Mitos primordiais: Criação e Origens

Réplica do templo da antiga deusa Ishtar

De fato, tudo leva a crer que no mundo antigo as pessoas acreditavam que só participando da vida “mágica” é que se tornariam de fato humanas. A vida terrestre era obviamente frágil, convivia-se rotineiramente, e intimamente, com a mortalidade. Imagina-se que as expectativas do tempo de vida eram muitíssimo mais baixas do que as atuais. Mas, se imitassem as ações dos deuses, os humanos partilhariam, em certa medida, dos poderes e da eficiência superiores deles. Assim, ensinava-se que os deuses haviam mostrado aos homens como construir suas cidades e templos, cópias menores dos lares deles no reino divino. O mundo sagrado dos deuses, como contavam os mitos – era não apenas um ideal ao qual almejavam homens e mulheres, mas o protótipo da existência humana; era o modelo ou arquétipo original no qual se baseara a vida aqui embaixo. Acreditava-se que tudo na terra era uma réplica de alguma coisa do mundo divino, percepção essa que deu forma à mitologia, aos rituais e à organização social da maioria das culturas da Antiguidade, e continua a influenciar as sociedades mais tradicionais até os nossos dias!

No Irã antigo, por exemplo, acreditava-se que cada pessoa ou objeto no mundo material (‘getik’) tinha sua contraparte no mundo da realidade sagrada (‘menok’). É uma perspectiva difícil de ser entendida por nós, no mundo moderno, pois vemos a autonomia e a nossa independência como valores supremos. Mas o famoso provérbio “post coitum omne animal tristis est” (‘após o sexo, todos os animais ficam tristes’), ainda expressa uma experiência muito comum - essa expressão alude ao fato de que, após um momento intenso e avidamente esperado, muitas vezes sentimos que perdemos alguma coisa maior, que a felicidade real e perene, pela qual tanto ansiávamos, continua além do nosso alcance. Como alcançar aquele estado de perfeita e constante felicidade que tanto queremos? Nossos ancestrais tentaram fazê-lo buscando a perfeição que não se encontra nesta Terra ou nesta vida. Para tanto, imitar os deuses parecia ser a única maneira.

A imitação de Deus ainda é uma importante idéia religiosa: descansar no Shabat, lavar os pés de alguém na Quinta-feira Santa – atos em si desprovidos de sentido – são hoje significativos e sagrados porque as pessoas acreditam que foram praticados antes por Deus ou por uma manifestação Sua. Uma espiritualidade semelhante caracterizou o mundo antigo da Mesopotâmia. O vale do Tigre-Eufrates, onde hoje é o Iraque, foi habitado já em 4000 aC pelo povo conhecido como sumério, que estabeleceu uma das primeiras grandes culturas do Oikumene (mundo civilizado). Nas cidades de Ur, Erech e Kish, os sumérios criaram a escrita cuneiforme, construíram as extraordinárias torres-templos chamadas "zigurates" e desenvolveram uma legislação, literatura e mitologia impressionantes. Não muito depois, a região foi invadida pelos arcádios semitas, que adotaram a língua e cultura da Suméria. Ainda mais tarde, por volta de 2000 aC, os amoritas conquistaram a civilização arcádio-suméria e fizeram da Babilônia sua capital. Por fim, cerca de quinhentos anos depois, os assírios se estabeleceram na vizinha Ashbur e acabaram por conquistar a própria Babilônia no século VIII aC. Essa tradição babilônica também acabou por afetar a mitologia e a religião de Canaã, que viria a se tornar a Terra Prometida dos antigos israelitas. Como outros povos do mundo antigo, os babilônios atribuíam suas conquistas culturais aos deuses que haviam revelado seu estilo de vida aos místicos ancestrais deles. Assim, supunha-se que a própria Babilônia era uma imagem do Céu, sendo cada um dos seus templos uma réplica de um palácio celeste.

A "ligação com o mundo divino" era festejada e perpetuada todos os anos na “Grande Festa de Ano Novo”, que já se havia estabelecido firmemente no século VII aC. Comemorada na cidade sagrada da Babilônia no mês de nisan – nosso abril – a festa entronizava solenemente o rei e estabelecia seu reinado por mais um ano. Contudo, essa estabilidade política só podia durar na medida em que participasse do governo mais duradouro e eficiente dos deuses, que haviam trazido ordem ao caos primordial quando criaram o mundo. Os onze dias sagrados da Festa pretendiam extrair, assim, os seus participantes do mundo profano e lançá-los dentro do mundo eterno dos deuses, por meio de gestos rituais. Matava-se um bode expiatório para anular tudo que era velho e agonizante. A humilhação pública do rei e a entronização de um rei carnavalesco em seu lugar representavam o caos original. Por fim, uma falsa batalha reproduzia a luta dos deuses contra as forças da destruição.

A esses atos simbólicos eram atribuídos, portanto, valor sacramental: possibilitavam ao povo mergulhar no poder sagrado, ou “mana”, do qual dependia sua grande civilização. Sentia-se que a cultura era uma frágil conquista, que sempre poderia cair presa das forças da desordem e da desintegração (o fato de essa sensação permanecer fortemente sentida nos dias atuais seria mera coincidência?). Na tarde do quarto dia da festa, sacerdotes e atendentes entravam no aposento mais sagrado do templo para recitar o “Enuma Elish”, poema épico sobre o mito da criação, escrito em sete tábuas de argila, que comemorava a vitória dos deuses sobre o caos.

A história não era uma narrativa factual das origens físicas da vida na Terra, mas uma alternativa deliberadamente simbólica de sugerir um grande mistério e liberar seu poder sagrado. Uma versão literal da criação seria impossível; o mito e o símbolo eram, pois, a única maneira adequada de descrevê-los. Um breve exame do Enuma Elish nos oferece uma bela visão da espiritualidade que deu origem a diversas das idéias de Deus posteriores.


Tábuas do "Enuma Elish"


Embora a versão bíblica e também a versão corânica da criação tomassem, em última análise, uma forma muito diferente, esses estranhos mitos parecem não ter desaparecido por completo, pois há indícios de que acabaram por reentrar na história da idéia de Deus num período bastante posterior, revestidos de um idioma monoteísta.

A história do Enuma Elish começa com a criação dos próprios deuses – um tema que, como veremos, seria muito importante no misticismo judeu e muçulmano.


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