O discurso da chuva


“Subi do mosteiro para cá (para o eremitério) ontem à noite, chapinhando pelo milharal. Rezei as Vésperas e coloquei aveia no fogareiro, para o jantar. A aveia ferveu e derramou enquanto eu ouvia a chuva e tostava um pedaço de pão no fogo a lenha. A noite tornou-se muito escura. A chuva rodeou todo o chalé com seu enorme mito virginal - todo um mundo de sentidos, segredos, silêncio, rumores.

Pense nela: todo aquele discurso precipitando-se, vendendo nada, julgando ninguém, empapando a espessa camada de folhas mortas, encharcando as árvores, enchendo d’água as ravinas e recantos do bosque, lavando os lugares onde os homens desnudaram a encosta! Que coisa é sentar-se absolutamente só na floresta à noite, acariciado por esse discurso maravilhoso, ininteligível, perfeitamente inocente, o discurso mais reconfortante do mundo, a fala com que a chuva, sozinha, cobre o perfil das montanhas e a fala dos arroios por toda parte, em todos os sulcos!

Ninguém a começou, ninguém a deterá. Esta chuva falará o tempo que quiser. Enquanto ela falar, vou ouvir.”


'Raids on the Unspeakable', de Thomas Merton (New Directions Publishing Co., New York), 1964.


“Em seu 9º 'memra'* aos que moravam em solidão, Philoxenos diz que não há explicação nem justificativa para a vida solitária, pois ela é sem lei. Portanto, ser contemplativo é ser fora da lei. Como Cristo foi. Como São Paulo foi.”

'Contemplação num Mundo de Ação', Thomas Merton.


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* 'Memra' é um termo hebraico que significa o mesmo que o grego Logos - "Palavra".


Fonte: Blog "Reflexões de Thomas Merton".