Guia prático do buscador

“Os encontros, descobertas e bençãos, no Caminho, se dão ‘sem espalhafato’. Quase tudo acontece naturalmente, normalmente, fluindo no cotidiano do dia-a-dia, simplesmente, sem a ocorrência de prodígios apoteóticos ou sinais de falsa grandiosidade.”


Vou falar um pouco sobre esse princípio, e sinto que de uma certa forma estou falando também comigo mesmo, como sempre acontece quanto trato do meu "guia prático do buscador".

Acontece que o buscador que inicia sua jornada corre o risco de cair em diversas ciladas. Ele pode se deslumbrar com a admiração dos amigos, por causa dos conhecimantos que está adquirindo, com certas capacidades intuitivas que pode adquirir ao se dedicar a essa busca ou qualquer outra coisa desse tipo.

Quando o caminhante começa a ler sobre espiritualidade, conhecer as histórias dos “grandes mestres” e tomar conhecimento das muitas tradições, algumas místicas, antes de se aprofundar de fato em qualquer uma delas, tende a se assoberbar. Começa a se achar especial. E aí fica esperando que aconteça na sua vida algo prodigioso, maravilhoso, algum fenômeno incomum, uma comprovação de que ele está no caminho certo, de maneira inequívoca. Espera que Deus (ou o que ele entende por 'Deus') envie 'anjos de luz' para saudá-lo, para confirmar-lhe que é um “escolhido”.


Mas Deus parece ter uma maneira peculiar de nos confirmar a fé. Ele se mostra sutilmente, naqueles detalhes a que, no maior das vezes, nem prestamos atenção. Sua Glória se revela tanto num sorriso de gratidão, de Amor gratuito, quanto nos grandes fenômenos inexplicáveis. Isso não quer dizer que tenhamos que desprezar os grandes Sinais. Eles têm um desígnio, são necessários para cumprir um propósito específico: muitas vidas são renovadas e consciências despertam pelo seu intermédio. Mas a Verdade não se resume ao maravilhoso. A verdade está também no que parece trivial, a Maravilha da vida está naquilo que tantas vezes desprezamos.

Muitos esperam uma confirmação maravilhosa, um Sinal dos Céus, um contato divino. Acham-se muito importantes, meio que sem perceber começam a crer que são mais especiais ou mais importantes que os outros. Mas tudo que Deus espera é que cumpramos a nossa missão específica nessa Terra. E por favor, não entendam por “missão” algo grandioso, mágico, tremendo... A sua missão pode ser apenas viver bem a sua vida, levando sempre que puder palavras de consolo a quem está desesperado, fazendo companhia aos velhinhos, espalhando a esperança, sendo, na medida das suas capacidades, uma luz no meio deste mundo tão mergulhado em trevas... Vou contar uma história para ilustrar o que estou tentando dizer:

Conheço uma moça (que não quer o seu nome revelado) que há pouco tempo resolveu participar como voluntária na Pastoral Carcerária da Igreja católica. Ela andava depressiva há meses, achando sua vida sem sentido e um tanto angustiada por conta de certos problemas familiares que vinha enfrentando. Uma pessoa negativa, chorosa e desagradável, do tipo que ninguém gosta de encontrar na rua, porque logo que você pergunta “como vai” ela logo começa a lamentar suas dores e tragédias pessoais. Uma colega do seu trabalho sempre a chamava para irem juntas visitar os detentos na carceragem, que é a missão da referida pastoral. - Levar esperança aos que já não têm, ou têm muito pouca; dar a essas pessoas um motivo pra viver, em cumprimento ao apelo do Mestre: "...estava na prisão e me visitastes. (...) sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes" (Matheus, 25:34-40). Mas ela nunca se resolvia a participar de fato, tinha medo e achava que aquilo não era pra ela. Na verdade, segundo me disse, não se sentia capaz de ajudar a quem quer que fosse. Andava por demais ocupada com seus próprios problemas; não tinha tempo para despender com auxílio filantrópico.

Mas quando seus dramas pessoais atingiram um nível quase insuportável, ela resolveu, mais para fugir do ambiente familiar, saturado de energia negativa, do que por qualquer outro motivo, participar da tal pastoral com a amiga. Na verdade, aquilo lhe parecia uma oportunidade de esquecer, ao menos por algum tempo, dos seus problemas e se distrair um pouco.


***


Hoje, um ano e tanto depois, ela olha para trás e se sente grata por ter um dia tomado aquela decisão. Segundo diz, os seus problemas parecem ter se resolvido “sozinhos” (talvez ela é que tenha começado a encará-los com uma outra disposição), e ela encontrou dentro de si uma fé que nunca imaginou que ali houvesse. É uma pessoa radiante, cheia de risos e brincadeiras, e cada vez que a encontro, é como recarregar minhas “baterias”. Uma pessoa negativa, depressiva e amargurada se transformou numa alma alegre e realizada, que parece emanar felicidade por onde passa. Ela passou, maravilhosamente, da condição do “vampiro psíquico” clássico para uma doadora de energia positiva inesgotável. Tudo porque começou a praticar a sua fé. Antes, apenas acreditava que fazer o bem era bom. Agora ela tem certeza, porque vive essa realidade no seu dia-a-dia. Passou a praticar aquilo que há muito tempo já sabia ser o certo. E a verdadeira "Mágica" aconteceu.

Encontrá-la agora é um prazer, uma felicidade, um ponto alto no dia de qualquer pessoa. Um amigo a descreveu, dia desses, como alguém que “parece viver no Céu, estando ainda na Terra”. Quanto a mim, acho que o Céu já está aqui, agora, em todos os lugares. Só é preciso que o encontremos, dentro de nós; que saibamos como nos “conectar” a ele. É o próprio Cristo quem diz:


“O reino de DEUS não vem com aparência exterior; não dirão: 'Ei-lo aqui!' ou 'Ei-lo ali!' pois o Reino de DEUS está dentro de vós.” – Jesus Cristo (Lucas, 17:21).


Só é preciso encontrá-lo! Esta é a verdadeira Busca, a verdadeira jornada. A jornada ao interior de si mesmo. Os que me enviam emails pedindo orientações (tadinho de mim!), aí vai a maior dica que eu posso dar: até onde eu sei, a melhor maneira de realizar a sua missão e encontrar o Caminho é servindo ao próximo. E não diga que não tem oportunidades, porque elas não faltam, estão em toda parte. Até aqui mesmo, neste blog, agora!




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