Grécia Antiga: a nova revolução # 2

Ruínas do Parthenon (Acróple de Athenas) - berço da Filosofia

Platão e Pitágoras

Platão (428 ou 427 aC) tratou constantemente dos problemas da epistemologia (Teoria do Conhecimento - ramo da filosofia que investiga a natureza e as fontes e a validade do conhecimento). Grande parte de suas primeiras obras foi dedicada à defesa de Sócrates, que obrigara os homens a clarearem suas idéias com perguntas que os faziam pensar. De um modo talvez não tão diferente daquele dos pensadores da Índia, ele não mais se satisfizera com as velhas festas e mitos da religião, que achava degradantes e inapropriadas. Platão foi influenciado também pelo filósofo Pitágoras, do século VI aC, que pode ter sido, por sua vez, influenciado pelas idéias da Índia, transmitidas via Pérsia e Egito.

Pitágoras de Samos acreditava que a alma era uma divindade caída e maculada, encarcerada no corpo como num túmulo, e condenada a um perpétuo ciclo de renascimentos. Articulou a experiência humana corriqueira de sentir-se "um estranho num mundo que não parece ser o seu verdadeiro elemento". Ensinava que a alma podia ser libertada por purificações rituais, que lhe possibilitariam alcançar a harmonia com o universo ordenado. O homem que demonstrou que música e matemática são parentes (o comprimento e a tensão das cordas de uma lira podem ser convertidos em expressões matemáticas) era muito religioso, que acreditava na transmigração da alma: quando um homem morre, sua alma passa para outro corpo, de homem ou de animal. Só pela "vida pura" a alma poderia libertar-se do corpo e viver no Céu. E vida pura significava, para Pitágoras, austeridade, coragem, piedade, obediência, lealdade. Dizia a seus alunos: "Honra aos deuses sobre todas as coisas. Honra teu pai e tua mãe. Acostuma-te a dominar a fome, o sono, a preguiça e a cólera". Mas acreditava igualmente numa série de superstições: não comer carne por causa da reencarnação, não comer favas, não atiçar o fogo com ferro, não erguer algo caído do chão. O melhor meio de purificar a alma, sgundo o mesmo Pitágoras, era a música. O Universo, afirmava, era uma escala, ou um número musical, cuja própria existência se devia à sua harmonia. Como astrônomo, seu principal mérito foi conceber o Universo em movimento. Como teórico de medicina, achava que o corpo humano era constituído basicamente por uma harmonia: homem doente era sinal de harmonia rompida.

Platão também acreditava na existência de uma realidade divina imutável, além do mundo dos sentidos, e que a alma era uma divindade decaída, fora do seu elemento, aprisionada num corpo mas capaz de readquirir seu status divino pela purificação dos poderes racionais da mente.

No famoso mito da caverna, Platão descreveu as trevas e obscuridades da vida humana na Terra; ele percebe apenas sombras das Realidades Eternas, tremulando na parede da caverna. Mas aos poucos pode ser atraído e alcançar a iluminação e a libertação, acostumando sua mente à Luz divina.

Mais tarde, em sua vida, Platão parece ter recuado da doutrina das formas ou idéias eternas, mas elas se tornariam cruciais para muitos monoteístas que tentaram expressar suas concepções de Deus. Essas idéias eram realidades estáveis, constantes, que podiam ser apreendidas pelas capacidades racionais da mente. São realidades mais completas, permanentes e efetivas que os fenômenos materiais mutáveis e falhos que encontramos com nossos sentidos físicos. As coisas deste mundo apenas ecoam, participam de, ou imitam as formas eternas do domínio divino. Há uma idéia correspondente a cada conceito geral que temos, como Amor, Justiça e Beleza. A mais alta de todas as formas, porém, é a idéia de Deus.

Platão

Platão deu forma filosófica ao antigo mito do arquétipo. Suas idéias eternas podem ser vistas como uma versão racional do mundo divino mítico, do qual as coisas mundanas são apenas a sombra. Ele não discutiu a Natureza de Deus, mas limitou-se ao mundo divino das formas, embora de vez em quando pareça que a Beleza ou o Bem ideais representavam uma realidade suprema. Platão estava convencido de que o Mundo Divino era extático e imutável. Os gregos viam o movimento e a mudança como sinais de uma realidade inferior; uma coisa que tivesse uma verdadeira identidade permaneceria sempre a mesma. O movimento perfeito, portanto, seria o círculo, porque vivia girando e retornando perpetuamente ao seu ponto de partida. As esferas celestes imitariam o Mundo Divino o melhor que podem. Essa imagem absolutamente estática da divindade teria imensa influência sobre judeus, cristãos e muçulmanos, embora pouco tivesse em comum com o Deus da revelação bíblico, constantemente ativo, dinâmico, inovador, que na Bíblia encerra antigas e recomeça novas Eras. O círculo, como símbolo perfeito da transcendência, porém, seria mais tarde contestado por pensadores cristãos como G. K. Chesterton:

"Mas a cruz, embora tenha no centro uma colisão e uma contradição, pode estender os seus quatro braços para a eternidade, sem alterar sua forma. Por ter um paradoxo em seu centro, pode crescer sem mudar. O círculo gira sobre si mesmo - é limitado; a cruz abre seus braços aos quatro ventos e é como um indicador para os viajantes livres"

Mas havia um aspecto místico de Platão que os monoteístas achariam muito conveniente. Suas formas divinas não eram realidades “lá fora”, mas podiam ser encontradas dentro do eu. Em sua obra “O Banquete”, um diálogo dramático, Platão procura demonstrar que o amor por um corpo belo poderia ser purificado e transformado numa contemplação extática (theoria) da Beleza ideal. Ali, Diotima, mentora de Sócrates, explica que essa Beleza é única, eterna e absoluta, inteiramente diferente de qualquer coisa que podemos experimentar no mundo:

”Essa Beleza é antes de mais nada eterna; não nasce nem morre; não aumenta nem diminui; depois não é bela em parte e feia em parte, nem bela num momento e feia em outro, nem bela numa relação e feia em outra, nem bonita aqui e feia ali, variando segundo quem a vê. Tampouco aparece essa Beleza à imaginação como a beleza de um rosto, ou mãos, ou qualquer outra coisa corpórea, ou como a beleza de uma idéia ou ciência, ou como a beleza contida em outra coisa que não ela mesma, seja numa coisa viva, na Terra, no Céu ou em qualquer outra coisa. Ele a verá como absoluta, existindo apenas dentro de si mesma, única, eterna.”

Em suma, uma idéia como a Beleza tem muito em comum com o que muitos possivelmente chamariam “Deus”. Contudo, apesar de sua transcendência, as idéias se encontravam dentro da mente humana. Nós, modernos, experimentamos o pensamento como uma atividade, como uma coisa que fazemos. Platão a via como uma coisa que ocorre à mente: os objetos de pensamento eram realidades ativas e independentes no intelecto do homem que as contemplava. Como Sócrates, ele via o pensamento como um processo de lembrança; a apreensão de uma coisa que sempre soubéramos mas esquecêramos. Se os seres humanos eram “divindades caídas”, as formas divinas estavam dentro deles e poderiam ser tocadas pela razão, que, importa dizer, para ele não era apenas uma atividade racional dentro do cérebro, mas uma compreensão intuitiva da realidade eterna dentro de nós. Essa idéia, em maior ou menor grau, iria influenciar místicos das três religiões do monoteísmo histórico.

Platão acreditava que o universo era essencialmente racional. Um outro mito ou concepção imaginária da Realidade.



Fontes e bibliografia:
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong;
“The Symposium”, 1951 – W Hamilton (tradução de);
"Epistemology, Bunnin and others", 1996 - A C Grayling (Blackwell Publishers Ltd);
Dicionário Enciclopédico "Conhecer" (Abril Cultural).