Perdão


Além de compartilhar meus conhecimentos e experiências, a minha idéia por aqui sempre foi a de dar voz aos meus visitantes, para que também se expressem, exponham seus pensamentos e compartilhem as suas próprias experiências. Esta é a melhor maneira de aprender que eu conheço: falando e ouvindo, dando e recebendo. E é assim que constantemente aprendo coisas novas com este blog.

Eu disse que, a partir deste post, começaria uma nova fase no Arte das artes, mas percebi que antes disso ainda preciso abordar um assunto muitíssimo importante, que foi levantado no livro de comentários e sobre o qual ainda não tive a oportunidade de falar, ao menos diretamente. Trata-se de um tema recorrente, uma questão que sempre volta à tona quando os seguidores de determinadas escolas religiosas se dispõem a discutir certos princípios doutrinários básicos.

Eu já perdi a conta de quantas vezes testemunhei essa espécie de “beco sem saída teológico” aparecer, nos debates inter-religiosos de que participei. Estou me referindo às clássicas perguntas: “Como poderia alguém que fez o mal durante toda a sua vida, só porque se arrependeu no último minuto merecer o Paraíso? Como fica a Justiça? E a Lei de ação e reação?” Ok. Eu não vou entrar no embate teológico, mas sim expor claramente a visão do Cristianismo sobre o assunto, na esperança de lançar alguma luz sobre esta controvérsia.

No post anterior, eu falei sobre a Lei de ação e reação, que algumas tradições chamam de “carma”, outras de “tikun”: significa que atos, pensamentos e atitudes ruins geram uma espécie de dívida, que necessariamente terá que ser resgatada, nesta vida ou depois dela. Para os reencarnacionistas, esse resgate precisaria ocorrer, quase sempre, numa encarnação futura. Neste caso, a doutrina cristã do perdão e da remissão, através da conversão de vida, perderia completamente o sentido.

O dado curioso é que a doutrina que nega peremptoriamente que Deus “castigue” os pecadores, é a mesma que nega que Deus seja capaz de perdoar nossas falhas, pura e simplesmente - gratuitamente. Declaram ser absurdo e impossível alguém alcançar o perdão irrestrito e imediato pelos seus erros, mesmo que esteja sinceramente arrependido. Em outras palavras, Deus não castiga, mas também não perdoa. Castigar seria crueldade. Mas negar o perdão a alguém que reconhece o próprio erro, não. Segundo esse ponto de vista, Deus seguiria um raciocínio mais ou menos assim: “Não castigo, mas vocês vão ter que saldar suas dívidas de qualquer jeito. Nada que algumas encarnações num corpo doente ou pontuada por desgraças não resolva... mas veja como eu sou misericordioso, até deixo vocês mesmos escolherem as suas próprias desgraças... o que você prefere? Nascer cego, aleijado, ser acometido por um câncer fatal na flor da idade ou nascer numa família de psicopatas que vai torturá-lo psicologicamente até você ficar louco? Mas não se preocupe. Depois você morre, e aí... começa tudo de novo!”.

Isso me faz lembrar certos educadores de outras épocas, que permitiam ao aluno escolher entre a palmatória e a chibata. Muito piedoso. Peço desculpas pelo tom de brincadeira, a minha intenção é somente enfatizar o profundo contrasenso que eu vejo nessa linha de pensamento. Não estou com isso negando nenhuma doutrina, nem a possibilidade de haver a reencarnação. Estou apenas tentando chacoalhar certas convicções e demonstrar um outro lado de uma questão que eu percebo que se encontra resolvida e definitivamente "fechada" na cabeça de muita gente.

A concepção que o Cristo nos traz de Deus é a de um Pai Amoroso. Por isso eu gostaria de fazer uma pergunta simples: Consideremos um pai amoroso. O seu filho pequeno aprontou uma travessura; digamos que quebrou um vaso caro, de propósito. Mas depois, sinceramente arrependido, entre lágrimas, pediu perdão. Esse pai perdoaria? Ou diria ao filho que agora que quebrou o vaso vai ter que pagar por isso, de um jeito ou de outro? Será que só depois de lhe aplicar algumas palmadas é que o pai vai se permitir perdoar o filho, porque ele errou e agora tem que pagar? Ou será que ao ver os olhinhos da criança vai se compadecer e deixar que o Amor supere a justiça? Eu sei o que eu faria, que aliás é o que sempre faço: não só perdôo como também abraço. E olha que eu não sou tão bom assim.

“Se confessarmos os nossos pecados, Ele é Fiel e Justo para nos perdoar e nos purificar de todas as nossas injustiças.” (I João, 1:9) - Isso é o que a Bíblia diz. Não uma nem duas vezes, mas em toda a extensão dos Evangelhos e dos livros do Novo Testamento a afirmação desse princípio é repetida, de novo e de novo, até a exaustão. De fato, diversos outros pontos do texto bíblico estão sujeitos à interpretação humana - como qualquer idéia escrita, pode ser compreendida de maneiras diferentes, por diferentes cabeças. Isso acontece, em especial, no que se refere a detalhes e prescrições ritualísticas. Mas é patente que os pontos realmente essenciais da mensagem evangélica são muito claros, transparentes, explícitos. Não há como negar, rebuscar ou filosofar em cima de algo dito tão objetivamente. Que o Amor é a maior das virtudes, por exemplo: por mais que as nossas origens e capacidades de compreensão variem, não há como “interpretar” esse ponto de uma outra maneira. A mensagem sobre o Amor é clara, enfática, chega a ser repetitiva. Outro desses temas primordiais, colocado com uma clareza inequívoca: o preceito do não-julgamento. Não julgue, não julgue... cuida primeiro do teu olho, antes de observar a falha no olho do teu irmão... não importa a religião, qualquer pessoa que ler esses textos fatalmente concluirá que julgar o próximo é contrário ao caminho proposto por Jesus.

Pois bem, um outro destes temas primordiais, dito e repetido muitas e muitas vezes, de forma direta e objetiva: a Misericórdia de Deus é infinita, o perdão do Pai para é incondicional para todo aquele que O busca. Inúmeros exemplos são dados, parábolas são contadas para confirmar este princípio... E se estou me propondo a analisar a questão do perdão sob a ótica cristã, não tenho como me furtar de citar ainda, ao menos, dois exemplos clássicos, que me vêm insistentemente à cabeça: o primeiro é a narrativa sobre a mulher adúltera:

Trazem uma mulher diante do Cristo, flagrada em ato de adultério, que para o antigo Israel, era um dos maiores crimes que uma mulher poderia cometer. Ela estava humilhada, apavorada e com a moral completamente destruída. Jogam-na aos pés de Jesus. Percebe-se claramente, pela composição do texto, que ele era considerado um grande mestre, um rabi respeitadíssimo em toda região. Seus inimigos tentam desmoralizá-lo. Uma multidão o segue onde quer que vá. Pessoas simples não deixam de procurá-lo, a todo momento, para pedir favores. Sábios e doutores se aconselham com ele. E ele estava nas imediações, no momento do incidente com a mulher adúltera; seria praticamente inevitável que lhe pedissem o seu parecer. A mulher, nitidamente arrependida, implora perdão...

O que responde o Cristo? “Você errou, e agora vai ter que pagar”? ou “A Lei é para todos, não pode haver exceção”? au ainda “A justiça tem que ser feita, acima de tudo”? Não! Ele não responde nada que nem de longe se pareça com isso. Ele simplesmente lembra a todos aqueles acusadores, de forma magistral, que eles também são imperfeitos, e depois diz à mulher: “Teu pecado está perdoado. Vai e não peques mais”...

Esta belíssima narrativa diz alguma coisa?

O segundo exemplo, ainda mais claro, é o caso do ladrão crucificado ao lado do Cristo. Alguém que praticou o mal durante a vida, um criminoso. No último momento, ele faz uma confissão ao mestre: “Eu mereço estar aqui, mas não tu. Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino...” – e o que responde o Cristo? “Infelizmente não vai dar, porque você pecou contra a Lei de ação e reação, e agora terá que pagar, de qualquer jeito”? ou “Eu até gostaria, mas você vai ter que resgatar a sua dívida cármica numa outra vida”? Não!! Ele diz: “Ainda hoje estaremos juntos no Paraíso”! No Paraíso! Entenda-se bem que o Paraíso, no entendimento judaico, é o próprio Reino de Deus, o Lugar Eterno, de eterna Paz, Prazer e Felicidade infinitos! Jesus não está falando de um lugar de “passagem”, de um plano intermediário, para depois voltar e saldar suas dívidas, mas da Vida Verdadeira na presença de Deus! Bem, isto sim é o que eu chamo de perdão!..

Perdão incondicional, sem reservas, sem termos rescisórios, sem "mas" nem "senão". Tudo que é preciso é querer e entregar-se! Você se arrependeu, pediu perdão e vai ser perdoado. "Me invocarão, e eu lhes escutarei" (Jeremias, 29:12); "Pedi e recebereis" (João, 16:24). Isto é divino! E aqui vou abrir parênteses na minha determinação em não emitir opiniões pessoais para dizer que este é o Deus que me move. O que perdoa independente de qualquer lei e acima de toda lógica humana.

Aí está a própria essência do Cristianismo. Amor, Misericórdia e Perdão incondicional.

Mas você mesmo usou da Lei de ação e reação para falar sobre a idéia do Inferno, Henrique? Sim, mas eu nunca disse que essa Lei não poderia ser transcendida pelo Autor da própria Lei! A única coisa que espero dos meus leitores é que usem do seu discernimento para responder a si próprios: Deus se limita? Deus está sujeito às leis naturais, assim como nós? Deus pode ser julgado mediante as nossas noções de justiça? Ou Ele está mesmo além da nossa compreensão? (Não adianta falar isso da boca pra fora, mas na primeira dificuldade voltar a tentar compreendê-Lo usando nossas próprias medidas) O Deus em que você crê é ou não maior e mais perfeito do que tudo que conhecemos e compreendemos?

Pense. Esta é e sempre foi a minha única proposta para você, que chegou até aqui na leitura, junto comigo: permita-se pensar. Mas pense apenas por si mesmo; limpe a sua mente e a sua consciência, completamente. Não importa o que disse o padre, pastor, guru ou o seu mentor espiritual. Liberte-se das idéias alheias. Jogue fora o que disseram os homens, porque eles podem apenas supor. Procure chegar às respostas baseado(a) apenas e tão somente na sua consciência, vazia e limpa, diante de Deus. O Deus criador, o Deus do Amor. É só.