Origens #3 - No começo era a intimidade

O sonho de Jacó

Veremos que, séculos depois, os israelitas acharam o "mana" ou santidade de Javé uma experiência aterrorizante. No monte Sinai, por exemplo, aparece a Moisés numa erupção vulcânica de inspirar pavor, e os israelitas tiveram que se manter à distância. Em comparação, o El de Abrão é uma divindade bastante branda. Aparece-lhe como um amigo e às vezes até assume forma bastante humana. Esse tipo de aparição divina, conhecida como epifania, era bastante comum no mundo pagão da Antiguidade. Embora em geral não se esperasse que os deuses interviessem diretamente na vida dos mortais, alguns indivíduos privilegiados nos tempos míticos encontraram seus deuses face a face. A Ilíada está repleta dessas epifanias. Os deuses e deusas aparecem a gregos e troianos em sonhos, quando se acreditava que caía a divisão entre os mundos humano e divino. No final mesmo da Ilíada, Príamo é orientado para os navios gregos por um jovem encantador que acaba se revelando como Hermes. Quando os gregos lembravam a era de ouro de seus heróis, sentiam que eles tinham estado em estreito contato com os deuses, que eram, afinal de contas, da mesma natureza dos seres humanos.

Essas histórias de epifanias expressavam a visão holística pagã - quando o divino não era essencialmente distinto da natureza ou da humanidade, podia ser experimentado sem grande estardalhaço. O mundo vivia cheio de deuses e deusas, que se podia ver inesperadamente a qualquer momento, dobrando qualquer esquina, ou na pessoa de um estranho que passava. Aparentemente, a gente simples talvez acreditasse que esses encontros divinos eram possíveis em suas próprias vidas: isso pode explicar a estranha história do livro bíblico do NT (Novo Testamento) Atos dos Apóstolos, quando, já no século I aC, o apóstolo Paulo e seu discípulo Barnabas foram tomados como Zeus e Hermes pelo povo de Lystra, onde hoje é a Turquia.

Quase do mesmo modo, os israelitas lembravam sua era de ouro vendo Abraão, Isaac e Jacó vivendo em termos familiares com seu Deus. El dá-lhes conselhos amistosos, como um xeque ou chefe tribal da época: orienta suas errâncias, diz-lhes com quem casar-se e fala-lhes em sonhos. De vez em quando, eles parecem vê-lo em forma humana – uma idéia que mais tarde seria considerada anátema (heresia) para os israelitas. No capítulo 18 do Gênesis, o autor J nos diz que Deus apareceu a Abraão junto ao carvalho de Mamre, perto de Hebron. Abraão ergueu seus olhos e avistou três estranhos aproximando-se de sua tenda, na hora mais quente do dia. Com a típica cortesia do Oriente Médio, insistiu opara que eles se sentassem e descansassem, enquanto corria a preparar-lhes uma refeição. Durante a conversa, ficou sabendo, bastante naturalmente, que um daquele “homens” não era outro senão o seu Deus, a quem J sempre chama “Javé” (= “EU SOU”). Os outros dois homens revelaram-se anjos. No texto, ninguém parece particularmente surpreso com essa revelação.

Quando J escrevia, no século VIII aC, nenhum israelita esperaria “ver” Deus assim - a maioria teria achado a idéia no mínimo chocante. O autor E, contemporâneo de J, parece considerar inadequadas essas velhas histórias sobre a intimidade do patriarca com Deus. Quando E fala dos tratos de Abraão ou Jacó com Deus, prefere distanciar o fato e tornar as velhas lendas menos antropomórficas. Assim, dirá que Deus fala por Abraão por intermédio de um anjo. J, no entanto, não partilha desses escrúpulos, e mantém o antigo sabor dessas primitivas epifanias em sua versão.




Jacó também passou por várias epifanias. Numa ocasião, decidiu retornar a Haran, para arranjar uma esposa entre seus parentes de lá. Na primeira etapa da jornada, dormiu em Luz, perto do vale do Jordão, usando uma pedra como travesseiro. Nessa noite, sonhou com uma escada que se estendia entre a Terra e o Céu. Anjos subiam e desciam entre os reinos de Deus e do homem. Poderíamos nos lembrar do Zigurate de Marduk: no topo, suspenso por assim dizer entre céus e Terra, o homem podia encontrar seus deuses. No topo de sua escada, Jacó sonhou que via El, que o abençoava e repetia as promessas feitas a Abraão; os descendentes de Jacó se tornariam uma poderosa nação e possuiriam a terra de Canaã. Também fez uma promessa que causou significativa impressão em Jacó; a de acompaná-lo e guradá-lo, daquele dia em diante. Acontece que a religião pagã era muitas vezes territorial: um deus só tinha “jurisdição” numa determinada área, e era sempre sensato adorar as divindades locais quando se ia ao exterior. Mas El prometeu a Jacó que o protegeria quando ele deixasse Canaã e vagasse numa terra estranha: “Estou contigo e te guardarei, por onde quer que fores”. A história dessa epifania mostra que ali se começou a compreender uma implicação mais universal de um Deus único.

Quando acordou, Jacó compreendeu que passara a noite inadvertidamente num lugar santo, onde os homens podiam contatar o Ceú. “Na verdade, Javé está neste lugar, e eu nunca soube!”, diz ele, segundo J. Jacó estava inundado de um senso de maravilha que muitas vezes inspirou os pagãos quando encontravam o poder sagrado: ”Como este lugar inspira temor! É nada menos que uma Casa de Deus (Beth-El); este é o Portão do Céu!”. Então decidiu consagrar aquele solo santo à maneira pagã tradicional da região. Tomou a pedra que usara como travesseiro, colocou-a de pé e santificou-as com uma libação de óleo. Daí em diante o lugar não mais seria chamado Luz, mas Beth-El, a Casa de El ou Casa de Deus. Pedras em pé eram uma característica comum dos cultos cananeus, que floresceram em Beth-El até o século VIII aC. Embora israelitas posteriores tenham condenado vigorosamente esse tipo de religião, o santuário pagão de Beth-El estava associado na lenda inicial a Jacó e Deus.

Antes de deixar Beth-El, Jacó tinha decidido tornar o Deus que encontrara ali seu “Elohim”; este era um termo técnico, significando tudo que os deuses podiam significar para homens e mulheres. Ou seja, Jacó decidira que se El (ou Javé) podia de fato cuidar dele em Haran ou em qualquer outro lugar, era particularmente eficaz. Assim, em troca da proteção de El, fez dele seu Elohim, o único Deus que lhe importava.


* Nota: O termo "pagão", todas as vezes que utilizado neste blog, refere-se ao termo culto da língua portuguesa que designa as religiões politeístas da antiguidade (Dicionário Priberan - Paganismo: antiga religião politeísta dos Gregos e Romanos; religião dos pagãos; os pagãos; politeísmo; idolatria). O uso feito da palavra neste espaço não tem, portanto, nenhuma conotação pejorativa.


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Fontes e bibliografia:

ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus - quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo, São Paulo: Companhia das Letras, 1999;
MENDENHALL, George E. The Biblical Archeologist, Londres: London`Publishing, 1962.