Engraçado ou triste?




Alguma coisa está muito errada...

Uma vez eu vi um cara querendo se jogar de uma ponte, e aí eu disse:

Não faça isso!

– Ninguém me ama – ele respondeu.

Deus te ama. Você acredita em Deus?

– Acredito – ele disse.

Você é cristão, muçulmano, budista ou...?

– Cristão.

Eu também! – eu disse – católico, ortodoxo, protestante, pentecostal ou neo-pentecostal?

– Protestante.

Eu também! De qual denominação?

– Batista.

Eu também! Batista da convenção do norte ou batista da convenção do sul?

– Batista da convenção batista do sul.

Que lindo! Eu também! Batista da convenção batista regular do sul ou batista da convenção batista liberal do sul?

– Batista da convenção batista regular do sul – ele disse.

Eu também! Batista da convenção batista regular pioneira do sul ou batista da convenção batista regular geral do sul?

– Batista da convenção batista regular pioneira do sul.

Oh! Eu também! Batista da convenção batista regular pioneira profética do sul ou batista da convenção batista regular da unção pioneira do sul?

– Batista da convenção batista regular da unção pioneira do sul.

Então morra, herege! – gritei eu, enquanto empurrava o sujeito da ponte.


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Esta é uma piada muito conhecida entre protestantes norte-americanos; uma crítica ácida à maneira como o ser humano tende a se apegar às suas próprias crenças e soberbamente considerar todos que entendam a vida de formas diferentes como hereges, infiéis, idólatras... Pelo menos nos países mais desenvolvidos eles tem a decência de reconhecer que esse tipo de comportamento é ruim pra todo mundo. Infelizmente, aqui em terras brasilis, ainda não chegamos nesse estágio. Ainda achamos que é uma questão de honra não só defender a própria fé como também atacar as alheias.

Domingo retrasado entrei num estabelecimento comercial para fazer algumas compras. O proprietário, junto ao balcão, conversava animadamente com um cliente. Eles falavam muito alto, como se quisessem ser ouvidos pela rua inteira. O teor do assunto, quando cheguei, estava nos seguintes termos:

- "Por isso é que o Brasil não vai pra frente! Um país de idólatras! Agora no dia 12 de Outubro você vai ver... os adoradores de imagens fazem a festa..."

- "Claro, por isso é que estamos nessa miséria, essa situação que não se resolve nunca. Se todos servissem ao Senhor Jesus, o nosso país seria uma nação super poderosa! 'Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor'!.."

- "E esse tal de Papa? Esteve aqui e não falou nem uma vez no nome do Senhor Jesus! Ele só fala em Deus, em Deus... é uma fé totalmente dissimulada..."
- baixando o tom de voz, concluiu - "...vou te falar, odeio católico! Raça de idólatras, atraso de vida..."

Quem me conhece intimamente sabe que eu não me considero "o" católico. Detesto rótulos e renego certas práticas comuns a muitos dos que se intitulam "católicos". Exerço a minha espiritualidade e a minha busca a partir do catolicismo porque encontrei ali uma série de respostas (ou não-respostas) que me satisfizeram plenamente, de uma maneira como nenhuma outra tradição foi capaz; encontrei um convívio abençoado numa comunidade bonita, a oportunidade de compartilhar o Pão e fé. Encontrei o valor do Serviço Sagrado, nas muitas pastorais de caridade e outras. E encontrei uma coerência que combinou com o meu jeito de ser e pensar. Coerência esta que não é praticada pela maioria dos adeptos desta tradição - sim, eu sei disso. Mas ela existe, eu a achei e me achei.

Mas vendo aqueles homens ali, desfiando aquela coleção de mentiras e calúnias, em palavras cheias de ódio e rancor gratuito... homens que se consideram cristãos!.. uma pergunta surgia dentro de mim: Por quê?

E eu pude perceber que sim, os homens têm o poder de estragar tudo. Nós conseguimos até mesmo encontrar nas coisas sublimes uma via para destilar o veneno que cultivamos dentro de nós. Percebi o quanto fazer uma opção religiosa pode ser perigoso. O quanto se perde com isso, e o risco que corremos, tomando um partido. E percebi que a nossa primeira opção deve ser pelo Amor e pela paz, antes de por qualquer denominação religiosa.

Claro que eu já sabia de tudo isso. E foi engraçado como logo eu - tão habituado a participar de discussões teológicas e a conviver com pessoas de diversos credos e suas diferenças, e que conheço as reações quando crenças são desafiadas - me senti profundamente tocado vendo aquela cena. Eu compreendi porque diversas pessoas que conheço, que praticam suas religiões diligentemente, quando questionadas, respondem : "Não tenho religião...".

Eu até quis explicar para aqueles homens que muitas das nações mais prósperas e desenvolvidas do nosso planeta são predominantemente católicas, como a Inglaterra, a Suíça ou a Itália, entre tantas outras, e que o motivo das mazelas do nosso Brasil com certeza não é a nossa opção religiosa, mas sim a falta da prática dessa opção...

Eu quis dizer a eles que o catolicismo de maneira nenhuma prega a "adoração" das imagens, ao contrário; e que se um dia eles se dispusessem a se aprofundar um pouco mais no assunto (deixando o preconceito de lado) aprenderiam que as imagens nos templos têm caráter puramente simbólico.

Eu quis dizer a eles que não era uma atitude cristã julgar todo um imenso grupo religioso, um dos mais antigos que existem e do qual derivou a sua própria religião, apenas pelos seus erros...

Eu quis dizer a eles que estavam equivocados, que o Papa em seus discursos repete o tempo todo o nome de Jesus, com seu sotaque típicamente germânico: - "Jésus, Jésus, Jésus"... Mas será que eles assistiram a algum dos discursos do Papa, antes de tecerem seus comentários?..

Mas, principalmente, eu quis perguntar a eles que "Senhor Jesus" era aquele de que tanto falavam, porque o Jesus que eu conheço, que está mais para Mestre e Irmão (Marcos 3:31-35) do que para "Senhor" ou "Chefe", ensina a AMAR. AMAR até mesmo aos nossos inimigos, quanto mais àqueles que acreditam num mesmo Deus, nos mesmos princípios e no mesmo livro sagrado...

Mas eu não disse nada. E nada daquilo importava, naquele momento. O que ficou evidente foi a nossa urgente necessidade de deixar de lado as teologias, os credos, as denominações e todos os detalhes, e nos concentrarmos naquilo que realmente importa: o mandamento maior de todos, em todas as religiões: "AMOR"! Não devemos honrar a Deus com nossos lábios apenas, mas com nossos corações! "Se alguém diz que ama a Deus e odeia o seu semelhante, é um mentiroso. Quem não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, que não vê?" (I João, 4:20).

Não quero com isso dizer que a religião que se pratica, quando se pratica, não seja importante, mas que talvez a primeira e mais importante prática da verdadeira religião seja amar. E se a religião pressupõe o caminho do espírito, a mesma Bíblia que aqueles homens tristes dizem seguir também afirma bem claramente "Os frutos do Espírito são: Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei" (Gálatas 5:22 e 23).

O máximo que pude fazer por aqueles homens (e por mim) foi uma oração, ao chegar em casa. Para que o ódio e a intolerância diminuam nos corações dos homens. E para que o Amor, aquele que ensinou e principalmente praticou nosso Irmão Maior, cresça no mundo.

"João tomou a palavra e disse: Mestre, vimos um homem que expulsava demônios em teu nome, e nós lho proibimos, porque ele não é dos nossos. Mas Jesus lhe disse: Não lho proibais; porque quem não é contra nós, é a nosso favor." - Lucas, 9:48-50.