Grécia Antiga: a nova revolução

Sócrates

Como vimos até aqui, para os primeiros homens religiosos da História do nosso mundo, desde a Pré-História e passando pelos pagãos até os patriarcas judeus, as únicas coisas que realmente importavam eram: ter fé e levar uma vida correta. Os gregos, por outro lado, interessavam-se apaixonadamente pela lógica e pela razão. Foi a religiosidade da civilização grega que trouxe para a mentalidade do mundo antigo uma espécie de “contrapeso da balança", que viria a se tornar extremamente importante na história das religiões. E o melhor ponto para se iniciar uma série de postagens sobre a importância da influência grega no pensamento religioso universal, certamente é a partir de um homem que viveu há quase 2500 anos e continua influencia o nosso pensamento até hoje.


Uma breve biografia

Sócrates foi um filósofo cujos ensinamentos acabaram por formar as bases da filosofia ocidental. Considerado um dos maiores gênios de todos os tempos, tornou-se famoso por ver a filosofia como sendo necessária para todas as pessoas inteligentes. Sócrates permaneceu na História como exemplo de um homem que viveu de acordo com seus princípios, mesmo que esses lhe custassem a própria vida. Sócrates formou a sua instrução, antes de mais nada, através da reflexão pessoal, nos moldes da alta cultura ateniense da época, em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles.

Sócrates valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas, mas orientando-a para os valores universais, segundo a via do pensamento grego. Nasceu entre 470 e 469 aC, em Atenas, filho de Sofrônico, escultor, e de Fenáreta, parteira. Tentou seguir o caminho paterno, mas acabou por dedicar-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico, sem recompensa alguma - apesar de sua pobreza, o que mais importava para ele era encontrar o caminho da sabedoria. Foi considerado como um modelo irrepreensível de bom cidadão. Serviu no exército e lutou brevemente na Guerra do Peloponeso e em várias outras batalhas, como a da Potidéia (429), onde salvou a vida de Alcebíades. Em Delium, carregou nos ombros a Xenofonte, gravemente ferido. Desde jovem ficou conhecido pela sua coragem e também pelo seu intelecto.

Inteiramente absorvido pela sua vocação, não se importava com as preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. Quanto à família, pode-se dizer que Sócrates não teve, por certo, uma mulher ideal em Xantipas, e ela provavelmente também não teve um marido ideal no grande filósofo, sempre ocupado em buscar o conhecimento das questões fundamentais da vida. Teve três filhos. Apesar de inúmeras oportunidades, conservou-se afastado da vida política, que contrastava com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo. Dizia que a melhor forma de servir seu país era se dedicando a ensinar e a persuadir os cidadãos de Atenas a examinarem suas almas e acharem o conhecimento, em vez de entrarem para a política. Acreditava que devia servir à pátria com suas atitudes, vivendo uma vida justa e auxiliando os demais cidadãos a praticarem a busca pela sabedoria e pela honestidade; ao contrário dos sofistas, que agiam para proveito próprio e formavam grandes egoístas, constantemente disputando uns contra os outros e promovendo a escravidão.

Sócrates ensinava filosofia voluntariamente e passava horas discutindo com os cidadãos de Atenas. Ele nunca cobrou por aulas. Ensinava em lugares públicos e argumentava com qualquer pessoa que o escutasse ou que se submetesse às suas perguntas. Sócrates acreditava que sua missão era procurar o conhecimento sobre a conduta correta, pela qual ele poderia guiar uma melhora intelectual e moral dos cidadãos de Atenas.

Sócrates pautava sua vida no conhecimento adquirido e procurava poetas, políticos, artistas e outros. Ele falava com as pessoas e chegou à conclusão que nenhuma delas era sábia. Em um dos seus discursos mais conhecidos, Sócrates se manifesta abismado e diz que muitos clamam que sabem a verdade sem estarem cientes de sua ignorância. Por outro lado, o próprio Sócrates afirmou "Só sei que nada sei".

Sócrates acreditava na superioridade da fala sobre as palavras escritas. Em razão disso, nunca escreveu seus ensinamentos. Ele criticava a palavra escrita chamando-a de artificial, em vez de viva, dizendo que não se pode fazer perguntas a uma palavra escrita. Os ensinamentos de Sócrates que encontramos atualmente foram escritos por seus discípulos. De seus discípulos, temos os diálogos escritos por Platão e por Xenofonte, de onde retiramos as principais informações sobre sua vida e obra. Porém, nos diálogos, Platão provavelmente faz do personagem Sócrates o porta-voz de seus próprios pensamentos, de modo que é difícil estabelecer quais idéias são de Platão e quais são de Sócrates. Além disso, Platão era 45 anos mais jovem do que Sócrates; assim, só tinha conhecimento dos últimos 12 anos de sua vida. Discutem-se, portanto, até que ponto as representações de Sócrates em Platão e Xenofonte correspondem realmente ao Sócrates histórico.

Para ensinar, Sócrates usava o método conhecido atualmente como “diálogo socrático”, em que trazia conhecimento aos seus alunos através de uma série de perguntas, analisando as respostas e fazendo mais perguntas. Com isso, ele guiava os alunos a novos descobrimentos. Sócrates passava horas discutindo virtude e justiça, entre outros tópicos, em praça pública. Passou quase toda sua vida em Atenas. Ele dizia que amava aprender das pessoas e que era mais fácil achar pessoas na cidade do que no campo.

A Morte de Sócrates, Jacques-Louis David, 1787 (clique para ampliar)


Entretanto, a liberdade dos seus discursos, a seriedade do seu caráter e a sua atitude crítica e irônica - e a conseqüente educação por ele ministrada - criaram descontentamento geral, hostilidade popular e inimizades pessoais, apesar de todas as suas qualidades. Em 399 aC, Sócrates foi julgado e condenado por “corromper jovens e por não acreditar nos deuses da cidade e induzir a outros”. Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se e tomou forma jurídica, na acusação movida contra ele por Mileto, Anito e Licon. Declarado culpado por uma pequena minoria, sentou-se com impressionante coragem diante do tribunal, que o condenou à pena capital com o voto da maioria. Mas obviamente por trás da sua condenação existiam outros motivos: em sua peregrinação atrás de espalhar o conhecimento, Sócrates desmascarou e humilhou homens importantes. Os que o condenaram, o acusaram de ser um "um curioso à procura das coisas embaixo da terra e além dos céus, fazendo o pior aparentar o melhor e ensinado tudo isso a outras pessoas”.

Sócrates teve que esperar por mais de um mês, no cárcere, pela morte, pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos. Durante esse tempo, seus amigos, liderados pelo discípulo Criton, planejaram e propuseram sua fuga. Porém Sócrates se recusou a ouvi-los, dizendo que havia sido condenado por uma corte legitima, por isso tinha a obrigação de obedecer. Sendo assim, aceitou sua sentença e permaneceu na cadeia. Ele buscava e acreditava não numa solução empírica para a vida terrena, e sim no juízo eterno da razão, para a imortalidade. E preferiu a morte.

Sócrates passou seus últimos dias de vida com amigos e admiradores, entre palestras e diálogos espirituais. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma - que se teria realizado pouco antes da sua morte - descrito por Platão (no Fédon) com arte admirável. À última noite, conforme mandava a lei, ele tomou veneno, cumprindo assim sua pena. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos, depois de ter bebido tranqüilamente a cicuta, foram: "Devemos um galo a Esculápio"; isto é, o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. Morreu Sócrates em 399 aC, com 71 anos de idade.



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