A cidade sem buzinas...

...ou "Para onde vamos?" - Eu li essa crônica há alguns dias e amei. O cara está falando exatamente o que eu penso. Então resolvi postá-la por aqui, num sábado, que eu acho um bom dia para refletir sobre as coisas da vida...


"Um amigo meu já trabalha na mesma empresa há mais de 16 anos. Ele odeia o lugar, as pessoas, o trabalho. Até levantar de manhã é uma sacrifício. Diz que só não pede demissão porque não quer perder os 40% do FGTS. Parece piada de mau gosto. Trabalhar só por dinheiro vale a pena? Apenas e tão somente por dinheiro? Trabalho serve só para pagar as contas ou deve dar um certo prazer?

Quando vejo uma pessoa buzinando por qualquer coisinha, xingando e berrando no trânsito, já me vem logo a imagem de uma pessoa infeliz: na cama, com a família ou no trabalho. Uma pessoa feliz buzina, como uma louca? Xinga um desconhecido só porque entrou na sua frente sem dar seta?

Não me parece que ter um salário fixo, uma certeza de aposentadoria, uma reserva de FGTS, e esses outros paternalismos das leis trabalhistas compense a carga e a neurose que vêm junto. Afinal, vai usar esse dinheiro dos 40% pra quê? Pra pagar uma terapia? Ou uma ponte de safena?

Sei lá. Fica sempre a impressão de que quem trabalha em algo de que não gosta é, além de infeliz, também um pouco covarde. Uma pessoa medrosa e insatisfeita com seu trabalho é muito fácil de detectar. Ela mostra isso nos primeiros minutos de conversa. Normalmente, enrola mais do que realmente trabalha, tem medo de que descubram que ela não faz falta, o rendimento é baixo, e quando tem que atender algum cliente... é como se ele fosse o culpado de todos os males do mundo. Não só os clientes, também os colegas, os parentes, os amigos e até desconhecidos pagam o pato.

Uma reforma das leis trabalhistas é mais do que necessária. As pessoas que vivem nas grandes cidades percebem isso claramente, mas os medrosos, em vez de desejarem mais qualidade de vida, ficam buscando mais garantias no trabalho. Credo. Quem vive em nome de garantias é quem não acredita em si mesmo e faz as pessoas à sua volta se sentirem infelizes também.

Já que o grande potencial de uma nação está nos indivíduos, não teremos grandes sujeitos se essas garantias trabalhistas continuarem a acovardar as pessoas. A cidade pode crescer, podem surgir mais coisas para comprar, carros poderosos, cursos incríveis, viagens; mas, se o trabalho não for gostoso e não der prazer… Nada disso parecerá ter sentido alguns minutos depois de ter sido consumido.

Fico imaginando uma cidade do futuro, não com prédios altos, nem carros fantásticos nas ruas, nem celulares com música ou internet ultra-rápida… Fico imaginando uma cidade mais gostosa, com gente feliz, gente sem pressa para comer, muitas árvores, gente visitando museus, indo ao cinema (e não atendendo ao celular durante o filme), as buzinas mudas e ninguém xingando desconhecidos; empregos sem garantias eternas e todo mundo fazendo um trabalho gostoso…"

por Duilio Ferronato - "Revista da Folha" (de São Paulo).


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