Um relato de Yogananda

Yogananda (à direita) e Ramana Maharshi

Este post é um trecho do livro de Paramahansa Yogananda, "Autobiografia de Um Yogue Contemporâneo", publicado pela primeira vez em 1946, que relata a vida e as experiências pessoais de Mukunda Lahl Gosh ('Yogananda' é o seu nome iniciático de 'Swami' - uma ordem monástica da Índia - e 'Paramahansa' é um título espiritual). Este homem foi um guru e um líder espiritual amoroso que desde criança buscou a Deus antes de qualquer outra coisa, e o seu livro se tornou um clássico mundial sobre hinduísmo e espiritualidade universal. O mais interessante nesta sua obra é que nos fornece um panorama e uma avaliação das tradições espiritualistas hindus escrita por um hindu indiano, e não por algum pesquisador estrangeiro que estudou essas coisas "do lado de fora". Particularmente, não adoto todos os princípios nem os dogmas do hinduísmo em minha vida. Mas a leitura deste livro foi importante na formação do meu próprio entendimento do que significa um sentimento espiritualista genuíno. O nome do capítulo que segue, em duas partes, é:


Dois jovens sem dinheiro em Brindában

Você mereceria que papai o deserdasse, Mukunda! Que tonto é, desperdiçando a vida! - Um sermão de meu irmão mais velho me agredia os ouvidos. Jítendra e eu, recém-saídos do trem e cobertos de poeira, tínhamos chegado ao lar de Ananta, recentemente transferido de Calcutá para a velha cidade de Agra. Meu irmão era auditor no Departamento de Obras Públicas do Governo.

- Você bem sabe, Ananta, que procuro minha herança do Pai Celeste.
- Em primeiro lugar, o dinheiro; Deus pode vir depois! Quem sabe? A vida pode ser muito longa.
- Deus, em primeiro lugar; o dinheiro é Seu escravo! Quem sabe? A vida pode ser muito curta.
- Minha réplica fora provocada pelas circunstâncias, e não a apoiava nenhum pressentimento (mas ai de mim, a vida de Ananta, de fato, terminaria em breve!). "Conheço esse olhar", pensei. Está tramando uma cilada!..

A trama urdida chegou a seu desfecho durante nossa primeira refeição na manhã seguinte.

- Você, então, se sente muito independente da riqueza de papai. O olhar de Ananta expressava inocência enquanto ele voltava às farpas da conversação do dia anterior.
- Estou consciente de minha dependência de Deus.
- Falar é fácil! A vida lhe serviu de escudo até agora! Mas que situação de apuro se você fosse obrigado a recorrer à Mão Invisível para seu alimento e abrigo! Logo estaria mendigando nas ruas!
- Nunca! Não depositaria minha fé nos transeuntes em vez de colocá-la em Deus! Ele pode conceber para Seu devoto milhares de recursos, além da escudela de mendigo!
- Mais retórica! Suponhamos que eu sugira seja a bazófia de sua filosofia posta à prova neste mundo tangível ...
- Eu concordaria! Você confina Deus a um mundo especulativo?
- Veremos. Hoje, você terá oportunidade, ou de ampliar, ou de confirmar meu próprio ponto de vista!
- Ananta fez uma pausa durante um dramático momento; em seguida, falou devagar e seriamente: Proponho enviá-lo, com seu condiscípulo Jitendra, esta manhã, para a vizinha cidade de Brindában. Você não deve levar uma só rúpia; não deve mendigar nem alimento nem dinheiro; não deve revelar sua situação a ninguém; não deve passar sem refeições; não deve encalhar em Brindában; se voltar aqui, à minha casa, antes da meia noite, sem haver violado uma só regra do teste, serei o homem mais espantado de Agra!
- Aceito o desafio! - Nenhuma hesitação havia em minhas palavras ou em meu coração. Gratas lembranças da Beneficência Instantânea reverberavam em minha memória: minha cura de cólera mortal através do apelo à fotografia de Láhiri Mahásaya (o guru dos pais de Yogananda); o jocoso presente dos dois papagaios no terraço de Lahore (comentei essa história no meu post anterior sobre Yogananda); o amuleto oportuno durante o desânimo em Bareilly; a mensagem decisiva por intermédio do sádhu que se aproximou do pátio do erudito em Benares; a visão da Mãe Divina e suas sublimes palavras de amor; sua rápida atenção, através de mestre Mahásaya, a meus pequeninos aborrecimentos; a orientação de última hora, que materializou meu diploma de escola secundária; e a derradeira bênção, meu mestre vivente, emergido da bruma dos sonhos de toda a minha vida. Nunca eu admitiria a insuficiência de
minha filosofia, em qualquer embate, no áspero campo de provas do mundo!

- Sua disposição é crédito a seu favor. Vou escoltá-lo até o trem imediatamente - disse Ananta. E voltando-se para o boquiaberto Jitendra: - Você deve ir junto: como testemunha e, provavelmente, co-vítíma!

Meia hora depois, Jitendra e eu estávamos de posse das passagens de ida, para a viagem. Submetemo-nos, num canto retirado da estação, ao exame de nossas pessoas. Ananta prontamente se satisfez porque não carregávamos valores ocultos; nossos simples "dhótis" (peça de roupa amarrada em torno da cintura, cobrindo as pernas) não escondiam mais do que o necessário. Como a fé se imiscuía no mundo sério das finanças, meu amigo protestou: - Ananta, dê-me uma ou duas rúpias como medida de cautela, Então, poderei telegrafar-lhe em caso de infortúnio.

- Jitendra! - Minha exclamação foi de aguda censura. - Não continuarei com o teste, se você levar dinheiro para nos garantir em último caso.
- Algo de tranqüilizador existe no tilintar das moedas. - Jitendra nada mais acrescentou porque o encarei severamente.
- Mukunda, não sou destituído de coração. - Um toque de humildade insinuara-se na voz de Ananta. É possível que sua consciência o afligisse; talvez por enviar dois jovens sem dinheiro a uma cidade desconhecida; talvez devido a seu próprio ceticismo religioso. - Se, por qualquer acaso ou graça, você passar com sucesso pelo ordálio de Brindában, pedir-lhe-ei que me aceite como seu discípulo.

Em consonância com a situação não-convencional, esta promessa continha certa irregularidade. O irmão mais velho numa família hindu raramente se inclina ante os mais novos; recebe respeito e obediência, em segundo lugar, logo depois do pai. Não restava tempo, entretanto, para meu comentário; nosso trem ia partir.

Jitendra manteve um silêncio lúgubre, enquanto o trem cobria a distância. Finalmente, meu amigo se moveu; inclinando-se, beliscou-me dolorosamente em lugar sensível.

- Não vejo sinal algum de que Deus nos vai fornecer nossa próxima refeição!
- Aquiete-se, incrédulo Tomé; o Senhor está trabalhando a nosso favor.
- Você não pode fazer que Ele se apresse? já estou esfomeado, só ao considerar as perspectivas diante de nós. Deixei Benares para ver o mausoléu do Taj, não para entrar no meu próprio!
- Anime-se, Jitendra! Não estamos prestes a ter nosso primeiro vislumbre das sagradas maravilhas de Brindában? (às margens do rio Junna, Bríndában é a 'Jerusalém' dos indianos. Acreditam que ali o 'avatar' Sri Krishna tenha se manifestado). Sinto profunda alegria ao pensamento de pisar o solo santificado pelos pés do divino Krishna. - A porta de nosso compartimento abriu-se; dois homem tomaram assento. A próxima parada do trem seria a última.

- Jovens, vocês têm amigos em Brindában? - O desconhecido, defronte a mim, revelava um interesse surpreendente.
- Não é de sua conta! - desviei rudemente o olhar.
- Estão provavelmente fugindo de suas famílias sob a magia do 'Ladrão de Corações' ('Hári': um nome afetuoso, atribuído a Krishna por seus devotos). Eu próprio sou um temperamento devocional. Constitui, positivamente, meu dever, velar para que recebam alimento e abrigo neste calor fortíssimo.
- Não, deixe-nos sozinhos. O senhor é muito amável, mas se engana se nos julga vadios fugindo de casa.

Isto encerrou a conversação. O trem parou. Quando Jitendra e eu descemos à plataforma, nossos companheiros ocasionais nos tomaram pelo braço e chamaram um veículo de tração animal.

Apeamos em frente a um eremitério majestoso, situado entre árvores, sempre verdejantes, de canteiros bem conservados. Percebia-se que nossos benfeitores eram conhecidos ali; um sorridente jovem nos guiou sem comentários a uma sala de recepção. Logo se reuniu a nós uma senhora idosa, de nobre porte.

- Gaurí Ma, os príncipes não puderam vir. - Um dos homens dírigiu-se à hospedeira do "áshram" (eremitério ou escola de Yoga). - No último instante, seus planos foram alterados; eles enviam sentidas desculpas; mas trouxemos outros dois hóspedes. Assim que nos encontramos no trem, senti atração, por eles, devotos do divino Krishna. - E, voltando-se para nós - Adeus, jovens amigos, - Nossos dois conhecidos caminharam em direção à porta. - Se Deus quiser, nos encontraremos outra vez. Sejam benvindos aqui.

Gaurí Ma sorriu maternalmente. - Não poderiam ter chegado em melhor dia. Eu esperava dois benfeitores de sangue real, patronos deste eremitério. Que lástima se os alimentos que cozinhei não achassem ninguém para apreciá-los!

Estas amáveis palavras tiveram efeito surpreendente sobre Jitendra: ele desatou em lágrimas. As perspectivas que meu amigo temera encontrar em Brindában estavam se convertendo em entretenimento de reis; o repentino ajustamento mental era demasiado forte para ele. Nossa anfitriã mirou-o com curiosidade, mas sem comentário; talvez estivesse familiarizada com caprichos de adolescentes.

O almoço foi anunciado; Gaurí Ma nos precedeu em caminho para um pátio, saturado de aromas apetitosos, onde a refeição seria servida. Ela desapareceu numa cozinha próxima. Eu premeditara este momento. Escolhendo o local apropriado no corpo de Jitendra, dei-lhe um beliscão tão doloroso como o que ele me dera no trem.

- Incrédulo Tomé, o Senhor Deus trabalha. E depressa, também!
A anfitriã reentrou com um púnkha (leque). Ela firmemente nos abanou à moda oriental, enquanto cruzávamos as pernas em assentos de mantas com ornamentos. Discípulos do ásbram iam e vinham, servindo cerca de trinta pratos. Em vez de refeição, eu deveria descrevê-la como suntuoso banquete. Desde que chegamos a este planeta, Jitendra e eu nunca antes prováramos tais iguarias.

- Realmente, pratos dignos de príncipes, Honrada Mãe! Não posso imaginar que atividade seus régios benfeitores encontraram mais urgente que comparecer a este banquete! A senhora nos proporcionou uma recordação para o resto da vida!

Obrigados ao silêncio pelas condições impostas por Ananta, não podíamos explicar à bondosa senhora que nossos agradecimentos tinham duplo significado. Nossa sinceridade, pelo menos, era patente.


O Taj Mahal


Partimos com sua bênção e um convite atraente para revisitar o eremitério. Fora, o calor era impiedoso. Meu amigo e eu procuramos o abrigo de majestosa árvore de cadamba, na porta do áshram. Seguiu-se um diálogo acerbo. Jitendra, de novo, achava-se perturbado por apreensões.

- Em que bela embrulhada você me meteu! Nosso almoço foi apenas um incidente de boa sorte! Como poderemos ver os aspectos interessantes desta cidade sem termos conosco uma única moeda? E como vai me levar de volta à casa de Ananta?
- Você esquece Deus rapidamente, agora que seu estômago está cheio. - Minhas palavras, sem serem amargas, eram acusatórias. Como é curta a memória humana para os favores divinos! Nenhum homem vivo deixou de ver respondidas algumas de suas preces.
- Não me disponho a esquecer minha loucura ao me aventurar em viagem com um doido como você!
- Cale-se, Jitendra! O mesmo divino Senhor que nos alimentou nos mostrará Brindában e nos devolverá a Agra.


Um jovem delgado, de agradável aparência, aproximou-se a passos rápidos. Parando sob nossa árvore, curvou-se diante de mim.

- Querido amigo, o senhor e seu companheiro devem ser estranhos aqui. Permita-me que seja seu anfitrião e guia.
É quase impossível a um hindu empalidecer, mas a face de Jitendra mostrou, de súbito, uma cor desmaiada. Recusei cortesmente o oferecimento.
- Não, não pode ser que me dispense. - O alarme do desconhecido teria sido cômico em outras circunstâncias.
- Por que não?
- O senhor é meu guru. - Seus olhos buscaram os meus confiantemente. - Durante minhas devoções do meio dia, o bendito Senhor Krishna apareceu-me em visão. Mostrou-me duas figuras desamparadas sob esta mesma árvore. Uma face era a sua, meu mestre! Eu a vi freqüentemente em meditação! Que alegria se aceitasse meus humildes serviços!
- Eu também me alegro de que me haja encontrado. Nem Deus nem o homem nos desamparam! - Embora eu estivesse imóvel, sorrindo para o rosto ansioso diante de mim, uma obediência interna prostrou-me ante os Pés Divinos.
-
Queridos amigos, não me darão a honra de se hospedarem em minha casa?
- Você é amável; mas o plano é inexequível. já somos hóspedes de meu irmão em Agra.

- Pelo menos, me deixarão a lembrança de haver percorrido Brindában em sua companhia.

Consenti com alegria. O jovem, cujo nome era Pratap Chatterji, chamou uma carruagem. Visitamos o Templo Madananchana e outros santuários de Krishna. A noite desceu antes de terminarmos nossas devoções no templo.

- Com licença, vou ver se consigo sandesh (um doce hindu). - Pratap entrou em uma loja na estação ferroviária. Jitendra e eu vagamos ao longo da ampla rua, agora repleta de gente na relativa amenidade da noite. Nosso amigo ausentou-se por algum tempo, mas retornou com presentes de doces e guloseimas.
- Por favor, permita que eu ganhe este mérito religioso. - Pratap sorriu suplicante enquanto estendia um maço de rúpías em notas e duas passagens, recém-compradas, para Agra. Aceitando-os, minha reverência dirigiu-se à Mão Invisível que, escarnecida por Ananta, excedera-se em generosidade. Procuramos um lugar solitário perto da estação.

- Pratap, ínstruí-lo-ei na Kriya de Láhíri Mahásaya, o maior iogue dos tempos modernos. A técnica dele será seu guru. - A iniciação terminou em meia hora. - Kriya é seu chíntárnani (pedra preciosa mitológica com poder de realizar os desejos; é, também, um dos nomes de Deus), - disse eu ao novo discípulo. - A técnica, que é simples como vê, incorpora a arte de apressar a evolução espiritual do homem. Assim como o crescimento das plantas pode ser acelerado muito além de seu ritmo normal, como Jâgadís Chandra Bose (físico e químico muito respeitado na Índia)
demonstrou, também o desenvolvimento psicológico do homem pode ser apressado por meios científicos. Seja assíduo em suas práticas; alcançará o Guru de todos os gurus.
- Sinto arrebatamento ao encontrar esta chave do Yoga, procurada há longo tempo! - disse Pratap pensativamente. -
Seu efeito desobstrutivo sobre as limitações sensoriais me deixará livre para ingressar em esferas superiores. A visão do Senhor Krishna, hoje, só poderia significar o meu maior bem.

Sentamos por um instante em silenciosa compreensão; depois, caminhamos lentamente para a estação. A alegria me inundava ao tomar o trem, mas este foi um dia de lágrimas para Jitendra. Meu afetuoso adeus a Pratap foi pontuado por soluços abafados de meus dois companheiros. A viagem novamente encontrou Jítendra a revolver-se em descontentamento - desta vez, contra si mesmo.

- Superficial é a minha confiança; meu coração tem sido de pedra! Nunca, no futuro, duvidarei da proteção de Deus.

Aproximava-se a meia noite. As duas Cinderelas, enviadas sem dinheiro, entraram no quarto de Ananta. Tal como ele irrefletidamente predissera, suas feições eram um estudo sobre o espanto. Em silêncio, espalhei sobre a mesa as rúpías em notas.

- Jitendra, a verdade! - O tom de Ananta era de gracejo. - Este jovem não esteve participando de um assalto? - À medida, porém, que a narrativa prosseguia, meu irmão tornou-se sério e, por fim, solene, - A lei de oferta e procura atinge reinos mais sutis do que julguei. - Ananta falou com um entusiasmo espiritual que eu nunca antes observara nele. -
Compreendo pela
primeira vez sua indiferença aos cofres-fortes e às vulgares acumulações do mundo.


Apesar de tarde, meu irmão insistiu em receber díksha (iniciação espiritual; da raiz do verbo sânscrito diksh, consagrar-se) em Kriya Yoga. O guru Mukunda teve, na mesma noite, de arcar com a responsabilidade de dois discípulos não-procurados.

Nossa primeira refeição, na manhã seguinte, decorreu uma harmonia que estivera ausente da anterior. Sorri para Jitendra. - Você não será logrado em seu desejo de visitar o Taj. Vamos contemplá-lo antes de partir para Serampore. Despedindo-nos de Ananta, meu amigo e eu logo nos achamos diante da glória de Agra, o Taj Mahal.