Proposta prática #3

Relatório da proposta de prática anterior:


Eu já venho tentando praticar a consciência diária da minha condição impermanente há mais ou menos 16 anos, desde que descobri e constatei a importância deste princípio espiritual essencial. Não sou perfeito e falho constantemente, mas não deixo de voltar a persistir na prática. Quero citar, em especial, um fato ocorrido comigo na última quarta feira...

Levei o meu filho de 8 anos ao shopping, para um passeio e para assistir o "Bee Movie". Na saída do cinema, estava combinado que iríamos embora, mas ele me pediu pra dar mais uma volta no shopping, pra ele escolher o seu presente de Natal. Concordei com uma certa má-vontade, porque eu ainda tinha outras coisas pra fazer naquele dia. Depois de muito andar e entrar em várias lojas de brinquedos e de celulares, sem que ele se contentasse, eu, já bastante cansado, comecei a ser rude com ele. Como depois de mais um tempo ele ainda insistisse em ver mais e mais brinquedos, acabei me descontrolando e, com voz forte disse que não iria ver mais nada e que iríamos embora já! Ele fechou a cara e, sem largar da minha mão, assentiu com a cabeça. Logo depois, quando chegávamos já na porta de saída, percebi que seus olhos estavam cheios de água. Nesse instante, me lembrei do post que eu mesmo publiquei aqui, e me lembrei do quanto passou rápido o tempo de criança dos meus outros dois filhos (tenho mais um casal: a menina, a mais velha, está com 19 anos). Lembrei-me do quanto é importante estar consciente da nossa condição impermanente nesta terra, do quanto a infância é um período especial e como passa rápido. Lembrei que um dia haveria de sentir muitas saudades daquele menino frágil e fofinho que estava na minha frente naquele momento, fazendo beicinho tentando segurar o choro. Pensei no quanto, sem que percebamos agora, sentiremos falta dessa época mágica e feliz, em que tudo que mais importa na relação é o carinho, a cumplicidade, a atenção, e, se possível, um brinquedinho no Natal (que ganhar roupa, nessa data, criança nenhuma merece...)...

Assim, imediatamente mudei a minha cara e a minha disposição. Falei que tudo bem, que podíamos ver mais algumas lojas pra ele escolher o seu presente... O rostinho dele se iluminou, claro, e a noite virou dia. Ainda fomos à lanchonete, depois à livraria ver livros ilustrados e aqueles bacanas, que contam histórias através de armações de papelão que se abrem a cada página que abrimos... Chegamos em casa por volta das 21 horas; eu, extenuado mas feliz. Ele, só feliz. Muito. Foi dormir pensando em nossa tarde divertida, e esse é o tipo de coisa que a gente leva pro resto da vida, por mais bobo que possa parecer na hora. Meu filho de 16 anos se lembra de cada um dos nossos passeios, nossas idas aos parques, ao shopping, nossas tardes de brincadeira de "cabaninha" no quintal, de passeios de bicicleta... Minha filha ainda se lembra que choramos juntos dentro do cinema quando o "pai do Rei Leão" morreu. - Ela nunca mais vai esquecer desse dia, e nem eu. Assim como nunca mais vou esquecer dessa tarde no shopping, na última quarta-feira, entrando em todas as lojas de brinquedos, testando todos os aparelhos de celular de todas as lojas possíveis... Não vou esquecer do milk shake derramado, da guerra de batatinhas, dos livros de armar... Coisas simples, que eu só pude viver e proporcionar ao meu filho porque me lembrei de um princípio espiritual essencial que os budistas denominam Impermanência. Se eu tivesse sido um chato e pensado apenas no meu cansaço e nas minhas obrigações adultas e "chatas", teria perdido tudo isso.




As "Boas Obras"

Nunca escondi que eu não concordo com a idéia de que “todas as religiões são iguais”, ou que “todas falam a mesma coisa de modos diferentes”. Mas eu entendo perfeitamente a nobre intenção dos que dizem isso, - a paz e a harmonia entre todas as pessoas, entre as diferentes mentes, de todas as crenças - e também sou o primeiro a concordar que todos somos irmãos, membros de uma mesma família que deveria ser muito mais unida... Também concordo que, no fundo, todos buscam a mesma coisa, ainda que alguns o façam inconscientemente. Se todo mundo de repente passasse realmente a acreditar que todas as religiões são iguais, guerras cessariam. Discussões inúteis, desrespeito, incompreensão... Tudo isso diminuiria muito. Se todos passassem a ver no seu próximo um irmão que busca a mesma coisa que si mesmo, só que de um jeito diferente, haveria muita paz e muita harmonia. Porém, infelizmente, eu vejo que os homens fizeram coisas muito diferentes das idéias originais das religiões. Mas, mesmo achando que dizer que todas as religiões são iguais seja muito simplista, eu até concordo com isso, num certo sentido.

Exemplo: eu vejo que todas as religiões são iguais no seu objetivo. Vejo que todas são iguais na incapacidade de explicar o que não pode (e não deve) ser explicado, mesmo que algumas achem que podem. Vejo todas as religiões com falhas, e todas com suas virtudes...

Porém, a maior e a mais inegável semelhança que eu vejo entre as religiões é o fato de que a grande maioria delas, ao menos as que se empenharam seriamente em buscar a Realidade transcendente da vida, ou as que derivam dos ensinamentos de alguém que de fato teve algum contato com a Verdade, chegaram a certas conclusões muito parecidas, senão idênticas, a respeito do modo de conduta que devemos adotar em nossas vidas.

"Não façais ao vosso próximo o que, se fosse feito a vós, causaria dor." – Mahabharata (Livro sagrado hindu)

"O que não queres que vos façam, não façais aos outros." - Hilel (rabino judeu)

"Aquilo que não desejas para ti, também não o faças às outras pessoas." - Confúcio

"Não firais ao próximo com o que vos fere." - Sidarta Gutama (o Buda)

"Quando o amor e a compaixão estão incorporados a nós, nossa afeição pelos seres é tal que não suportamos aspirar somente a nossa libertação pessoal." – Sutra Tibetano da Compaixão

"Ama o teu próximo como a ti mesmo. - O que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles." – Jesus de Nazaré (o Cristo)

"Nenhum de vós sois um crente, enquanto não devotardes pelo próximo o mesmo Amor que devotais a vós próprios." – Maomé


Amor é consenso. Fazer o bem é consenso. Não negar ajuda a quem precisa é consenso. Ser desapegado das posses materiais é consenso. Se você amar a Deus, como Pai/Mãe da Criação, e amar ao seu próximo, se você viver uma vida ética, então sem dúvida estará vivendo em acordo com o que ensinaram todas as grandes religiões. E mesmo tradições como o judaísmo e o cristianismo, que ensinam que a fé e o Amor são os reais fundamentos da libertação, redenção e salvação, enfatizam que a verdadeira fé e o verdadeiro Amor se refletem, e só podem ser avaliados como reais, por meio das obras:

"A fé sem as obras é morta. Mostra-me a tua fé sem obras e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras." - Tiago, 2:18 e 12:14-20


O próprio Jesus Cristo diz que os que serão salvos são aqueles que alimentaram os famintos, vestiram os nus e visitaram os que estavam na prisão, e não só os que dizem que tem fé. Isso está muito claro em Mateus, capítulo 25.

Tudo isso foi para dizer que a proposta de prática para esta semana é ao mesmo tempo fácil e difícil. Porque é simplesmente a prática das "boas obras" que venho propor. Esta prática não provém de nenhuma religião em especial, mas de todas elas ao mesmo tempo, porque tem destaque especial em todas as tradições religiosas.


"Grande é a Seara, poucos os trabalhadores..."


A prática

A prática proposta para esta semana, como disse, é bem fácil, mas também pode se revelar difícil para os que estão habituados ao comodismo. A proposta de prática para esta semana é, simplesmente, fazer o bem:

Em cada um dos dias desta semana, religiosamente, vou fazer o bem para alguém. Pode ser um gesto simples, pode ser algo maior. Mas eu não vou deixar de fazer o bem para o meu próximo, nenhum dia sequer, desta semana inteira, até a próxima segunda feira. Eu posso dar uma bala para uma criança, uma palavra de consolo a alguém que esteja com algum problema, posso ligar para aquele parente ou amigo que não vejo há anos, posso ir visitar alguém no hospital... Oportunidades não faltam, todos os dias, para fazermos o bem: em nosso trabalho, na escola ou faculdade, no caminho pra casa... Compre a bala do garoto que vende no coletivo. Compre um pacote de alimento não perecível e doe para alguma instituição. Você tem religião? Honre-a! Não tem? Prove que fazer o bem independe do credo! Mãos à obra, literalmente! Assim que possível, retornaremos ao assunto.


Boa prática a todos!