Zarathustra e o zoroastrismo - conclusão

Zarathustra e seguidores numa concepção moderna


O ensinamento de Zarathustra é essencialmente otimista, já que segundo ele é mais fácil percorrer o caminho do Bem que o do Mal. Seus seguidores deveriam ser tolerantes para com todas as religiões. No século VII aC, quando "Ciro o grande" fundou o Império Persa, o zoroastrismo se tornou a religião oficial do Estado, passando a ser praticado na Grécia, Egito e norte da Índia. Depois da morte de Zarathustra a religião continuou a ser (ainda mais) difundida.

Acredita-se que possa ter influenciado a religião dos hebreus quando exilados no Egito, com a presença de novos entendimentos sobre temas como: anjos, livre-arbítrio, a bondade essencial contida no mundo e etc.

Os seguidores do zoroastrismo que seguiram para a Índia ficaram conhecidos como "parses" ou "pars" (derivação da palavra indiana 'persas'). Para os parses, a limpeza é algo muito importante, é preciso que o adepto se banhe antes de qualquer cerimônia ou culto. Eles usam um manto chamado "kushti", que contêm cordões que representam os capítulos da Yasna. Os devotos usam um "sadre" (uma espécie de camisa que os diferencia das demais religiões da Índia) e os sacerdotes usam túnicas e turbantes brancos.

Com o colapso do império aquemênida, o Zoroastrismo desapareceu como religião organizada, até que voltou a ser religião do Estado no Segundo Império – o sassânida. Entretanto, quando este foi destruído, o zoroastrismo igualmente foi derrotado pelas forças de uma outra nova religião; o islamismo.

A partir do momento em que deixou de ser religião oficial, o zoroastrismo entrou numa decadência rápida e irreversível. Em todas as fases, porém, manteve uma característica básica: uma religião de livre-arbítrio na qual o homem é julgado de acordo com a natureza dos seus pensamentos, palavras e atos; com a recompensa pós-morte - para os bons o Paraíso, a "Melhor Existência", e para os maus o Inferno, a "Existência Infernal", também denominada como “Morada da Mentira”. Na primeira, facilidades e benefícios. Na outra, desconforto e tormentos, escuridão e gritos de dor.

De papel fundamental nos conceitos religiosos apresentados por Zarathustra foram os "Amesha Spentas" ('Imortais Sagrados'), que podem ser descritos como emanações ou aspectos de Ahura Mazda. Nos Gathas, os Amesha Spentas são apresentados de uma forma bastante abstrata; séculos depois eles seriam transformados e elevados ao estatuto de divindades. Cada Amesha Spenta foi associado a um aspecto da criação divina.


Os Amesha Spentas:

"Vohu Manah" ('Bom Pensamento'): os animais;
"Asha Vahishta" ('Verdade Perfeita'): o fogo;
"Spenta Ameraiti" - ('Devoção Benfeitora'): a terra;
"Khashathra Vairya" - ('Governo Desejável'): o céu e os metais;
"Hauravatat" ('Plenitude'): a água;
"Ameretat" ('Imortalidade'): as plantas.


Curiosidades

# No português e também em outras línguas o nome do profeta têm recebido diversas grafias. Assim, encontramos nos diversos compêndios formas diversas: “Zaratrusta, Zarathrustra, Zaratustra, Zarathrusta, Zarathushtra”...

# Uma hipótese diz que os Reis Magos eram sacerdotes zoroastristas.

# No zoroastrismo oram-se cinco vezes ao dia. A linguagem usada é o persa antigo e os templos são fechados, não sendo permitido o acesso a pessoas de outras religiões.

# A maneira como lidam com os mortos é bastante peculiar. Os parses colocam os corpos nas chamadas "Torres do Silêncio", ou "Dakhmas", onde são comidos por aves e animais selvagens. Esta seria a missão do abutre, de acordo com a tradição parse.

# A historia do Zoroastrismo começou a enfraquecer no século VII dC.

# A religião foi banida da Pérsia pelos muçulmanos no século IX.

# A perseguição aumentou sob a dinastia Qajar (1796-1925). Mas quando o Xá Reza Pahlevi destronou o último Qajar em 1925, houve uma trégua na perseguição, já que eles eram tidos como nobres da antigo Irã.

# Atualmente podemos ver a continuação do Zoroastrismo através dos parses da Índia que preservam alguns dos antigos rituais.

# Segundo Zaratustra, os ahuras são seres que escolheram o Bem e os daivas (ou devas) o Mal. - No hinduísmo ocorre o inverso, com os ahuras representando o Mal e os daivas o Bem.

# Segundo o pesquisador James Moulton, Zarathrusta não pertencia à classe sacerdotal. O sacerdócio no Irã daquela época provavelmente também existia como classe social, um cargo transferível por herança.


Zoroastrismo hoje

Substituído pelo islamismo, o zoroastrismo reduziu-se basicamente a pequenos grupos no Irã e na Índia. Portanto, a comunidade zoroastriana existente no mundo contemporâneo pode ser dividida em dois grandes grupos: os parses e os zoroastrianos iranianos. Mas além destes existem também ocidentais convertidos à religião. Segundo estimativas do ano de 2004, o número de zoroastrianos era de 124 mil pessoas.

Na Índia os Parses são reconhecidos pelas suas contribuições à sociedade no domínio econômico, educativo e caritativo. Muitos vivem em Mumbai (Bombaim) e têm tendência para praticar a endogamia (sistema social no qual os casamentos ocorrem entre membros de um mesmo grupo), desencorajando as mudanças de religião. Vêem a sua fé como étnica.

Em geral os zoroastrianos iranianos mostram-se mais abertos a aceitar conversões. Concentram-se nas cidades de Teeran, Yazd e Kerman. Falam uma variante da língua persa, o dari (diferente do dari falado no Afeganistão). Receberam o nome de "gabars", termo que era usado inicialmente com conotações pejorativas (‘infiel’), mas que com o tempo perdeu muito da sua carga negativa.

Diásporas zoroastrianas podem ser encontradas em países como Reino Unido, Canadá, Estados Unidos, Austrália e países do Golfo Pérsico.

Atualmente os zoroastrianos dividem-se entre o dualismo ético e o dualismo cosmológico, existindo também os que aceitam os dois conceitos. Os que acreditam literalmente que Ahura Mazda tem um inimigo chamado Ahriman (ou Angra Mainyu), responsável pela doença, pelos desastres naturais, pela morte e por tudo quanto é negativo, não o vêem como um deus. Ele é antes uma energia negativa que se opõe à energia positiva de Ahura Mazda, tentando destruir tudo o que de bom foi feito por ele (a energia positiva de Deus é chamada de 'Spenta Mainyu'). No final, Ahriman será destruído e o bem triunfará. Outros zoroastrianos entendem o dualismo como ocorrendo no plano interno de cada pessoa, a escolha que cada um deve fazer entre o Bem e o Mal.

Sacerdócio - Existem três graus de sacerdócio no zoroastrismo contemporâneo, que tende a ser hereditário, embora não seja obrigatório que o filho de um sacerdote venha a seguir a profissão do pai.

Os sacerdotes de grau inferior recebem o nome de “ervad”. Para aceder a este grau inicial é preciso conhecer de cor as escrituras do zoroastrismo, bem como a lei. O ervad desempenha apenas uma função de assistente nas cerimônias mais importantes da religião. Acima deste encontra-se o “mobed”, e por sua vez, acima deste o “dastur”; responsável pela administração de um ou vários templos (o cargo de dastur pode ser comparado ao do bispo cristão).

Locais de culto - Os templos religiosos do zoroastrismo, onde se desenrolam as cerimónias e são celebrados os festivais da religião, são conhecidos como "Templos de Fogo".

Estes edifícios possuem duas partes principais. A mais importante é a câmara onde se conserva o fogo sagrado, que arde numa pira colocada sobre uma plataforma de pedra. Os sacerdotes zoroastrianos visitam o fogo cinco vezes por dia e procuram mantê-lo acesso, fazendo oferendas de sândalo purificado. Recitam também orações perante o fogo com a boca tapada por um tecido, de modo a não contaminarem o fogo. Este respeito pelo fogo sagrado levou a que os zoroastrianos fossem chamados de "adoradores de fogo" - o que constitui um erro, já que o fogo não é adorado em si, mas como um símbolo da sabedoria e da luz de Ahura Mazda. Os templos de fogo mais importantes do Irã e da Índia mantêm uma chama de fogo sagrado a arder perpetuamente.

Rituais - O zoroastrismo não determina que os membros devam realizar um número obrigatório de orações por dia. Os zoroastrianos podem decidir quando e onde desejam orar. A maioria dos zoroastrianos reza várias vezes por dia, invocando a grandeza de Ahura Mazda. As orações são feitas perante uma chama de fogo.

O “Navjote” (ou ‘Sedreh-Pushi’ para os zoroastrianos do Irã) é uma cerimônia de iniciação obrigatória, destinada às crianças, que deve acontecer entre os sete e os quinze anos de idade. Antes da cerimônia começar a criança toma uma banho ritual de purificação (‘Naahn’). Depois é conduzida pelo mobed, na presença familiares e amigos, a receber o “sudreh” (ou ‘sedra’, uma veste branca de algodão) e o “kusti” (um cordão feito de lã) que ata na sua cintura. A partir deste momento o zoroastriano deve usar sempre o sudreh e o kusti.

O casamento zoroastriano implica dois momentos distintos. No primeiro os noivos e os seus padrinhos assinam o contrato de casamento. Segue-se a cerimônia propriamente dita, durante a qual as mulheres da família colocam sobre a cabeça dos noivos um lenço, e simultaneamente dois cones de açúcar são esfregados um contra o outro. O lenço é então cozido, simbolizando a união do casal. As festas do casamento podem prolongar-se entre três e sete dias.

Práticas funerárias - Os zoroastrianos acreditam que o corpo humano é puro e não algo que deve ser rejeitado. Mas quando uma pessoa morre e o seu espírito deixa o corpo, num prazo de três dias o seu cadáver torna-se impuro. E uma vez que a natureza é uma criação divina marcada pela pureza, não se deve poluí-la com um cadáver. Assim, os cadáveres dos zoroastrianos, tradicionalmente não são enterrados, mas colocados ao ar livre para serem devorados por aves de rapina, em estruturas conhecidas como Torres do silêncio (‘dokhma’).

Após a morte, um cão é trazido perante o cadáver, num ritual que se repete cinco vezes por dia. No aposento onde se encontra o cadáver arde uma pira de fogo ou velas, durante três dias. Durante esse tempo os parentes e amigos vivos evitam o consumo de carne. Os participantes no funeral vestem-se todos de branco, procurando-se evitar o contacto direto com o defunto. O cadáver (sem roupa) é então depositado numa torre do silêncio. Depois das aves terem consumido a carne, os ossos são deixados ao sol durante algum tempo para secarem. Por motivos vários (a diminuição da população de aves de rapina e a ilegalidade dessa tradição em alguns países) esta prática tem sido abandonada. Zoroastrianos residentes em países ocidentais, e até mesmo no Iran e na Índia, optam pela cremação.

Festas - As comunidades zoroastrianas atuais segem três calendários diferentes: o “Fasli” (usado pelos iranianos e alguns parses), o “Shahanshahi” (usado pela maioria dos parses) e o “Qadimi” (o menos utilizado), o que significa que as festas religiosas podem ser celebradas em diferentes dias. Nesses calendários, os meses e dias do mês recebem o nome de um Amesha Spenta.

Os zoroastrianos celebram seis festivais ao longo do ano - os chamados “Gahanbars” - cujas origens se encontram nas diferentes atividades agrícolas dos antigos povos do planalto iraniano e nas estações do ano.

“Noruz” é o Ano Novo Persa, celebrado no dia 21 de Março no calendário Fasli (os Parses celebram o Noruz em meados de Agosto). Neste dia os zoroastrianos colocam nas suas casas uma mesa com sete itens: um vaso com rebentos de lentilhas ou de trigo, um pudim, vinagre, maças, alho, pó de sumagre, frutos da árvore jujube. Outros elementos que enfeitam a mesa são moedas, o Avesta, um espelho, flores e uma imagem de Zaratustra. O Noruz é celebrado com o uso de roupas novas, com o consumo de pratos especiais, com a troca de presentes e a celebração de cerimônias religiosas. O fogo tem nesse dia um significado especial. Seis dias depois do Noruz os zoroastrianos festejam o nascimento de Zaratustra.


"Deus é UM. Sagrado; Bom; Criador de todas as coisas, tanto materiais como espirituais, através de Seu Santo Espírito; Ele é a Vida e O que dá a vida. Ele é Bom porque é Produtivo e faz com que tudo se desenvolva. Sua 'Unicidade', entretanto, é uma unidade na diversidade, uma vez que Ele se manifesta sob vários Aspectos: o Espírito Santo, através de Quem Deus cria; o Bom Pensamento, através do qual inspira o profeta e santifica o homem; a Verdade, a Retidão ou Ordem Cósmica ('Asha'), pela qual mostra aos homens como se ajustarem ao Cosmos pela honradez; a Soberania, através da qual regula a Criação; Totalidade, que é a plenitude de Seu Ser; a Moralidade, pela qual derrota a Morte."

Gathas: Zarathustra



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Fontes e bibliografia:

BAUSANI, Alessandro. Lo Zoroastrismo in Le Grandi Religioni - vol VI, Milão: Rizzoli Editore, 1964;
BOYCE, M. Os Sacerdotes e Homens - vol. 50, São Paulo: Boletim de Estudos Orientais e Africanos, 1997;
GUILLEMIN, J. Duchesne. Religião do Irã Antigo, Bombay: Feeters Publishers, 1988;
HODIWALA, S. K. Religião Indo-iraniana, Diário do K. R. Cama - vol. 10, São Paulo: Oriental Instituto, 1990;
Arquivo Barsa - Planeta;
Profº J. Laércio do Egito - F.R.C.