O Deus de Einstein



Em meados dos anos 1930, o diplomata e mecenas alemão conde Harry Kessler (1868-1937) se aproximou do já renomado Albert Einstein (1879-1955) e lançou: "Professor, ouvi dizer que o senhor. é profundamente religioso". Sem se alterar, o cientista respondeu: "Sim, você pode dizer isso. Tente penetrar, com os nossos meios limitados, os segredos da natureza. Você vai descobrir que, por trás de todas as concatenações discerníveis, há algo sutil, intangível e inexplicável. A veneração a essa força que está além de tudo o que podemos compreender é a minha religião...".

A resposta não dá muita margem a dúvidas: Einstein acreditava em Deus. E embora talvez seja menos complicada de entender do que a Teoria da Relatividade, a idéia que o gênio desenvolveu do Todo-poderoso é cheia de sutilezas e meios-tons. Isso fez com que, assim como suas descobertas científicas, seus conceitos religiosos gerassem controvérsias e discussões que chegam acesíssimas aos dias de hoje.

"Tudo é determinado por forças além de nosso controle. Isto é verdade para um inseto ou uma estrela. Seres humanos, vegetais, grãos de poeira... Todos dançam segundo uma melodia misteriosa, entoada à distância por um 'Flautista Invisível'". (Albert Einstein no 'Saturday Evening Post' de 26 de Outubro de 1929).


O "Flautista Invisível" representa um Deus que se revela através da "harmonia de tudo o que existe", no discorrer das transformações do mundo natural. Para Einstein, a ciência é essencialmente uma atividade religiosa. Religião, claro, que trata a natureza como metáfora do Divino e o cientista como se fosse o seu sacerdote, aquele capaz de desvendar os seus mistérios. Essa atitude pode ter suas raízes em Platão, que via a Essência do Divino na razão humana. Na elegância das figuras geométricas, com suas relações e proporções, Einstein viu uma forma de linguagem que usamos para decifrar o código usado por Deus para construir o cosmo. A matemática é o alfabeto da Criação.

Einstein argumentava que a religião organizada não seria necessária para estabelecer as bases de um comportamento ético. Impor o controle social pelo medo ou pelas crenças mostra o quão imaturo é ainda o homem. Acreditava que a essência do equilíbrio social não se encontraria necessariamente na religião, mas no respeito à vida, ao outro, ao mundo. - Einstein sobreviveu a duas guerras mundiais, foi testemunha do genocídio de 6 milhões de judeus pelos nazistas, de um número ainda maior de russos por Stálin, de centenas de milhares de japoneses pela bomba atômica americana. Se estivesse vivo hoje, infelizmente, veria que não mudamos muito.

“A causalidade mecanicista foi posta em dúvida pela ciência moderna. Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração pelo Espírito infinitamente superior que se revela no pouco que nós, com nossa fraca e transitória compreensão, podemos entender da Realidade. A moral é da maior importância para nós”. - Albert Einstein


No artigo "Religião e Ciência", que faz parte do livro "Como Vejo o Mundo", publicado em alemão em 1953, Einstein escreveu:

“Todos podem atingir a Religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de 'religiosidade cósmica' e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico (...) Notam-se exemplos desta religião cósmica nos primeiros momentos da evolução, em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas. (...) Ora, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido à imagem do homem, portanto nenhuma instituição religiosa ensina a religião cósmica. (...) Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza se assemelham profundamente”.


Max Jammer, professor emérito de Física e Reitor da Universidade Bar-Ilan, Israel, colega de Albert Einstein em Princeton, se debruçou com profundidade sobre esse lado infelizmente tão pouco abordado de Einstein. Releu seus textos e consultou papéis inéditos, guardados no Einstein Archive, em Jerusalém, e na Biblioteca do Union Theological Seminary de Nova York. O resultado desse esforço é a obra intitulada "Einstein e a Religião", onde, pela primeira vez, são tratados de forma conjunta e abrangente as concepções einsteinianas de Deus e o impacto da Teoria da Relatividade sobre a Teologia. A revolução realizada por Einstein em conceitos fundamentais, como os de espaço e de tempo, bem como a criação da cosmologia científica, que seus trabalhos inauguraram, deram início a um debate de altíssimo nível, que se estende até hoje, sobre a compatibilidade das visões de mundo professadas por cientistas e teólogos contemporâneos. Livro de leitura obrigatória.

No artigo "A Religiosidade da Pesquisa", no mesmo livro, Einstein defende que:

“O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. A religiosidade do sábio consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da Harmonia das Leis da natureza, revelando uma Inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos”.



Sim, foi o próprio Albert Einstein quem escreveu isso. Difícil acreditar que um dos maiores gênios da ciência de todos os tempos tenha declarado essas coisas? Isso torna ainda mais lamentável termos que nos defrontar, nos dias de hoje, com a nova leva de ateus (a la Richard Dawkins) que imaginam que a ciência, de alguma maneira, poderia "provar" que Deus não existe... triste.



Fontes e bibliografia:
Revista Galileu;
Profº Marcelo Gleiser;
Jornal da Ciência (JC E-Mail) - Instituto de Física;
Universidade Federal do Rio Grande do Sul;
DUKAS, H. Hoffmann B. Albert Einstein: O Lado Humano, 1984 - Editora da UNB;
JAMMER, Max. Einstein e a Religião, 2000 - Contraponto.