Amor incondicional e irradiante

Foto de Min Zaw Mra no Tiger Temple, em Kanchanaburi, Tailândia.

"Metta", no budismo theravada, é a prática do amor incondicional direcionado aos outros. O poder de Metta pode ser visto (muito bem!) na relação de confiança e amizade entre tigres e monges budistas no Tiger Temple da Tailândia. Os monges tratam os tigres com amor, afeição e cuidado constante. Em suas mãos, eles se comportam como gentis gatos gigantes (do blog Samsara).

Por vezes encontramos pessoas que parecem irradiar sentimentos de amor e bondade. Estar com alguém assim é sempre muito bom, e por vezes nessas ocasiões sentimos que somos importantes, não por causa do que fazemos ou quem somos, mas simplesmente por existirmos.

Essa qualidade especial de amor e bondade é o que os budistas da tradição theravada chamam de "Metta" - a generosidade e a abertura do coração, que surgem ao simplesmente desejarmos que todos os seres sejam felizes. Metta não procura benefício pessoal, nem é oferecido com a expectativa de se receber algo em troca. E porque não está dependente de condições externas e nem das pessoas serem ou comportarem-se da maneira que queremos, não está facilmente sujeito à decepção (isto é muito importante...). Quando metta se torna mais forte, sentimo-nos mais abertos aos outros, mais abertos a nós mesmos, com benevolência e bom humor.

Os primeiros versos do sutta "Karaniya Metta", o discurso do Buda sobre Amor e Bondade, dizem exatamente como nos prepararmos para desenvolver e aprofundar este tipo de amor:

"Isto é o que deve ser feito por aquele que é hábil nos seus propósitos, que quer progredir para o estado de paz:

Ser capaz, correto e sincero, fácil de ser instruído, gentil e sem arrogância. Satisfeito e fácil de ser sustentado, com poucas obrigações mudanas, vivendo de maneira simples, com as faculdades em paz, um mestre modesto, e sem cobiçar por benfeitores. (...) Como uma mãe arriscaria sua vida para proteger o seu único filho, da mesma forma, com relação a todos os seres, cultivar um coração bondoso sem limites. Com boa vontade para com todo o universo, cultivar um coração bondoso sem limites."



Tudo muito simples. E muito necessário. Quantas vezes consideramos algum princípio tão simples que não lhe damos a devida atenção? Achamos que "já sabemos" o suficiente sobre determinado assunto e por isso deixamos de buscar compreendê-lo de fato. Assim nos esquecemos de que as grandes realizações e as grandes mudanças para melhor em nossas vidas são compostas de coisas pequenas e simples.

Esse sutta nos diz que há algum trabalho a ser feito, alguma atenção a ser dispensada. E que precisamos expressá-lo na forma como lidamos com as pessoas. Ser “capaz, correto e sincero” significa estar comprometido com uma honestidade e simplicidade básicas, falando e agindo sem enganar e sem segundas intenções. Ser “fácil de ser instruído e gentil” significa ser "abordável"; estar aberto a novos aprendizados e fazer da gentileza para com os semelhantes uma prática diária. E não ser orgulhoso lembra-nos do verdadeiro sentido da humildade, que não é submissão, mas sim a ausência de egocentrismo: “A verdadeira humildade é a ausência do ego para se orgulhar” - Wei Wu Wei ("Ação sem Ação" - filosofia taoísta).

"Metta” é uma palavra pali que significa amor/bondade. Cantar Metta é irradiar amor e bondade para todos os seres: desejar que todos possam estar em paz e felizes. Cantar Metta pacifica, revigora, enche de alegria e é um grande fator de cura para o mundo ─ oferenda gratuita de vibrações de Amor. Metta é desejar, verdadeiramente, que todos os seres possam ser felizes. Que possam todos viver sempre em paz e harmonia.


O Cântico de Metta

"Que eu possa me libertar da inimizade e do perigo.

Que eu possar me libertar do sofrimento mental.

Que eu possa me libertar do sofrimento físico.

Que eu possa cuidar de mim mesmo com felicidade.

Que meus pais, professores, parentes e amigos; que todos os meditadores do mundo, todos os monges, que todos os seres, todas as coisas que respiram, todas as criaturas, todos os indivíduos, todos os seres com mente e corpo, todas as mulheres, todos os homens, todos os santos e todos aqueles que almejam a santidade, todos os humanos, todos os queridos seguidores do Dharma

sejam libertados da inimizade e do perigo.

Sejam libertados do sofrimento mental.

Sejam libertados do sofrimento físico.

Que todos eles possam tomar conta de si mesmos com felicidade.

Que todos os seres possam se libertar do sofrimento.

Que o que quer que eles tenham ganhado não seja perdido.

Desde o mais alto plano de existência até o plano mais baixo, em todo o Universo, todos seres possam se libertar do sofrimento mental e da inimizade e do sofrimento físico e do perigo."




Fonte: "One Dharma", Joseph Goldstein (Harper Collins Publishers)