Religião do antigo Egito # 2

A lenda de Osíris


Fica claro para os egiptólogos a antiguidade do culto a Osíris, que alcançou o auge no Médio Império, quando foi explicitamente refletido nas práticas funerárias, independentemente do culto ao próprio deus em templos específicos. Mas... será que existiu um dia um personagem histórico chamado Osíris?


Osíris em "Amenti" - à esquerda, seu filho, o deus Hórus (falcão).


A saga de Osíris

Rá, o deus-sol, descobrindo que Nut, a senhora dos céus, estivera em companhia de Geb (Terra), lança sobre ela um terrível castigo: a deusa não poderia ser mãe em nenhum dia do ano. Mas o deus Thot, também apaixonado por Nut, em um jogo com a lua ganhou-lhe a sétima parte de cada uma de suas luminárias. Juntando essas partes, que formavam ao todo cinco dias, acrescentou-as aos trezentos e sessenta dias que o ano tinha até então. Por isso é que os anos têm 365 dias, e assim Nut pôde gerar filhos.

No primeiro dia lhe nasceu Osíris (que se tornaria o deus dos deuses); no segundo Hórus (o velho); no terceiro Seth; no quarto Ísis; e no quinto dia, Néftis. Seth casou-se com Néftis e Osíris com Ísis.

Osíris dedicou-se a civilizar seus súditos, os homens mortais, desviando-os do seu antigo estilo de vida nômade, indigente e bárbaro. Ensinou-os a cultivar a terra e a aproveitar da melhor maneira os seus frutos; ensinou-os a trabalhar com os metais e a fazer armas para se defenderem das feras. Convenceu-os a viver em comunidade e a fundar cidades; deu-lhes um conjunto de leis para que por elas o povo regulasse sua conduta e instruiu-os na reverência e adoração aos deuses.

Ísis, a irmã-esposa de Osíris, curava as doenças dos homens e expulsava os espíritos malignos com magia; fundou a família; ensinou os homens a fazer pão e às mulheres todas as artes femininas. Osíris decidiu levar esses conhecimentos ao resto do mundo e confiou a regência do seu trono a Ísis. Mas durante a ausência de Osíris, seu irmão Seth tentou apossar-se do trono. Foi frustrado em suas intenções por Ísis.

Osíris regressou de sua viagem, concluída com êxito, e Seth armou nova trama: tirou as medidas do corpo do irmão, em segredo, e mandou fazer uma bela arca, adornada e realçada com pedras. Deu uma festa em comemoração ao retorno de Osíris e propôs que presentearia com a arca a quem nela entrasse e a preenchesse com o próprio corpo.

Todos os convidados entraram na arca mas nenhum conseguia ocupá-la totalmente. Chegou a vez de Osíris, cujo corpo de grande estatura adaptou-se perfeitamente à arca. Mas o deus Seth, enciumado, junto com seus cúmplices fechou a arca, lacrando-a e lançando-a no rio Nilo.

O dia do assassinato de Osíris foi o 17º do mês de Háthor (novembro) quando o sol estava na constelação de escorpião. De acordo com alguns, Osíris estava no 28º ano de seu reinado e, de acordo com outros, no 28º ano de idade.

Quando a notícia do assassinato alcançou Ísis, que estava na cidade de Coptos, ela imediatamente cortou uma das mechas dos seus cabelos, colocou roupa de luto e vagou pelo país em estado perturbado procurando a caixa que continha o corpo de seu amado.

Sete escorpiões escoltavam a deusa que chegou à cidade de Pa-Sin em trapos e esgotada. Daquele jeito, e com tão ameaçadora comitiva, não encontrou quem a hospedasse. Uma mulher chamada Usa fechou-lhe a porta no rosto. Os escorpiões, vingando o insulto à deusa, injetaram seu veneno em sua dirigente, Téfen, que entrou na casa da mulher, encontrou o seu filho e picou-o. O veneno era tão poderoso que a casa foi envolvida em chamas. Usa não encontrou água para apagar o incêndio e correu em desespero com o filho nos braços. Ninguém a socorreu, mas a deusa Ísis acabou por ter pena dela e fez com que uma chuva apagasse o incêndio. Ordenou, também, que o veneno saísse da criança. Usa, reconhecendo a deusa, implorou-lhe perdão e ofereceu presentes a Ísis.

Uma outra mulher, de nome Taha, apiedou-se da deusa e a acolheu. Ísis continuou a sua busca e soube, por algumas crianças que brincavam à margem do rio, que a caixa procurada havia passado por ali em direção ao mar.

Nesse meio tempo as ondas carregaram a caixa para a costa da Síria e a lançaram em Biblos, e tão rápido repousou sobre a terra, uma grande árvore ('Erica') brotou dela de repente, desenvolvendo-se toda em torno da caixa, cercando-a por todos os lados.

O Nome do rei de Biblos era Melkart e o de sua esposa Astarte (ou Ishtar, Ashtoreth, Astarot, Astartéia...). Melkart viu a árvore de tamanho descomunal e mandou cortá-la para fazer com ela um pilar para o seu palácio. Ísis chegou a Biblos e soube da árvore que cresceu da noite para o dia e do destino que teve. Instalou-se à beira da fonte onde as criadas da rainha apanhavam água. Então conversou com elas, e enquanto isso começou a penteá-las, transferindo-lhes parte do perfume que emanava do seu corpo.

A rainha notou a diferença em suas criadas e isso despertou o seu interesse em conhecer quem as havia arrumado e educado. Ísis foi levada à sua presença, mas não se revelou. A rainha a fez ama do príncipe, a quem Ísis amamentou com o dedo em lugar do seio. Punha-o toda a noite no fogo para que este lhe consumisse a parte mortal. Transformava-se em uma andorinha e voava em torno da coluna lastimando seu próprio destino.

Uma noite a rainha entrou no quarto e viu o filho envolto em chamas e guardado por sete escorpiões. Gritou e o rei e os guardas a acudiram, mas ficaram paralisados diante da cena que presenciaram. Surgiu Ísis que, com um gesto, apagou as chamas, revelando-se para os reis. Contando a sua história explicou que, grata pela hospitalidade, decidira tornar o príncipe imortal, mas a mágica fora interrompida e não faria mais efeito.

A rainha se entristeceu, mas o rei ficou feliz, apesar de tudo, com a honra de acolher uma deusa, deu-lhe a coluna de madeira, de onde Ísis retirou a arca que continha o corpo de Osíris. Depois envolveu a coluna em linho, derramou sobre ela óleos perfumados e a devolveu aos reis como lembrança e relíquia poderosa.

A deusa voltou ao Egito escoltada por outros dois filhos do rei de Biblos. Em determinado ponto da viagem ordenou que a caravana parasse e abriu a caixa com o corpo do marido. Transtornada pela dor, gritou de forma tão espantosa que um dos filhos do rei ficou louco; o outro, que olhou a deusa em seu desespero, caiu morto de medo.

Ísis ficou só e tentou todas as fórmulas mágicas para trazer Osíris de volta à vida. Transformou-se em um falcão e agitou as suas asas sobre ele para restituir-lhe o sopro de vida. Num breve momento em que seu intento foi conseguido, Ísis foi fecundada. Continuou levando o corpo de Osíris para o Egito, e quando chegou ao seu país, escondeu a arca nos pântanos.

Enquanto caçava à luz da lua, Seth encontrou a arca, abriu-a e viu os restos do irmão. Furioso, despedaçou o corpo em catorze partes e as espalhou pelo Egito. Isso fez com que Ísis recomeçasse a sua busca, desta vez para reconstituir o corpo do marido. Ajudada por Anúbis, que tomou a forma de um chacal negro para farejar os restos de Osíris, Ísis conseguiu encontrar todos os pedaços, menos um: só não encontrou o falo do deus, que, atirado ao Nilo, fora devorado por um peixe. Ao contrário de Min, o deus da fecundidade - representado com o falo rígido - Osíris não tem pênis. Isso não faria muita diferença prática para os deuses egípcios, capazes de fecundar e gerar filhos assexuadamente, mas essa curiosa característica sem dúvida tinha algum significado próprio. Em cada local que Ísis descobriu uma parte do corpo de Osíris, foi levantada uma capela.

Então Ísis recompôs o corpo de Osíris, chamou sua irmã Néftis e os deuses Toth e Anúbis. Todos juntos tentaram restituir a vida a Osíris. Anúbis embalsamou o corpo do deus, e surgiu assim a primeira múmia, envolta em linho e em peles de animais, recoberta de amuletos. Nas paredes do sepulcro de Osíris foram gravadas fórmulas rituais e junto ao sarcófago foi colocada uma estátua semelhante ao deus que ressuscitou mas não podia mais reinar sobre a terra. Assim tornou-se "rei do lugar que fica além do horizonte ocidental".

Logo, o corpo de Osíris transformou esse lugar que era triste num local fértil e rico em colheitas.

Depois do sepultamento, Ísis voltou a se esconder nos pântanos. Quando nasceu o seu filho Hórus, a mãe deu-lhe amor e invocou sobre ele a proteção de todos os deuses. Hórus tem uma mecha de cabelo que nasce no meio da cabeça raspada - Osíris e Ísis têm forma inteiramente humana (excessão à pele verde de Osíris), mas Hórus tem cabeça de falcão. Ísis ensinou-lhe a magia e o educou em memória do pai. Hórus cresceu como o sol nascente. Ele próprio era um grande falcão que cortava os céus.

Quando Hórus ficou maior, finalmente Osíris voltou à terra, para fazer dele um guerreiro. Hórus reuniu todos os fiéis a Osíris e partiu sobre Seth para vingar a morte do pai, mutilando-o e esterelizando-o. Seth, por sua vez, transformou-se num grande porco negro e devorou o olho esquerdo de Hórus; e assim, a lua parou de iluminar a noite.

Ísis suplicou a seu filho que pusesse fim ao massacre, mas Hórus, num ímpeto de ódio, decepou a cabeça da própria mãe.

Thot curou-a colocando uma cabeça de vaca em lugar da sua. A batalha recomeçou, mas ficou sem vencedores nem vencidos.

Thot curou Seth, mas impôs que este restituísse o olho de Hórus. A lua, então, voltou a brilhar. Os deuses levaram a questão a julgamento e o processo durou oitenta anos. Seth acusou Hórus de ilegitimidade. Hórus acusou Seth pelo assassinato do pai. Por fim, os deuses decidiram que Hórus ficaria como rei do Baixo Egito e Seth como rei do Alto Egito.

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No dia 16 de fevereiro de 2000, arqueólogos descobriram um sarcófago de granito, numa tumba localizada a 30 metros de profundidade, próximo as pirâmides de Gizé, no Egito. Segundo o arqueólogo egípcio Zahi Hawass, o sarcófago pode pertencer ao verdadeiro Osíris!!

Um dos fatos mais admiráveis sobre a civilização egípcia é o cuidado que dedicavam ao sepultamento de seus mortos. Na verdade as múmias egípcias são quase como um símbolo do tempo dos faraós, e a prática milenar do embalsamamento fez chegar aos nossos dias, junto com os registros nos templos e nas paredes das tumbas, as marcas da vida que levavam os egípcios do mundo antigo.

Qualquer sociedade humana tem nas suas práticas um reflexo do seu universo mental. Não foi diferente com os egípcios. Eles eram extremamente ligados ao rio Nilo e à agricultura que as cheias lhes permitiam fazer, vinculando muitos dos seus símbolos míticos a elementos aquáticos e a fenômenos que podiam ser observados no seu próprio "em torno".

No cerne das práticas funerárias está embutida a lenda do deus Osíris, explicativa de um ideal que já foi exclusivo da realeza, até a quarta dinastia. Posteriormente, os ritos foram estendidos a membros da corte até serem difundidos por toda a população. Miticamente, a primeira de todas as múmias foi a de Osíris, dando assim justificativa à prática do embalsamamento. Essa lenda, mais que qualquer outra, exerceu uma enorme influência no espírito egípcio.



Fontes e bibliografia:
BUDGE, E. A. T. Wallis. Osiris and the Egyptian Ressurrection, 2 ed., New York: Dover Publications Inc. 1973;
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