Judaísmo

Y Judaísmo (vindo do hebraico 'Yehudá') é o nome dado à religião do povo judeu, a mais antiga das chamadas Três Grandes Religiões Monoteístas (ao lado do cristianismo e do islamismo). Surgido da religião mosaica (Moisés), apesar das ramificações, defende um conjunto de doutrinas bem definidas que o distingue inequivocamente de todas as outras religiões da antiguidade: a crença monoteísta e os elevados padrões éticos, morais e ascéticos.

YHWH, o Deus único, ou "D'us", o Criador, às vezes chamado "Adonai" ('Meu Senhor'), ou ainda "HaShem", "o Nome" (Nomes de Deus no judaísmo - próximo post), elege Israel como o povo que receberá a Revelação da Torá - os mandamentos de D'us. Dentro da visão judaica de mundo, D'us é um Criador ativo no Universo, que influencia a sociedade humana. Há diversas tradições e doutrinas dentro do judaísmo, criadas e desenvolvidas conforme o tempo e os eventos históricos sobre a comunidade judaica, os quais são seguidos em maior ou em menor grau pelas diversas ramificações judaicas conforme sua interpretação do judaísmo.

Hoje o judaísmo é praticado por cerca de quinze milhões de pessoas em todo o mundo (senso 2006). Não é uma religião de conversão, e atualmente respeita a pluralidade religiosa, desde que tal não venha a ferir os mandamentos do judaísmo. Alguns ramos defendem que no período messiânico todos os povos reconhecerão YHWH como único D'us e submeter-se-ão a Torá.


Origem e história

De acordo com a visão religiosa, o judaísmo é o Caminho de vida ordenado pelo Criador, através do Pacto Eterno com o patriarca Abraão e sua descendência. Segundo estudiosos, o judaísmo é fruto da fusão e evolução de mitologias e costumes tribais da região do Levante (Israel e arredores), unificadas posteriormente mediante a consciência de um nacionalismo judaico. Ainda que esteja intimamente relacionada à história do povo judeu, a história do judaísmo se distingue por enfatizar a evolução da religião e como esta influenciou o povo judeu e o mundo.


Mosaísmo e crenças israelitas pré-exílio

Ainda que o judaísmo só tenha vindo a ser chamado assim após o retorno do Cativeiro da Babilônia, a sua origem está associada ao chamado de Abraão à promessa de YHWH. Abraão, originário de Ur (atualmente Iraque, antiga Caldéia), foi o defensor do monoteísmo em meio a um mundo de idolatria, e pela sua fidelidade à YHWH teria sido recompensado com a promessa de que teria um filho, Isaac, do qual levantaria um povo que herdaria a Terra da promessa. Abraão é chamado de primeiro "hebreu" (no hebraico - 'aquele que vem do outro lado'), e passa a viver uma vida nômade entre os povos de Canaã.

De acordo com a Bíblia, YHWH não seria apenas o Senhor de Israel, mas sim o Príncipio UNO que criou o mundo, e que já Se havia revelado a outros justos antes de Abraão. Mas com Abraão inicia-se um Pacto de obediência, que deveria ser seguido por todos os seus descendentes, se quisessem usufruir das Bençãos de YHWH. Alguns rituais tribais seguidos pelos membros da família de Abraão seriam depois incorporados à legislação religiosa judaica.

Com a libertação dos descendentes de Israel da terra do Egito pelas mãos de Moisés, seria organizado pela primeira vez o culto ao D'us UNO. Ao contrário de outras religiões antropomórficas, YHWH é tido como uma Energia transcendente, toda-poderosa, ilimitada, que influencia a sociedade humana e revela aos israelitas sua "Torá", os mandamentos e orientações de como praticar uma vida justa. Mas a religião mosaica pré-judaísmo só atingiria sua maturação com o início da monarquia israelita e sua subseqüente divisão em dois reinos: Yehuda (Judá) e Yisrael (Israel). Esta divisão marcaria uma separação entre os rituais religiosos dos reinos do norte e do sul que permanecem até hoje; entre judaísmo e judaísmo samaritano .

No entanto, as visões histórica e bíblica mostram que esta religião mosaica não era única e exclusiva. Conforme já estudado, durante todo o período pré-exílio algumas fontes nos informam que os israelistas adoravam diversas outras divindades, dos quais o mais proeminente era Baal. Enquanto a maioria dos religiosos aceita que a mistura entre os israelitas e os cananitas após a conquista de Canaã tenha corrompido a religião israelita, alguns estudiosos preferem aceitar que o mosaismo era mais uma das diversas crenças entre as tribos israelitas, que só viria a se firmar com os profetas e com o exílio.

A hierarquia e os rituais de culto mosaico seriam firmemente estabelecidos com a monarquia, com a elaboração das regras de sacerdócio e o estabelecinento dos padrões do culto com a contrução do Templo de Jerusalém. Este novo local de culto, substituto do antigo Tabernáculo portátil de Moisés (a Arca da Aliança, hoje 'Arca Perdida'), serviu como centro da religião judaica e foi de extrema importância, ainda que em meio a outros cultos estrangeiros, não só para judeus como para a formação dos padrões religiosos de toda a nossa civilização atual.


Exílio em Babilônia e o ínicio da Diáspora

Um elemento forte da religião pré-judaísmo é o surgimento dos profetas, homens de diversas camadas sociais que pregaram e anunciaram profecias da parte de D'us. Sua pregação e suas profecias, anunciando os castigos da desobediência para com D'us, cumpriram-se na destruição de Israel em 722 aC e na conquista de Judá pelos babilônios em 586 aC. Com a dispersão dos reinos israelitas, muitos judeus misturaram-se a outros povos, mas as comunidades israelitas remanescentes desenvolveram sua cultura e religião, criando o que conhecemos hoje como judaísmo.

O fortalecimento da comunidade e a descentralização do culto através da criação das sinagogas, além do estabelecimento de um conjunto de mandamentos que deveriam ser aprendidos pelos membros da comunidade e obedecidos em qualquer lugar em que vivessem, aliaram-se à esperança num novo reestabelecimento na Terra Prometida, dando aos judeus uma consciência messiânica. No entanto, com a liberação do retorno dos judeus para a Judéia, poucas comunidades retornaram à terra natal.


O Templo de Jerusalém

Desenho antigo (Christian v Adrichem) do Primeiro Templo de Jerusalém (Salomão)




Modelos do imenso Segundo Templo de Jerusalém (Herodes)

O Templo de Salomão (no hebraico 'Beit Hamiqdash'), foi o primeiro Templo em Jerusalém, construído no século XI aC, e funcionou como um local de culto religioso judaico central para a adoração a Javé, Deus de Israel, e onde se ofereciam os sacrifícios conhecidos como "korbanot". O Segundo Templo foi o que o povo judeu construiu após o regresso a Jerusalém, findo o exílio na Babilônia, no mesmo local onde o Templo de Salomão existira antes de ser destruído. Manteve-se erigido entre 515 a.C. e 70 DC, tendo sido, durante este período, o centro de culto e adoração do Judaísmo.

Com o retorno de algumas comunidades judaicas para a Judéia, uma renovação religiosa levou a diversos eventos que seriam fundamentais para o surgimento do judaísmo como religião mundial. Entre estes eventos estão a unificação das doutrinas mosaicas, o estabelecimento de um cânon das Escrituras, a reconstrução do Templo de Jerusalém e a adoção da noção de "povo judeu" como povo escolhido e através do qual seria redimida toda a humanidade.

A comunidade judaica da Judéia cresceu com relativa autonomia sob o domínio persa, mas a história judaica ganhou importância com a conquista da Palestina por Alexandre Magno em 332 aC. Com a morte de Alexandre, o seu império foi dividido entre seus generais, e a Judéia foi dominada pelos ptolomeus e depois pelos selêucidas, contra os quais os judeus moveram revoltas que culminaram em sua independência.

Com a independência e o domínio dos Macabeus como reis e sacerdotes, surgem as diversas ramificações do judaísmo da época do Segundo Templo, sendo as principais a dos fariseus, dos saduceus e dos essênios. As diversas polêmicas entre as várias divisões do judaísmo acabaram por levar à conquista da Judéia pelo Império romano em 63 aC.

O domínio romano sobre a Judéia foi, em todo, um período conturbado. Principalmente em relação aos diversos governadores e reis impostos sobre Roma, o que levou à Revolta judaica que culminou na destruição do Segundo Templo e de Jerusalém em 70 dC. Muitas revoltas judaicas explodiram em todo o Império romano, que culminaram com a Segunda revolta judaica sob o comando de Shimmon Bar-Kosiva e do rabino Akiva. O fracasso deste, em 135 dC, levou o Estado judeu à extinção. Depois disso, ele voltou a existir apenas em 1948.


O período do Segundo Templo

O que fez parar o exército romano, esbravejando? Que estrutura foi construída com pedras pesando até 400 toneladas(!), para acomodar até um milhão de pessoas(!!)? A resposta é: o Segundo Templo de Jerusalém, também chamado 'Templo de Zorobabel', menção ao supervisor da inacreditável obra. O Segundo Templo não era só inspirador por causa da sua significância religiosa, mas também pelas suas dimensões físicas, a sua magnificência e sua maravilhosa beleza. Assim como os generais romanos sentaram para avaliar Jerusalém e considerar o futuro do Templo, hesitaram antes de dar ordem para a destruição deste.

Infelizmente, as nossas impressões do Templo são, no melhor das hipóteses, incompletas. Desde a destruição pelos romanos em 70 aC, as únicas fontes disponíveis sobre ele têm alguma tendência religiosa ou política. O Novo Testamento, a Mishnáh (a exegese rabínica do Antigo Testamento) e as obras do historiador judaico-romano Josefo provêm a parte maior do nosso conhecimento do Templo. Esses, em associação com as evidências arqueológicas no sítio, apontam a um edifício tão maravilhoso que mesmo hoje a façanha da sua construção permanece um mistério. Para saber mais sobre o Templo, clique aqui.

Por volta do primeiro século dC havia várias grandes seitas em disputa da liderança entre os judeus e, em geral, todas elas procuravam, de forma diversa, uma salvação messiânica em termos de autonomia nacional dentro do Império Romano: fariseus, saduceus, zelotes e essênios, entre outras. Entre estes grupos, os fariseus obtiveram grande influência dentro do judaísmo, já que após a destruição do Templo de Jerusalém a influência dos saduceus diminuiu. Os fariseus, que controlavam a maior parte das sinagogas, então, continuaram a promover a sua visão, que originaria o judaísmo rabínico. Os judeus rabínicos codificaram suas tradições orais nas obras conhecidas como Talmudes.

O ramo dos saduceus dividiu-se em diversos pequenos grupos, que no século VIII adotaram a rejeição pela lei oral dos fariseus/rabinos registrada na Mishná (e desenvolvida por rabinos mais recentes nos dois Talmudes), pretendendo confiar apenas no Tanakh (a Bíblia judaica - o Antigo Testamento). Esses judeus criaram o judaísmo caraíta, que ainda existe hoje em dia, embora o seu número de seguidores seja muito menor que o do judaísmo rabínico. Os judeus rabínicos defendem que os caraitas são judeus, mas que a sua religião é uma forma de judaísmo incompleta e errônea. Os caraítas defendem que os rabinitas são idólatras e necessitam retornar às escrituras originais. Os samaritanos continuaram a professar sua forma de judaísmo, e continuam a existir até os dias de hoje.

Ao longo do tempo, os judeus também foram-se diferenciando em grupos étnicos distintos: os asquenazitas - (da Europa de Leste e da Rússia), os sefarditas (de Espanha, Portugal e do Norte de África), os Judeus do Iêmen, da extremidade sul da península Arábica e diversos outros grupos. Esta divisão é cultural e não se baseia em qualquer disputa doutrinária, mas acabou levando a diferentes peculiaridades na visão de cada comunidade sobre a prática do judaísmo .


Judaísmo na Idade Média

O cristianismo, de certo modo, surgiu como ramificação messiânica do judaísmo no primeiro século dC. Após o cisma que levou à separação entre judaísmo e cristianismo, este último desenvolveu-se separadamente, e também foi perseguido pelo império romano. Mas com a adoção do cristianismo como religião do Império no século 4, a tendência a querer erradicar o paganismo e a visão do judaísmo como a religião que teria desprezado e assassinado Jesus Cristo levou a um constante choque entre os dois grupos, onde a política de converter judeus à força levava à expulsão, em caso de resistência. Ao contrário do que se imagina, esta visão anti-judaica era compartilhada por católicos e protestantes (surgidos no século XVI), estando entre estes últimos alguns dos maiores perseguidores do povo judeu na idade média:

"Sobre os judeus e suas mentiras" (em alemão 'Von den Juden und ihren Lügen' - imagem ao lado) é um tratado que foi escrito em Janeiro de 1543 pelo teólogo protestante Martinho Lutero (fundador do protestantismo), em que defende a perseguição contra os judeus, a destruição de seus bens religiosos, assim como o confisco do seu dinheiro(!). Ainda que inicialmente Lutero tenha tido uma visão mais favorável dos judeus, a recusa destes em se converter ao movimento protestante que se iniciava o levou a adotar diversas acusações duríssimas e incentivar um anti-semitismo que, juntamente com outras obras e idéias, pode ter servido de base ao nazismo (o texto foi citado pelos nazistas durante o Julgamento de Nuremberg para justificar a 'Solução Final').

E assim, os judeus tornaram-se vítimas de diversas acusações e perseguições por parte dos cristãos. A conversão ao judaísmo foi proibida e as comunidades judaicas relegadas à marginalidade ou expulsas de diversas nações. O judaísmo tornou-se então uma forma religiosa de resistência à dominação imposta pelas igrejas, desenvolvendo algumas das doutrinas exclusivistas de muitas tradições judaicas atuais.

Com o surgimento do Islam no século 7 dC e sua rápida ascensão entre diversas nações, inicia-se a relação deste com o judaísmo, caracterizado também por períodos de perseguição e outros de paz, no qual deve-se enfatizar a Era de Ouro do judaísmo na Espanha mulçumana.


______________________________________
Fontes:
Profº Gustavo Pamplona
Profº J. Maurício Cavalcanti Sarinho
Rabi Menachem Mendel Schneerson



( Comentar este post