugar era mesmo difícil de achar...

Uma casa vazia.

Bem no meio do nada, uma grande, antiga e bela casa... vazia. Num corredor lateral, ao lado da porta de entrada principal, uma cruz pintada na parede denunciava que eu estava no lugar certo, ou melhor, no que tivera sido, um dia, o lugar certo. Na grade do portão, uma placa branca com a seguinte palavra em vermelho-escuro: “Vende-se”...

Desânimo. Mais um caminho equivocado? Mais um sinal de que eu estava perdendo meu tempo? Será que a minha busca também não passaria pela experiência de conhecer esse pessoal que tanto tinha me impressionado? Deveria me resignar e desistir? Estranho, mas dessa vez eu não me sentia como na ocasião em que me propusera a conhecer a “Igreja Essênia”. Algo dentro de mim gritava que essas dificuldades eram como provas para testar a minha real determinação.

E eu me sentia bem, apesar de tudo. Sabia que estava fazendo a coisa certa, sem nenhuma dúvida. Estranho... Mas tinha plena consciência de que era ali que eu deveria estar, naquele momento, que conhecer essa comunidade era uma etapa importante na minha busca. O que fazer, então?

Na casa vizinha, da janela, uma senhora de cabelos grisalhos me olhava, placidamente. Perguntei: “A senhora conhece uma comunidade de franciscanos que funcionava aqui neste endereço?” –Ela me olhou com uma expressão de curiosidade e respondeu: “Eles se mudaram, faz umas três ou quatro semanas... Tinha gente aqui da vizinhança reclamando por causa dos mendigos que eles traziam ‘praí'... Algumas pessoas não gostavam, tinham medo... Foram reclamar com o dono da casa... Ah, eu achava tão bonito o trabalho que eles faziam... Ninguém consegue agradar todo mundo, 'né'?..”
A água da chuva gotejava das pontas do meu cabelo, pingava da ponta do meu nariz. Insisti: “Mas a senhora sabe para aonde eles foram?” – “Não sei não, meu filho...” – foi a resposta definitiva, e ela se afastou da janela, meio desconfiada, com um ligeiro aceno.

***

Debaixo da chuva, me sentei no meio-fio. Como poderia ser? Por quê? Eu estava atento aos meus sentimentos, eu sabia que deveria estar ali. Eu tinha certeza! Por que esse desencontro? Será que estivera valorizando demais os meus sentimentos, as minhas intuições?

Fechei meus olhos: “Senhor Jesus, eu realmente achava que deveria ter vindo até aqui, Quando ouvi falar dessas pessoas, que buscam te servir, meu coração se comoveu. Se o senhor realmente está querendo me mostrar alguma coisa, me ajude agora, por favor...”.

Abri meus olhos. Não pude evitar um fundo suspiro. De repente, me lembrei que o papelzinho onde eu havia anotado o telefone que constava na internet (e que estava sempre mudo), estava comigo, no bolso da frente da minha calça. Levantei, peguei aquele pedaço de papel todo amassado com meus dedos molhados, e digitei os números no celular, como que por um desencargo de consciência, uma última tentativa antes de ir embora. Eu tinha tentado esse número muitas vezes antes, sem conseguir nada, e nada fazia supor que obteria sucesso agora.

Aguardei alguns segundos... Toque de chamada!! Uma vez, duas... súbito, ouço uma voz masculina muito gentil:

“Toca de Assis, paz e bem, boa tarde!?”



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A Verdade onde menos se espera - parte 2

Agora começo a explicar o porquê do título desse post em quatro partes. Tudo começa num dia de semana comum...

Ou melhor, uma noite de semana comum. Hana e eu costumávamos nos exercitar regularmente com pesos, em casa, com algumas barras e halteres que eu adquiri, já há muito tempo, e que volto a usar sempre que me olho no espelho e me acho fora de forma... Enquanto eu completava minha série de 4 repetições para os deltóides, Hana, confortavelmente esticada sobre o nosso novo sofá-cama meio armado (no modo semi-cama, semi-sofá ele vira um divã), zapeava pelos canais da TV, ao acaso (acaso?). Fui até a cozinha buscar um copo de água gelado, quando ouvi a voz de um conhecido animador de programa de auditório falando algo mais ou menos assim: “Eles são verdadeiros discípulos de Cristo, vivem fielmente segundo o exemplo de Francisco de Assis...”. Hana parece que pressionava os botões do controle remoto assim, como fazemos às vezes, como que hipnotizados, gesto automático, sem prestar atenção em nada, porque pulou para o próximo canal como se nada de interessante tivesse sido dito. Fiz descer, apressado, aquele gole de água gelada, e gritei pra ela: “Volta lá!!” – Ela, sem entender, respondeu: “Pra onde??” – E eu: “Naquele canal, onde falavam de São Francisco!”...

Nos quadrinhos, o “sentido de aranha” do Spider Man “dispara” nas situações em que ele está correndo algum perigo. No cinema, Luke Skywalker (de Star Wars) percebe oscilações na “Força”, quando seu pai, o herói-vilão (ou será vilão-herói?), Anakin / Darth Vader está por perto. Os verdadeiros buscadores, se estiverem atentos (como devem estar sempre) também podem sentir quando o Universo “fala” com eles. E eu realmente acredito que aquele foi um desses momentos. Hana voltou ao canal, que era o 13, aqui de São Paulo, a “Rede Bandeirantes”. O apresentador era o Gilberto Barros, o “Leão”, no seu tradicional programa noturno. A matéria especial sobre os “toqueiros” estava apenas começando, e eu tive tempo de assistir à reportagem quase completa.

A "Toca de Assis" é uma ordem cristã-católica composta por jovens leigos e religiosos (os chamados ‘toqueiros’), que abandonaram suas vidas comuns para se dedicarem, integralmente, ao cuidado dos pobres e sofredores. Fiquei impressionado ao saber, pela TV, que esta comunidade é composta por muitos jovens das classes sociais mais altas, que abriram mão de tudo que o mundo pode oferecer para seguir o chamado da sua fé. Vivem agora em casas de fraternidade e acolhida.

A reportagem visitou e mostrou algumas dessas casas de acolhida, que servem de abrigo para os sem-teto que eles recolhem, freqüentemente, em sarjetas e vãos de viadutos pela cidade afora, e em prol dos quais dedicam suas vidas e sua juventude, alimentando-os, servindo-os de todas as formas; cuidando dos doentes e de suas feridas, dando banhos diários nos que não podem fazer isso sozinhos. A instituição acolhe todos os tipos de desamparados: Moradores de rua que não tem a quem recorrer, imigrantes dos Estados mais pobres que chegam a São Paulo fugindo da seca e da fome, e não tem o que comer nem onde morar, idosos abandonados por suas famílias, alcoólatras e viciados em drogas, deficientes físicos e mentais que não tem para onde ir...

Ainda fiquei sabendo, através da reportagem, que eles preparam, carinhosamente, todos os dias, para esses “irmãozinhos acolhidos” (é assim que chamam), café da manhã, almoço, café da tarde e jantar, com alimentos que provém exclusivamente de doações. Servem primeiro a todos os internos e são sempre os últimos a comer. Se sobrar comida. Isto é: Se sobrar, comem, se não sobrar, fazem jejum. As casas de fraternidade e acolhida são grandes, com quartos grandes e muitas camas, mas a maioria dos toqueiros dorme no chão, à noite, para deixar o maior número possível de leitos disponíveis para auxílio dos sofredores.

Os “guardiões”, que são “consagrados” e são os responsáveis por cada uma das casas de acolhida, usam os hábitos marrons dos frades capuchinhos, como São Francisco de Assis. Andam quase sempre descalços. Nas horas vagas fazem música. O grupo que foi ao programa do Leão cantou e dançou (música religiosa de alta qualidade, arranjos refinados e vozes afinadas). Moços e moças de todas as cores, todas as raças, todas as classes sociais, que deixaram suas casas e vidas comuns para abraçar a vida religiosa e de serviço ao próximo. Estão sempre sorrindo, e pareciam muito felizes...

Saber da existência de uma realidade como aquelas nos dias de hoje e em nossa sociedade, bateu forte dentro de mim. Eu, que tanto procurei, como nunca tinha ouvido falar deles? Não pude evitar a comparação, de imediato, com os muitos falsos yogues, monges, místicos e esotéricos que conheci no decorrer da minha busca, preocupados somente com aparência e vaidades. Quantas diferenças traziam estes jovens simples, devotados de corpo e alma a viver o único mandamento de Jesus: “Amai-vos, como eu vos amei...”. Aquilo sim, era a verdadeira “prática espiritual”. Para entender um pouquinho melhor do que estou falando, abram este link e desçam até o final da página que vai abrir. Gostaria também que dessem uma olhada neste outro aqui.

Procurei por endereços da "Toca" na internet. Não havia nenhum site oficial, na época, nem informações na internet sobre essa Ordem tão reclusa. Encontrei apenas um site de uma revista regional, cujo endereço nem me lembro mais, desatualizado há mais de um ano, onde constava uma breve matéria sobre o tema e um endereço no bairro Vila Sônia, Butantã, extremamente longe de onde eu morava na época. Mas eu tinha que conhecer essas pessoas de perto.



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A Verdade onde menos se espera

Alguns amigos me dizem, nos comentários, que estão curiosos para saber o desenrolar da minha trama, que mal podem esperar para saber qual será o próximo post e qual o desfecho desta longa narrativa. Eu, no princípio do ano de 2004, me encontrava exatamente assim. Estava como que num estado de “animação suspensa”, em compasso de espera, ansioso para saber o que iria acontecer na minha vida, a seguir.

Nunca, em toda minha vida de buscador, eu sentira, de um modo assim tão claro, tão intenso, o quanto valeu a pena fazer a escolha que eu fiz, a de priorizar o Caminho da espiritualidade antes de qualquer coisa. Durante toda essa história, deixei de lado possibilidades de construir uma carreira profissional sólida, descartei oportunidades de trabalho altamente promissoras e diversas chances de construir um futuro economicamente estável, para colecionar uma infinidade de subempregos de meio período, produzindo arte nas horas vagas, tudo por puro desprezo ao materialismo e aos confortos imediatistas desta vida.

É que todas as boas oportunidades de fazer dinheiro de verdade, que eu tive, exigiam em troca nada menos que a entrega da minha própria alma. O maior exemplo foi uma excelente oportunidade que me surgiu para atuar como líder do setor comercial de uma poderosa rede de empresas internacional, na área de turismo e hotelaria, com matriz na Inglaterra (que chamarei aqui de 'W'): Eu iria ganhar um salário realmente alto, além de diversos e excelentes benefícios (um deles um automóvel zero, para meu uso comercial e particular, com todos os gastos de combustível e manutenção por conta da empresa). Tudo ótimo, de fato. O "detalhe" é que nesse emprego dos sonhos eu teria que trabalhar 7 dias por semana, no mínimo 12 horas por dia, sem direito a folgas em finais de semana ou feriados, com apenas um ou dois dias de descanso mensais, conforme me advertiu o superintendente da divisão, aquele que seria meu futuro chefe: “Pra ter sucesso na 'W', é preciso se entregar de corpo e alma, mas é compensador...”.

“Entregar corpo e alma”... Sim. Isso diz tudo. Essas palavras ecoam nos meus ouvidos até hoje. É exatamente isso que o mundo exige em troca do "sucesso": Nossas almas. Para ser um “vencedor” é preciso abrir mão de tudo que não seja dedicação ao trabalho: Família, lazer, pequenos prazeres pessoais... espiritualidade... Tudo fica num “pacote” que tem que ser relegado às (pouquíssimas) horas vagas. Eu participei de todo o processo seletivo da "W", semanas a fio de testes. E fui aprovado. Ganhei os parabéns... De um grupo de mais de cem candidatos, que lotavam o saguão do hotel onde se deu a preleção para a tão cobiçada vaga, apenas cinco felizardos conseguiram a aprovação. Euzinho, aqui, estava entre eles. "Bem vindo ao clube de elite", me disseram...

Mas não compareci no primeiro dia de trabalho. Liguei avisando que estava abrindo mão do cargo, que uma oportunidade melhor tinha aparecido... O tom de incredulidade na voz da recepcionista chegava a ser cômico. “Mas o senhor desistiu???” Ela devia estar tentando imaginar qual seria a “oportunidade melhor” que poderia ter surgido... O que ela nunca desconfiaria é que eu trocava a minha chance de ouro por um (ridículo) contrato com um modesto estúdio de arte aqui de São Paulo, sem nenhuma garantia de ganhos trimestrais que chegassem a atingir o que ganharia em uma semana na "W"...

E eu estava muito feliz. Sabia verdadeiramante que nem todo o dinheiro do mundo seria suficiente para comprar minha alma. Minha prioridade absoluta continuava sendo a Busca, que nunca fora um "passatempo" para mim. Claro que, muitas vezes, ao longo deste percurso, me vi afligido por dúvidas. Será que estava fazendo mesmo o certo? Afinal, “dinheiro faz parte da vida” – e disso todos me lembravam a toda hora. Mas eu entendia perfeitamente que tudo tem a sua devida importância e o seu lugar certo nessa vida, e via que o "espaço" dedicado ao dinheiro, pela imensa maioria das pessoas, era, sem dúvida, grande demais.

Mas agora, depois daquela experiência (que contei no post anterior), via que estivera mesmo certo esse tempo todo. Me sentia recompensado por todas as dificuldades que enfrentara, por ter aberto mão de algumas coisas. O meu caminho sem dúvida passava pela renúncia e pelo desapego.

Passei uma ou duas semanas meditando sobre minhas descobertas recentes. Percebia a inutilidade de se perseguir a “perfeição estética” de tantos caminhos ditos espirituais. Exemplo, tornar-se perito em muitas e complicadas práticas e técnicas posturais, respiratórias e de contenção dos sentidos físicos, mas esquecendo-se da verdadeira Prática interna, a de cultivar e vivenciar o Amor diariamente. Algo muito comum entre os praticantes de Yoga no meu país. Também estava plenamente convencido da inutilidade de se "freqüentar" qualquer religião de modo superficial, repetindo rituais e obedecendo protocolos, mas com as intenções e a atenção sempre voltadas para futilidades e desejos mesquinhos.

Eu, que num primeiro momento dessa Busca me deslumbrei com a suposta sabedoria e o "ar de santidade" que parecia cercar tantos alegados místicos, mestres, magos e sábios; que desejei adquirir todas as pedras e amuletos mágicos, todos os penduricalhos... Eu, que tentava enxergar os anjos dourados e os duendes maravilhosos de que tanto ouvia falar... agora finalmente entendia que a Verdade não é assim tão cor-de-rosa, nem tão fácil e simples de se conquistar. Entendia que as portas não se abrem tão rapidamente, para qualquer um que simplesmente queira, se este não trouxer, de fato, a real determinação para mudar paradigmas e a firme disposição em fazer sacrifícios.

Me encontrava agora profundamente decepcionado com tanta gente que se denomina "esotérica" ou "gnóstica", gente que gosta de impressionar a todos com seus conhecimentos e supostas capacidades de ver o que ninguém mais vê. Via claramente o quanto eram falsos, simplesmente pelo fato de que eu, que realmente passei por tanta coisa, nunca fiz alarde, nunca me gabei, nunca tentei exibir minhas experiências como uma maneira de atrair admiração e/ou atenção.

Estava cansado de "monges" de araque, daqueles que gostam de usar roupas exóticas, raspar a cabeça ou usar bindis (aquela pedrinha colada na testa, que as indianas usam) para causar a impressão de que são alternativos, "diferentões", altamente espiritualizados, mas que não querem ser vistos muito de perto... Eu agora conhecia bem a alma dessas pessoas, que se vestem e se parecem com santos e grandes sábios, mas procuram somente por glória pessoal. Basta discordar das coisas em que acreditam, ou desafiar seus mestres, para irritá-los. Essa é uma característica muito clara de alguém que não busca a Verdade, de fato, mas apenas se manter numa "zona de conforto psicológico" qualquer. Derrube as convicções dessa pessoa, e ela se tornará muito agressiva, o cordeiro se transformará em lobo, com espantosa velocidade.

Falando dessas coisas, me recordo de um trecho do discurso que o Dalai Lama proferiu em sua visita ao Brasil, no começo do ano passado, que tem tudo a ver com o que estou falando:

"Outro dia, em nosso encontro no templo chinês (o templo Zulai, em Cotia – SP), em nossa sessão sobre o budismo, vi, naquele dia tão bonito, muitas pessoas com uma variedade enorme de roupas. Havia roupas do budismo zen japonês, roupas do budismo tibetano, roupas de monges tibetanos, roupas de monges de outras nacionalidades, roupas que eu nem sei quais eram... talvez roupas de outro planeta!

Sou um pouco crítico quanto aos ocidentais que entram em contato com as tradições orientais, como por exemplo a budista, e começam a mudar seus hábitos EXTERIORES. Primeiro, abandonam suas tradições de origem. Depois, mudam suas roupas, vestindo-se como os orientais se vestem. Em seguida, mudam os móveis de sua casa. Mudam seu comportamento, mudam seus gestos... Vemos ocidentais que abraçam por exemplo o sikkismo, ou tornam-se hare-krishnas, e de repente saem às ruas com o cabelo raspado, as vestes laranja no estilo oriental... acho que isso não é bom.

O desenvolvimento e a transformação da mente requer muito esforço. Mas perceba aqui também que o esforço cego de nada adianta: ele tem que ser acompanhado pela sabedoria. Novamente, podemos orar para Buda, para Tara, Avalokiteshvara, fazer um sadhana... mas só há uma chance em um milhão de que isso baste para a sua transformação: Se ocorrer um milagre! De outra forma, será realmente difícil atingir a mudança desejada.

Uma vez um aluno perguntou a um grande mestre tibetano do início do século vinte se deveria fazer um retiro de Manjushri de um mês, para melhorar a acuidade de suas percepções mentais. Esse mestre respondeu ao aluno que se ele fizesse o retiro, talvez houvesse alguma mudança; mas que se ele ocupasse esse mês estudando seriamente, era certo que sua mente iria mudar. Isto é MUITO mais importante.

Estudar é crucial... Minha recomendação é: ESTUDEM! Estudem muito. Estudem e produzam textos, pequenos panfletos; não para venda, não para comércio, mas para fazer circular entre vocês. Leiam, discutam em pequenos grupos, escrevam e façam suas idéias circular entre todos do grupo maior. Estudar e discutir é essencial. É irreal ficar esperando que venha um lama, uma vez por ano, fazer um workshop com ele e um monte de iniciações, e depois nada mais, e esperar alguma transformação em sua mente. Isso não é suficiente. É necessário estudar regularmente. Ocasionalmente, se você se encontra com algum bom professor, e passa com ele uma ou duas semanas fazendo workshops, é ótimo, mas depois volte ao seu estudo regular e sistemático”.
- Fonte: Comunidade Zen Budista do Brasil.


O (grande) homem resumiu tudo. Vejo a mesma idéia, mais resumida ainda, na declaração de Claude Chabol, o consagrado diretor do cinema francês:

“A estupidez é muito mais fascinante que a inteligência. A inteligência tem os seus limites, a estupidez não”.


Sad but true. Bem, amigos, me estendi um pouco demais aqui. O porquê do título desse post vocês irão saber na continuação, que eu me comprometo a postar daqui há dois dias.



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Queda e visão do Caminho

Numa manhã eu acordei com uma sensação esquisita, uma espécie de agonia, uma angústia profunda, sem motivo aparente. Olhava ao meu redor e percebia que as "coisas" todas não estavam bem do jeito que costumavam ser sempre. Difícil explicar, mas as cores, os sons, tudo parecia... de algum modo, diferente. Essa é mais uma daquelas sensações que a gente experimenta e não sabe exatamente como explicar. Olhei para o rádio relógio: Eram 6:47 AM. Mesmo sendo meu dia de folga, não sei porque, estava completamente sem sono, e me sentia impelido a me levantar e sair. Levantei com aquela sensação inquietante, abri a cortina do quarto e olhei para o céu. Estava amarelado... Um tom de amarelo incômodo, nauseante. Me lavei rapidamente e saí para o quintal, sem saber direito o que estava acontecendo. Atravessei o jardim em direção ao portão que dá para a rua. De repente, levei um susto: Vi uma velha encostada no portão, do lado de dentro. Imaginei que talvez fosse alguma visita para minha avó, que morava na casa da frente. Me aproximei, porque estava sentindo uma forte compulsão para sair da minha casa, ganhar a rua, talvez dar uma volta pelo quarteirão, sei lá... Mas a velha estava parada bem junto ao portão, e quando passei por ela...

Bom, ela me olhou, bem nos olhos, e os olhos dela eram meio (está difícil continuar)... não gosto de falar, eram de uma cor meio cinza, morta, sem brilho. Quase não dava pra ver a parte branca daqueles olhos fundos, e olhar pra eles me provocou um desespero maior do que qualquer outra coisa que me lembre. Esbocei um cumprimento, me esforçando para não demonstrar minhas emoções, mas não consegui perguntar o que ela queria ali... Queria desviar o olhar, mas não podia. Quando passei por ela, para abrir o portão e sair, ainda continuava me olhando fixo, sem dizer palavra, e foi aí que eu percebi, junto com um calafrio, que se eu não me apressasse, iria ver alguma coisa que eu realmente não queria ver. Compreendi, de um estalo, que aquela mulher não era uma mulher, não era um ser humano, ali, na minha frente. Apressei meus passos, ganhei a calçada, atravessei a rua. Eu não sabia para onde ia, eu só queria me afastar da minha casa, me afastar daquela figura estranha, fugir pra qualquer lugar. Caminhei apressado. Alguma coisa me fazia querer olhar para trás, mas naquela hora eu sabia que tinha alguma coisa terrível bem atrás de mim, algo que eu não suportaria encarar.

Não havia mais ninguém na rua. Pessoas, animais, carros, nada. E não havia som. Eu não conseguia ouvir nenhum som! Só um silêncio tumular, e uma certa percepção de agonia no ar. Não me perguntem o porquê da comparação, mas eu imagino que o que eu sentia era parecido com o que sente o condenado no corredor da morte, quando chega o dia da execução. Um amargo na boca, uma sensação de desamparo. Tontura, náuseas... Não há ajuda, não há esperança.

Quase chegando na esquina, me encontrava dominado por um desespero crescente. Minha visão parecia turva, e em tudo que via eu confirmava que realmente as cores das coisas não eram as cores de sempre. Tudo me parecia meio "desbotado"... Olhei para o céu, e vi que o tom amarelado agora escurecia, mudando aos poucos para um cinza profundo. A sensação aterradora aumentava dentro de mim.

A horrível presença negativa atrás de mim, de repente já não estava mais só atrás. Eu a sentia ao meu redor, à minha frente, tudo ao mesmo tempo. Como uma fina neblina, trazia sons quase inaudíveis, mas apavorantes. Senti que o Mal me havia alcançado, como um tigre, daqueles indianos, que a gente vê nos programas do Discovery Channel, quando alcança um antílope: Implacável. Não havia saída. Não havia escapatória. Só o terror de um jeito que eu não podia entender e que não posso agora descrever. Um pavor novo e total tomou conta de tudo.

Não vou perder tempo tentando explicar. O fato é que eu acho que de onde estava, o próximo passo seria uma visita (permanente?) àquele lugar que conhecemos como inferno. Então eu fiz a única coisa que poderia, e eu tenho que dizer que não sei porque fiz isto, já que naquela hora já não conseguia pensar direito, tinha perdido minha capacidade de raciocinar: Me ajoelhei, ali, no meio da rua, abri bem os meus olhos, que se encontravam meio entorpecidos, como que anestesiados, assim como todo meu corpo. Ergui minha cabeça, olhei para o mais alto que pude, pro céu, e gritei(!!) – "JESUS!!!" Gritei uma, depois duas vezes. Logo em seguida, tudo escureceu de vez. "Apaguei".


Abri meus olhos. Estava na minha cama, o dia claro, raios de luz entrando pelas frestas da cortina. Uma sensação maravilhosa, indescritível, como imagino que deva ser a Felicidade mais completa, me invadindo, maior do que eu mesmo. Olhei para o teto, e parecia que podia ver através dele. Entendi que Ele tinha me ouvido! Eu vinha andando por lugares ruins, fazendo escolhas ruins, mas eu O chamei, e Ele me ouviu. Um sorriso involuntário no meu rosto, imensa serenidade me invadindo... Ainda deitado, falei baixo várias vezes: "Obrigado, obrigado... É você mesmo, a resposta. Obrigado por me mostrar. Agora eu despertei. Serei o mais fiel que puder. Obrigado, eu também o amo...".

Foi assim que encontrei uma série de respostas, daquelas que eu procurava há décadas. Interiormente, intimamente... Abandonei uma série de crenças inúteis na minha vida, "coisinhas" que pareciam inofensivas, ali, incrustadas no meu subconsciente, mas que agora eu sabia que me faziam mal (e sobre as quais falarei em tempo oportuno). Foi assim que eu descobri que nem tudo que parece, é. Descobri que a resposta é não, nem todos os caminhos levam a Roma. Não é verdade que todas as religiões falam a mesma coisa, de modos diferentes. Nem todas as opções que se apresentam em nossas vidas são boas. Sim, eu posso optar, e optar significa escolher entre coisas diferentes. O mal existe, e existem caminhos bons e caminhos ruins a serem escolhidos, neste nosso plano.

Diferentes caminhos levam a diferentes lugares, isto é um fato incontestável, assim como uma amoreira não produz figos e uma figueira não pode produzir amoras. Mergulhar na Luz ou nas trevas é uma questão de escolha. Graças a Deus.

Desde esse dia... A minha vida ficou muito mais difícil! Mas também ficou muito mais fácil. Bem vindo ao mundo dos paradoxos, ao qual eu acabava de chegar... Este é o meu humilde testemunho: O Cabeludo Barbudo, que tem um sorriso incrível, veste branco, mas é a pessoa mais "heavy metal" que eu já conheci. O seu poder não é brincadeira.



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Onde? - conclusão

Não me lembro exatamente da primeira vez em que ouvi falar dos essênios. Eu, que vivia sempre atrás de novas publicações e traduções da Bíblia a fim de aprimorar meus conhecimentos a respeito das possíveis distorções dos significados das palavras originais, em hebraico, aramaico e grego, já conhecia a teoria de que Jesus teria sido um membro da comunidade essênia antes de iniciar sua vida pública. Mas lembro-me bem, sim, de uma da matéria principal da edição 195 (2003) da antiga versão da revista Superinteressante, que trazia uma chamada sensacionalista na capa, para dizer o mínimo (costumavam fazer isso todo fim de ano, colocar chamadas sensacionalistas na capa envolvendo o nome de Jesus, - uma maneira de garantir boas vendagens em banca). O título era: “São Paulo Traiu Jesus?” em letras garrafais (Oohhhh!..). Aí você compra a revista, lê a matéria e vê que ali, na verdade não há nada de novo, apenas opiniões pessoais sendo divulgadas com estardalhaço, sem nenhum fundamento sólido...


Escultura num centro de estudos essênios norte-americano


Mas foi nessa matéria que tomei conhecimento da existência de uma tal 'igreja essênia brasileira', o que me motivou a pesquisar mais sobre o tema. - O que não era uma tarefa fácil no ano de 2003, já que os membros desse movimento, - que nessa época, aqui em São Paulo, não passavam de algumas dezenas - eram extremamente 'ostras', quer dizer, não gostavam nadinha de aparecer. Parece que preferiam de viver assim, como que fazendo parte de numa ordem secreta fechada, mantendo sua filosofia e seu modo de vida envolvidos numa espécie de aura de mistério...

Depois de muito buscar, consegui o endereço de e-mail do psicólogo Fernando Travi, fundador e dirigente principal da 'Igreja Essênia de Jesus Cristo' no Brasil. Através de conversas cada vez mais freqüentes por e-mail, depois de algum tempo passamos a conversar por telefone. Na época eu não sabia, mas isso que consegui foi um verdadeiro feito (algo que falei nos meus e-mails deve ter tocado o cara). Digo isso porque hoje sei o quanto é difícil a comunicação com esse homem. E foi por indicação e incentivo dele (Fernando Travi) que conheci os polêmicos evangelhos apócrifos “Essênio da Paz” e o "dos Doze Santos”; livros que constituem as principais bases da doutrina essênia atual. Digo atual, porque os essênios, enquanto facção religiosa judaica, já existiam desde antes do nascimento de Cristo.


Breve resumo sobre a "igreja essênia":

Na época de Cristo haviam muitas facções e seitas religiosas no judaísmo. Das conhecidas, as principais eram as dos fariseus, saduceus, sicários, zelotes e os próprios essênios. Estes últimos constituíam uma comunidade que se distinguia das demais por, entre outras coisas, esperar para muito breve o dia do Juízo Final. Alguns essênios eram celibatários, e outros se casavam apenas para procriar, coabitando com suas esposas somente o tempo necessário para que elas engravidassem, voltando logo depois à vida celibatária. Contrários à forma como era praticada a religião no Templo de Jerusalém, recusavam o sacrifício de animais e rejeitavam a prática de juramentos para reforçar suas afirmações. Praticavam banhos e banquetes rituais e defendiam a vida em comunidade, a partilha dos bens e a dedicação ao estudo e à oração. Foram liquidados por Roma em 68 dC, e na verdade nunca foi achado nenhum elo concreto entre Jesus e os essênios. Daí a afirmação do famoso teólogo Geza Vermes, à qual a quase totalidade dos pesquisadores do assunto fez coro: “O essenismo está morto".

Apesar disso, algumas pessoas (o maior exemplo é o próprio Fernando Travi), se propõem não só a tentar seguir, hoje, a antiga doutrina, como também se autoproclamam descendentes diretos dos antigos essênios, autores dos Manuscritos do Mar Morto. Mas os essênios modernos dão mais ênfase a aspectos que, segundo Travi, representam a essência da doutrina: o respeito à natureza, o vegetarianismo (radical) e a purificação como caminho para a cura de problemas físicos e espirituais. "É um conhecimento esotérico", afirma Travi, que diz se basear também em "revelações" que teria recebido.


Um essênio norte-americano


Nos EUA, berço do chamado essenismo moderno, a 'Igreja Essênia de Cristo' mantém uma espécie de "spa espiritual", além de página na internet, que utiliza para divulgar a doutrina e vender livros e fitas. No Brasil, o movimento ganhou impulso nos últimos cinco anos, e, ainda segundo Fernando Travi, reúne hoje algumas centenas de adeptos em vários estados do país. Para os próximos meses, ele prevê uma expansão, baseada no lançamento da tradução para o português dos principais textos da seita. Mas adverte: a preparação de um essênio é longa, árdua e exige muita disciplina. Não pára nem quando o candidato está dormindo. "Ao nos deitarmos à noite", diz Travi, "devemos estar prontos para continuar nosso aprendizado, recebendo informações através do inconsciente”.

A história e os detalhes a respeito dos Essênios originais e da atual 'igreja essênia' são muito complexos, e este é mais um daqueles temas a que eu pretendo voltar com maior profundidade depois de terminada essa primeira fase do a Arte das artes, em que apenas me atenho a contar minha história e relatar minhas impressões pessoais a respeito de tudo o que vi e vivi na minha busca até hoje. Para saber mais, clique aqui e aqui.

Bem, o fato é que, a essa altura do campeonato, eu já começava a aprender a respeitar os Sinais e tentar entendê-los, por ter já percebido que eles são das mais importantes ferramentas na Busca espiritual. E estou convencido de que, mais uma vez, eles vieram, da maneira como passo a narrar:

Afinal ganhei a confiança do líder nacional da Igreja Essênia no Brasil (depois de várias semanas de conversas por telefone), e ele me contou que os membros da comunidade costumavam se reunir em determinadas tardes de sábado, para estudar, meditar e orar em grupo, numa grande parque na região sul aqui de São Paulo (dessa vez não vou deixar o endereço, porque se trata de uma informação sigilosa, que me foi confiada e que vou respeitar). Marcamos um encontro, no qual eu finalmente seria apresentado ao grupo e às suas atividades, e no qual teria acesso às informações mais detalhadas sobre as práticas e sobre como me iniciar no essenismo.

Não deu certo. No dia, fiquei doente, com uma gripe fortíssima, daquelas que não se consegue nem sair da cama, e tive que faltar no encontro.

Fiquei chateado, entrei em contato durante a semana pedindo desculpas e explicando o porque da minha falha. Consegui marcar para uma outra data, uma outra reunião, dali a algumas semanas.

No dia tão esperado, tudo certo, lá fui eu ao encontro dos misteriosos representantes do essenismo no Brasil. Cheguei só até metade do caminho. Carro quebrou.

Mais uma vez, um sentimento de frustração tomava conta de mim. Nesse meio tempo, meu interesse só fazia aumentar, e eu aprofundava meus estudos sobre os essênios. Me atraía muito saber que eles acreditavam na reencarnação, que eram vegetarianos (como eu e Hana), que agregavam elementos do hinduísmo e de budismo à sua doutrina. Além disso, praticavam meditação e adotavam como um de seus livros sagrados o apócrifo “Evangelho de Tomé”, que eu tinha, lia sempre e gostava muito. A muito custo, consegui convencer o “sacerdote” que mais uma vez eu não tinha podido comparecer ao encontro por motivo de força maior, mas que o meu interesse era real...

Terceiro encontro marcado. Eu sem carro. Tínhamos resolvido ir, eu e Hana, de transporte coletivo, mesmo, embora esse local ficasse realmente muito distante do lugar onde morávamos (mais de duas horas sacudindo dentro de ônibus precários – pensei que seria uma boa oportunidade para demonstrar nossa real boa vontade). Antes de sair de casa, Hana me olhou bem nos olhos, como ela costuma fazer quando acha que alguma coisa está errada, e disse: “Você acha que devemos ir mesmo?” – Perguntei o porquê da indecisão, e ela respondeu: “O encontro é num parque. E se chover?” (?!)... Eu não prestei muita atenção ao que ela disse, e expliquei que a residência de um dos membros da comunidade ficava bem próxima do parque, que quando chove as reuniões são feitas lá.

Saímos. Tomamos o primeiro ônibus. Descemos no terminal urbano Praça da Bandeira, para tomar o segundo coletivo, que nos levaria para um lugar distante aproximadamente uns dois quilômetros do ponto do encontro, que pretendíamos concluir a pé (olha a determinação). Então sabíamos da demora pra chegar num local tão longe, e contando com algum imprevisto, saímos mais cedo de casa. Devia ser em torno de 14 horas, quando chegamos no terminal. De lá, só um ônibus servia para nos levar ao nosso destino.

Espera dez minutos. Nada. Quinze, vinte minutos. Nada. Quarenta minutos. Uma enorme fila tinha se formado atrás de mim e de Hana. Agora já começava a ficar tarde para o horário combinado do encontro. Fui até o fiscal, perguntei qual o horário do próximo coletivo da linha tal. Reposta: “Ele está atrasado mais de 30 minutos, moço. Já entramos em contato na empresa, deve ter havido algum acidente. Essa linha nunca atrasa... Pior que o do horário seguinte também já deveria ter chegado...”

“Alguma coisa me diz que devíamos voltar. Não vamos encontrar nada de bom nesse lugar” – me diz Hana. Eu olho para ela, confuso. “Vamos esperar só mais um pouco”, insisto.

O céu agora começava a escurecer, e uma fina garoa começava a cair. Esperamos ainda mais uns dez minutos, e o ônibus finalmente chegou. Agora já não seria mais possível chegar ao encontro na hora marcada, mas eu insisti para irmos mesmo assim, eu queria mesmo muito conhecer aquele movimento. Entramos no ônibus, que superlotou, devido ao atraso.

No meio do caminho, o céu se torna completamente negro, e uma forte tempestade desaba de repente, de tal maneira que pelas janelas não se podia ver mais absolutamente nada. Mesmo assim, quando chegamos no ponto, descemos. Eu estava obstinado. Andamos por cerca de um quilômetro, castigados por um pesadíssimo volume de água, que por cima vencia facilmente o guarda-chuvinha que Hana, previdente, tinha levado na bolsa, entrando por todos os lados, e por baixo, respingava do chão e nos encharcava até à altura dos joelhos. Demorou ainda um bom tempo até que eu finalmente me convencesse de que com aquela chuva não encontraríamos mais ninguém na praça, e como eu não tinha o endereço da tal casa próxima do parque nem o nº do celular de nenhum dos membros da comunidade, simplesmente não havia mais o que fazer. A minha atitude estava sendo muito parecida com a de alguém que dá murro em ponta de faca. Desistir e voltar... Não havia nenhuma outra alternativa.

Ao chegar novamente em casa, me coloquei só e quieto por um tempo, e então pude perceber sem nenhuma dúvida que eu havia recebido mais um Sinal, e muito claros: Não era isso que eu tinha que fazer, não era essa a resposta, nem esse o rumo a ser tomado. - Como ter certeza de que o Sinal era para desistir, e não mais um teste para a minha força de vontade? Bem, os Sinais são assim: quando eles acontecem, você simplesmente entende, e sabe. Quando você, leitor, vivenciar um deles (se é que isso já não aconteceu, o que eu duvido) vai saber do que estou falando, acima de qualquer dúvida.



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Onde??


O ano é 2002. Posso dizer que, depois dos acontecimentos que relatei nos últimos posts, eu realmente me convenci de que o próximo passo deveria ser me reaproximar mais do Cristo e da sua doutrina, que, como eu já disse, sempre me agradaram. O desaparecimento da minha medalha, eu entendi, de um modo muito pessoal, como mais um “aviso” nesse sentido. “Procure Jesus...”...

Eu entendia que isso era o que devia fazer. Mas como? Meu problema não era a idéia em si, mas sim as diversas instituições religiosas que se auto proclamam “cristãs”. Com estas, eu nunca consegui me identificar. E não foram apenas os sérios problemas de adaptação (como os que me acompanham há algum tempo já sabem), mas também, e principalmente, uma incompatibilidade total entre o meu modo de pensar e os costumes e tradições comuns a cada uma destas correntes religiosas.

O catolicismo, mesmo sendo a mais antiga religião cristã, concentrava também o maior número de “desinteressados-tô-nem-aí” por metro quadrado que eu conhecia. Até os céticos são mais apaixonadamente interessados em defender a sua posição ideológica do que os católicos, ao menos a maioria deles. Somem-se a isso alguns escândalos com padres pedófilos aqui e acolá, a história comprometedora do passado da Igreja e a sua intolerância para com certas realidades dos nossos tempos (como a importância do uso da camisinha, por exemplo), e está pintado o quadro de uma religião que eu, apesar de respeitar, nunca iria seguir, ao menos no sentido de me tornar um seu membro.

Quanto aos assim chamados "evangélicos", principalmente representados pela atual enxurrada de comunidades neopentecostais que toma conta do meu país, eu os via como um grande grupo de “bitolados”, mestres em criticar e julgar a toda e qualquer pessoa que se atreva a pensar diferente deles. Com os caras era assim: “Nós estamos ‘salvos’. Vocês, pobres pecadores, estão todos condenados a passar a eternidade sofrendo no fogo do inferno...” Pretendem seguir a Bíblia (uma coleção de livros que começaram a ser escritos há quase 5 mil anos atrás) ao pé da letra, mas fazem questão de ignorar os ensinamentos realmente mais profundos daquele que chamam mestre, como este: “Quem não é contra nós, está ao nosso favor”.

Gostam de berrar suas orações o mais alto que podem, e ainda com o auxílio de microfones e potentes amplificadores com super caixas acústicas, durante seus cultos, assustando qualquer pessoa que não conheça a religião. Gostam de falar todos ao mesmo tempo, em seus louvores, falar em "línguas estranhas", atabalhoadamente, desorganizadamente, enquanto pulam e soltam gritos de "Aleluia!" e "Glória!", desobedecendo assim (completamente) os princípios bíblicos que eles tanto se gabam de seguir:

"Agora, porém, irmãos, se eu for ter convosco falando em outras línguas, de que vos aproveitará? (...) Instrumentos inanimados, como a flauta ou a cítara, quando emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá o que se toca na flauta ou cítara? (...) Assim vós, se com a língua, não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis ao ar! (...) Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim. Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua. (...) Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação. No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois, ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus. Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem. Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, Cale-se o primeiro. (...) Porque Deus não é de confusão e sim de Paz. Como em todas as igrejas dos santos. (...) Tudo, porém, seja feito com decência e ordem". - I Coríntios 14:7 – 33

Muitos espíritas se dizem os “verdadeiros cristãos”... Mas eu sabia, sem nenhuma dúvida, no meu íntimo, que eles definitivamente não são cristãos. Por mais que Kardec tenha se esforçado por tentar adaptar o texto bíblico à sua própria doutrina, não há como negar que Jesus nunca falou em reencarnação, nem nunca pregou a comunicação com os mortos como maneira válida para "evoluir" ou se aproximar do Pai, preceitos básicos do espiritismo.

Nas religiões orientais eu encontrei muitas verdades, muitas dicas extremamente úteis, diversas ferramentas para serem utilizadas ao longo do Caminho. Mas não encontrei ali o fim em si. Na verdade, assim fora toda minha experiência até aquela data: aprendendo coisas boas e úteis em diversos lugares, descobrindo e guardando conhecimentos que seriam importantes na minha formação enquanto buscador. Mas a Verdade, mesmo, as respostas fundamentais que eu tanto procurava, nada...

Eu sei que alguns encontram muita dificuldade para entender essa minha postura, e se perguntam por quê. Por quê, até esse ponto, depois de ter conhecido as principais religiões cristãs, depois de ter estudado a sério o budismo (até fui candidato a monge) e o hinduísmo, depois de ter conhecido o espiritismo, depois de ter conhecido e estudado a fundo tantos “grandes mestres” que levam esperança para milhares de pessoas ao redor do mundo, depois de ter estudado a vida dos grandes filósofos e ter feito parte de uma série de grupos espirituais, grandes e pequenos; depois de ter conhecido de perto e estudado em algumas das maiores escolas esotéricas do mundo (como Gnose e Rosa Cruz), eu ainda não estava satisfeito? Afinal, o que eu queria? Do que eu precisava? Por que me comportava como um cético, alguém que na verdade não tem fé em nada??

Eu respondo, do jeito mais suscinto possível: eu só queria ter certeza! Eu queria saber! Saber, acima de qualquer dúvida, se eu estava ou não no caminho certo, saber se estava mesmo fazendo aquilo que deveria fazer, se estava seguindo na direção certa. Quando eu era garoto, me lembro de colocar uma garrafa vazia em cima de um muro no meu quintal e pedir: “Meu Deus, se eu estou fazendo o certo, se é isso mesmo que o Senhor quer para minha vida, me mostra agora, claramente! Derruba essa garrafa e eu terei a certeza! Se eu tiver certeza, serei capaz de fazer qualquer coisa para cumprir a Tua vontade! Te seguirei até o fim, entregarei a minha vida! Eu só preciso saber...”

Mas nada acontecia. E a minha busca continuava... Chegaram a me dizer que essa Verdade que eu tanto procurava, não iria encontrar em lugar algum, nunca. Hoje, eu posso dizer que essas pessoas estavam erradas.

***

Eu agora procurava um modo de “seguir” Jesus sem ter que pertencer a nenhuma das religiões cristãs tradicionais, com as quais eu já tinha me decepcionado. Claro que, antes disso, eu já tinha tentado a solução mais fácil e a que me parecia a mais óbvia: “Seguir” Jesus e sua doutrina do “meu jeito”, mesmo. Sozinho, sem me preocupar com religião alguma, simplesmente cuidando de mim mesmo, estudando e praticando na medida do possível, por conta própria. Bom, na verdade, de um certo modo, isso era o que eu tinha feito a minha vida inteira, mas eu não estava satisfeito. Sentia um impulso muito forte no sentido de fazer algo mais. Algo que eu ainda não sabia exatamente o que era.

“Seguir sozinho” era insuficiente. Eu sentia falta de alguma coisa, como alguém que sente a falta de um ente muito querido, quando ele está longe dele. Apenas crer e tentar fazer o que achava certo, sem pertencer a nenhuma comunidade ou congregação, sem fazer parte de um todo, simplesmente não era suficiente para mim, principalmente porque eu sempre voltava a tropeçar e cair no materialismo, no desânimo, nas dúvidas... Uma frase muito usada pelos batistas para salientar a importância da união entre os irmãos me parecia fazer muito sentido: “Uma brasa sozinha, longe da fogueira, acaba se apagando”. Eu experimentava isso na prática. Sozinho, depois de um tempo, minhas certezas se tornavam dúvidas, os meus aprendizados pareciam se diluir num mar de dificuldades e interrogações...

Quando me dava conta, estava novamente me sentindo perdido, passageiro numa embarcação sem velas, sem bússola pra saber onde ficam Norte e Sul. Além disso, se a proposta era me voltar para o Cristo, já que a própria vida parecia me levar nesse sentido, eu me lembrava de que o próprio deixou a seguinte orientação: “Onde houverem dois ou mais reunidos em meu nome, ali estarei eu também, no meio deles”. Uma observação sobre essa passagem: Esse “no meio deles”, da frase, poderia ser traduzido também como “dentro deles”“Estarei dentro deles”. É como quando diz: “O Reino de Deus está no meio de vós”. – outra tradução válida seria: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lucas, 7:21...)... Interessante, não? Isso muda muita coisa...

Certeza maior da importância da união entre os que buscam eu tive quando participava das reuniões para oração em grupo. Dou a minha palavra de que orar sozinho e orar em grupo são experiências completamente diferentes. Maomé diz: "A oração em grupo é 27 vezes melhor do que a individual". Concordo. Oração em grupo é uma experiência realmente transformadora.

O fato e o tema central desse post é que, finalmente, pesquisando e procurando, como sempre, eu encontrava uma nova solução, que me parecia muito interessante: Chamava-se "Igreja Essênia". Será que eu havia encontrado, de uma vez por todas, aquela que poderia ser a resposta há tanto tempo buscada? Bom, eu me desviei demais do assunto, e vou ter que deixar essa resposta para nosso próximo encontro...



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Os Sinais continuam?

Publicado originalmente por H K Merton em 23 de Janeiro de 2007 às 12:02 PM

O que poderia significar aquilo? Jesus sempre fora meu “mestre” preferido, sempre nutrira pela sua figura um carinho especial. Mas as religiões ditas cristãs, como um todo, haviam me decepcionado demais para que eu pudesse sequer considerar a possibilidade de, assim, de repente, me tornar “cristão”... Será que era isso o que a Sabedoria Infinita havia planejado para minha vida? Tinha que haver alguma outra resposta...

Meditação... A meditação sempre fora uma das ferramentas mais importantes na minha Busca. Nada parecido com isso eu jamais encontrara dentro das tradições cristãs. E sem a meditação eu não teria chegado até aquele ponto do Caminho.

Numa bonita tarde de inverno (quase certeza que era uma sexta-feira), sozinho em casa, pouco depois das 15 horas, eu entrei no meu “quarto de meditação”. Sentei-me no chão, como sempre costumava fazer, na postura de “Vajrásana” (sentado sobre os calcanhares, joelhos sobre o tapete e as mãos sobre o colo), posição em que eu era capaz de ficar por longos períodos de tempo. Algo me dizia que naquele dia eu iria precisar de um bom tempo no estado de “suspensão das agitações mentais”, que tanto bem me fazia. Eu precisava entender o que estava me acontecendo, e qual deveria ser o meu próximo passo.

Eu tinha sempre o hábito de (nada que tivesse aprendido em algumas das escolas por que passei, mas sim uma espécie de “ritual” pessoal meu), antes de iniciar a meditação, me “despir” de todos os “supérfluos”, de tudo que de alguma forma me apertasse ou pudesse provocar qualquer desconforto durante a prática: Anéis, relógio, óculos (eu usava, na época), correntinhas...

E assim fiz, naquele tarde. Tirei meus óculos, o meu relógio e uma corrente de prata que naquela época eu usava no pescoço, com uma pequena medalha também de prata, que tinha alguns símbolos orientais gravados, cujo significado eu nem conhecia. Acomodei esses objetos sobre o tapete, ao meu lado, e fechei meus olhos. Agora que tinha vivenciado o impressionante episódio com o quadro de Jesus, já não usava mais os mantras indianos para o relaxamento mental, estava começando a optar sempre por uma oração, principalmente o Pai nosso. E em todas as vezes, fechado e sozinho no meu quarto, em completo silêncio e livre de preocupações externas, me admirava mais com a absoluta perfeição dessa oração. Tudo que precisamos saber e pedir está ali. Aproveito esse post pra falar um pouco sobre o tema:


“Pai nosso, que estais no Céu, santificado seja o Vosso nome...”


A começar por chamar ao Deus Todo-Poderoso, Criador do Universo, simplesmente de Pai. Isto, embora a maioria das pessoas hoje não imagine, foi uma das maiores revoluções provocadas por Jesus. Até então, a idéia de usar a expressão “Abba” para se referir ao poderoso e terrível “Senhor dos Exércitos”, o Deus “Vingador de Israel”, soaria como blasfêmia para a maioria das correntes religiosas reinantes entre o povo judeu. Pra ser ainda mais específico, a palavra “Abba”, no hebraico, representa a maneira como as crianças chamam seus pais, significando algo assim como “papai”, ou “paizinho”. Uma demonstração inacreditável de intimidade, por parte de Jesus, para com o Deus absoluto que os Judeus tanto temiam. Antes dele, em diversos escritos do Antigo Testamento, o espaço reservado para se designar a palavra com que chamar Deus era deixado em branco, tanto medo tinham de sequer escrever o Santo Nome. Criaram muitas formas, títulos, ideogramas parar se referir ao Senhor, porque se consideravam indignos de pronunciar o Seu nome ou sequer de escrevê-lo. Aí surge um Galileu errante e sem formação sacerdotal, mas que mesmo assim ensinava os mestres na sinagoga, chamando a este mesmo Senhor temível de “Abba” – Paizinho. Isto é o que podemos chamar de uma profunda revolução espiritual, verdadeiramente; porque é uma revolução interior, do tipo que transforma, de dentro pra fora, o comportamento humano.


“...venha a nós o Vosso Reino...”


Nos convida à reflexão sobre o significado do termo “Reino de Deus”, algo realmente muito profundo, mas está claro nos evangelhos que ele não se referia (somente) a um plano superior em algum lugar mais elevado, mas sim a um estado interior do ser humano - "O reino de Deus está no meio(ou dentro, conforme alguma traduções) de vós" (Lc 17, 21).


“...seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como nos Céus...”


Assim como na tradição budista e também na hindu, o seguidor é exortado a anular o próprio ego, se despir de todo orgulho e se entregar, com humildade e confiança diante da sabedoria do Criador. A minha própria vontade costuma me levar sempre à destruição e ao engano. Faça-se na minha vida a Tua vontade, meu Pai, porque só Tu é que sabes o que é melhor para mim.


“...o pão nosso de cada dia dai-nos hoje...”


Viver e permanecer no agora. Não se preocupar, ou se preocupar menos com o dia de amanhã. Parar de fazer tantos planos para o futuro, esquecendo o presente. Confiar em Deus, a cada novo dia, entender que há nessa vida mais do que comer e beber, que representam, aqui, todas as nossas necessidades materiais:

“Por isso vos digo: Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir? Porque vosso Pai celestial sabe que precisais de tudo isso. Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo". (Matheus, 6:25 a 34)


Segundo uma infinidade de mestres yogues, este é o maior segredo para a iluminação espiritual: Viver o agora!


"...perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores...”


Lei do karma. Lei do retorno. Simplesmente justiça. - Chame como quiser, não há Regra mais perfeita do que essa, não há caminho mais perfeito para a paz na Terra, para se alcançar uma vida pacífica e feliz em sociedade. Minhas falhas serão perdoadas, se eu souber perdoar também às falhas alheias. Alguém aí discorda que esse princípio é justo?


"...e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém”.


No fim, pedimos ajuda para nos mantermos no caminho correto, e proteção contra todos os males. Perfeita. Irretocável. Esta é mesmo a Oração das orações, e além de tudo é uma aula da verdadeira doutrina do Cristo. E eu só tinha voltado a prestar atenção nisto por causa do que tinha me acontecido. Quanto eu estava perdendo, sem perceber!..

Voltando agora ao meu relato de hoje:

Iniciei a minha meditação, e não sei por quanto tempo permaneci ali quieto, sentindo minha mente se libertando, pouco a pouco, da “ciranda” de pensamentos obsessivos, que, infelizmente, é o nosso estado mental normal; e aproveitando a indescritível sensação de entrar num estado de meditação profunda. Me desliguei de tudo, sentindo uma paz incomensurável e preciosa tomando conta de mim. Quando voltei ao estado mental normal, me levantei devagar, ainda meio entorpecido pela experiência. Ao abrir a janela do meu quarto, fiquei surpreso ao perceber que o sol já estava se pondo, tingindo o céu numa composição de cores maravilhosas, em que predominavam os tons em vermelho... Eu devia ter ficado meditando por mais de três horas!

Fazia um friozinho agradável, e eu me permiti ficar por um tempo ali na janela, apreciando a despedida do “irmão sol”, sumindo devagarzinho no horizonte, por detrás dos prédios da Av. Paulista. Que paz profunda eu sentia naquele momento, como se não houvesse problema algum neste mundo...

Dentro do quarto já começava a ficar escuro, então acendi a luz, e recolhi minhas coisas do chão. Coloquei o relógio no pulso, coloquei meus óculos... E... cadê a minha corrente? Eu tinha certeza de tê-la colocado junto com meu relógio e meus óculos. Procurei muito bem, apalpei o tapete com as mãos, num gesto irracional, como se a corrente de prata com a medalha pudesse estar ainda no mesmo lugar, invisível. Nada. Olhei embaixo dos móveis, olhei nos quatro cantos do quarto. Nada.

Eu estava sozinho em casa, trancado no meu quarto. Ninguém tinha entrado, ninguém tinha saído. Eu permanecera todo o tempo ali dentro, sentado no tapete, sem sair para nada. E eu tinha absoluta certeza de que tinha tirado a corrente do meu pescoço e a colocado bem ao lado do meu corpo, junto com o relógio e os óculos. Mas agora ela não estava mais lá! Havia desaparecido!? Como isso seria possível? Voltei a procurar. Vasculhei todo o chão, e até abri todas as gavetas, olhei todas as prateleiras, mesmo tendo absoluta certeza de que tinha tirado a corrente do pescoço e colocado no chão... Nada!

À noite, quando minha esposa chegou, ainda pedi ajuda para procurar. Buscamos em todos os cômodos da casa, em todos os cantos, cada fresta foi vasculhada. Mais uma vez, nada!..

Fiquei desorientado, e um pouco assustado. Lembrei que aquela medalha, que eu carregava sempre no pescoço, trazia gravado um símbolo pagão oriental, e uma série de inscrições parecidas com ideogramas chineses, cujo significado eu desconhecia. Eu a usava porque tinha sido presente de uma amiga, e eu a achava interessante, exótica. Muitas pessoas me perguntavam qual o significado daquela medalha, achavam bonita, mas eu nunca fiz questão de pesquisar sua origem e significado. E agora, ela desaparecera. Para sempre!

E agora? Mais um Sinal? Será que o que acabara de acontecer tinha alguma relação com o evento envolvendo a imagem de Jesus? Eu devia dar atenção ao ocorrido ou continuar a minha vida sem me importar muito com isso?..





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E agora?! - Biografia de J. Krishnamurti - conclusão

Publicado originalmente por H K Merton em 18 de Janeiro de 2007 2006 às 1:53 PM

Krishnamurti nasceu em maio de 1895 ao sul da Índia, perto de Madras. Foi o oitavo filho de uma família de brâmanes e recebeu este nome em homenagem a Krishna. Um menino que, desde muito jovem, aspirava àquilo que está além da simples vida material; dotado de uma natureza excepcionalmente voltada para a busca interior. Nasceu com este dom, desenvolvido ainda mais, segundo seus biógrafos, com a ajuda da mãe. Aos seis anos já estava firmemente consolidado naquele que seria o propósito único da sua vida: A busca pela Verdade.

Por volta de 1904, quando Krishnamurti, então com 9 anos, brincava na rua com seu irmão mais novo, um dos chefes da Sociedade Teosófica (de Madame Blavatsky) de Adyar, que passava por ali, se interessou por ele. Acabou por levá-lo para conhecer a célebre Annie Besant, então presidente da Sociedade Teosófica. Mme. Besant, admirada com suas qualidades, adotou-o e passou a dirigir seus estudos. Em 1910 foi mandado para Londres.

Nessa mesma época os chefes da Sociedade Teosófica fundaram a "Ordem da Estrela do Oriente", cuja finalidade era agrupar espiritualistas do mundo inteiro na espera de um "grande instrutor". Krishnamurti logo foi declarado chefe da Ordem. Foi nessa época que ele escreveu seu primeiro livro, sendo que uma frase deste livro já resumia parte do seu ensinamento futuro:

“A superstição é um dos maiores flagelos do mundo, um dos entraves dos quais é preciso se libertar inteiramente”.

É bom lembrar que isto foi escrito por um rapaz de 14 anos(!). Em 1911, com 16 anos, escreveu um segundo livro: "O Serviço na Educação". Ele estava ainda em Londres, e a aproximação da guerra criava um clima tenso na Europa. Consciente da responsabilidade individual de todo ser, escreveu neste novo livro:

“Um crime não deixa de ser um crime se for cometido por muitas pessoas”.

Foi também nessa mesma época, ainda criança, que Krishnamurti começou a falar em público. Suas conferências em pouco tempo tornavam-se cada vez mais numerosas. Mas, enquanto todos os chefes da Sociedade Teosófica enxergavam nele o futuro "Grande Instrutor", capaz de agrupar as diferentes correntes espirituais do mundo, Krishnamurti se revelava um “rebelde”. Mais tarde ele mesmo viria a explicar as razões dessa revolta:

“Eu me revoltei contra tudo, contra a autoridade dos outros, contra os ensinamentos dos outros, contra os conhecimentos dos outros. Nada queria aceitar como verdadeiro até que eu mesmo pudesse encontrar a Verdade. Eu não me opunha às idéias dos outros, mas não queria aceitar suas teorias e sua autoridade sobre a minha vida... Nada me satisfazia. Eu escutava, observava. Procurava aquilo que está além das ilusões das palavras”.

No décimo-sétimo poema do livro O Amigo Imortal, ele escreveu:


“Sim, eu procurei o meu Bem-Amado,
E o descobri em meu próprio coração.

Meu Bem-Amado olha com meus olhos,
Porque agora somos um só.

Eu sorrio com Ele, brinco com Ele.
Essa sombra não é mais minha,

É a sombra do Coração de meu Bem-Amado,
Porque agora somos um só."



Krishnamurti explica o que ele entende por "Bem-Amado": “Para mim, o ‘Bem-Amado' é cada um de vocês, ou uma planta qualquer, o pobre e o rico, o cachorro infeliz, as montanhas grandiosas, as árvores magníficas...”.

À luz de sua própria existência, Krishnamurti sacode o torpor de todos que o cercam. Torpor que os fazia aderir a crenças e seguir cegamente seus "guias espirituais". Ele entendia que o erro consiste em aceitar, em vez de compreender... Dizia que “é muito mais fácil seguir cegamente do que compreender e tornar-se assim verdadeiramente livre”. Então, compreendendo tudo isto, ele um dia declarou aos seus seguidores, que já começavam a adorá-lo como um deus, deixando de lado os seus pensamentos: "Não quero espectadores, não quero discípulos, admirações ou louvores de espécie alguma. Quero ser o companheiro e não o mestre”. Assim, em 3 de Agosto de 1929, em Ommen, ele dissolveu a Ordem da Estrela do Oriente, para evitar a formação de uma seita em torno dele. Queria que cada um se sentisse responsável por sua própria vida. Tudo que ele menos desejava era que criassem nele um novo tipo de dependência. Mas os jornais da época já começavam a chamá-lo de “O Messias dos Teósofos”.

Por isso, depois de ter constatado com clareza esses fatos, ele declarou:

“A Verdade é um país sem caminho... Ilimitada, incondicionada, inatingível para qualquer caminhante e impossível de ser 'organizada'”. E dissolveu toda a organização que já havia sido criada em torno dele, restituindo todos os bens que lhe haviam sido dados, recusando-se para sempre a ter discípulos, e partindo sozinho em sua própria Jornada. Sem pestanejar, abriu mão da oportunidade de ficar rico. Abdicou da fama, dos confortos, de um belo "futuro garantido" e da admiração do mundo, em prol de realizar a sua verdadeira Busca pela Verdade.

Nas centenas de livros que viria a escrever e palestras e conferências que ministrou, nunca se propôs a "ensinar" coisas, mas somente a "cutucar" o indivíduo humano, tentando fazer com que despertasse do estado de dormência em que se encontra. Criticou duramente a facilidade com que aceitamos, sem questionamentos, as palavras de tantos "mestres" e "gurus" como se fossem expressão da Verdade. Krishnamurti propunha um despertar pessoal, o que ele chamou de "mutação interior". Faleceu em 1986.

Esse breve resumo da história de Krishnamurti é insuficiente para fazer entender a sua grandeza e a importância que suas idéias tiveram no inconsciente coletivo da humanidade. Eu apenas tentei passar aqui uma noção geral do que foi a sua vida e qual a sua mensagem.




Quanto a mim, enquanto tentava entender o que me havia acontecido, digerir a Mensagem que tinha recebido (que contei no post “Sinais”), resolvi me abrigar por um tempo à sombra deste grande pensador e filósofo, procurando reorganizar minhas idéias. Passei a freqüentar o Grupo de Estudos Filosóficos “K”, uma turma que se reúne aos sábados numa biblioteca da Vila Mariana, em São Paulo, para assistir aos vídeos das palestras de Krishnamurti e dialogar e trocar experiências.

Uma experiência válida, sem dúvida nenhuma, que eu recomendo pra qualquer pessoa. Ali pude fazer novas e boas amizades. Esse grupo reunia cerca de trinta e poucas pessoas, desde jovens pós-adolescentes deslumbrados com a sabedoria de Krishnamurti até anciãos com mais de 80 anos de idade. Homens, mulheres, ricos, pobres, professores, intelectuais, artistas, poetas, espiritualistas e “alternativos” de todos os tipos.

As longas conversas que se desenrolavam, começando às 16 horas (após assistirmos em vídeo a alguma das conferências do Krishnamurti) e muitas vezes prolongando-se até à noite, eram muito produtivas para todos, mesmo que a Filosofia seja, por si só, inconclusiva, e qualquer um que procure um grupo como esses com o objetivo de encontrar conclusões definitivas, vai sair decepcionado. Lembro-me de um rapaz que questionava se a mesa em torno da qual nos sentávamos era mesmo real, se ela existia de fato, ou não... Hana, do meu lado, às vezes disfarçava um sorriso involuntário.

Para se discutir alguma coisa com alguém, é necessário que haja pelo menos uma base de concordância mínima, alguma premissa em comum, por onde iniciar o diálogo. Se alguém começa a falar: - “...Pra ser feliz na vida, é preciso...” – Aí o outro interrompe: - “Mas o que é a felicidade? E o que é a vida? Essas coisas existem mesmo, ou serão só ilusões?..” – Aí fica meio impossível de se chegar a uma conclusão sobre qualquer coisa. Esse tipo de situação acontecia, nesse grupo, às vezes...

Mas esse foi o lugar onde, até hoje, eu encontrei a maior concentração de buscadores sinceros, autênticos, independente de credo ou sectarismo religioso. Pessoas dispostas, assim como eu, a não se contentar com menos que a Verdade. Ali ninguém estava preocupado em defender este ou aquele livro considerado sagrado, nem este ou aquele princípio de fé... Para mim foi muito bom saber que haviam outros como eu...



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E agora?! - Biografia de J. Krishnamurti

Publicado originalmente por H K Merton em 16 de Janeiro de 2007 às 9:24 PM


Depois dos acontecimentos que eu narrei no post “Sinais”, eu me tornei ainda mais pensativo do que já costumava ser normalmente (se é que isso é possível, Hana que o diga...). Eu tentava entender o ocorrido, tentava articular na minha cabeça o que poderia significar o Sinal que eu havia recebido. Num primeiro momento, como já relatei, eu tentei encontrar alguma explicação natural, lógica. Mas não pude. Para mim estava claro que eu tinha recebido uma resposta, de Deus ou do Universo, para a pergunta que estivera me angustiando. E agora eu precisava entender essa mensagem.

Uma imagem representando Jesus Cristo destruindo, literalmente, uma imagem representando Krishna... Na verdade, em toda minha vida, eu sempre nutri uma devoção especial por Jesus. Apesar de ter freqüentado tantos templos budistas e hindus, na hora da meditação era sempre o nome de Jesus que me vinha à mente. Enquanto as pessoas ao meu lado, na “Self Realization Felowship”, no templo hindu “Sahaja Yoga” ou nos budistas “Soto Zenshu” e “Shi De Choe Tsog” entoavam mantras em línguas estranhas, eu costumava mentalizar um Pai Nosso. Mas a Busca me havia levado para outros lugares, agora, e voltar ao Cristianismo estava completamente fora de questão.

Mas afinal, será que era isso mesmo que eu devia fazer? Voltar ao Cristianismo? Impossível! Pra ser verdadeiramente honesto, tenho que reconhecer: Àquela altura da minha Busca me parecia simplesmente insuportável a idéia de voltar a ser evangélico. Nunca mais seria um “bitolado”, eu resolvera comigo mesmo. E católico, então? Agora eu já conhecia a Bíblia o suficiente pra entender o quanto os católicos são incoerentes. Nenhuma chance...

Mas então, o que queria dizer aquele Sinal? Jesus de pé, Krishna no chão, despedaçado... E isso acontecendo de modo sobrenatural! A interpretação mais óbvia que se poderia fazer, seria: “Deixar o Hinduísmo e as influências orientais (representados por Krishna) e voltar ao Cristianismo”.

Mas não. Não podia ser isso. Inadmissível. Devia haver uma outra explicação!.. E eu haveria de encontrar alguma outra maneira de interpretar esse sinal.

Se é que realmente aquilo tinha sido mesmo um sinal. Só porque não somos capazes de explicar alguma coisa, não significa que não exista alguma explicação natural, certo? E eu haveria de entender. Mas naquele momento me sentia um pouco saturado de tanto conhecer religiões e filosofias novas, sem conseguir jamais encontrar a certeza que eu queria.

E eu sabia exatamente onde “fazer uma parada” pra colocar as idéias em ordem:

“O que procuramos? Procuramos a Verdade, não segundo a crença de vocês ou a minha; porque para encontrar a Verdade em qualquer assunto eu não devo ter crença. Quero encontrar a Verdade. Por isso eu pesquiso, coloco na mesa tudo que diz respeito a uma questão, não me abrigando atrás de nenhuma espécie de preconceito. Diria que eu busco honestamente. Meu espírito é muito honesto, e ao tentar compreender, não me deixaria levar pelo Bhagavad Gita, pela Bíblia ou por meu guru favorito. Eu quero saber e para isso devo ter a intensidade necessária para prosseguir nessa minha tarefa. E o homem que está preso a uma crença, qualquer que seja a extensão da corda que o prende, está retido e por isso não pode explorar. Examinará somente sob o raio da sua servidão e nunca encontrará a Verdade”.

- Jiddu Krishnamurti.


Voltei a ler Krishnamurti. Considerado por muitos estudiosos como um dos maiores filósofos que já viveram em nosso planeta, em todos os tempos; a altura de um Sócrates, um Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant... Seu pensamento influenciou de modo indelével a maneira de pensar da humanidade. E isso não é exagero. Sua principal característica era nunca falar sobre onde está a Verdade, mas sim esclarecer, por meio de raciocínio inapelável, onde ela não está. Eliminadas todas as possibilidades de engano, o acertado surge.

Krishnamurti é o tipo de personagem que, por mais que se fale dele, parece que nunca é o suficiente. Por isso mesmo, não vai ter jeito: Pra não ficar uma coisa muito resumida, pela metade, e nem virar um texto gigantesco, o post sobre ele (e sobre o grupo filosófico que se reúne para discutir seus livros e suas idéias) terá que ser concluído numa segunda parte.



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Hare Krishna

Publicado originalmente por H K Merton em 15 Janeiro 2007 às 5:00 PM


Antes de passar à conclusão do post anterior, "Sinais", vou contar uma coisa que aconteceu mais ou menos uns 7 ou 8 anos antes dela: Minha visita ao templo central do Movimento Hare Krishna em São Paulo. Eu me lembrei disto exatamente por ter mencionado a figura de Krishna.

Foi lá que eu adquiri aquela imagem de Krishna, que como eu contei, foi completamente destruída. Acho que acabei me esquecendo de contar essa etapa da minha busca, porque ela não foi assim tão marcante. Por isso, agora, antes de passar à sequência cronológica do post anterior, faço um pequeno resumo de como foi essa experiência:

O templo ficava (acho que não está mais lá) na Avenida Angélica, região da Avenida Paulista, e era uma casa muito grande, com diversas salas bastante amplas. Fui com um amigo, que na época iria ser meu sócio numa empresa de distribuição de incenso (o negócio não deu certo)... Chegando lá, fomos recebidos por um monge muito gente boa (do qual infelizmente não me lembro o nome), usando aquele traje típico, que o pessoal costuma brincar dizendo que a calça parece “cueiro de nenem”...

Não tenho muito a dizer sobre esse dia, a não ser que fiquei mais ou menos umas três horas, ininterruptas, conversando com o monge, e o assunto não acabava. Interesses em comum, sabem como é...

Enquanto conversávamos, outros monges iam chegando, vindo do seu trabalho diário de vender incenso e livros nas ruas, com o qual sobrevivem, e se prostravam diante da imagem de Krishna. Depois que vários deles estavam reunidos, começaram a dançar e cantar alegremente, com pandeiros e chocalhos, entoando seu mantra que nunca termina: "Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare..."

Os caras procuram seguir os Vedas (escrituras hindus), ao pé da letra, mais ou menos como alguns grupos evangélicos mais radicais tentam seguir a Bíblia, só pra se ter uma noção. A diferença é que os costumes dos hindus são muito diferentes dos nossos, ocidentais, então fica aquela coisa super exótica...

Achei bastante interessante encontrar dentro do templo uma estátua à imagem do fundador do movimento, Sri Bhaktivedanta Swami Prabhupada, tão perfeita e realista que parecia ser o ancião, de verdade, sentado numa poltrona almofadada ali no canto. Chegava a assustar!


Também achei curioso o fato de eles manterem uma comunidade alternativa em diversas cidades do interior do Brasil, chamada “Nova Gokula” onde os devotos procuram seguir a vida monástica; esta sim, bastante parecida com a dos monges católicos ou budistas: Os monges são celibatários, fazem voto de pobreza e de obediência, entregam suas vidas ao seu senhor Krishna e não comem carne em nenhuma hipótese.

O fato mais marcante, que me lembro daquele dia, do meu diálogo com o monge, foi o seguinte:

H K Merton: - “Uma coisa que eu gostaria muito de entender melhor, é o porquê dessa forma de representar Krisnha, um ser com a pele azul, sempre ornamentado com muitos adereços e com sua flauta a tiracolo?”

Monge: - “Isso não é uma forma de representar o Senhor Krishna. Esta é a sua forma real. Ele realmente é assim...”

Esse diálogo eu gravei muito claro na memória porque até então eu achava que aquela forma tão diferente, azul e tudo mais, fosse apenas um jeito poético de representar essa grande encarnação, que eles acreditam ter vivido há 5 mil anos na Índia, e tendo permanecido entre nós por 125 anos.

Como nos últimos posts eu andei falando bastante sobre o Yoga, os Vedas, as Upanihsads, os Yoga Sutras e o Hinduísmo, de um modo geral, vou deixar pra esmiuçar os detalhes sobre essa ordem religiosa num momento oportuno, depois que terminar a primeira fase do Arte das artes. Pra quem quiser conhecer os princípios básicos da organização Hare Krishna no Brasil, basta uma pesquisa no site oficial, que eu deixei linkado no começo do post.



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Sinais

Publicado originalmente por H K Merton em 11 de Janeiro de 2007 às 5:10 PM

A experiência que vou contar agora é extremamente significativa. E muito importante para mim. É algo difícil de se avaliar, ou mesmo entender. E é muito pessoal. Por isso peço sobriedade a todos.

O ano é 2001. Como não poderia deixar de ser, eu andava um pouco decepcionado com essa história de Avatares e grandes mestres (depois de Osho, Sri Mataji, Ramana Maharishi, Sai Baba...). Mas, como já deve ter ficado claro, o orientalismo, em especial o Hinduísmo e as disciplinas do Yoga haviam me marcado profundamente. Eu achava muito sentido e coerência na sua maneira de entender a vida e Deus:

“Deus está em tudo - Qualquer forma de adoração é válida - Todos os caminhos acabam levando, inevitavelmente, ao mesmo Lugar - Não há o binômio Criador/criatura, só há Deus, e Deus é tudo - O homem exalta Deus como onipresente, onisciente e onipotente, mas ele ignora Sua Presença nele mesmo! - Cada religião esquece que Deus é todas as Formas e todos os Nomes, todos os atributos e asserções”...

Essa linha de pensamento me soava tão plácida, tão agradável e reconfortante... Diz que não precisamos ter trabalho algum... Bem no fundo, me dizia que toda aquela história de Busca era desnecessária, inútil. Tudo que eu tinha a fazer era relaxar... A vida por si só se encarregaria de me levar ao Caminho que eu tanto procurava... Tudo era permitido, não havia nenhuma necessidade de observância de regras morais de nenhuma espécie, nem disciplina alguma...

Mas algo estava errado... Se o Caminho é assim tão fácil, tão natural, se ele se abre espontâneamente para todas as pessoas, e a realização é o destino inevitável do homem, então por que há tanta infelicidade no mundo? E principalmente por que, por quê quando eu me colocava só e em silêncio alguma coisa dentro de mim gritava que havia muito a ser feito ainda, que nada é assim tão fácil e que o meu prazo estava se esgotando - e não havia mais tempo a ser perdido?

Um dia, as palavras saíram de minha boca, quase que contra a minha vontade: “Eu tenho algo a fazer, mas não sei o que é! Eu não encontrei ainda o meu caminho, não sei o que vim fazer aqui, e o meu tempo está se esgotando!..” Falei isso pro meu amigo Cleber Rocha (com quem poerdi contato - se algum dia vier a ler isso, um salve pra você, querido!), uma das raras pessoas para quem eu ousei abrir essas minhas intimidades, em toda minha vida. Ele me respondeu: "Mas o que mais você poderia fazer, afinal?"

Essa pergunta ressoou em meus ouvidos por muito tempo... Na hora da meditação, quando a agitação dos pensamentos se acalmava, ela surgia, desafiadora: “O que eu tenho que fazer?”... Já me pegava considerando a possibilidade de desistir de tudo. Toda uma vida buscando repostas, agora já me encontrava além da casa dos trinta, e mesmo assim nunca tinha sentido nem sombra das certezas que eu tanto desejava.

Sei que muitos me consideram maluco, por ter me atirado assim, de corpo e alma, tantas vezes abrindo mão dos prazeres desta vida, em prol de buscar algo que, em última análise, eu nem mesmo sabia se existia. Mas ao menos vocês, amigos do blog, tentem entender: Este era eu! Este sempre fui eu! Se não podia enxergar qual caminho seguir, ao menos uma coisa eu sabia: Devia continuar. Tive minhas fases de desânimo, e a que estou contando agora foi uma das piores, mas a certeza de que a Busca não seria inútil nunca me abandonou. Está em mim querer encontrar o que há além, o que não pode ser visto do lugar onde nos encontramos.

Uma vez eu disse que, se um dia eu viesse a perder completamente a minha fé na existência de uma Realidade maior, eu me atiraria do alto do edifício mais alto que pudesse encontrar. Assim, ao menos poderia realizar o sonho de voar, ainda que por alguns segundos, antes de me despedir deste mundo insensato. Isso faz parte da minha natureza, eu fui feito assim. Acreditar que a vida é apenas isso, que não passamos de sacos de carne e sangue, desfilando nossas insanidades por aí, significaria para mim o pior dos tormentos.

Nessa época, logo que fui morar com Hana, havíamos transformado nossa casa numa espécie de templo hindu, mas com referências também budistas e cristãs. Num dos cômodos da nossa casa, retiramos todos os móveis, colocamos um tapete no chão e muitas almofadas espalhadas. No centro, montei um cavalete com um quadro com uma imagem de Jesus místico, e na parede um belo retrato de Krishna sobre uma flor de lótus. Num pequeno altar que montamos, fixo no outro canto da sala, dia e noite queimávamos pequenas velas e incenso suave. A idéia era termos um lugar em nossa casa para nos sentirmos em paz, para meditar e/ou orar. Ficou muito bonito...

Nessa fase, em que andava atormentado pelas questões fundamentais da minha vida mais do que nunca, chegou um dia em que me recolhi para uma oração, e depois permaneci por um longo tempo em meditação profunda, esperando por respostas. E pedi, falando mais ou menos assim:

“Onde está a Verdade? Por que não consigo encontrá-la? Já tive em minha vida todas as provas de que precisava para saber que não estou me iludindo, ao persistir na Busca. Mais importante, eu sinto isso em cada fibra do meu ser, em cada uma das micro-partículas que compõem o meu corpo e no mais profundo do meu espírito... Mas eu não sei, agora, o que devo fazer. Não sei que direção devo tomar, nessa procura que parece não ter fim... Não sei mais o que fazer para encontrá-Lo, meu DEUS! Conheci muitos lugares, muitos mestres, muitos caminhos... E também muitos erros... O entendimento que me deste me ajudou a discernir muitas coisas, me permitiu ver o engano em diversas partes, mas ainda não posso ver o Teu real Caminho...”.

De olhos fechados permaneci ali, prostrado em cima daquele tapete, diante das imagens de Jesus e Krishna, por um longo tempo. "Olhava" com intensidade para dentro de mim mesmo, procurando angustiadamente por um sinal, uma resposta para as minhas dúvidas. “O que eu devo fazer? Qual é o meu caminho?”...

Finalmente me levantei e me retirei. Era uma tarde de sábado. Na sala vizinha, sentei no sofá e liguei a TV. Estava um pouco frustrado porque nada havia acontecido, nenhuma resposta havia surgido na minha mente, como muitas vezes me acontece após as sessões de meditação. E aí...

Não haviam se passado ainda 5 minutos, quando ouvi o ruído de alguma coisa caindo, e algo como vidro se quebrando, na “sala de meditação”! Hana não estava em casa, eu estava sozinho. Nessa época, eu não tinha nenhum animal de estimação, que pudesse provocar algum ruído no outro cômodo. Desliguei a TV e apurei a audição: Tudo quieto. Pensei em esquecer e voltar a ligar a TV, mas algo me dizia: “Vá ver...”

Levantei do sofá e voltei para a sala de meditação. E devo ter ficado pálido:

O cavalete com o quadro da imagem representando Jesus havia caído, tombando para o lado, e parou apoiado na parede. Acontece que o quadro de Jesus, ao cair para o lado, bateu exatamente em cima do retrato de Krishna, derrubando-o. Este caiu e se desfez no chão, em vários pedaços. Não só o vidro se espatifou como também a bonita moldura dourada havia se quebrado em muitas partes...

Fiquei estático. Seria minha resposta chegando, mais claramente do que jamais eu poderia sequer imaginar?

O que aconteceu, afinal?




Segue a minha análise, tão fria quanto possível:

1. Eu estava sozinho em casa, estava no outro cômodo e as portas estavam trancadas. Portanto, não existe a menor possibilidade de alguém ter derrubado o cavalete com a moldura de Jesus.

2. Naquela sala, que eu usava para fazer meditação, não passava nenhuma corrente de ar.

3. O cavalete onde o quadro de Jesus estava colocado era bastante firme, pesado e seguro. Além disso, a moldura do quadro era de madeira maciça bastante grossa, revestida de metal, além do vidro de proteção, um conjunto também pesado. Portanto, posso dizer que nunca, jamais, essa estrutura iria cair apenas pela ação do vento, mesmo que fosse muito forte, ou algo do tipo (isso se houvesse vento no local, o que, como já expliquei, não era o caso).

4. Pra quem não sabe, eu sou artista plástico, pinto telas e às vezes fabrico minhas próprias molduras. Sei que elas são fortes. Mas todo o quadro com a imagem de Krishna, a base, a moldura e o vidro, se quebraram completamente, apenas com aquela pequena queda, de uma maneira que não poderia mais ser consertado.

Depois de recolocar o cavalete com o quadro de Jesus na posição normal, fiquei parado por um tempo, com o que restara do quadro de Krishna na mão, tentando compreender o que havia acontecido, tentando racionalizar, mas não havia como explicar aquilo de um modo racional!

Então era isso? O Caminho definitivo a ser seguido era mesmo Jesus? será que chegava a hora de abandonar as minhas influências hindus?..



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