Hinduísmo ou Sanatana Dharma - 2

No Bhagavad Gita, Krishna se revela diante de Arjuna.
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Os textos védicos antigos descreviam o Universo cercado de água (assim como os livros do Antigo Testamento da Bíblia). A explicação das divisões sociais dos arianos, - ou árias = homens, - também era encontrada nos Vedas: da cabeça do Deus primordial saíram os brâmanes (casta social dominante), dos braços saíram os guerreiros, das pernas os produtores e dos pés os servos (os 'párias' = não-árias ou 'não-homens'). O mundo, conforme a concepção desta época, foi formado a partir da organização, por força divina, de um caos preexistente.

No sistema religioso hinduísta atual há uma série de ramificações, que geraram crenças e práticas diversas, assim como há muitos deuses e muitas seitas de diversas características. A ênfase está no que seria o modo correto do viver (Dharma). Os cultos hinduístas são realizados tanto em templos e congregações quanto podem ser domésticos.

A cerimônia mais comumente realizada é relativa à oração (puja). A palavra AUM (pronuncia-se 'ÔM'), representa a vibração original, uma vibração que transcende o início, o meio e o fim de todas as coisas, vinculando-se, desta maneira, à energia que emana da própria divindade. Os códigos sagrados do Hinduísmo são: os Vedas, consistindo em escrituras que incluem canções, hinos, aforismos, rezas e ensinamentos; o Smriti, escrituras tradicionais que incluem o Ramayana, o Mahabarata, e o Bhagavad Gita.

A religião dos hindus, basicamente, poderia ser descrita como a busca inata pelo Divino dentro do Ser, a busca por encontrar a Verdade que nunca foi perdida de fato. Verdade buscada com fé que poderá tornar-se reconfortante luminosidade; independente da raça ou do credo professado. Na verdade, toda forma de existência, dos vegetais e animais até o homem, são sujeitos e objetos do eterno Dharma. Essa fé inata, então, é também conhecida por Arya/Dharma Nobre, Veda/Dharma do Conhecimento, Yoga/Dharma da União, e Dharma hindu ou simplesmente Dharma.


Os quatro objetivos na vida

Outro aspecto maior do Dharma Hindu, prática comum de todos os hinduístass é o "Purushartha", ou "Quatro Objetivos da Vida". Eles são Kama, Artha, Dharma e Moksha. É dito que todos os homens seguem o kama (prazer, físico ou emocional) e artha (poder, fama e riqueza), mas brevemente, com maturidade, eles aprendem a controlar estes desejos, com o Dharma, ou a harmonia moral presente em toda a natureza. O objetivo maior é infinito, cujo resultado é a absoluta felicidade, "Moksha" ou "Liberação" (também conhecida como Mukti, Samadhi ou Nirvana, entre outros) do Samsara, o ciclo da vida, morte, e da existência dual. Aí está, na minha opinião, o valor do hinduísmo. Ensinar que a satisfação dos desejos do ego nunca trará a felicidade ou a realização, e trazer instrumentos para amortecer este ego sempre tão agitado.


Os quatro estágios da vida humana

A vida humana também é vista como quatro "Ashramas" ('fases' ou 'estágios'). Eles são Brahmacharya, Grihasthya, Vanaprastha e Sanyasa. O primeiro quarto da vida, "Brahmacharya" (literalmente 'Pastar em Brahma') é passado em celibato, sobriedade e pura contemplação dos segredos da vida sob os cuidados
de um guru, solidificando o corpo e a mente para as responsabilidades da vida. Grihastya é o estágio do chefe de família, alternativamente conhecido como Samsara, no qual o indivíduo se casa para satisfazer Kama e Artha na vida conjugal e numa carreira profissional. Vanaprastha é o gradual desapego do mundo material, ostensivamente entregando seus deveres aos filhos e filhas, e passando mais tempo em contemplação da verdade, e em peregrinações santas. Finalmente, no Sanyasa, o individuo vai para a reclusão, geralmente em uma floresta, para encontrar Deus através da meditação yogica (eu já pratiquei - é muito agradável) e pacificamente libertar-se de seu corpo para uma próxima vida.


Purva Mimamsa

O principal objetivo do "Purva" ('cedo') ou da escola Mimamsa era estabelecer a autoridade dos Vedas. Consequentemente a valiosa contribuição desta escola ao hinduísmo foi a formulação das regras da interpretação védica. Seus adeptos acreditavam que a revelação deveria ser provada através da razão, e não aceita cegamente. Este método empírico e eminentemente sensível de aplicação religiosa é a chave para o Sanatana Dharma e foi especialmente desenvolvido por racionalistas como Adi Sankara e Swami Vivekananda. Numa oportunidade futura, como já disse, gostaria de me aprofundar mais nestes temas, muito ricos em informações úteis para o buscador espiritual.


A origem do monismo: Advaita Vedanta

Advaita literalmente significa "não dois"; isto é o que referimos como fundamentalmente monoteístico, ou sistema não dualístico, que enfatiza a unidade. Seu consolidador foi Shankara (788-820). Shankara expôs suas teorias baseadas amplamente nos ensinamentos dos Upanishads e de seu guru Gaudapada.

Através da análise da consciência experimental, ele expôs a natureza relativa do mundo e estabeleceu a realidade não dual ou Brahman no qual Atman (a alma individual) ou Brahman (a realidade última) são absolutamente identificadas. Não é meramente uma filosofia, mas um sistema consciente de éticas aplicadas e meditação, direcionadas a obténção da paz e compreensão da verdade. Adi Shankara acusou as casta e insignificantes rituais ritual como tolos, e em sua própria maneira carismática, suplicou aos verdadeiros devotos a meditarem no amor de Deus e alcançarem a verdade. Veja Advaita para mais informações.


Monismo qualificado: Vishistadvaita Vedanta

Ramanuja (1040 - 1137) foi o principal proponente do conceito de Sriman Narayana como Brahman, o supremo. Ele postulou que a realidade última possui três aspectos: Ishvara (Vishnu), cit (alma) e acit(matéria). Vishnu é a única realidade independente, enquanto mesmo a alma e o material são condicionadas e não podem subsistir por si só. Devido a esta qualificação da Realidade Ultima, o sistema de Ramanuja é conhecido como não dualístico.


Dualismo: Dvaita Vedanta

Aqui no ocidente, esta forma é pouco conhecida. De fato, a maioria dos ocidentais imagina que o hinduísmo seja uma crença homogênea num sistema rígido, e que todos os hinduístas adotem o não dualismo como filosofia de vida. Isto acontece porque praticamente todos os gurus e mestres indianos que se prestaram a disseminar a sua religião pelo resto do mundo eram da escola Advaita (não dual). Mas na verdade o sistema hindu se divide nestas duas grandes facções - a escola monista ou Advaita, com suas próprias subdivisões, e a Dvaita. O mestre Ramanuja Madhva (1199 - 1278) identificou Deus com Vishnu, mas a sua visão da realidade era dualista, pois ele compreendeu uma diferenciação fundamental entre o Deus supremo e a alma individual, assim como ocorre nas religiões monoteístas. O sistema consequentemente foi denominado Dvaita (dualístico) Vedanta.


As escolas Bhakti

A Escola Devocional Bhakti tem seu nome derivado do termo hindu que evoca a idéia de "Amor prazeroso, abnegado e arrebatado de Deus", seja como Pai, Mãe, na figura dos seus Filhos amados ou qualquer outra forma de relacionamento que encontre apelo no coração do devoto. A filosofia de Bhakti procura usufruto pleno da Divindade Universal através da forma pessoal, o que explica a proliferação de tantas divindades na Índia, freqüentemente refletindo as inclinações particulares de pequenas áreas ou grupos de pessoas. Vista como uma forma de Yoga ou união, ele preconiza a necessidade de se dissolver o ego em Deus, na medida em que a consciência do corpo e a mente limitada, como individualidade, seriam fatores contrários à realização espiritual. Essencialmente, é Deus que promove toda mudança, que é a fonte de todos os trabalhos, que age através do Amor e da Luz. O devoto transcende a ação do mundo e de todos os demônios das trevas, através da entrega total ao Amor de Deus. Esta é a modalidade do hinduísmo que eu mais admiro e da qual eu fiz parte por um longo tempo, nos templos Sahaja, ne escola Vidya, na convivência com grupos satsangha e também nos estudos de Krya Yoga.

Na verdade, os movimentos Bhakti rejuvenesceram o hinduísmo através da sua intensa expressão de fé e receptividade às necessidades emocionais e filosóficas da humanidade. Pode-se dizer corretamente que influenciaram a maior onda de mudança em orações e rituais Hindus desde tempos remotos. E também influenciaram os nossos costumes no lado ocidental do planeta. A mais popular forma de expressão de amor a Deus na tradição Hindu é através do puja, ou ritual de devoção, frequentemente utilizando o auxílio de murti (estátua) juntamente com canções ou recitação de orações meditacionais em forma de mantras. Canções Devocionais denominadas bhajan (escritas primeiramente nos séculos XIV-XVII), kirtan (elogio), e arti (uma forma filtrada do ritual de fogo Védico) são algumas vezes cantados juntamente com a realização do puja. Este sistema orgânico de devoção tenta auxiliar o Indivíduo a conectar-se com Deus através de meios simbolicos. Entretanto, é dito que bhakta, através de uma crescente conexão com Deus, é eventualmente capaz de evitar todas as formas externas e é inteiramente imerso na benção do indiferenciado amor a Verdade. Em outras palavras, se a busca é intensa e verdadeira, chega um momento em que as formas já não fazem tanta diferença, embora os gurus advirtam os alunos de que abandoná-las por completo seja sempre muito perigoso, porque o chamado do mundo e do ego não cessa nunca, até abandonarmos este mundo fenomênico.


Tantrismo

Se ao ouvir esta palavra você já pensa em sexo ou posições sexuais, você realmente não tem idéia do que o termo significa. A palavra "Tantra" significa "Tratado" ou "Série Contínua ", e é aplicada a uma variedade de trabalhos místicos, ocultos, médicos e científicos bem como aqueles que agora consideramos como "tântricos". A maioria dos tantras foram escritos no final da Idade Média e surgiram da cosmologia Hindu e Yoga. Outro tema bem vasto, que merece um post só para ele.


Ahimsa e as vacas

É vital uma nota sobre o elemento "Ahimsa" no hinduísmo, para compreender a sociedade que se formou à volta de alguns dos seus princípios. Enquanto o jainismo, à medida que era praticado, certamente influenciava profundamente a sociedade indiana - que dizer da sua exortação ao estrito vegetarianismo "vegan" e da não-violência como Ahimsa - o termo primeiro apareceu nos Upanishads. Assim, uma influência internamente enraizada e externamente motivada levou ao desenvolvimento de um grande grupo de hindus que abraçaram o vegetarianismo numa tentativa de respeitar formas superiores de vida, restringindo a sua dieta a plantas e vegetais. Cerca de 30% da população Hindu atual, especialmente em comunidades ortodoxas no sul da Índia, em alguns estados do Norte como Gujarat e em vários enclaves Brahmin à volta do subcontinente, é rigorosamente vegetariana. Portanto, mesmo não sendo um dogma, o vegetarianismo é recomendado como sendo um estilo de vida "Sattwic" (purificador).

Os hindus que comem carne abstêm-se predominantemente de bife, e alguns evitam qualquer subproduto de origem animal, como cosméticos, cintos, sapatos, etc. Isto acontece provavelmente porque o largamente pastoral povo Védico e as subsequentes gerações de hindus ao longo dos séculos dependiam

tanto da vaca para todo o tipo de produtos lácteos, aragem dos campos e combustível para fertilizante, que o seu estatuto de "cuidadora" espontânea da humanidade cresceu ao ponto de ser identificada como uma figura quase maternal. Diz-se que Krishna é tanto "Govinda" (pastor de vacas) como "Gopala" (protector de vacas), e que o assistente de Shiva é Nandi, o touro. Com a força no vegetarianismo (que é habitualmente seguido em dias religiosos ou ocasiões especiais até por hindus não vegetarianos ) e a natureza sagrada da vaca, não admira que a maior parte das cidades santas e áreas na Índia tenham uma proibição sobre a venda de produtos de carne e haja um movimento entre os hindus para banir a matança de vacas não só em regiões específicas como em toda a Índia.


Formas de adoração: murtis e mantras

Ao contrário da crença popular, o hinduísmo prático não é necessariamente politeístico, embora também não seja estritamente monoteístico. A variedade de deuses e avatares que são adorados pelos Hindus são compreendidos como diferentes formas da Verdade Única, algumas vezes vistos como mais do que um mero deus. Acreditando na origem única como sem forma ('Nirguna Brahman' = 'Sem Atributos') ou como um Deus pessoal ('Saguna Brahman' = 'Com Atributos'), os hindus afirmam que a verdade única pode ser vista de forma variada por pessoas diferentes. O Hinduísmo encoraja seus devotos a descreverem e desenvolverem um relacionamento pessoal com sua "deidade pessoal" escolhida (ishta devata) na forma de deus ou deusa.

Enquanto alguns censos sustentam que os adoradores de uma forma ou outra de Vishnu (conhecido como vaishnavs) são 80% dos hindus e aqueles de Shiva (chamados Shaivaites) e Shakti compõem o restante dos 20%, tais estatísticas provavelmente são enganadoras. A Maioria dos Hindus adoram muitos deuses como expressões variadas do mesmo prisma da Verdade. Entre os mais populares estão Vishnu (como Krishna ou Rama), Shiva, Devi (a Mãe de muitas deidades femininas, como Lakshmi, Saraswati, Kali e Durga), Ganesh, Skanda e Hanuman.

A adoração das deidades é geralmente expressa através de fotografias ou imagens (murti) que são ditas não serem o próprio Deus mas condutos para a consciência dos devotos, marcas para a alma humana que significam a inefável e ilimitada natureza do amor e grandiosidade de Deus. Eles são símbolos do príncipio maior, representado mas nunca presumido ser o conceito da própria entidade.

Consequentemente, a maneira hindu de adoração de imagens é uma forma de iconolatria, na qual as imagens são venerados como supostos símbolos da divindade, opostos a idolatria, geralmente atribuída aos hindus.



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Fontes e bibliografia:
Publicações diversas da Sociedade Internacional Gita (Gita Ashrama);
Arquivos do Profº J Sarinho;
Portal Sampradava Sun Site, seção writings, em http://www.harekrsna.com/philosophy/acarya/writings/search2.htm, acesso em 05/06/2007.