Religião do antigo Egito

Osíris, Ísis e Néftis


"Tu és o Nilo, os deuses e os homens vivem da tua emanação."
Faraó Ramsés, "Hino à Osíris".

O Nilo, o "Rio dos Deuses", que corre ao longo de 6.400 Km - do coração da África até o Mediterrâneo - marcou todos os aspectos da vida e das crenças de diversos povos. Ainda podemos encontrar, até hoje, vestígios de antigos modos de vida nos planaltos da Etiópia, nos extensos pântanos do Sudão e nos campos do Egito. Foi às suas margens que surgiu a primeira das grandes civilizações do mundo.


No Egito, 6.400 anos atrás...

O Egito foi o berço da civilização ocidental. Foi ali que o homem fez as suas primeiras colheitas e que chegou mais próximo do antigo sonho humano de construir um paraíso na Terra, transformando as margens do Nilo numa espécie de “jardim do Éden”. Na atualidade, o talento dos antigos egípcios é cada vez mais reconhecido, e suas idéias ainda alimentam a nossa imaginação. Foram eles que inventaram a primeira língua escrita, gravando-a na pedra, e celebraram suas crenças em monumentos que permanecem através dos milênios. Criaram uma religião em que o homem e a natureza deveriam conviver em harmonia para sempre.

As crenças religiosas dos antigos egípcios tiveram uma influência importantíssima no desenvolvimento da sua cultura, embora nunca tenha existido entre eles uma verdadeira religião, no sentido de um sistema teológico unificado. A fé egípcia baseava-se no acúmulo não muito bem organizado de diversos mitos antigos, no culto à natureza e a inumeráveis divindades. No mais influente e famoso destes mitos desenvolve-se uma hierarquia divina e se explica a criação do mundo.

De acordo com o relato egípcio da criação, no princípio não existia nem céu, nem terra, e nada era senão o Oceano Primal, a água primeva sem limites, amortalhada, contudo em densa escuridão. Nessas condições, permaneceu por tempo incomensurável, muito embora contivesse dentro de si os germes de todas as coisas que, mais tarde, vieram a existir neste mundo, e o próprio mundo... Por fim, NU, o espirito da água primeva, o pai dos deuses, sentiu o desejo da atividade criadora e, tendo pronunciado a palavra, o mundo existiu - passou a existir imediatamente, na forma já traçada na mente do espírito. O ato da criação, seguinte à palavra, foi a formação de um germe ou ovo (segundo algumas versões de uma flor), do qual saltou Ra, o deus sol, dentro de cuja forma brilhante estava incluído o poder absoluto do espirito divino, o criador do mundo. Ra, o deus sol, adorado desde os tempos pré históricos, em 3.800 aC foi considerado rei dos os deuses (na IV Dinastia suas oferendas são apresentadas por Osíris que, mais tarde, suplanta o próprio Rá).

Rá deu à luz quatro filhos: os deuses “Shu” e “Geb” e as deusas “Tefnet” e “Nut”. Shu e Tefnet deram origem à atmosfera. Eles serviram-se de Geb, que se converteu na terra, e elevaram Nut, que se converteu em céu. Rá regia todas as coisas. Geb e Nut posteriormente tiveram dois filhos, “Seth” e “Osíris”, e duas filhas, “Ísis” e “Neftis”. Osíris sucedeu Rá como rei da terra, ajudado por Ísis, sua esposa e irmã. Mas Seth odiava seu irmão Osíris, e o matou. Ísis embalsamou o corpo do seu esposo com a ajuda do deus “Anúbis”, que desta forma tornou-se o deus do embalsamamento. Porém, os feitiços poderosos de Ísis ressuscitaram Osíris, que chegou a ser rei do mundo inferior, da terra dos mortos. “Hórus”, filho de Osíris e Ísis, derrotou posteriormente Seth, em uma grande batalha, tornando-se rei da terra.

Desse mito da criação surgiu a concepção da “Eneada”, grupo de nove divindades, e da tríade formada por um pai, uma mãe e um filho divinos - cada templo local tinha sua própria eneada e sua própria tríade. A eneada mais importante foi a de Rá, com seus filhos e netos. Este grupo era venerado em Heliópolis, centro do culto ao Sol no mundo egípcio. Já a origem das deidades locais é obscura: algumas vieram de outras religiões e outras de deuses animais da África pré-histórica - no cerne da antiga religião egípcia estava a crença de que homem e natureza deveriam conviver em harmonia, sendo de responsabilidade do homem zelar para que assim fosse.

A admiração dos antigos egípcios pelos elementos da natureza era tão grande que transformaram-nos em deuses. No antigo Egito o clima era muito mais úmido do que hoje, e as primeiras dinastias chegaram a conviver com elefantes, rinocerontes e girafas. Longe no Nilo, na Savana, viviam muitos grandes felinos e manadas de herbívoros, além de diversas outras espécies, uma harmonia de fauna e flora exuberantes. Assim, a fêmea do hipopótamo, voluptuosa e maternal, representava “Tauereth”, a deusa dos nascimentos. Seth, o deus do caos, era representado como um hipopótamo macho, já que à noite estes costumavam invadir os campos de colheita, provocando destruição e desordem. Graças à sua capacidade de enxergar além do horizonte, a girafa representava a previsão, e o búfalo era símbolo de poder e agressividade. O leão era rei, e o rei era visto e representado como um leão. Tábuas datadas de 3500 aC mostram o soberano egípicio como um feroz leão devorando seus inimigos. Mas não havia criatura mais bem adaptada para sobreviver no pântano do que o Íbis sagrado, que introduz no lodo o seu bico curvo, conseguindo assim capturar até a mais escorregadia das presas. Assim, “Thot”, o deus da sabedoria, era representado com corpo humano e cabeça de Íbis.

Todos estes elementos foram gradativamente se fundindo em uma complicada estrutura religiosa, ainda que relativamente poucas dessas divindades tivessem chegado a ser realmente importantes em todo o Egito. As divindades principais incluíam os deuses “Amon”, Thot, “Ptah”, “Khnemu” e “Hapi” e as deusas “Hator”, “Nut”, “Neit” e “Seket”. Sua importância aumentou com o crescimento político das localidades onde eram veneradas. Exemplo: a eneada de Mênfis era encabeçada por uma tríade composta pelo pai Ptah, a mãe Seket e o filho “Imhotep”.

De qualquer modo, durante as dinastias menfitas, Ptah chegou a ser um dos maiores deuses do Egito. De forma semelhante, quando as dinastias tebanas governaram o Egito, a eneada de Tebas adquiriu grande importância, encabeçada pelo pai “Amon”, a mãe “Mut” e o filho “Khonsu”. Conforme a religião foi se desenvolvendo, muitos seres humanos glorificados após a morte acabaram sendo confundidos com deuses. Assim Imhotep, que originariamente fora o primeiro ministro do governador da III Dinastia Zoser, chegou a ser conceituado como um semideus. Durante a V Dinastia, os faraós começaram a atribuir a si mesmos ascendência divina, e desde essa época foram venerados como filhos de Rá. Deuses menores, os demônios ocuparam também um lugar hierárquico entre as divindades egípcias.


Relação de alguns dos principais deuses e seus atributos (em ordem alfabética):

Anúbis - dos mortos e do submundo. Bastet - fertilidade, protetora das mulheres grávidas. Chu - ar seco, luz do sol. Geb - deus da terra. Hathor - amor, alegria, dança, vinho, festas. Hórus - deus Céu. Ísis - amor, da mágica. Khnum - criatividade, controlador das águas do rio Nilo. Maet --- justiça e equilíbrio. Osíris* --- ressurreição, vida pós morte, fertilidade, vegetação. Ptah --- obras feitas em pedra. --- deus Sol, o maior dos deuses, ao lado de Osíris. Seth --- tempestade, mal, desordem e violência. Sobek --- paciência, astúcia. Tefnut --- nuvens e umidade. Toth --- sabedoria, conhecimento, representante da Lua.




* Osíris era representado como um ser de pele verde (fertilidade da terra), sempre segurando um cajado de pastor numa mão e um mangal para cereais na outra - a mais perfeita imagem que se poderia conceber para o "senhor da vida".


Alguns conceitos básicos da antiga religião egípcia

Desde o momento em que o homem superou o animal e despontou como ser reinante sobre a terra, começou a enterrar os seus mortos e a lhes oferecer meios de sobreviver na vida eterna. Em suas tumbas, numa prática de oferendas mortuárias que perdura até hoje, faz ofertas de alimentos, utensílios, flores e outras dádivas. No Egito, desde 4.400 aC, no reinado de "Mena" - o 1º rei histórico daquele país (I Dinastia) - o egípcio esperava comer, beber e levar uma vida regalada na região onde supunha estar o "Céu"; e ali partilhar, para sempre, em companhia dos deuses, todos os prazeres celestiais.

A religião egípcia, como todas as outras religiões antigas, com execeção do Budismo, apresenta os deuses com vícios e virtudes, assim como os homens; porém, muito mais sábios e detentores da magia que os torna poderosos.

Mumificação - Já na IV dinastia, (3.800 a.C.), todos os textos religiosos supõem que se possa imunizar o corpo por inteiro, mumificando-o. O procedimento era o seguinte:

Primeiramente o cérebro do cadáver era extraído, pelas narinas. Depois, as "entranhas" eram retiradas pelo ânus ou por uma incisão na barriga; por fim o coração era também retirado e substituído por um escaravelho de pedra. Seguia-se uma lavagem e salgação onde o cadáver ficava por um mês. Depois era novamente secado, por mais um mês ou dois. Para evitar a deformação, o corpo era recheado de argila, areia, rolos de pano de linho, com muita atenção às formas anatômicas, como os seios, e embebidos em drogas aromáticas, ungüentos e betume. Geralmente o amortalhamento era feito em vários ataúdes de madeira, uns dentro dos outros e, finalmente, o corpo mumificado era colocado em um sarcófago de pedra.

A religião egípcia elaborou um conjunto de conceitos complexo e sofisticadíssimo, para entender e explicar a natureza do homem. Segundo esta, a natureza humana é composta de 8 partes:

1 - O corpo físico era "CAT".

2 - Ligado a esse CAT estava o seu duplo, também físico - o "CA", cuja existência é independente do CAT, sendo livre para viajar para diversos lugares à sua vontade. Oferendas eram deixadas nos túmulos para alimentar o CA, que come, bebe e aprecia o cheiro do incenso.

3. À alma imaterial chamavam "BA" - algo sublime, nobre, poderoso. O BA morava no CA e tinha forma e substância. Nos antigos papiros, aparece como um falcão com cabeça humana.

4. "AB", o coração, que era a sede da vida humana.

5. A inteligência espiritual, ou o espírito do homem, era "CÜ", a parte brilhante e etérea do corpo, que vivia com os deuses, no Céu.

6. Outra parte do homem que também ia para o céu era o "SEQUEM", sua força vital.

7. "CAIBIT", ou sombra, era uma parte considerada sempre próxima à alma (BA).

8. Por fim, temos "REN" - o nome do indivíduo. Trata-se de uma de suas partes mais importantes, pois se o nome fosse eliminado, poderia se destruir o(a) próprio(a) homem(mulher) como um todo.

Resumindo, o homem se constituía de corpo, duplo, alma, coração, inteligência espiritual, poder vital, sombra e nome. Mas essas 8 partes em algumas citações foram reduzidas a 3: corpo, alma e espírito. Na V dinastia (3.400 a.C.) afirmava-se de modo preciso: "A alma para o Céu e o corpo para a terra".




Para imagens e maiores informações clique aqui, aqui e aqui. Arquitetura antiga egípcia aqui.


Pequena amostra do legado da inacreditável civilização egípcia:



Continua...
A seguir: A lenda de Osíris - O Livro dos Mortos - a "Maldição do Faraó" - as pirâmides do Egito - a Esfinge (fontes e bibliografia na conclusão).




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