Origens #5: A Grande Novidade

Os israelitas chamavam Javé de “o Deus de nossos pais”, mas percebemos na leitura do AT que existem grandes diferenças entre este e o El adorado pelos patriarcas. Talvez tenha Javé sido o Deus de outros povos, antes de o ser de Israel. Em todas as suas aparições anteriores a Moisés, Javé insiste em que é o Deus de Abraão, embora ele fosse originalmente chamado El Shaddai e embora esteja muito diferente daquele que se sentou e partilhou uma refeição com Abraão como seu amigo. Essa insistência em designar Javé como o mesmo Deus dos patriarcas pode ser a preservação de distantes ecos de um debate teológico muito anterior sobre a identidade do Deus de Moisés.

Jamais saberemos onde os israelitas descobriram Javé, se era ou não de fato uma divindade completamente nova. Também neste caso, seria uma questão muito importante para nós, mas não foi tão crucial para os autores bíblicos. Na Antiguidade pagã, os deuses muitas vezes eram fundidos e amalgamados, ou os deuses de uma localidade aceitos como idênticos aos de algum outro povo. A única coisa de que podemos ter certeza, nessa área, é que fosse qual fosse a proveniência, os acontecimentos do Êxodo fizeram de Javé o Deus definitivo do povo de Israel, e que Moisés conseguiu convencer os israelitas de que era o mesmo El amado por Abraão, Isaac e Jacó.

Foi em Midian que Moisés teve sua primeira visão de Javé. Todos os leitores da Bíblia (ou os que assistiram 'Os Dez Mandamentos') se lembrarão de que ele foi obrigado a fugir do Egito por ter matado um egípcio que maltratava um escravo israelita. Refugiou-se em Midian, casou-se ali, e foi quando cuidava das ovelhas de seu sogro que teve uma estranha visão: uma sarça que ardia sem ser consumida. Quando se aproximou para verificar, Javé chamou-o pelo seu nome e Moisés exclamou: “Eis-me aqui!” (‘bineni!’), resposta de todo profeta de Israel quando encontrava o Deus que exigia total atenção e lealdade. Então Deus se manifestou...

“...e disse: ‘Não te chegues para cá; tira os teus sapatos dos teus pés; porque o lugar em que estás é terra santa.’ Disse mais: ‘Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”. E Moisés encobriu o seu rosto, porque temeu olhar para Deus.” - Êxodo, 3:5-6

Apesar da primeira das afirmações de que Javé é de fato o Deus de Abraão, começamos a perceber que Este é muito diferente da divindade que se apresentava como um homem comum aos antepassados de Moisés. Inspira terror e exige distância. Quando Moisés lhe pede o Nome, Javé responde com um jogo de palavras que demonstra o teor completamente singular e fora do normal daquele que lhe falava. Em vez de revelar seu nome diretamente, a resposta é: Eu Sou O Que Sou (‘Ehyeh Asher Ehyeh’ – uma expressão idiomática hebraica para expressar uma indefinição deliberada). Ele é o Ser Auto-Subsistente!

Para que possamos compreender a importância e o peso dessa revelação no texto bíblico, precisamos saber que a ainda rudimentar cultura hebraica não possuía uma dimensão assim metafísica nesse estágio - na verdade demoraria ainda quase dois mil anos para adquiri-la! Por isso, essas palavras, tão fortemente carregadas de transcendência, atribuídas a Deus no AT, simplesmente trazem uma novidade absolutamente inexplicável para o período histórico em que foi registrada. É um grande mistério, que estudiosos tentariam decifrar por milênios, sem sucesso. Contrariando todo o pragmatismo e objetividade dos textos do AT, no caso específico da definição da Identidade de Deus, toda lógica e todo racionalismo são deixados de lado. Não haveria discussão a respeito da Natureza de Deus, e com certeza nenhuma tentativa de manipulá-Lo, como os pagãos costumavam fazer quando recitavam os nomes de seus deuses. E isto é o exato oposto do que todas as religiões até então praticavam. - Cada uma delas se esforçava em tentar explicar, com todos os detalhes possíveis, quem e como era o seu deus, o que podia e o que não podia fazer, como agia e porque. Podemos afirmar que os israelitas, de algum modo, travaram contato com uma realidade até então ignorada pelo restante da humanidade, ou pelo menos de um modo até então desconhecido.

O EU SOU (YAHVEH, JAHVEH ou JAVÉ) é Incondicionado: Eu Sou O Que Sou. Não há esclarecimentos, nem tentativas para explicar o que não pode ser compreendido. A história da idéia de Deus, através da História da humanidade, nunca mais seria a mesma. A partir daí, não haveria nenhuma, absolutamente nenhuma religião no planeta Terra que não fosse influenciada por esse modo transcendente de compreender o divino. E Deus simplesmente promete a Moisés que participaria da História da humanidade.




Mas havia algo de muito difícil nessa nova sensação de poder experimentada por Moisés e seus primeiros seguidores: Se o velho Deus do Céu tinha sido experimentado como uma Força demasiado distante dos assuntos humanos, e as divindades posteriores, como Baal, Marduk e as deusas mães haviam-se aproximado da humanidade, Javé voltava a abrir um enorme fosso entre o homem e o mundo divino. Isso está explicitamente claro na história do Monte Sinai. Quando chegou à montanha, o povo recebeu ordens para purificar as roupas e manter-se à distância. Moisés advertiu os israelitas: “Cuidem de não subir a montanha nem tocar o pé dela. Quem tocar a montanha estará condenado à morte”. O povo recuou da montanha e Javé desceu em Fogo e Nuvens:

“E aconteceu no terceiro dia, ao amanhecer, que houve trovões e relâmpagos sobre o monte, e uma espessa nuvem, e um sonido de buzina mui forte, de maneira que estremeceu todo o povo que estava no acampamento. E Moisés levou o povo fora do acampamento ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé do monte. E todo o monte Sinai fumegava, porque Javé descera sobre ele em fogo e o seu fumo subiu como fumo dum forno, e todo o monte tremia grandemente.” Êxodo, 19:16

Moisés subiu sozinho ao cume e recebeu as Tábuas da Lei. Em vez de experimentar os princípios de ordem, harmonia e justiça na própria natureza das coisas, como na visão pagã, a Lei agora é recebida do Alto. O Deus da História pode inspirar uma maior atenção no âmbito mundano, que é o Teatro de suas operações, e traz também a possibilidade de um profunda alienação desse mundo.

No texto final do Êxodo, editado no século V aC, diz-se que Deus fez uma Aliança com Moisés no monte Sinai (o que se supõe tenha ocorrido por volta de 1200 aC). Travou-se entre eruditos um grande debate sobre isso: alguns críticos acreditam que a Aliança só se tornou importante em Israel no século VII aC. Mas, qualquer que seja a data, a idéia da Aliança nos diz que os israelitas ainda não eram monoteístas, pois ela só faria sentido num cenário politeísta. Eles não acreditavam que Javé, o Deus do Sinai, era o único Deus, mas prometeram, em sua aliança, que iam ignorar todas as outras divindades e adorar só a ele. É muito difícil encontrar uma única declaração monoteísta em todo o Pentateuco (o conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia - Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Mesmo os Dez Mandamentos (no hebraico ‘Assêret Hadibrot’ = ‘Dez Palavras’ ou ‘Dez Falas’) entregues no monte Sinai reconhecem a existência de outros deuses: “Não Terás Outros Deuses Diante de Mim” (Êxodo, 20:2).


Moisés e as tábuas da Lei - Rembrandt


A adoração de uma única divindade era um passo sem precedentes: O faraó egípcio Akhenaton (post futuro) tentara implantar a adoração apenas ao deus-sol, ignorando todas as demais divindades do Egito, mas essa política foi rápida e imediatamente revertida por seus sucessores. Ignorar uma fonte potencial de bênçãos e poder parecia franca loucura, e a história posterior dos israelitas mostra que eles relutaram muito em deixar o culto aos muitos deuses. Para eles, Javé provara sua habilidade na guerra, mas não era um Deus da fertilidade. Quando se assentaram em Canaã, os israelitas parecem ter-se voltado instintivamente para o culto a Baal (deus da fertilidade), senhor de Canaã, que, acreditava-se, fazia as safras crescerem desde tempos imemoriais. Os profetas exortavam os israelitas a se manterem fiéis à Aliança, mas a maioria continuava a adorar Baal, Asherah e Anat à maneira tradicional. Na verdade a Bíblia nos diz que enquanto Moisés estava no monte Sinai, o resto do povo voltou-se para a velha religião pagã de Canaã. Fizeram um bezerro de ouro, efígie tradicional do El cananeu, e executaram os antigos ritos diante dele. A colocação desse incidente em clara justaposição à apavorante revelação no monte Sinai pode ter sido uma tentativa dos escritores finais do Pentateuco de indicar a seriedade da divisão em Israel. Profetas como Moisés pregavam a elevada religião de Javé, mas a maioria do povo queria os rituais antigos, com sua visão holística de unidade entre deuses, natureza e humanidade. As exigências do Deus de Abraão, Isaac e Jacó nunca foram fáceis.


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Fontes e bibliografia:

ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus - quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo, São Paulo: Companhia das Letras, 1999;
BARON, Salo Wittmeyer. A Social and Religious History of the Jews, Nova York: New York Publishing, 1967;
MENDENHALL, George E. The Biblical Archeologist, Londres: London`Publishing, 1962;
BARTON, George A. The Hebrew Conquest of Palestine, Atlanta: The Society of Biblical Literature, 1929.