Dharma: a doutrina do Buda


Vimos que o jovem Sidarta deixou sua bela esposa, seu filho recém-nascido, sua fortuna e todas as suas posses para buscar a iluminação. Diz a tradição que, quando ele finalmente realizou o seu intento, todo o cosmo se rejubilou, a terra balançou, flores caíram do céu, brisas perfumadas sopraram e os deuses em seus vários céus se alegraram. Também aqui, como na visão pagã, os deuses, a humanidade e a natureza estavam intrinsecamente unidos. Havia uma nova esperança de libertação dos sofrimentos e de alcançar o Nirvana, o fim da dor. Gautama tornara-se o Buda, o Iluminado. No princípio, o demônio Mara tentou-o a ficar onde estava e simplesmente desfrutar da sua recém-descoberta felicidade: não adiantaria mesmo tentar espalhar a sua mensagem nem compartilhar com os outros o segredo do Caminho que acabara de descobrir, pois ninguém iria acreditar nele ou mesmo se importar com essas coisas. Mas dois deuses do panteão tradicional – Maha Brahma e Sakra, o senhor dos devas – vieram ao Buda e lhe pediram que dividisse suas descobertas com o mundo. O Buda concordou, e durante os 45 anos seguintes caminhou por toda a Índia, pregando a sua mensagem - neste mundo de sofrimento, só uma coisa era estável e firme: Dharma, a verdade sobre o viver correto, único meio de libertação da dor e do sofrimento.

O Buda aceitava, implicitamente, certos princípios que faziam parte da sua bagagem cultural, como a existência de um panteão de deuses e o interminável ciclo de renascimentos, mas não achava que estudar essas coisas interferisse diretamente na vida dos seres humanos.

Em vez de falar sobre Deus ou deuses ou explicar detalhes sobre a realidade dos mundos além-vida, o Buda ensinava seus discípulos a buscarem a própria libertação. Quando encontrou seus primeiros discípulos em Benares, após a iluminação, o Buda delineou seu sistema, que se baseava num fato essencial: toda existência era “dukkha” (sofrimento). A vida consistia e poderia ser resumida inteiramente no sofrimento: mesmo uma vida bem aventurada e repleta de vitórias terminava num leito de morte, provocando lágrimas e sofrimento. Ninguém estava livre da doença e da decrepitude da velhice. As coisas deste nosso mundo dos fenômenos vêm e vão, num fluxo sem sentido.

Mas essa não é uma característica única do budismo. Toda concepção de religião sempre parece começar com a percepção de que algo está errado. Na Antiguidade do paganismo, isso levou ao mito de um mundo divino, arquetípico, correspondendo ao nosso mas onde tudo era perfeito, que podia transferir sua força para a humanidade. O Buda ensinou que era possível conquistar a libertação de dukkha vivendo-se uma vida de compaixão por todos os seres vivos, falando e agindo com suavidade e perfeição, e abstendo-se de todo tipo de violência e maldade, além de drogas ou intoxicantes que anuviassem a mente. O Buda não afirmava ter inventado esse sistema. Insistia em que o tinha descoberto:

“Eu vi uma trilha antiga, uma Estrada antiga, trilhada por Budas de uma Era passada” – Samyutta-Nikaya, p II: Nidana Vagga


Seu sistema ligava-se às estruturas essenciais da nossa existência, inerentes a condição da própria vida. Tinha realidade objetiva não porque pudesse ser demonstrada por prova lógica, mas porque qualquer um que tentasse de fato viver desse jeito descobriria que dava certo. A eficácia, mais que a demonstração filosófica ou histórica, sempre foi a marca das religiões vitoriosas: durante séculos, budistas em muitas partes do mundo acreditaram que dava certo. - Esse estilo de vida transmite a compreensão de um sentido transcendente.

A palavra “Nirvana” significa, literalmente, “esfriar” ou “apagar”. - O cessar definitivo da chama impermanente do sofrimento e das vicissitudes da vida.

“O Nirvana é permanente, estável, imperecível, irremovível, atemporal, imortal, não nascido e não tornado, que é poder, alegria e felicidade, o refúgio garantido, o abrigo e o lugar de inatacável segurança; que é a autêntica Verdade e a Realidade suprema; que é o bem, a meta suprema e a única consumação de nossa vida, a eterna, oculta e incompreensível Paz.” – Budism: Its Essence and Development (Oxford, 1959)


Atingir o Nirvana não é a mesma coisa que o “ir para o Céu” como popularmente entendem muitos cristãos, independente do que as instituições cristãs ensinem. O Buda sempre se recusou a responder perguntas sobre quaisquer assuntos finais, como o Nirvana ou o destino da alma após a morte, por serem “impróprios”. Seus discípulos saberiam que o Nirvana existia simplesmente porque a prática da vida correta, por eles, lhes possibilitaria vislumbrá-lo.

“Não podemos defender o Nirvana porque nossas palavras e conceitos estão presos ao mundo dos sentidos e do fluxo. A experiência é a única ‘prova’ digna de confiança. Existe, monges, um não nascido, não tornado, não feito, não composto. Se, monges, não houvesse esse não nascido, não tornado, não feito, não composto, não haveria fuga do nascido, do tornado, do feito, do composto. Mas como existe um não nascido, não tornado, não feito, não composto, portanto, há uma fuga do nascido, do tornado, do feito, do composto.” - Udanna Sutta, 8:13


Seus monges não deviam especular sobre a natureza das realidades excelsas. Tudo que o Buda podia fazer era oferecer-lhes uma jangada para levá-los à outra margem. Quando lhe perguntavam se um buda que atingira o Nirvana vivia após a morte, ou o que acontecia após a morte, ele descartava a pergunta como “imprópria”. Disse que perguntar isso era como perguntar para que lugar ia a chama quando se apagava. Era tão errado dizer que um buda existia no Nirvana quanto que não existia, simplesmente porque ainda não estamos aptos a conhecer o suficiente sobre isso que possamos ensinar um ao outro, e, principalmente, cada um deve descobrir por si mesmo. Para o Buda, qualquer afirmação depende de uma relação com algum estado que possamos entender.

Descobriremos que durante os séculos seguintes, judeus, cristãos e muçulmanos encontrariam resposta semelhante para a questão da existência de Deus. O Buda tentava mostrar que a linguagem não estava equipada para tratar uma realidade que ultrapassava os conceitos e a razão. É importante esclarecer que ele não negava a razão, mas insistia na importância de pensamento claro e preciso, e no uso correto da linguagem – em muitos casos é preciso “calar para não pecar”. Em última análise o Buda afirmava, porém, que a teologia ou as crenças pessoais de cada um, assim como os rituais com que nos identificamos pessoalmente, não são importantes. Podiam ser interessantes, mas não eram a questão de importância vital. O mais importante era a vida correta; incluindo-se aí a busca pessoal e a prática do Dharma. Se tentassem, todos os seres vivos veriam que o Dharma era verdadeiro, mesmo que não conseguissem expressar essa verdade em termos lógicos.