Ecumenismo

Resumo da palestra de Dom Lawrence Freeman em 2001, na PUCSP (Seminário do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUCSP sobre Ecumenismo e Violência)

Dom Laurence Freeeman e Thomas Merton

Para falarmos sobre Ecumenismo, devemos antes considerar o significado da palavra FÉ.

O significado vital de qualquer palavra é determinado pelo seu contexto. O contexto de origem da palavra "fé", no grego PISTIS é o de um relacionamento pessoal. PISTIS significa um comprometimento pessoal com o outro. Assumir um compromisso profundo e duradouro. Recentemente acompanhei o sofrimento de uma amiga que havia sido abandonada pelo marido após longos anos de casamento. Ela havia perdido a fé. Fé em Cristo significa entrar numa relação pessoal com Ele e sustentar essa relação através dos desafios da vida. O mesmo significado é encontrado em outras palavras que traduzimos por fé, como o sânscrito "shradha", que significa "colocar o coração em alguém ou em algo",o hebraico "munah ou aman he'min", que significa "confiar", também o árabe e o latim "credo", termo composto de "cor, cordis" que significa "coração" - significando "confiar, entregar".

No contexto ecumênico é preciso distinguir muito bem fé de crença. Santo Agostinho observou que somos salvos pela fé e não pela crença. Fé é a capacidade de compromisso íntimo com Deus. Por isso, no Evangelho, Jesus repete algumas vezes "Tua fé te salvou". Enquanto capacidade de comprometer-se com alguém, a fé é capacidade de transcender, de superar nossos limites por causa do outro. Fé é capacidade de amar.

Por quê as religiões, que têm no seu âmago a intuição da bondade humana e de sua capacidade de amar, se tornam origem de conflitos entre pessoas e povos inteiros? No passado e hoje religiões são vistas como fonte de guerras, tais como ocorre entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, o fundamentalismo hindu e seu desumano sistema de castas, ou o profundo radicalismo de seitas islâmicas que assusta o mundo inteiro e alimenta o conflito entre judeus e palestinos.

A questão é: se não cuidamos bem de nossas crenças, elas podem nos conduzir a divisões e conflitos.

Crença é o modo como descrevemos nossa experiência de Deus. A experiência de Deus não pode ser completamente colocada em palavras. Mas quando as religiões perdem o senso do inefável da sua experiência central, elas chegam a confundir fé e crenças e colapsam para posições inflexíveis.

Dentro desse quadro, o ecumenismo toma outra luz. Ecumenismo é trazer as pessoas de diferentes crenças para o cultivo da unidade. Esse é um trabalho que nunca acaba, pois sempre temos a tentação de nos dividir por causa das diferentes crenças. Mas é um trabalho sempre necessário, porque a vocação humana por excelência é a unidade.

Para algumas pessoas, ecumenismo é a ameaça de trair sua crença. Sentem que o encontro com pessoas de crença diferente ameaça a sua própria crença. Na recusa ao Ecumenismo está o medo. Medo de que a união pode destruir a sua identidade. E perda da identidade é um problema importante em nossos dias. Significa o medo de nos comprometermos com o outro.

Então, na raiz da postura fundamentalista se encontra o medo e o isolamento. Isolamento que nasce do egocentrismo, que tem necessidade de separar-se.

Temos uma tarefa difícil: apresentar o Ecumenismo como algo que não ameaça a identidade. É difícil porque justamente aqueles que ainda não participam do ecumenismo, que se recusam a participar, são inconscientemente movidos pelo medo. E o medo é irracional. É difícil conversar razoavelmente com quem não consegue raciocinar clara e calmamente.

Esse conversar, o dialogar, é a vida do Ecumenismo. Diálogo é uma atividade humana muito sofisticada. Estamos apenas começando a descobrir o que é o diálogo.

Dialogar não é querer convencer o outro. Dialogar é expandir o seu próprio ponto de vista. É tentar compreender o ponto de vista do outro. Dialogar é tentar enxergar o mundo desde o ponto de vista do outro. É a coragem de olhar o mundo a partir das crenças do outro. É uma atividade difícil e exigente. Mas na verdade é a única base real de qualquer relacionamento humano profundo.

A condição básica para o diálogo e para o ecumenismo é a amizade. E quando o diálogo acontece, ele nos conduz à amizade.

A importância da idéia de amizade é muito antiga. Os gregos observaram essa importância. Para os homens da Idade Média, a amizade era o fim último da vida emocional. Depois essa idéia se esvaeceu. A teologia, especialmente a teologia monástica do Ocidente, herdou a tradição da valorização da amizade e refletiu muito sobre a natureza da amizade.

Existem três tipos de amizade: 1) a amizade de conveniência, quando temos interesse em alguma coisa que o outro pode nos proporcionar; 2) a amizade de prazer, quando sentimos o gosto de estar juntos; 3) a amizade espiritual, quando nos relacionamos no nível mais profundo e íntimo de nós mesmos (Jesus, na amorosa conversa da última ceia, disse aos seus seguidores: 'Não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz; mas eu vos chamo amigos' João 15,15).

A amizade espiritual tem duas características: igualdade (não há amizade se uma pessoa se sente superior ou inferior à outra) e benevolência (amigos querem todo o bem e não querem nada de mal um ao outro).

Diálogo e amizade residem no coração do Ecumenismo. É necessário um compromisso pessoal para realizar isso. Para ter diálogo e amizade precisamos contar com a profundidade pessoal, precisamos estar em contato com o nosso próprio coração. E é em nosso coração que vive a fé.

Fé é uma experiência não-denominacional. A experiência da fé nos leva à experiência do amor. Leva ao chão comum, à base comum de todas as tradições religiosas.

O objetivo dos grupos de meditação cristã é ensinar a meditar na tradição cristã. A meditação cristã é essencialmente ecumênica. Em todo o mundo os grupos reúnem pessoas das mais variadas denominações que buscam entrar em uma amizade espiritual.

Meditar não é apenas exercitar uma técnica, mas essencialmente crescer em relacionamento íntimo com Deus. Os grupos de meditação testemunham que o relacionamento íntimo com Deus não nos separa dos outros, mas nos une aos outros, com quem também estabelecemos laços de amizade espiritual íntima.

Por isso, contemplação e diálogo, que parecem coisas diferentes e até irreconciliáveis, mostram-se profundamente interligados.

Tenho a oportunidade de viver isso junto com Sua Santidade o Dalai Lama. O Dalai Lama entrou em contato pessoal com Dom John Main dois anos antes da morte deste último. E foi um contato muito caloroso e significativo. Por isso, convidei o Dalai Lama para orientar o Seminário John Main em 1994. Esse seminário foi um acontecimento importante para o diálogo inter-religioso em nossos dias. Foram quatro dias de preleções do Dalai Lama sobre oito passagens que escolhi dos Evangelhos, discussões interessantes e sessões de meditação. Estou absolutamente convencido de que foram os momentos de silêncio que tornaram as conversas tão interessantes, vivas e significativas.

O Dalai Lama sabe que não deixará de ser budista. Está firme em sua identidade de monge tibetano. Veio sem medo de ser convertido pelos cristãos. Por isso, diz que aprendeu muito e até mudou alguns conceitos antigos sobre o cristianismo. E nós pudemos receber novas luzes sobre as riquezas de nossos textos sagrados. Quando há amizade, vigora o sentimento de liberdade e expansão.

Muitos leitores do livro que resultou desse Seminário escreveram ao Dalai Lama testemunhando que seus comentários os haviam ajudado a retornar ao seio do cristianismo, descobrindo aspectos que ainda lhes eram desconhecidos. E o Dalai Lama fica realmente deliciado com isso, porque ele não quer que ninguém deixe sua própria tradição de origem. Ele trabalha para que todos se aprofundem em suas próprias tradições.

Então Diálogo pressupõe não ser possessivo ou competitivo, para poder se colocar na posição da outra pessoa.

Como fruto daquele Seminário começamos um programa de três anos chamado Caminhos da Paz. Em 1996, com um grupo de 200 cristãos, fomos a Bodh Gaia, o lugar sagrado da Iluminação de Sidarta Gautama, onde o Dalai Lama nos recebeu para um seminário sobre os conceitos de Salvação e Iluminação no Budismo e Cristianismo.

Em 1998 discutimos a questão de Palavra e Imagem, em Firenze.

E em 1999 estivemos, junto com um bom grupo de dirigentes da Comunidade Mundial de Meditação Cristã, em Belfast, para mostrar que a amizade espiritual, que nasce da meditação e se expressa no diálogo, pode se transformar numa força política.



Anotações de Nestor Müller


Faltam... Ei! Falta só mais um dia pro Natal!


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