Proposta prática #2

Brevíssimo relatório da prática anterior: Informo que, feliz ou infelizmente, durante a semana que passou, eu não tive a oportunidade de praticar, ao menos de uma maneira que merecesse ser mencionada aqui, a prática proposta na última segunda feira, a de "Oferecer a Outra Face". Mas talvez ainda voltemos a falar sobre isso...

Prólogo: Antes de qualquer outra coisa, gostaria de esclarecer o objetivo desta série de postagens sobre práticas espirituais. - Obviamente, a idéia não é apenas praticar por uma semana e observar os resultados. Acontece que mudar para melhor qualquer coisa, em nossas vidas, implica esforço. E é por isso que estamos buscando algo bem próximo do lema dos admiráveis Alcoólatras Anônimos: "Só por hoje eu não vou beber". Em outras palavras: assumir para si mesmo um compromisso difícil (como o de 'dar a outra face', por exemplo), para o resto da vida, é algo complicado; pode soar abstrato, distante - há uma tendência de nos esquecermos, de "relaxarmos", com o tempo - nossa determinação inicial tende a esmorecer, e quando nos apercebemos, estamos fazendo tudo aquilo que um dia nos comprometemos a não fazer. Porque este mundo é complicado, as dificuldades estão em toda parte, o tempo todo. Mas, a partir do momento em que passamos a concentrar os nossos esforços num único período curto de tempo, seja um dia ou uma semana, fica mais fácil manter o cuidado e a atenção. O "Vigiar e Orar" fica possível. E assim conseguimos comprovar, pessoalmente, objetivamente, que estes princípios não são apenas abstrações, não são só palavras bonitas e inspiradoras... mas que eles funcionam na prática.


Impermanência

O entendimento e a prática da Impermanência não são apenas descrições da realidade. Compreender o conceito budista da Impermanência pode ser uma ferramenta extremamente útil em nossa transformação interior, cura e emancipação. Eu não tenho a ilusão de conseguir transmitir através desta postagem a imensa importância deste princípio magno. Mas digo que assimilá-lo nos levará à compreensão da Verdade.

Impermanência significa que tudo muda e que nada permanece o mesmo em dois momentos sucessivos. As coisas mudam a todo momento, elas não podem ser descritas com precisão como as mesmas que eram há a um momento atrás.

Quando Confúcio estava na margem de um rio, assistindo seu fluxo, ele disse: "Isto flui assim, dia e noite, sem fim". Ele compreendeu que o rio que estivera observando, um dia antes, não era o mesmo rio que observava naquele momento. Se hoje tomarmos banho no mesmo rio em que nos banhamos ontem, estaríamos nos banhando realmente no mesmo rio? Heráclito disse que "nós não podemos entrar duas vezes no mesmo rio". Ele tinha razão: as águas do rio, hoje, são diferentes das águas em que nos banhamos ontem. - Foram completamente renovadas. Poderíamos dizer que estaríamos tomando banho num outro rio, e, avançando ainda mais nessa linha de raciocínio, a pessoa que toma banho no rio, hoje, também é outra. Os pensamentos de quem entrou no rio, ontem, eram diferentes, as preocupações eram outras... morremos todas as noites, ao nos deitarmos, e voltamos a nascer ao despertarmos, todas as manhãs. A isto o budismo chama Impermanência.

Apesar de estar na essência da doutrina budista, a importância da Impermanência está presente e evidenciada no texto bíblico, no Antigo e no Novo Testamentos. É um princípio essencial do judaismo, do hinduismo, do cristianismo, do islamismo e de praticamente todas as tradições religiosas que existem. O insight da Impermanência nos ajuda a ir além de todos os conceitos. Nos ajuda a ver que o mundo não é o mesmo mundo a cada nova olhada que damos nele. Nos mostra que a chama que acendemos na vela antes de dormir não é a mesma chama queimando na manhã seguinte. Compreender isto, profundamente, é importante porque nós freqüentemente ficamos tristes, e sofremos muito quando as coisas mudam, mas a mudança e a Impermanência são positivas. Graças à Impermanência, tudo é possível. - Graças a ela, a própria vida é possível:

"Hokusai", a "Grande Onda ao Largo de Kanawaga"

Se uma semente não for impermanente, ou seja, se ela não "morrer" e secar, nunca poderá se transformar em uma árvore. E se a árvore não fosse impermanente, nunca poderia nos proporcionar frutos e flores. E quanto aos seres humanos? Se o seu corpo não fosse impermantente, você não poderia ter se tornado a pessoa que é hoje, forte e imune a diversas doenças, apta a interagir com o mundo e com outros seres; desfrutando e proporcionando alegria. Os pais também não compreendem que, se a sua bebezinha linda não fosse impermanente, ela não poderia crescer e se tornar uma mulher, e se não fosse por uma mulher nenhum de nós estaria aqui, hoje, pra começar.

A maior parte do tempo, nos comportamos como se nossos filhos sempre fossem estar em casa conosco. Nós nunca pensamos que em alguns poucos anos eles nos deixarão para se casar e ter as próprias famílias. É por não compreendermos a Impermanência que não valorizamos os momentos em que nossos filhos estão conosco. Eu conheço muitos pais cujos filhos aos dezenove ou vinte anos deixam suas casas e vão morar sozinhos. Só então eles percebem o quanto foram descuidados, então sofrem e se sentem arrependidos. Quantas vezes deixaram de dizer: “Você é importante pra mim”, ou “Eu amo você, tudo que sempre quis foi o seu bem”... O fato é que a maioira dos pais não costuma valorizar os momentos que têm com seus filhos. O mesmo vale para os próprios filhos com relação aos seus pais, e também para os namorados, maridos e esposas e para os grandes amigos. Você pensa que o seu parceiro, seja um(a) namorado(a), eposo(a) ou amigo(a), estará lá por toda a sua vida, mas como você pode estar seguro disso? Nós realmente não temos nenhuma idéia de onde nós ou nossos parceiros estarão em dez anos, um ano, um mês ou mesmo amanhã! Por isso é importante nos lembrarmos da prática da compreensão da Impermanência, diariamente.

A Impermanência também deveria ser entendida à luz da interdependência. Porque todas as coisas que existem no mundo natural são interdependentes, ou seja, elas estão constantemente influenciando umas às outras. É dito que as asas de uma borboleta que se agitam de um lado do planeta podem afetar o clima do outro lado. As coisas não podem ficar do mesmo modo porque elas são influenciadas por tudo o mais que existe.

Todos nós podemos entender a Impermanência num certo nível, com o nosso intelecto, mas isto não é a verdadeira compreensão. Apenas nosso intelecto não nos pode conduzir à liberdade. Quando nos concentramos verdadeiramente, podemos praticar o olhar em profundidade, que pode também ser chamado meditação. Quando olhamos profundamente e vemos a natureza da Impermanência, e conseguimos ficar concentrados neste insight profundo, isto é aceitar a Impermanência. Essa expressão intrínseca da Verdade se torna uma parte integrante do nosso ser; se torna nossa experiência diária. E assim podemos ver e viver a Impermanência todo o tempo, sem dor, sem apegos, sem sofrimentos inúteis. Esta é a raiz do desapego. Quando nós pudermos compreender o milagre da Impermanência, nossa tristeza e sofrimento passarão. Este é um passo imenso no Caminho dos buscadores.

Compreender a Impermanência é uma chave que abre a porta de Realidade.


A prática

Quando alguém disser algo que lhe provocar raiva e você desejar que essa pessoa fosse embora, procure olhar a situação profundamente com os olhos da Impermanência. Se ele ou ela tivesse ido, o que você sentiria realmente? Você estaria contente ou se lamentaria? Quando está irritado, o que você faz normalmente? Grita, tenta culpar outra pessoa pelos seus problemas?.. Mas olhando para a raiva com os olhos da Impermanência, você pode parar e respirar.

Dilgo Khyentse Rinpoche, professor do Dalai Lama, aos 78 anos de idade, disse:

"Vi muita coisa durante minha vida. Tantos jovens morreram, tantas pessoas de minha própria idade morreram, tantos homens idosos morreram. Tanta gente que esteve no alto e depois caiu. Tantas pessoas que, de baixo, se elevaram. Tantos países mudaram. Houve tanta confusão e tragédia, tantas guerras e epidemias, tanta destruição terrível ao redor do mundo. E apesar disso, todas essas mudanças não são mais do que um sonho. Quanto você olha em profundidade, pode perceber que nada existe de permanente e constante, nada, nem mesmo o mais fino fio de cabelo do seu corpo. E isso não é teoria, mas algo que você pode de fato entender e até ver com precisão, com os seus próprios olhos."

A razão pela qual somos tolos o bastante para sofrermos e fazermos outra pessoa sofrer é que nos esquecemos que somos, nós e a outra pessoa, impermanentes. Algum dia, deixaremos este mundo, com todas as suas posses, poder, títulos, cargos, carreiras, família, prazeres... Tudo. Isto é Impermanência. - Nossa liberdade, paz e alegria no momento presente são as coisas mais importantes que temos. Mas sem um entendimento desperto da Impermanência, não é possível estar feliz, nunca. Nunca, nem mesmo quando estamos vivenciando experiências muito boas. Durante toda esta semana, eu vou me lembrar disso, todos os dias, em todos os momentos. Vou me esforçar para tanto. Talvez eu escreva isso num papelzinho que vou dobrar e carregar comigo, no meu bolso. Cada vez que eu enfiar a mão no bolso vou me lembrar da impermanência. E vou mudar meu modo de ver o mundo e a vida.

Algumas pessoas nem mesmo querem olhar para uma outra pessoa quando ela está viva, mas quando essa pessoa morre, escrevem homenagens eloqüentes e fazem oferecimento de flores. Naquele momento a pessoa morreu e não pode mais desfrutar da fragrância das flores. Se nós realmente entendemos e nos lembramos que aquela vida era impermanente, fazemos tudo o que podemos para fazer a outra pessoa feliz agora mesmo. Porque só o agora é real. Se nós passamos vinte e quatro horas com raiva de alguém, esta é uma prova do quanto somos ignorantes sobre a Impermanência.

A proposta para esta semana será, obviamente, praticar a Impermanência
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Durante toda esta semana, eu vou me lembrar disso, e fazer tudo de bom que eu puder pela minha vida e pela vida do meu próximo, como se não houvesse amanhã, porque na verdade não há.

Durante toda esta semana, eu vou praticar a compreensão da Impermanência. Não vou me apegar. Não vou acreditar que sou eterno. Assim serei capaz de dar o devido valor aos bens materiais, efêmeros e transitórios, e principalmente aos bens eternos, aqueles que se refletem nos meus atos e nos meus pensamentos.


Uma boa prática e até a próxima semana!



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