De volta ao espiritismo - parte 4

Publicado originalmente por H K Merton em 13 de Outubro de 2006 às 12:14 PM

Ainda não havia desistido de conhecer a religião espírita na prática. Na teoria, como já disse, eu conhecia mais que o suficiente. Como também já disse, algumas das pessoas mais interessantes que eu conheço são adeptas da fé espírita. Além disso, a idéia de uma religião que associa ciência e fé era para mim por demais atrativa. Na primeira parte desse post eu narrei minha visita a um centro espírita filiado à FEB, onde vivi uma experiência extremamente desanimadora. Imagino que muitos teriam desistido ali mesmo, formado um conceito negativo e se afastado de uma vez por todas desse caminho. Mas não eu. Na minha segunda incursão por este terreno tão misterioso, conheci um outro centro, dirigido por um “médium” charlatão, o que me fez entender o quanto é fácil usar a fé das pessoas contra elas mesmas. Mas eu ainda não tinha me dado por vencido. Resolvi partir para uma experiência que seria decisiva. Depois dela, eu seria capaz de chegar a conclusões definitivas sobre o assunto. Resolvi conhecer aquele que é considerado o maior centro espírita aqui de São Paulo e um dos maiores do Brasil, em todos os sentidos; fundado e liderado por uma das médiuns mais respeitadas, iniciada por Chico Xavier em pessoa: O Centro Espírita Perseverança, fundado e dirigido por Da. Guiomar Albanese.

Mas, antes de contar como foi... gostaria ainda de tratar de algo importante, que me aconteceu, relacionado diretamente ao tema espiritismo. Sei que eu havia dito que esta parte seria a conclusão do post. Mas existe essa outra experiência importante porque passei, da qual achei que realmente seria relevante falar. Sinto que devo publicar mais esse, antes do post conclusivo de “De volta ao espiritismo”. Pra compensar o atraso, tentarei postar a conclusão amanhã mesmo. Serei o mais breve possível nesse relato, porque pretendo concluir logo esse grande post. Aí vai:

Quando comecei a freqüentar a FEESP (Federação Espírita do Estado de São Paulo), assistindo palestras e fazendo cursos, como o de "Introdução ao Espiritismo" e "Mediunidade" e o de “Estudo do Livro dos Espíritos”, conseqüentemente fiz algumas amizades. Uma destas pessoas, sabendo que eu gostava de escrever e que tinha vários textos prontos sobre assuntos de espiritualidade, me recomendou uma editora espírita, que ficava justamente na região central de São Paulo, próxima a própria FEESP. Por um tempo refleti sobre o assunto. Mas, afinal, ter um livro publicado era um antigo sonho de adolescente, e assim, resolvi conhecer a tal editora. Entrei em contato por telefone e agendei horário para uma entrevista com o editor. No dia e horário marcados, fui até o local levando comigo uma pilha de folhas com textos em formato padrão. Bom, eu sempre escrevi muito, muito mesmo, desde a minha adolescência, e principalmente depois de começar a praticar meditação transcendental; quase sempre sobre temas espiritualistas: pequenos contos metafóricos, relatos de experiências interiores profundas, poesia, etc. Então não foi difícil fazer uma coletânea de alguns desses textos, os que eu achei mais interessantes, pra levar ao editor.

Chegando no lugar, uma grande casa onde funcionavam gráfica, livraria e um pequeno escritório editorial, fui recebido com muita atenção e cordialidade (o que não acontece normalmente em outros tipos de editora, isso eu sei). O tal editor (cujo nome não me lembro, e cujo cartão eu não acho), me pediu alguns minutos para analisar o material. Eu concordei e fiquei esperando. Depois de uns quinze ou vinte minutos, ele retorna com um grande sorriso no rosto e fala: “O material é ótimo! Podemos publicar, com boas chances de lucro! Esses lucros são modestos, a princípio, mas se com o tempo você se tornar um autor conhecido no meio espírita, aí já começa a se tornar possível viver só de escrever...” Eu assenti com a cabeça, animado, mas ponderei que o meu tipo de literatura na era necessariamente espírita, mas sim espiritualista, e que eu não tinha a intenção de me prender a nenhuma corrente religiosa ou filosófica. A resposta foi imediata: “Olha, eu só posso publicar os seus livros se você me disser que eles são psicografados. Eles foram psicografados, certo?”...

Bem, não preciso contar o final dessa história. Eu nunca psicografei nada. Meus textos foram escritos por mim mesmo. Euzinho da silva, e acho que ainda estou bem vivo.

Mas o que eu sinto que preciso dizer aqui, mesmo, é que se eu tivesse dito, ali naquele momento, que sim, que eu tinha "recebido" os livros por meio de psicografia, que o autor era alguém desencarnado há muito tempo... Bem, talvez hoje eu fosse um escritor espírita conhecido, vendendo muito e vivendo desse tipo de literatura. Bastaria eu ter dito: “Sim, esses textos são todos psicografados” (Imaginação para inventar um autor desencarnado interessante não me falta).

Até hoje, quando entro numa bookstore e vejo aquela estante enorme da sessão espírita, repleta de livros ditos psicografados, eu penso nisso. E eu também tento entender: Porque as palavras de alguém que já morreu devem ser consideradas mais importantes do que as de alguém que está vivo, pensando e existindo no aqui-agora? Na prática, é isso que acontece.

No próxima, quinta e conclusiva parte desse post: Dona Guiomar e o Perseverança. Não percam a fé...



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De volta ao espiritismo - parte 3

Publicado originalmente por H K Merton em 10 de Outubro de 2006 às 10:26 AM

Claro que eu não deixaria que uma primeira impressão me afastasse assim, de modo tão definitivo, de uma religião seguida por tantos amigos e pessoas interessantes que conhecia. Ainda mais porque essa religião parecia trazer casos importantes, de evidências concretas, da continuidade da vida após a morte do corpo físico. Desde a minha infância a religião espírita me intrigava, e eu não iria me deixar convencer por uma só experiência negativa. Portanto, resolvi seguir a indicação de uma amiga e fui conhecer um outro médium, que segundo me informaram era clarividente e capaz de se desdobrar no plano astral, além de ser um ótimo palestrante. O nome dele era (e é ) Moisés Esagüi. “Haverá uma palestra no Centro, com o Moisés, no próximo sábado, às duas e trinta!” – Disse essa amiga espírita - “Ótimo. Iremos juntos!” - foi a minha resposta.

Chegado o dia, lá estava eu (Não vou divulgar o endereço). O Centro era uma casa, um grande e bonito sobrado antigo, transformado numa espécie de escola, com uma sala de espera na entrada, uma pequena biblioteca e um pequeno salão de palestras logo depois. O lugar estava apinhado de gente. Logo ao chegar, fomos interpelados por algumas moças, que serviam como ajudantes, que nos deram fichas para preenchermos com nossos nomes, endereços e telefones. As palestras aconteciam no salão, naquele momento completamente lotado! Pessoas se espremiam também num corredor do lado de fora da casa, disputando um lugarzinho na janela do salão! Do lado de dentro, todas as cadeiras ocupadas, e muita gente acomodada pelos cantos, no chão, e outras em pé, encostadas na parede do fundo. Minha amiga e eu tivemos também que nos ajeitar em pé, no último espacinho vago, logo atrás da porta. Apesar de apertados, dali teríamos ótima visão e audição da palestra toda.

Depois de algum atraso, entra o tal Moisés Esagüi. Sujeito magro, baixo, franzino, cabelos escuros encaracolados. Óculos com lentes finas, de aros dourados, e um ar tranqüilo. Usava calça social e camisa de flanela xadrez. Cumprimenta a platéia com uma voz suave, e com uma fala pausada e muito mansa, quase sussurrada, ele anuncia que o tema da palestra seria Projeção Extra Corpórea. Ouve-se um coro de “Oooooooohhhhh...” baixinho, ecoando pelo ambiente. Olho para os lados, todos os olhos estão brilhando. O homem é quase idolatrado!

Ele resolve iniciar a palestra dando um exemplo do que é possível se fazer por meio da projeção ou desdobramento astral: Conta que certa noite foi acordado em sua cama por espíritos superiores, que precisavam e pediam a sua ajuda para auxiliar um detento, que se encontrava desesperado em sua cela, se preparando para cometer suicídio. E que então ele, Moisés Esagüi, saiu do corpo físico e se transportou à velocidade da luz até a cela onde o condenado já estava com uma corda enrolada no pescoço, pronto para dar termo à própria vida. Como não sabia o que fazer para demover o homem de sua triste determinação, teve uma idéia brilhante: Tomar uma forma visível, de alguém que o coitado com certeza iria ouvir e respeitar. E assim, o (super) médium se plasmou ali, dentro de uma cela de penitenciária, com a forma física de Jesus Cristo!

Mais uma vez eu ouço um “Oooooooohhhhh...”, dessa vez ainda mais entusiasmado. Os olhinhos dos presentes brilham ainda mais. “Isso explica tudo”, continua o palestrante – “Toda vez que alguém diz que viu santos, anjos ou etês, vocês podem ter certeza que se trata de algum espírito brincalhão pregando uma peça. Lógico que eu só fiz isso pra poder salvar a vida daquele pobre homem. Quando ele me viu, sob a forma física de Jesus, na mesma hora achou que era um Sinal dos Céus e desistiu da idéia de se matar... Hoje ele é evangélico...


Aaaaaaaaaaahhhhh...”, fazem todos. Eu olho para minha amiga. Ela me espia de canto de olho. Uma moça sentada numa das cadeiras da primeira fila diz: “Então quer dizer que você pode sair do corpo, tomar a forma que quiser e aparecer pra qualquer pessoa?” – Ao que Moisés prontamente responde, fazendo pose de importante: “Ah, sim... qualquer um pode fazer isso, se souber como! Aliás, a partir deste mês eu vou começar a ministrar um curso sobre desdobramento astral, com um custo bastante acessível. E pra quem já faz o curso de ‘cura por imposição das mãos’, comigo, tem um desconto de 20%! Mais informações com minhas secretárias, no final da palestra”... Todos se mostram super empolgados, e alguns já começam a perguntar pela quantidade de vagas. Eu só observo e penso “Meu Deus, como é fácil enganar tantas pessoas, que, a seu próprio modo, estão buscando, como eu...” Imediatamente algo me diz que não. Estas pessoas não estão buscando como eu. Elas simplesmente querem se sentir confortáveis. Querem eleger como mestre ou guru alguém que lhes diga o que querem ouvir, que morrer não é o fim, e que elas são eternas. Querem alguém que lhes diga que elas têm superpoderes, que não precisam lutar para conquistar coisa alguma, ou trilhar um Caminho estreito. Querem um caminho largo, fácil, agradável... A Verdade? A Verdade pra elas é um fator secundário, de menor importância.

Eu já ia embora, afinal não tenho tempo a perder, e a única coisa que poderia aprender ali seria a arte da enganação. Mas, antes, resolvi provar pra minha amiga que ela estava se iludindo, naquele lugar. O “grande médium” agora falava da presença dos espíritos obsessores, que estão por todos os lados, que eles aparecem em todos os lugares, sempre ao nosso redor, prontos para nos prejudicar, nos “puxar” pra um nível vibratório inferior. Que a maioria das doenças físicas e vícios era provocada por esses espíritos sofredores e blábláblá... Uma senhora no canto da sala disse que sentia fortes dores nas costas, que os médicos não conseguiam diagnosticar, e perguntou se o palestrante podia “ver” alguma coisa. No mesmo instante ele disse que sim, estava vendo uma presença negativa nas costas dela. Novo “Oooooooohhhhh...”. A pobre senhora se apavorou, mas o "nobre" homem rapidamente lhe assegurou que depois iria explicar para ela, em particular, o que teria que fazer para se livrar do espírito inconveniente. Então eu puxei minha amiga e sussurrei ao seu ouvido: “Vou fingir que estou mal”. Ela me olhou, confusa. Entortei o pescoço para o lado direito, e comecei a encenar uma expressão de dor.

Dou minha palavra a vocês, não foi preciso mais nada: Em menos de cinco minutos, Moisés Esagüi, observando minha expressão e minha postura, disse: “Por exemplo, tem um rapaz aqui dentro que está com um espírito bem ao seu lado, agora, que o obriga a pender o pescoço para o lado. Isso acontece porque...

Eu ri alto, endireitei o pescoço e puxei minha amiga pra fora da sala. Chegando na sala de espera, uma das secretárias, uma loura bonita, me perguntou pela fichinha com meus dados, e eu respondi: “Não vou entregar meus dados pessoais pra vocês”. Já do lado de fora, perguntei pra minha amiga: “POR QUÊ? POR QUE VOCÊ É ASSIM TÃO INGÊNUA?”?..



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De volta ao espiritismo - parte 2

Publicado originalmente por H K Merton em 04 de Outubro de 2006 às 11:46 AM

Quando cheguei ao centro espírita mencionado no post anterior, no Bairro da Mooca, em São Paulo, cujo nome e endereço prefiro omitir, encontrei um alto muro pintado com cal tingido de amarelo, e um portão de ferro por cujas frestas se podia visualizar, no lado de dentro, uma ampla área livre. No papel que eu tinha em mãos, constava um horário de sessões às 15 horas, todas as terças feiras. Toquei a campainha e fui de pronto recebido, por uma moça toda vestida de branco, com grande amabilidade e simpatia. O centro em questão era nada mais que uma antiga casa térrea, bem ao estilão “retrô” típico da década de 70, com esse grande quintal gramado na frente e um jardim muito bem cuidado. Ao fundo do terreno havia um salão que mais parecia uma estufa para o cultivo de plantas, com as paredes da frente todas em vidro, e muitas samambaias e outras plantas ornamentais pendendo do beiral de madeira que ficava rente ao telhado. Essa moça me pediu que esperasse numa ante-sala, uma espécie de quartinho, de onde podia ver, pela janela, o salão principal, e através das suas paredes de vidro podia ver também a atividade das pessoas lá dentro, em volta de uma mesa comprida, com uma toalha branca, vasos com flores e alguns copos com água.

Até então, ninguém havia me perguntado absolutamente nada, apenas me cumprimentaram com um “boa tarde” e depois pediram que aguardasse, que a sessão já ia começar. Também não questionei nada, afinal estava ali para aprender, mesmo... Fiquei sentado aguardando por algo em torno de 15 minutos, mais ou menos o tempo que faltava para o início da sessão. Quando chegou a hora, uma senhora veio até o quartinho onde eu estava e me convidou para entrar no salão de vidro.

Entrei e vi que haviam reservado um lugar para mim à mesa. Estranhei aquela atitude, porque afinal eu não me manifestara com intenção de participar da sessão, nem me declarara espírita, nem nada. Na verdade, como já disse, nenhuma pergunta me foi feita. Apenas me disseram que duas médiuns participariam da sessão: Uma que psicografava mensagens do além, e outra que costumava incorporar (e falar com as vozes de) espíritos desencarnados. E que se eu tivesse algum problema pendente, muito provavelmente não sairia dali sem uma resposta. Imediatamente pensei: “A ocasião é perfeita!” – Como mencionei no post anterior, o meu momento era extremamente difícil, eu me encontrava emocionalmente arrasado, por conta do fim de um relacionamento (Eu estava mesmo muito chateado, irritado, aturdido, procurando uma saída).

Entrei e a sessão começou. Foi colocado num antigo aparelho de som uma fita k7 com a música Ave Maria, de J. S. Bach, rolando sem parar; terminava e começava novamente a mesma música. As luzes foram apagadas, as cortinas se fecharam e o ambiente foi tomado por uma penumbra suave. A dirigente do centro, sentada à cabeceira da mesa, convidou todos os presentes a rezar um “Pai Nosso”, e logo em seguida uma “Ave Maria”. Depois das orações feitas, ela pediu que todos fechassem os olhos e elevassem o pensamento a Deus. Eu fechei meus olhos, e, depois de alguns minutos, comecei a ouvir um ruído de sussurros ecoando ao redor do ambiente. Todos estavam orando baixo, e o que se podia ouvir era uma profusão de cochichos pelo ar. Estavam presentes à reunião cerca de oito ou dez pessoas, aproximadamente. Chegou um momento em que o tom e o volume das vozes de todas essas pessoas, recitando orações ao mesmo tempo, começou a se elevar, chegando a ficar incômodo. Mais alguns minutos e o ruído voltou a se acalmar. Foi nesse exato instante que eu percebi que aquela senhora que se dizia psicógrafa, que estava sentada bem ao meu lado, começava a puxar folhas de papel sulfite de uma pilha e a rabiscar grandes letras em várias delas, uma após a outra, num ritmo frenético. Logo em seguida, a outra senhora, da qual haviam me dito que incorporava espíritos começou a falar sem parar, primeiro palavras ininteligíveis, e depois algumas frases desconexas. Num dado momento, ela começou a falar com uma voz como que de criança, perguntando pelo papai e pela mamãe. Continuamos todos imóveis, em volta daquela mesa, por cerca de uns quarenta minutos ou um pouco mais. Por fim, a sessão se encerrou e terminamos novamente com orações.

As luzes se acenderam, todos se cumprimentaram, e a senhora que escrevia nas folhas de papel começou a ler em voz alta o que havia escrito. Eram diversas mensagens simples, frases de otimismo e chamados à fé cristã. Numa das últimas folhas, ela me disse que havia recebido uma mensagem dos espíritos superiores que deveria ser lida para mim! Imediatamente pensei: “Será que agora eu vou ter uma prova definitiva da autenticidade dos fenômenos espíritas?” – Um breve momento de tensão, ela ajeitou os óculos sobre o nariz e então começou a leitura. O conteúdo era o seguinte:

“O 'moço bonito’ que veio nos visitar atravessa um momento maravilhoso na sua vida, ele não veio procurar respostas para os seus problemas, veio para ajudar. Hoje foi a primeira de muitas visitas, a partir de hoje ele se tornará um freqüentador constante. Nosso conselho é que ele se esforce para manter esse estado de alegria em que se encontra, para que a sua fé seja constante e para renovar-se, diariamente, em festa de amor e luz”.


O que eu achei de tudo:

Bem, posso deixar aqui o meu testemunho de que aquela senhora, que supostamente incorporava espíritos desencarnados, em momento algum falou com uma voz que não fosse a dela própria. E no instante em que começou a falar com voz de criança... Bem, eu posso afirmar sem medo de errar que ela estava na verdade tentando imitar a voz e o jeito de falar de uma criança. Até porque crianças não tentam falar “fino”. Elas falam assim porque suas vozes são naturalmente agudas, devido à conformação física das pregas vocais e da laringe. Portanto, se o espírito de uma criança viesse a falar por intermédio de um corpo físico adulto, a voz sairia com o mesmo timbre da voz desse adulto, falando normalmente. A diferença estaria no modo de se expressar, evidentemente. Além disso, todos os supostos espíritos que incorporaram na suposta médium durante a sessão tinham os mesmos vícios de linguagem da própria médium. Todos esses "espíritos" usavam repetidamente o termo “com certeza", por exemplo. Exatamente a mesma expressão que a suposta médium tinha mania de repetir, em praticamente todas as frases que dizia. Então, só posso concluir que, se pessoas “desencarnadas” realmente falaram por meio desta senhora, por alguma incrível coincidência, todos eles tinham os mesmos vícios de linguagem que ela.

Quanto a psicografia... Bem, no que dizia respeito à minha pessoa, não podia estar mais errada. Como já disse, eu atravessava um momento realmente muito difícil, meu espírito se encontrava agitado, ressentido, abalado. Portanto, dizer que eu atravessava “um momento maravilhoso...” nada mais distante da verdade. Dizer que eu não estava ali em busca de respostas, mas sim para "ajudar" também era totalmente equivocado. A verdade era o contrário disso. E talvez o erro maior tenha sido dizer que “Hoje foi a primeira de muitas visitas, a partir de hoje ele se tornará um freqüentador constante...” – Na verdade, eu nunca mais voltei àquele lugar.



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De volta ao espiritismo

Publicado originalmente por H K Merton em 03 de Outubro de 2006 às 9:41 PM

Agora que eu havia tomado uma decisão, ainda que provisória, sobre o modo como cuidaria da parte prática da minha vida, e agora que finalmente assumira, para mim mesmo, minhas reais prioridades, encontrei o tempo de que precisava para continuar a Busca.

Iniciei uma fase muito produtiva. Agora que já tinha bases bem sólidas para usar como parâmetros, resolvi que teria que reiniciar essa Busca como se fosse do "zero". Através das práticas meditativas conquistara uma única certeza: Sou nada e nada sei. O ser humano deixa de aprender e evoluir no exato instante em que começa a pensar que já sabe o suficiente. Manter-se consciente da própria insignificância é condição indispensável para qualquer um que se disponha a aprender. E lá estava eu de volta na "estrada".

Eu já tinha conhecimento sobre muitas religiões e mestres, do muito que lera nos livros e pesquisara pelas bibliotecas da vida. Mas, como eu tenho por princípio não me considerar conhecedor de nada que eu não compreenda realmente, só me permitia definir qualquer conclusão a respeito de alguma doutrina depois de tê-la investigado a fundo: para formar opinião, precisava conhecer o lugar, o templo, seus líderes ou sacerdotes, o culto, a doutrina e todos os seus rituais. Por isso, naquele momento eu percebia que, sendo eu brasileiro, havia uma lacuna no meu “currículo” de buscador que precisava ser urgentemente preenchida. Precisava conhecer o espiritismo. Se houvesse verdade nessa doutrina, eu iria descobrir. Com pureza de coração e verdade na alma.

Sobre a história do espiritismo, sua doutrina e seus fundamentos, eu já sabia praticamente tudo que há para se saber, do muito que pesquisara. Provavelmente eu não tinha me interessado antes em conhecer mais de perto essa religião pelo fato de ter escolhido conhecer primeiro as mais antigas instituições religiosas do mundo: O Cristianismo; nas formas de catolicismo, protestantismo, pentecostalismo e neo-pentecostalismo. Depois, as principais escolas de meditação (num primeiro momento, ainda desvinculadas de suas origens religiosas). E então o budismo. Como já disse, paralelamente à essas experiências, eu ia formando, através do estudo, as bases do meu conhecimento a respeito de outras religiões, entre elas o brahmanismo, o judaísmo, filosofias esotéricas, religiões ameríndias e outras.

Pois bem. Meu primeiro passo foi procurar a Federação Espírita Brasileira, cujo braço aqui em São Paulo é o FEESP, que fica na Rua Maria Paula, Bairro da Bela Vista. Ali mesmo assisti algumas palestras, com o objetivo de consolidar meus conhecimentos a respeito da religião que vem crescendo tanto aqui no meu país, devagar mas solidamente, ao que parece. Na própria federação, adquiri alguns endereços de centros “kardecistas” filiados. Os outros tipos de "centros" considerados espíritas, como os de umbanda, quimbanda e candomblé, realmente nunca me interessaram. Uma seita cujos terreiros se prestam a atender quem os procura com o objetivo de fazer o mal ao próximo não merece o título de religião (re-ligare), e também não vale o tempo de se conhecer, a não ser, talvez, por uma questão de pura curiosidade.

O centro a que fui indicado ficava no bairro da Mooca. E lá fui eu atrás de conhecimento e Verdade. Como sempre, antes de me dirigir ao local, fiz uma oração pedindo orientação. Pedi que se ali estivesse a Verdade que eu tanto buscava, que eu tivesse a sensibilidade para perceber, e se fosse o caso, fazer daquele o meu caminho definitivo.

Uma detalhe interessante e que tem muito a ver com as conclusões a que eu haveria de chegar: Exatamente no dia em que programara minha visita ao centro, aconteceu algo muito desagradável: Levei um fora de uma namorada com quem já me relacionava há alguns meses, e fiquei emocionalmente arrasado. Só não desisti de fazer a visita naquele dia porque achei que, além de tudo, seria uma ótima maneira de mudar o foco dos meus pensamentos.



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Escolhas

Publicado originalmente por H K Merton em 29 de Setembro de 2006 às 8:49 PM




Se eu quisesse ser um padre cristão, teria que fazer voto de pobreza. Se eu quisesse ser um monge budista, teria que abrir mão de todos os confortos materiais, de um modo até mais radical, e também fazer voto de pobreza. Eu não me interessava intensamente, de verdade, por nada, absolutamente nada, que não fosse a Busca essencial. Eu não conseguia me concentrar em nada além disso. Tinha outros interesses, claro, mas nada tão a sério. E não me conformava em ver a indiferença das pessoas com relação às coisas que tão obviamente eram as mais importantes da vida. Quando comecei minhas práticas meditativas, por exemplo, tomei conhecimento de uma outra realidade, um estado de mente mais elevado, superior. Fiquei empolgado com a minha descoberta, e quis compartilhar com o mundo! Mas qual não foi minha surpresa (e decepção) ao descobrir que ninguém estava muito preocupado em evoluir, descobrir-se, “conhecer a si mesmo”, como já aconselhara Sócrates, aproximadamente 2.500 anos atrás. Cada ser humano ao meu redor simplesmente parecia satisfeito em viver sua curta e medíocre vida, sem se importar com nada além de conseguir e manter um bom emprego, para poder pagar contas - as contas das coisas consideradas indispensáveis, simplesmente porque era assim o costume dos humanos, desde tempos imemoriais.

Então era isso: Nascer, crescer, se reproduzir e morrer. E tentar fazer isso da maneira mais confortável possível. E pensar não é muito confortável. Estudar, para a maioria, só para conseguir um diploma. Diploma para conseguir um bom emprego. Bom emprego para poder comprar coisas. Coisas que atraem mulheres. Mas, na minha sociedade, eu só posso ter uma mulher. E sobre isso, pra falar a verdade, ainda que eu pudesse ter mais, acho que não ia querer. Sei muito bem que uma mulher só na vida de um homem já é mais que suficiente. Talvez alguns homens pensem o contrário, que seria divertido ter muitas mulheres, mas é só porque quando dizem “mulher”, não estão pensando em esposas, no sentido da palavra, mas sim em escravas sexuais, todas lindas e cheias de glamour, sempre dispostas a satisfazer os desejos do seu “amo”.

Bem, então, se a vida é só isso, então qual a diferença entre ter e não ter? Qual a diferença entre os ricos e os pobres?

Desde cedo eu enxerguei muito claro que a única diferença entre as classes sociais é que uns vivem em gaiolas de ouro, outros em gaiolas de arame e alguns em gaiolas de bambu. Todos escravos de um sistema desumano e irracional. E o pior de tudo é que a maioria nem sequer se dá ao trabalho de questionar essa situação miserável.

Tudo bem, você pode argumentar que viver numa gaiola de ouro tem lá as suas vantagens. E eu reconheço que talvez sim. Até porque o problema não está no dinheiro em si, mas na forma como temos que vender nossas almas ao diabo para poder tê-lo. Isto é, para um cara que não nasceu rico, qual a única maneira segura e honesta de ficar rico? TRABALHO, TRABALHO, TRABALHO... 12, 14, 16, 18 horas por dia (olha que eu sei do que estou falando). Se alguém aí conhecer uma outra maneira, além de ganhar na loteria ou dar o golpe do baú, sou todo ouvidos. Isto é que eu chamo de "vender a alma" por dinheiro, simplesmente porque você deixa de ser si mesmo em prol de gerar riqueza. O dinheiro exige de você todo seu tempo, todas as suas energias, seu pensamento, tudo que você tem de melhor, enfim. Assim você até consegue ficar rico. Em troca da sua alma...

Literalmente, troca-se a evolução do ser pela involução do ter. Por que será que os grandes homens de todas as religiões, praticamente sem exceção, ou eram ou se fizeram pobres?

“É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha que entrar um rico no Reino do Céu” - Matheus 19:24 e Lucas 18:25.


É uma afirmação clara, explícita, taxativa. Sim, sim, eu sei que uma série de “gurus da nova era” já se desdobraram para tentar suavizar essa frase, dizer que talvez o “fundo de agulha” em questão fosse o nome com que chamavam um determinado tipo de porta nos muros da cidade de Jerusalém, outros dizem que a palavra “camelo” significaria um tipo de corda usado na época, etc, etc... Mas eu não tenho mais o direito de acreditar em alguma dessas fábulas, agora que o meu conhecimento é suficiente para entender e saber, acima de qualquer sombra de dúvida, que a afirmação quer dizer exatamente o que parece que ela quer dizer.

E além disso mesmo que houvesse a mais remota possibilidade de o sentido dessa frase fosse algum outro, mais suave e menos discreto, o que não há, ainda assim seríamos obrigados a considerar que essa não foi a única afirmativa de Jesus no sentido de condenar os que dedicam suas vidas a construir riqueza. Ele diz que não podemos ter dois senhores, Deus e o dinheiro, porque haveremos de amar um e odiar outro (Matheus 6:24 - Lucas 16:13); além de nos exortar a guardar nossos tesouros no Céu, e não na Terra, “porque, onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”, e deixa muito clara a sua posição em relação às riquesas deste mundo: “Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação” - Lucas 6:24. / “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo que tens e dá aos pobres. Depois, vem e me segue” - Matheus, 19:20-21.

A verdade nua e crua é que há muitas e muitas passagens muito claras no Novo Testamento condenando os ricos, e de forma inapelável. - Isso me lembra o título de um livro muito interessante que eu li: 'Coisas que Eu Gostaria que Jesus Nunca Tivesse Dito'...

Mas um tal de Sidarta Gautama, chamado Buda, também andou afirmando coisas bem parecidas com essas. Ele, ao descobrir que no mundo existiam miséria, doença, dor e sofrimento, deixou seu título de nobre e todas as suas riquezas, para se empenhar de corpo e alma na busca da libertação. Francisco de Assis, quando ouviu o chamado do próprio Cristo, abandonou tudo que tinha (até as roupas do corpo); ele, que havia nascido rico, para dedicar-se em tempo integral à “reconstrução” da Igreja e o serviço aos pobres. Assim também diversos “homens santos” hindus, assim também Mahatma Ghandi, Ramana Maharshi, Teresa de Calcutá, etc, etc, etc...

Parece que todos que viram a Verdade, de alguma forma, simplesmente deixaram de dar importância ao dinheiro, aderiram a um estilo de vida absolutamente minimalista, e foram muito mais felizes. Seres humanos realizados, mesmo.

Quanto a mim, ainda que de uma forma quase inconsciente, aos poucos, fui deixando de lado minhas expectativas de sucesso material, em prol daquilo que realmente me interessava. Conclui o ensino médio e resolvi dar um tempo com os estudos. Arranjei um trabalho como bancário, em meio período, e fui cuidar de fazer o que tinha nascido para fazer: Procurar o Autor da Vida.


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Amor: A Resposta!

Publicado originalmente por H K Merton em 26 de Setembro de 2006 às 9:45 PM

Budismo não seria o Caminho. Ao menos para mim, ao menos por enquanto. E agora? Será que o Caminho para a Verdade não está nas religiões? Não me encontrei no Cristianismo, nem no católico nem no protestante/evangélico. Não me encontrei no budismo. “Me encontrei” fazendo meditação, sim, mas me parecia que não era suficiente. Precisava de um caminho definido, estruturado, uma rocha firme onde me apoiar ou uma bússola que me mostrasse onde ficam o sul e o norte; precisava saber o que estava fazendo e o que deveria fazer, e porquê. Queria encontrar um mestre, um guru, sei lá, alguém que me apontasse o Caminho. Além disso, ainda havia uma questão martelando em minha mente de sincero buscador: Sempre me lembrava da maneira especial como havia chegado até a Igreja Evangélica. E me sentia culpado por estar agora buscando DEUS em outros caminhos. Me sentia às vezes como se o próprio DEUS houvesse me mostrado o Caminho que queria para mim, e eu tivesse rejeitado. Me sentia culpado, ainda tinha medo do castigo.

Minha primeira experiência com a Bíblia, a maneira como primeiro travei contato com o que eu chamo de meu Primeiro Pilar, extremamente traumática, ainda estava guardada dentro de mim, ainda me perturbava, me tirava a paz. Por muitas vezes, me sentia perturbado durante a meditação, imaginando se eu não havia rejeitado o Caminho verdadeiro, no momento em que abandonei as igrejas evangélicas.

Entrei numa fase especialmente conturbada, pensando nessas coisas. Minha consciência não encontrava a paz. Um belo dia, quando essas questões todas me assombravam intensamente, resolvi dar um passeio pelo centro da cidade de São Paulo. Remoía dentro de mim as mesmas dúvidas. Por um lado, pensava que não deveria ter medo de nada, mas lembrava de uma das passagens bíblicas preferidas pelos evangélicos que eu conhecia: O Temor do Senhor é o Princípio da Sabedoria”. E agora? Devo ou não ter medo? O medo é bom ou atrapalha? E até que ponto? E eu deveria sentir medo por causa das minhas escolhas?

Estava vindo da Galeria do Rock, e resolvi entrar numa das lojas "Livrarias Loyola". Pensava em abrir um exemplar da Bíblia, que eu não lia já há muito tempo, e ler alguma passagem, na esperança de encontrar orientação sobre o que fazer.

Entrei na loja, folheei algumas publicações interessantes... Então me encaminhei para a seção de Bíblias, com o pensamento intensamente focado nessa questão que me perturbava. Antes de chegar à prateleira das Bíblias, percebi, em cima de um balcão, um pequeno cesto artesanal com alguns cartõezinhos coloridos dentro. Peguei um deles, o que estava em cima de todos, espalhados aleatoriamente. E tive uma grande e linda surpresa! Ali naquele cartãozinho estava a exata resposta que eu estava procurando:


Eu trouxe o cartão pra casa, aí está ele...


Eu imediatamente entendi que a mensagem era para mim, uma mensagem que era muito clara. Era como “ouvir” DEUS falando diretamente comigo! Trouxe o cartãozinho comigo, e o guardo até hoje...

A Bíblia está dividida em mil cento e oitenta e nove capítulos, subdivididos em trinta e um mil e cento e dois versículos. - A cidade de São Paulo é considerada a quinta maior metrópole do planeta e a terceira mais populosa. Quais as chances de um homem que caminha no centro dessa cidade gigantesca entrar, por acaso, exatamente nessa determinada loja, entre milhares de outras, e dentro dessa loja se dirigir exatamente ao lugar onde, "por acaso", há um pequeno cesto com cartões contendo versículos bíblicos aleatórios, e, também por acaso, pegar exatamente o cartãozinho que contem o versículo que tinha a perfeita resposta para a dúvida que o atormentava naquele exato momento?

Esta não foi a única vez que algo assim me aconteceu. Mas foi uma das mais marcantes. Dei graças e parti para continuar minha caminhada. O tempo urgia, e eu tinha que achar minhas respostas. E agora já podia descartar o medo irracional.



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Eu, budista

Publicado originalmente por H K Merton em 22 de Setembro de 2006 às 8:17 PM


Eu levava a Busca REALMENTE muito a sério. De verdade. Por isso para mim não bastava apenas estudar, ler livros, participar de cursos e seminários, apreciar as religiões e filosofias como quem olha peixinhos num aquário. Eu queria encontrar a Verdade, eu queria vivê-la, experimentá-la, “me tornar um” com ela. Eu não estava disposto a escolher uma ideologia como quem escolhe a cor da roupa que vai vestir. Eu não queria “brincar” de ser budista; se eu viesse a entender que o Caminho era este, então me tornaria um monge. Pode parecer estranho, e sei que hoje meu comportamento seria diferente, mas este era o meu modo natural de ser. E lá fui eu, estudar o budismo. Mais uma vez, “enfiei a cara” nos livros sobre o assunto, para ao menos tentar entender as bases, os princípios por trás daquele modo de vida que me parecia tão atrativo. Comecei do começo, como é do meu costume.

Sakiamuni. Sidarta Gautama. O Iluminado. Buda. Não vou contar aqui a história, ao menos por hora, mas ela já foi exaustivamente contada e resumida em outros lugares. Na verdade, muito pouco se sabe a respeito desse controvertido personagem, sobre o que é histórico e o que é pura lenda. Mas me chamou muito a atenção o fato de os budistas simplesmente não se importarem com isso. Lhes basta seguir “O Caminho do Despertar”.

Depois de estudar e me encantar com a saga do Buda histórico, procurei os grandes templos, para conhecer de perto a realidade do universo budista. Conheci monges, abades e reverendos de diversas linhas: "Theravada" (do páli 'Ensinamentos dos Antigos'; escola do grupo 'Sthaviravada', fundada pelo monge Moggaliputta Tissa), "Mahayana" (do sânscrito 'Grande Veículo'; movimento surgido por volta dos séculos I/II que procura valorizar a libertação de todos os seres através da compaixão dos 'Bodhisattvas'), Vajrayana ( do sânscrito 'Veículo de Diamante'; forma esotérica do buddhismo Mahayana, baseada nos ensinamentos dos 'Tantras')... Fiz especiais amizades na "Comunidade Budista Soto Zenshu" - Templo Busshinji, no bairro da Liberdade, em São Paulo, na "Associação Religiosa Nambei Honganji" e no "Centro de Dharma da Paz Shi De Choe Tsog" – Budismo Tibetano. Mas foi no Templo "Higashi Honganji", no Bairro da Saúde, em São Paulo, que me matriculei no curso de formação em budismo. E foi nesse mesmo templo que eu conheci o homem que se tornaria para mim um verdadeiro guru, e me ensinaria, da maneira mais profunda e verdadeira possível, o que significa ser budista, na prática.

Nesse estágio, eu meditava na escola Soto Zenshu, e estudava no Higashi Honganji, com os Reverendos Neves e Imai. O ambiente dos templos era para mim simplesmente arrebatador, em termos de paz e serenidade; era simplesmente impossível permanecer nestes lugares sem me sentir invadido por uma sensação de intensa tranqüilidade e quietude. Quanto mais estudava, eu entendia que o Budismo, de um certo modo, provavelmente é o mais próximo possível da Verdade que os esforços humanos podem chegar.

Mas eu tinha problemas com a questão ritualística. Se o budismo se pretende uma “ciência” da alma, então porque tantas formas e alegorias? Isso me incomodava. Toda aquela infinidade de Budas e Bodhisattvas, todo o folclore... Havia a questão da devoção ao "Buda Amida" (divindade japonesa que governa a região da felicidade, o Céu. É um dos cinco 'Niorais' ou 'Budas da meditação'; personifica a inteligência da prédica, e a caridade no amor). A única tradição que não possui este conceito é a Theravada. Sobre esse ser mítico não há muito consenso entre as linhas budistas, mas, num certo sentido, é ensinado que dependemos dele para nos iluminarmos. Os que já me conhecem podem imaginar que eu não me sentia nem um pouco a vontade com idéias como essa. E havia ainda a questão da reencarnação**. Como e porque crer e ter como verdade indiscutível algo que não podemos saber, realmente (pelo simples fato de que nunca experimentamos)? Afinal, ciência é isto, aceitar apenas o que se pode provar. Se fosse para aceitar preceitos tradicionais puramente pela fé, eu nunca teria deixado o Catolicismo, que era a religião dos meus pais. Minha idéia de ser padre não vingou por causa desse tipo de coisa, lembram-se? Até que ponto eu era capaz de engolir alguma coisa que já chegava pronta e mastigada, como verdade absoluta?

“Não acrediteis em coisa alguma apenas por ouvir dizer. Não acrediteis na fé das tradições só porque foram transmitidas por longas gerações. Não acrediteis em coisa alguma só porque é dita e repetida por muitos. Não acrediteis em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo. Não acrediteis em coisa alguma só porque as probabilidades a favorecem ou porque um longo hábito vos leva a tê-la como verdadeira. Não acrediteis no que imaginastes, pensando que um ser superior a revelou. Não acrediteis em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes. Aquilo, porém que se enquadrar na vossa razão, e depois de minucioso estudo for confirmado pela vossa própria experiência, conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas, a isso aceitai como Verdade. E daí pautai a vossa conduta!" - Kalama Sutra, 17:49

Apesar destas famosas afirmativas do próprio Buda, na prática não era isso o que acontecia na maioria das ordens budistas que eu conheci. Nunca foi da minha natureza seguir rituais às cegas, sem saber exatamente o que estava fazendo e porquê.

Eu havia manifestado, claro, meu interesse em me tornar monge a este admirável homem que mencionei, o reverendo Neves. Num belo dia ele me olhou bem nos olhos e me disse: “Gafanhoto (brincadeira, ele falou meu nome, mesmo ;-)), há uma coisa importante que você precisa saber: Mesmo que você venha a se tornar um monge, lembre-se que nada em sua vida vai mudar tanto, isto é, nada ‘especial’ vai acontecer simplesmente por você fazer votos e raspar a cabeça. Nossas vidas como monges não são tão diferentes da sua como cidadão comum. Eu, por exemplo; minha rotina é cuidar da horta, ir ao banco pagar as contas do templo, cuidar de diversas questões administrativas, ministrar aulas aos novatos e leigos... Nada muito diferente da sua vida. Ando ocupado o dia inteiro com a minha rotina. Se o seu objetivo é realmente encontrar a Verdade, saiba que não chegará mais perto dela entrando para o Templo. Nem deixando de entrar. A Busca pela Verdade é algo pessoal. Posso lhe assegurar que há monges que não tem a menor idéia do que seja essa Verdade que você procura, apenas estão no serviço religioso por comodidade, ou por amor as tradições. Então, lembre-se: Se você quiser se juntar a nós, no serviço, será muito bem vindo. Você é um garoto especial (desculpem a falta de modéstia, mas eu não achei que deveria suprimir um elogio sincero, que ganhei de um homem sincero). Mas lembre-se que encontrar a Verdade não está, necessariamente, relacionado à vida monástica”.

Não preciso dizer que minhas esperanças se desvaneciam novamente. Eu não estava interessado em ser monge para dar continuidade a uma tradição, por mais bela que fosse. Eu queria... Bem, vocês já sabem o que eu queria.

E assim terminou a minha fase budista. Mas não a minha amizade com os reverendos, que continua até hoje.

"Por mais que um grande fogo incendeie o universo de bilhões de mundos, devemos atravessá-lo para procurar ouvir o ensinamento, alegrando-nos na Mente Confiante, mantendo-a e praticando-a. Isto porque, mesmo que muitos bodhisattvas desejem ouvir este ensinamento, ainda assim é muito raro conseguí-lo. Caso alguém venha a ouvi-lo e seguí-lo, jamais retornará até atingir o Estado da Iluminação Suprema" - Sutra Maior de Amida

** A palavra reencarnação é usada com frequência para se referir aos renascimentos. No entanto é geralmente aceito pelos instrutores budistas atuais que, em vista das doutrinas budistas de Anatta (não-eu) e Anicca (impermanência) a idéia comum atual de "reencarnação" é um conceito incompatível com o ensinamento budista. O renascimento (ou emanação) descrito pelo budismo é, em vez disso, uma herança de agregados impermanentes, não de uma verdadeira identidade permanente.



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A descoberta do Budismo

§ Publicado originalmente por H K Merton em 18 de Setembro de 2006 às 2:32 PM

Uma coisa me incomodava: mesmo após longas e intensas sessões de meditação, eu retornava para o meu estado mental “normal”, depois de algumas horas. Ou então, na melhor das hipóteses, ao acordar no dia seguinte. O estado mental ordinário, de pensamentos compulsivos e ansiedade generalizada, era o meu padrão normal, até porque, eu sou um ser humano ansioso por natureza. Mas isso tinha que mudar! Caso contrário, eu não conseguiria chegar a lugar algum, na minha busca.

Em contrapartida, viver alienado do mundo, somente para a meditação, orações e estudo, o tempo todo, eu não podia. O mundo é dinheiro, tempo é dinheiro, a vida, aqui nesse planetinha (que era onde eu tinha nascido, afinal de contas) girava em torno do dinheiro. E eu precisava trabalhar, porque tinha nascido pobre. Mais do que isso, se eu quisesse ser “alguém” na vida, era preciso me interessar (e me dedicar) pelo menos o mínimo, pelas ciências secularistas. Precisava concluir meus estudos, me formar em alguma área, ainda que as coisas "do mundo" realmente não me interessassem o suficiente. Ou então eu poderia me tornar um andarilho, uma espécie de "Kwai Chang Kaine" tupiniquim, andando pelas ruas, vivendo de um “bico” aqui, outro ali, parando para meditar em cada banco de praça; levando a sabedoria e os benefícios do modo de vida Zen por todos os lugares em que eu passasse, através do meu exemplo(rs). Bem, mas eu achava que talvez a idéia não fosse de todo ruim. Alguém aí se lembra da série "Kung Fu", com David Carradine? Eu até entendia de artes marciais! Ah, como era bom sonhar...

Mas na cabeça de um garoto de 22 anos, preocupado mais do que tudo com a busca pela Verdade e pelas coisas de DEUS, isso não parecia tão insano quanto parece hoje. Ou talvez até parecesse loucura, mas no fundo era isso que eu mais queria: "Pirar" de vez, para o mundo materialista. Eu já me sentia mesmo um "estranho no ninho", nesse mundo, a maior parte do tempo... E foi exatamente nessa fase que eu conheci uma filosofia de vida que até então ainda me parecia distante e exótica.

O Budismo. Um caminho que me pareceu mais um modo de vida que uma religião, no qual a vida é interpretada com beleza e suavidade. A ênfase está mais no amor à sabedoria que nos rituais em si, e os devotos são exortados a realizar, cada um, sua própria “pesquisa” sobre as coisas, através da busca pessoal. Busca-se o fim do sofrimento, através do conhecimento da própria mente. Eu me encantei. Minha cara! Mas, antes de qualquer outra coisa, me encantou a história do fundador da religião, o Buda histórico, Sakiamuni, o príncipe Sidarta Gautama. Sua história de vida se parecia assustadoramente com a minha própria, dadas as devidas proporções. Ele abdicou de tudo para buscar a Verdade, a partir do momento que soube que existiam a morte, doença, miséria e sofrimento... Não tinha como não me identificar.

Foi assim que encontrei uma bela oportunidade para abraçar de vez o tipo de vida com a qual eu sempre sonhara: Passar meus dias inteiros estudando e meditando. Uma vida completamente devotada à busca do Sagrado, da Verdade suprema por que tanto ansiava. Simplesmente poderia viver para aquilo que eu achava o mais importante, e o que mais me realizava, isso em tempo integral. Como? Me tornando um monge budista!



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Sentir e Pensar

§ Publicado originalmente por H K Merton em 11 de Setembro de 2006 às 11:43 AM

Na mesma época em que descobri e me entreguei com maior empenho e dedicação à prática da meditação (O que me trouxe benefícios inestimáveis), foi que tomei conhecimento do mais polêmico de todos os gurus espirituais: Rajneesh Chandra Mohan Jain, ou Bagwan Shree Rajneesh, ou simplesmente Osho. Não pretendo entrar em detalhes sobre este controverso personagem, por hora, até porque penso em fazê-lo mais adiante.

Osho fez fortuna por meio da sua pregação, a um público quase que completamente constituído por jovens. Ele provocou um escândalo internacional com suas cerimônias tântricas, que na opinião de muitos não passariam de alegres orgias sexuais. Possuía terrenos, hotéis, uma rede de casas de massagem na Europa (isto é, prostituição), e uma frota de 91 Rolls-Royces. Acusado de perversão, realização de lavagem cerebral e sonegação de impostos, foi deportado dos Estados Unidos para a Índia, onde morreu de Aids. Nos EUA, respondeu por 35 acusações e foi condenado a dez anos de prisão com sursis. Foi expulso também da Grécia, foi rechaçado da Alemanha e da Espanha, só conseguiu entrar na Irlanda porque seu piloto alegou ter um doente a bordo. Sua secretária Sheela Birustiel-Silvermann (Ma Anad Sheela) foi extraditada da Alemanha, onde estava no cárcere em Bühl, e foi condenada pelo tribunal federal de Portland (Oregon), em 1986, a quatro anos e meio de prisão, por fraude e envenenamento alimentar. A investigação revelou que centenas de jovens mulheres foram constrangidas a aceitar uma cirurgia de esterilização. E por aí vai...

O “mestre” não era fácil. Só estou publicando este pequeno resumo da sua biografia, que mais parece uma ficha policial, porque sei que até hoje existe uma profunda espécie de idolatria em torno da memória deste homem, e, desde a sua morte, muitos mitos foram criados ao seu redor, prontamente aceitos como verdadeiros pelos buscadores mais inexperientes. Em resumo: Acho fundamental mantermos um “pé atrás” sempre que nos dedicarmos a estudar os “ensinamentos” de Osho, porque entendo como perfeito o princípio ensinado por Jesus: “Uma árvore se conhece por seus frutos”- Mt. 7:15-20. Este princípio é uma verdade inexorável, impossível de ser negada. Trata-se da mais pura lógica. Uma árvore boa dá bons frutos, e não pode uma árvore boa produzir “maus frutos”. Em todo caso, foi através do “Livro Orange”, do próprio Osho, que primeiro encontrei uma definição clara e acessível do que é meditação, e como meditar - Embora este tema seja bastante controverso: Diversas escolas apresentam definições diferentes ou contraditórias, às vezes até antagônicas, para o termo “meditação”.

E como estava entrando numa fase de procurar os chamados grandes mestres, os mais influentes mentores da humanidade no quesito “espiritualidade”, não demorei muito até tomar conhecimento da obra de Jiddu Krishnamurti, este sim, um autêntico e inquestionável filósofo, no mais elevado sentido da palavra. Um homem que negou até o fim o título de “mestre” ou “guru” espiritual, que abriu mão de ser líder da Sociedade Teosófica de Anne Besant e madame Blavatsky, o que lhe proporcionaria conforto, fama e facilidades, para se dedicar a um caminho solitário em busca da Verdade (Uma árvore se conhece pelos frutos...).

Etudando, a um só tempo, Osho e Krishnamurti. Não preciso dizer o tamanho da piração ;-). Os dois são completamente "loucos", cada qual ao seu estilo (Não vai aqui nenhum termo pejorativo. Ambos os autores se proclamam loucos, este é exatamente um dos pontos em comum na fala de ambos: É preciso “enlouquecer” para o mundo, para encontrar a Verdade). Então é isso. Aos meus vinte e um anos, eu estudava e meditava, meditava e estudava. Muito. Constantemente pedia iluminação em minhas orações. Uma de minhas técnicas favoritas para entrar em estado de meditação era a Tratak, que é um método onde o praticante foca a visão num determinado objeto, como a chama de uma vela (Acredita-se que este método tem uma grande capacidade de gerar melotonina no cérebro, e por isso mesmo, seria uma prática, em especial, potencialmente redutora dos riscos de câncer).

Mas, tenho que dizer, apenas a meditação, por si só, não bastava. Eu pensava que, se o Universo quisesse que eu ficasse apenas nesse estado de transcendência todo o tempo, então não precisaria ter nascido, poderia ter ficado no lugar onde estava antes. Eu tinha plena consciência de que estava aqui por alguma razão, havia nascido por algum motivo, e este motivo era para mim a coisa mais importante de todas. E eu tinha que começar logo! Além de tudo, os princípios e conhecimentos que adquiria através da prática meditativa eram ainda muito amorfos, isto é, não me davam um direcionamento definido para minha vida. E eu queria saber exatamente o que eu tinha que fazer. Eu queria respostas. Dentro de mim ainda vivia aquele garotinho de quatro anos querendo desvendar os grandes segredos da vida. Eu ainda queria, mais que tudo, encontrar DEUS.



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Eu vejo!! - conclusão

§ Publicado originalmente por H K Merton em 04 de Setembro de 2006 às 8:23 PM

O impacto que eu senti ao poder comprovar, na prática, que realmente era possível alterar o meu estado mental/consciencial, através da prática meditativa, fez com que eu passasse a me dedicar, cada vez mais e com maior freqüência, a este método de “pausar” a agitação ordinária dos pensamentos, para conseguir enxergar além do comum. E, de fato, eu podia sentir, na rotina do dia-a-dia, minha criatividade aumentando, a serenidade em todas as situações se fazendo presente, rendendo frutos palpáveis na minha história...

Cada nova complicação que surgia, na minha vida pessoal ou profissional, que eu não conseguia resolver “normalmente”, era solucionada na penumbra do meu pequeno quarto, que já exalava perfume de lótus e boas vibrações (ao menos para mim). Ao final de cada prática, eu emergia da penumbra para uma “luz” que sempre me parecia nova, com uma solução prática escrita num pedaço de papel. Pouco tempo depois de cada sessão, eu mesmo não conseguia mais me reconhecer nas letras que havia acabado de traçar. Preciso deixar bem claro, aqui, que não estou me referindo a fenômeno mediúnico ou a “canalizações” de qualquer tipo. O que ficava cada vez mais evidente nos palavras que eu escrevia, ainda em estado de consciência alterado, logo após as práticas meditativas, era a enorme diferença entre o “eu” vulgar, do cotidiano agitado, sem tempo pra parar e pensar em qualquer coisa que não fosse materialismo imediatista, e o “eu” que vinha à tona durante as práticas.


Num belo dia, enquanto meditava, o que eu sempre fazia diante de um espelho de corpo inteiro, olhei e vi uma imagem refletida inteiramente diferente da minha habitual. Vi um suave sorriso em minha face, harmonia extraordinária nas minhas feições e uma postura a um só tempo confiante e tranqüila. Também achei que estava um pouco mais magro que o normal, mas o que mais me impressionou foi a impressão de absoluta serenidade que minha própria imagem transmitia. Fui invadido por um sentimento de profunda paz, tomando conta de todo o meu ser, como se estivesse diante de um ser “superior”. Neste estado mental alterado, acabei me lembrando do que aprendera com a leitura do livro “Ilusões”, e comecei a me fazer perguntas, mentalmente, como se eu estivesse subdividido em duas “entidades” separadas. Era como se o “ser” a minha frente fosse um “mestre”, apto a me guiar pelo Caminho da Verdade.

Esses “diálogos internos” acabaram por me ajudar muito, coisa que jamais poderia supor. Guardo até hoje uma pilha de cadernos velhos, com páginas amareladas e espirais deformados, com essas “conversas imaginárias” que registrei, sobre os mais variados assuntos. Ainda vou publicar algumas delas, algum dia. Na época, pensava em transformar esses textos em livro, porque as pouquíssimas pessoas a que mostrei alguns pequenos trechos, ficaram realmente entusiasmadas. O fato é que acabei sofrendo uma grande decepção com essa história de “editoras espiritualistas” (o que já é uma outra história, para ser contada numa outra ocasião), e assim, resolvi abandonar a idéia por um tempo.



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Eu vejo!! - parte 2

§ Publicado originalmente por H K Merton em 01 de Setembro de 2006 às 10:47 PM


Depois da meditação, abri a janela do quarto, e percebi que o sol ainda não brilhava no horizonte. Achei estranhíssimo, pois a impressão que eu tinha era de que tinha ficado por horas a fio num estado de suspensão das agitações do pensamento. Como eu tinha iniciado a sessão às 17 horas e 30 minutos, aproximadamente, naquele momento já deveria estar escuro... Saí no terraço, olhei o horizonte: Ainda devia faltar pelo menos uns vinte minutos até que o sol desaparecesse por trás de uma das torres da Av. Paulista. Em todo caso, voltei para dentro do quarto e peguei os papéis onde havia escrito coisas quando ainda em estado meditativo.

Eu havia acabado de escrever aquelas palavras, mas relendo tudo, agora, simplesmente parecia difícil crer que havia sido eu mesmo o autor! Gravados no papel, com letras que nem mesmo lembravam a minha caligrafia habitual, havia uma série de aforismos e máximas, sublimes, sobre alguns princípios básicos para uma vida espiritualizada. Pensei por um momento que somente alguém que viu a Verdade seria capaz de escrever aquilo.

Minha mente começava já, lentamente, a retornar ao estado habitual de agitação e ansiedade, e a sensação era de que o meu “eu” comum, ordinário, não seria capaz de entender aquelas palavras. Entender intelectualmente sim, o pequeno texto não era uma obra de erudição refinada/complicada, nem muito menos um amontoado de palavras ininteligíveis... Mas devo confessar que, naquele momento, eu não seria mais capaz de escrever aquelas coisas.

O valor incomum da escrita estava exatamente no significado das palavras. Eu não tenho mais esse papel (ou não sei onde foi parar, porque fora não joguei), mas haviam afirmativas sobre a transitoriedade do mundo físico, a importância de se manter a mente serena e da prática da auto-observação, e também sobre a igualdade entre todos os seres e a excelência do amor fraterno. Impressiona-me hoje pensar que coisas que apenas mais tarde eu viria a estudar, em especial quando enveredei pelas vias do hinduísmo, apareceram antecipadamente, de maneira espontânea, a partir do momento em que eu me dispus aquietar minha mente e apenas fazer uma pausa... Apenas porque eu me dispus a fazer uma pausa. Foi aí que eu percebi que, se eu apenas pudesse me acalmar, silenciar o lado racional da minha mente, esvaziando-me das preocupações materialistas, uma clareza quase sobrenatural tomaria conta dos meus pensamentos, e, conseqüentemente, da minha vida como um todo. Afinal, tudo que nos tornamos, tudo que somos e temos, começa com um pensamento.



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Eu vejo!!!

§ Publicado originalmente por H K Merton em 28 de Agosto de 2006 às 1:52 PM



Eu tinha entre 19 e 20 anos de idade. Sozinho em casa. Entrei no quarto vazio, fechei a porta. Desliguei o telefone. Já tinha limpado o ambiente, previamente. Acendi uma vareta de incenso, aroma de lótus, e uma vela. A vela acesa, por dois motivos: Obter uma iluminação mais tênue, intimista, propícia para meus objetivos, e porque observar a chama bruxuleante auxilia a acalmar os pensamentos. Estendi um edredom limpo, dobrado, sobre o piso, e diante deste, acomodei um espelho de corpo inteiro, apoiado no espaldar de uma cadeira. Sentei-me sobre o edredom em posição de meio lótus, e fechei os olhos por um momento, enquanto repetia vezes sem conta o mantra mais popular do mundo: “Om mani padme hum – om mani padme hum – om mani padme hum – om mani padme hum..." (sânscrito – Om = corpo, fala e mente, Mani = jóia, Padme = sabedoria, Hum = indivisibilidade). Ao repetir o mantra da compaixão, procuro mentalizar suavemente o significado dessas palavras: “A jóia no coração do lótus”, em analogia à alma no interior do corpo físico (existem outras interpretações). Final de tarde. Janela fechada, mas estreitos halos de luz atravessam, pelas frestas, figuras vazadas da fina cortina, formando desenhos improváveis nas paredes. É o fim da hora de Brahma , quase dezoito horas, num final de outono, quando o sol começa a se despedir no horizonte. Inicio um processo respiratório simples, para acalmar as oscilações mentais, usando intervalos iguais entre inspiração, expiração e pausas entre ambas. Depois de alguns minutos, minha respiração torna-se naturalmente calma, sem que eu precise prestar atenção à ela.

Permaneço de olhos fechados por 15, 20 minutos, meia hora... perco completamente a noção do tempo...

Abro os olhos. Diante de mim está o espelho. Está escuro, e a única luminosidade é a da vela. Vejo minha própria imagem refletida, e observo uma beleza nunca antes percebida. Minha face está extremamente serena, eu sinto a plenitude da Existência fluindo através do meu corpo. Sinto-me como que “preso” no chão, como se minhas pernas tivessem criado raízes no solo. Sinto-me extremamente feliz. Simplesmente realizado. Não há nada a fazer, nem há arrependimentos pelo que já foi feito. Não existem causas nem conseqüências, apenas o momento presente. Não penso em nada, apenas observo. Estou livre dos meus apegos, dos meus julgamentos, estou LIVRE!

Lembro-me suavemente de alguns problemas que tinha para resolver. Eles agora me parecem ínfimos, mínimos, insignificantes. Como pude me preocupar por causa de coisas assim tão bobas? Todas as soluções surgem na minha mente, como que por mágica. Instantaneamente. Olho para o espelho e vejo-me transformado. Há um leve sorriso em minha face serena. Um sorriso involuntário, uma conseqüência inexorável da sensação de plenitude que me invade. Agora eu sei que a felicidade e possível!

Levanto-me, em "estado de graça". Pego um papel e um lápis, e começo a escrever, porque sinto-me como se todo o conhecimento da Terra estivesse contido em mim, e não quero esquecer, depois, das coisas que agora vejo tão claramente...



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A quem interessar...

§ Publicado originalmente por H K Merton em 25 de Agosto de 2006 às 7:30 PM


Queridos, ultimamente tenho falado muito de Richard Bach, aqui. Por isso, achei que seria interessante indicar para vocês alguns endereços onde poderão encontrar informações sobre esta grande figura.

No primeiro, há uma pequena entrevista, feita pela escritora Eliane de Araujoh:

http://www.conscienciacosmica.com.br/richardbach.htm

No segundo, um pequeno resumo da vida e obra do autor, no site Imagick:

http://www.imagick.org.br/pagmag/turma2/bach.html

Aqui, tem uma outra entrevista, feita por Débora Lerrer, tembém do Imagick:

http://www.imagick.org.br/pagmag/turma2/bach2.html

Descobri até uma coisa que eu não sabia: Richard Bach é tataraneto do legendário compositor clássico J. Sebastian Bach(!). Outra surpresa: Eu sabia que esse livro tinha sido muito influente até um pouco antes da década de 1990, como já comentei antes, mas fiquei admirado ao fazer uma breve pesquisa na rede e verificar, que ainda hoje, muitas e muitas pessoas o citam como "o livro que mudou a minha vida". Trinta anos depois de ter sido escrito! Por isso mesmo, tem muita matéria sobre o assunto disponível online. É só colocar o nomezinho no buscador e clicar em "pesquisar"! ;-)

Abraços!



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Encontro comigo

§ Publicado originalmente por H K Merton em 23 de Agosto de 2006 às 2:17 PM

É a isto que eu chamo o meu "Segundo Pilar": O conhecimento de que olhar para dentro de si, com total e absoluta sinceridade, revela as respostas. Simples, como todas as leis da natureza, descobertas até agora. Simples como tudo que é genial - já ouviram composição mais simples que o “refrão” da quinta sinfonia de Beethoven? Ou a introdução de "Smoke on the Water", do Deep Purple? (Duas das mais geniais composições musicais jamais criadas, cada uma em seu estilo). Esta é uma "chave" da vida, o segredo está na simplicidade. E esta é outra chave: Quando fazemos perguntas, já sabemos as respostas. Mas precisamos fazê-las, perguntar é como uma espécie de “muleta”, necessária para o inconsciente.

Logo depois de ler "Ilusões", o livro que me fez enxergar um modo novo de viver a vida, minha mente se abriu para a leitura de um sem número de outros autores, como Lobsang Rampa, que apesar de ter sido um grande charlatão, também me ajudou a entender o orientalismo e seus costumes, lá no início das minhas pesquisas. Foi por causa desse controvertido autor que eu tomei conhecimento, por exemplo, do Livro Tibetano dos Mortos. Também li Anthony Norwell, Mircea Eliade, Wulfing Rohr, Huberto Rohden, entre outros. E por meio da análise destas diversas obras encontrei algo tão básico e importante para a minha busca quanto a própria descoberta deste meu segundo pilar: Encontrei exatamente a melhor maneira para aplicar, na prática, minha nova e grande descoberta pessoal (Olhar para dentro de mim para encontrar as respostas) – Encontrei a Meditação!

Eu já meditava antes, de um modo intuitivo. Acho que o faço desde que era um bebê, isto é, eu sou um ser meditativo por natureza; nunca deixei de observar atentamente a vida, dentro e fora de mim. Mas agora eu havia encontrado uma ferramenta ideal para praticar: A técnica conhecida como Meditação Transcendental. O primeiro livro que eu li a respeito foi “ O Poder da Meditação Transcendental”, do Anthony Norwell. Fiquei encantado, e, mesmo antes de procurar uma escola, comecei a praticar por conta própria, dentro de casa, ou fugindo para algum parque ou lugar isolado. A técnica nada tem de muito diferente. Praticamente a mesma coisa que meditação Zen (budismo japonês) ou C´han (budismo chinês), com o diferencial de ser (quase) completamente não-devocional. Mas o importante mesmo foram os resultados... Vinculando meu novo conhecimento, adquirido com a leitura de Ilusões, à essa nova ferramenta, cheguei finalmente à consciência de que a Verdade que eu tanto buscava não estava fora, mas dentro de mim.

"O sábio corrige sua mente inquieta, agitada, ardilosa, não-confiável, tal como o arqueiro constrói a flecha"

"Nem mãe, nem mãe nem pai, nem outro parente pode fazer tanto bem quanto uma mente bem dirigida"

"Fácil é sempre ver as faltas alheias, difícil é ver as próprias. Espalhamos as faltas alheias como a palha do trigo ao vento, mas as nossas, ao contrário, as dissimulamos, como, no jogo, um astuto trapaceiro dissimula sua fraude"

Versos 33, 43 e 252 do Dhammapada



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O Segundo Pilar - conclusão

§ Publicado originalmente por H K Merton em 16 de Agosto de 2006 às 7:58 PM


Ok, a leitura deste livro foi muito importante. Mas muito mais importante foi a descoberta que eu fiz, direta ou indiretamente, por intermédio desta leitura. Na época em que tomei conhecimento destas novas idéias, minha mente ainda contava com muito “espaço livre”, ainda havia em mim tranqüilidade suficiente e disposição para auferir novos modelos de pensamento e novas formas de interpretar a vida. Ainda não haviam conceitos pré-instalados, como costuma acabar acontecendo com qualquer pessoa que tenha estudado muito. Também por isso as informações desse livro foram assimiladas e compreendidas com uma facilidade e uma totalidade que talvez hoje não seriam possíveis. Finalmente, agora você vai saber o porquê do título desse post, apresentado em três partes...

A história do livro se passa nos campos do meio-oeste americano, onde o protagonista - o próprio autor - um aquariano típico, sonhador e regido pelo elemento ar, abandonou tudo, para viver de levar passageiros para dar voltas no seu pequeno avião biplano (Richard Bach é apaixonado por aviões e o velho sonho humano de voar, essas mesmas alusões se encontram nos seus 'Fernão Capelo Gaivota' e 'Longe é um Lugar que Não Existe'). Num dado momento, esse protagonista encontra um homem que faz exatamente a mesma coisa pra viver: Donald Shimoda, que não é outro senão o “messias”, descrito no primeiro capítulo, do qual transcrevi alguns trechos no post anterior. A empatia entre os dois é imediata, e, a partir deste encontro, os dois passam a trabalhar como parceiros. Convivendo diariamente com este ser misterioso, Richard passa a aprender a Verdade diretamente da boca de um autêntico Mestre. A partir daí, princípios fundamentais da tradição oriental começam a jorrar destas páginas leves, porém profundas. Importante frisar que estes princípios filosófico-espirituais são sempre apresentados de um ponto de vista absolutamente descontraído (o autor é um norte-americano convicto). E foi um dos primeiros ensinamentos deste “messias”, encontrado por Richard em algum imenso campo relvado entre Indiana e Illinois, que terminou por me levar à compreensão de uma base fundamental da vida. Fundamental principalmente para qualquer buscador da Verdade, questionador e irrequieto, como eu. Esta base está presente na Bíblia, nos Vedas e Upanishads, nos Sutras Budistas, e até onde eu sei, consta dos princípios básicos de todas as grandes religiões. Mas, por algum motivo, destes que não entendemos, eu a aprendi por meio de um hippie americano meio amalucado, completamente avoado, assim como eu.

Cada vez que o personagem Richard perguntava algo muito importante para Shimoda, ao invés de uma resposta simples, quase sempre ganhava a seguinte resposta: “Olhe para dentro de si. Ao perguntar, automaticamente você encontra a sua resposta. Isso acontece porque a Verdade fala dentro de você”. Isto me marcou de uma maneira profunda, porque eu, de imediato, percebi que era real. O entendimento desta realidade tão simples, porém essencial, tocou meu espírito. Meu modo de entender a vida e as minhas percepções de mundo instantaneamente mudaram, e para muito melhor. Encontrei o Segundo Pilar para minha vida.

Mas antes de falar sobre o meu "Segundo Pilar", quero deixar aqui um esclarecimento que considero importante: O fato de ter gostado tanto desse livro na época me traz à mente uma das passagens bíblicas de que mais gosto: "Tudo é puro para os puros, e tudo é impuro para os impuros"(Tito, 1:15). - Interpretação minha: aquele que tem um coração puro, que está buscando algo bom, de consciência limpa e com a mente focada no Sumo-Bem, que é Deus, saberá encontrar coisas boas em praticamente qualquer lugar. Analisando com a experiência e os conhecimentos que tenho hoje, sei que esse livro está cheio de afirmações perigosas, traz conceitos alienados da realidade e até induz ao erro, em diversos partes. Ele prega uma espécie de "vale tudo" espiritual, onde o mais importante é "se dar bem" - algo que, hoje, eu repudio totalmente. Mas essa leitura serviu para um propóstito, na época, o de me libertar de certos medos e angústias que eu trazia comigo desde a época em que conheci o Antigo Testamento da Bíblia; coisas que não sabia como resolver. A leitura de "Ilusões" me ajudou, principalmente, a me abrir para confiar um pouco mais na minha própria consciência e nas minhas próprias percepções da realidade. Mas foi algo muito pessoal, algo que serviu para mim. Hoje, de fato, eu não recomendaria a sua leitura para um buscador da Verdade. Acho mesmo que ele pode mais atrapalhar e complicar do que esclarecer. Aos que não resistirem a curiosidade, no entanto, advirto: Leiam mantendo sempre "um pé atrás"!..


O Segundo Pilar:


Antes de qualquer coisa, devo consultar a mim próprio. Olhar para dentro de mim mesmo, com absoluta sinceridade, e fazer as perguntas. A resposta virá. Nem sempre o Caminho pode ser encontrado num livro, ainda que seja um Livro Sagrado. Nem mesmo os mestres irão abrir a minha mente para inserir lá o entendimento. Posso acumular conhecimento, colecionar citações bonitas, mas a compreensão só pode ser encontrada dentro, e não fora. A minha consciência é que me orienta, é meu guia infalível entre certo e errado.

Escutá-la, porém, nem sempre é fácil! A Arte das artes é aprender como ver e ouvir a Verdade, que fala dentro de mim. E viver em acordo com ela.




“Nada lhe posso dar que não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo” - Hermann Hesse


“A ciência é incapaz de resolver os mistérios finais da natureza, porque nós somos parte da natureza e, portanto, do mistério que tentamos resolver”. - Max Planck


“A música e o canto não criam no coração aquilo que não se encontra lá” - Abu Sulaiman Al-Davani; Filósofo do século IX


“Seja senhor de tuas vontades, e escravo de tua consciência”
- Aristóteles


"Não acrediteis em coisa alguma apenas por ouvir dizer. Não acrediteis na fé das tradições só porque foram transmitidas por longas gerações. Não acrediteis em coisa alguma só porque é dita e repetida por muitos. Não acrediteis em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo. Não acrediteis em coisa alguma só porque as probabilidades a favorecem ou porque um longo hábito vos leva a tê-la como verdadeira. Não acrediteis no que imaginastes, pensando que um ser superior a revelou. Não acrediteis em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes. Aquilo, porém que se enquadrar na vossa razão, e depois de minucioso estudo for confirmado pela vossa própria experiência, conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas, a isso aceitai como Verdade. E daí pautai a vossa conduta!" - Sidarta Gautama, o Buda – no Kalama Sutra 17:49


“Ponham à prova todas as coisas, e fiquem com o que é bom”. - Paulo Apóstolo, em I Tessalonicenses



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O segundo Pilar - parte 2

§ Publicado originalmente por H K Merton em 14 Agosto 2006 às 4:12 PM




Por que esse livro foi tão importante para mim?

Primeiro porque, como já disse, através dele tomei conhecimento de uma nova maneira de interpretar a relação homem-Deus, e, assim, eu pude vislumbrar um prenúncio da minha tão desejada liberdade. Como os que me acompanham já sabem, meu primeiro contato com a religiosidade, através do Cristianismo, mas que acabou se dando por intermédio da Torá Judaica, foi extremamente traumático. Meus terapeutas que o digam. Eu só conseguia enxergar medo.

O melhor Caminho a seguir era Cristo, até Deus Pai, que era um Deus amoroso. Até aí, tudo ótimo. O (grande) problema era que, para os que falhassem na tentativa de serem bons “cristãos”, estava reservado o fogo eterno de um inferno de sofrimento infinito. E ser um bom cristão significava, simplesmente, ser perfeito ("Sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste" - Mateus 5:48). E isso me parecia simplesmente impossível... Alguma coisa não estava bem resolvida, ficou meio que pela metade dentro de mim, desde o dia em que resolvi deixar as igrejas. E minha consciência ainda me torturava por isso. Agora encontrara uma forma absolutamente diversa de entender Cristo, entender o Caminho, e entender o próprio Deus. Através de um livro único.
Hoje, você dá um pulo na livraria e encontra vários títulos, com algumas idéias talvez até parecidas com as apresentadas em “Ilusões”. Porém, nos idos da década de 1970, época da geração hippie, e no auge do movimento de contracultura (quando os jovens pensavam, e se preocupavam com algo mais que a dieta da moda ou curtir os últimos hits da parada MTV), estas idéias eram absolutamente pioneiras, significavam um protesto contra os padrões de pensamento dominantes. Mas a leitura de Richard Bach me levaria a um lugar ainda muito mais distante...

Transcrevo abaixo um pequeno trecho do início do livro, o capítulo 1:

O Mestre acreditava que tinha o poder de ajudar a si mesmo e a toda a humanidade, e, acreditando, assim era para ele, de modo que outros viram o seu poder e o procuraram para se curar de seus problemas e suas doenças.

O mestre acreditava que todo homem deve considerar-se filho de Deus, e, acreditando, assim era, e as oficinas e garagens (ele era mecânico de automóveis) em que trabalhava se apinhavam com aqueles que procuravam a suas sabedoria e o contato com ele, e as ruas de fora ficavam cheias daqueles que desejavam apenas que a sombra de sua passagem pudesse cair sobre eles, modificando suas vidas(...) E assim foi que seguiu para os campos, e os que iam com ele começaram a chamá-lo de o Messias, o que operava milagres, e, como eles acreditavam, assim era(...).

E quando viu que a multidão cada vez o seguia mais de perto, mais terrível do que nunca, quando viu que insistiam para que ele os curasse sem descanso, e sempre os alimentasse com seus milagres, e aprendesse por eles e vivesse suas vidas, foi sozinho para o morro e rezou(...).

E quando a turba o atormentava com seus males, implorando que os curasse, aprendesse por eles, os alimentasse constantemente com sua compreensão e os divertisse com suas maravilhas, ele sorriu pra multidão e disse amavelmente: “Eu desisto”. Por um momento a multidão ficou muda de espanto. E ele lhes falou:

“Se um homem dissesse a Deus que o que queria mais que tudo era auxiliar o mundo sofredor, fosse qual fosse o preço para si, e Deus lhe respondesse o que devia fazer, o homem deveria fazer o que lhe era ordenado?”

“Pois claro, Mestre!” exclamaram. “Devia ser para ele um prazer sofrer as torturas do próprio inferno, se Deus lhe pedisse!”

“Não importa quais fossem essas torturas, nem a dificuldade da tarefa?”

"Seria uma honra ser enforcado, uma glória ser pregado a uma árvore e queimado, se fosse isso que Deus pedisse”, disseram eles.

“E o que fariam vocês”, perguntou o Mestre à multidão, “se Deus lhes falasse diretamente, em pessoa, e dissesse: ‘ORDENO QUE SEJAS FELIZ NO MUNDO, ENQUANTO VIVERES!’. O que fariam então?”

E a multidão calou-se e nem uma voz ou som foi ouvido sobre os morros e pelos vales.



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O segundo Pilar

§ Publicado originalmente por H K Merton em 08 de Agosto de 2006 às 10:53 AM

Nem preciso dizer que fui procurar pela fonte daquelas palavras, que tinham sido escritas no cartão de Natal que minha mãe recebera, e que para mim soaram absolutamente revolucionárias:

“E o que fariam vocês”, perguntou o Mestre à multidão, “se Deus lhes falasse diretamente, em pessoa, e dissesse: ‘ORDENO QUE SEJAS FELIZ NO MUNDO, ENQUANTO VIVERES’. O que fariam então?”

Deus ordenando felicidade aos homens... Todos os homens e mulheres santos que eu conhecia, tiveram que sofrer tanto em nome da sua fé... Essa nova visão era, sem dúvida, uma possibilidade bastante atrativa. As imagens de terror no meu inconsciente, instaladas desde a época da leitura do Antigo Testamento da Bíblia, ainda me perturbavam. Imaginar que a vontade de Deus para minha vida, pudesse ser, afinal, simplesmente a minha felicidade, tinha feito surgir um vislumbre de esperança num novo tipo de vida. Na verdade, havia sempre uma ponta de culpa em minha consciência, por ter abandonado, primeiro a idéia da vida religiosa, e depois, por ter deixado de freqüentar a igreja.

A pessoa que tinha enviado o cartão havia sido uma prima minha, distante, que eu só via muito de vez em quando, uma ou duas vezes a cada dez anos, mais ou menos, apesar de morar também em São Paulo (minha família é extremamente desunida – nada me causa mais tristeza do que ver aquelas famílias grandes, super-unidas, em que todos se dão bem, que no Natal reúnem dezenas de pessoas...). Assim, eu entrei com contato com essa prima, mas ela de pronto não soube me informar a origem da mensagem – ela tinha copiado de um outro cartão, que recebera, de alguém que já não se lembrava(:P)... Mas eu pedi e insisti muito com ela, para que verificasse, porque eu queria mesmo muito saber de onde vinham aquelas palavras. Nessa época ainda não havia internet, e pesquisar coisas desse tipo eram MUITO mais difíceis. Bem, o fato é que após algumas dúzias de telefonemas, ela finalmente se dignou a me passar o telefone do tal amigo, para que, se eu quisesse, entrasse em contato com o rapaz e pedisse a informação que eu tanto queria. Ela se recusava a fazê-lo, não sei porque, achava que seria um “mico” fazer isso. Mas eu não tive dúvida: Peguei o telefone e liguei para o desconhecido. Atendeu a mãe do tal rapaz, muito desconfiada, dizendo que o filho trabalhava o dia inteiro, estudava a noite, e que não poderia me dar o nº comercial. Disse ainda que ele, aos finais de semana, costumava viajar, então seria praticamente impossível encontrá-lo. Após umas setecentas e quarenta e duas tentativas, a gentil senhora percebeu que eu não iria desistir tão fácil, e me passou o telefone do trabalho do moço...

Me apresentei como primo da prima, para a qual ele havia enviado um cartão de Natal com os dizeres que me haviam despertado tanto interesse. Pela voz, o cara pareceu achar esse meu interesse um tanto quanto sem propósito. Eu tentava entender como alguém com sensibilidade pra mandar uma mensagem assim poderia reagir daquele jeito. Mas a resposta veio logo: Ele tinha recebido um cartão da namorada, com aqueles dizeres, achou bonito e resolveu repassar para um monte de gente. E agora? Eu não me deixei desanimar – perguntei se ele poderia me fazer o favor de checar com a menina, de onde tinha tirado a frase. O cara quis saber por quê, não gostou da minha intromissão nas coisas dele, tudo por causa de um cartão de Natal. Mas disse que ia ver. Pra ele eu não precisei ligar setecentas e quarenta e duas vezes (;P), acho que foram só umas quatro ou cinco... Afinal, consegui a informação que queria.

A frase havia sido retirada da introdução do livro “Ilusões” do Richard Bach. Sim, sim, ele mesmo – o mesmo autor de Fernão Capelo Gaivota (Nunca entendi por que Fernão Capelo é mais conhecido. Ilusões, para mim, é muito mais importante, em todos os sentidos). No mesmo dia, corri para a livraria do meu bairro, onde fui informado que o livro, escrito em 1977, estava fora de circulação já há algum tempo. A próxima etapa seria, então, uma corrida ao centro da cidade, para iniciar um garimpo pelos sebos da cidade. Isso teria que ser feito no dia seguinte, pois o horário comercial já se encerrava. Mas no dia seguinte aconteceu algo que eu até então sequer poderia imaginar. Eu estava pronto para ir ao centro, visitar os sebos que eu conhecia, em busca do livro, logo após o almoço. Mas nesse mesmo dia, meu irmão apareceu em casa, para almoçar, com uma novidade: Debaixo do braço trazia um pequeno livro de capa preta, com uma pena azul flutuando no espaço. O título, em letras brancas – Ilusões – as aventuras de um Messias indeciso!! Eu havia comentado com minha mãe sobre o livro, que comentou com meu irmão. E ele, meio sem querer, acabou comentando a respeito com um colega, no trabalho, que não só tinha o livro, como o deu de presente a ele!!!!


É isso. A coleção de letras que mudaria a minha vida para sempre, veio até mim dessa maneira espontânea, gratuita, como um abraço sincero ou o carinho de um filho pequeno. De graça, como tudo que há de melhor nessa vida. Mal podia esperar para conhecer o restante do conteúdo daquela obra, da qual um pequeno trecho me impressionara tanto. Abri aquele pequeno volume, e o prefácio já me encantou. Logo passei para o capítulo 1, que fora impresso com letras escritas a mão, reproduzindo as mãos de um mecânico, sujas de graxa (você vai entender depois):

"Houve um Mestre que veio à Terra, nascido na terra santa de Indiana, criado nos montes místicos depois de Fort Waine..."



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