Inferno

A partir do próximo post, começa a nova fase do Arte das artes. Na primeira fase, eu contei a minha história pessoal. Desde a conclusão dessa primeira etapa, venho tentando atualizar este espaço com posts que trataram, entre outras questões relacionadas, de princípios fundamentais a todas as religiões: vida depois da vida (EQM), a definição do "Eu", Deus, o Mal, fenômenos sobrenaturais e supranaturais, as práticas espirituais, o Amor, iluminações e Princípios Universais, entre outros.

A próxima fase será, espero, a conclusão daquela que sempre foi a minha proposta por aqui, desde o princípio: fornecer subsídio que auxilie os buscadores sinceros em suas próprias jornadas pessoais. A segunda fase do Arte das artes, a que me refiro, se constituirá de uma enciclopédia abrangente das religiões, tão pormenorizada em seus tópicos quanto possível. Estou apto para fazer isso porque conheci de perto, estudei profundamente e fui membro ativo de uma parte importante dessas religiões, seitas e ordens. Conheci e entrevistei mestres, colecionei farto material, ao longo de toda minha vida, para que pudesse desenvolver uma compreensão abrangente desse vasto e multifacetado campo, muito além da minha formação protocolar em Teologia e História.

Após a conclusão dessa enciclopédia das religiões e uma vez alcançado meu objetivo por aqui, a frequência das postagens deverá cair bastante. Mas isso deve demorar muito, ainda - para concluir razoavelmente bem essa segunda fase (que, como dito, começa a partir da próxima atualização), vou precisar de no mínimo mais algumas centenas de postagens - a tarefa que estou me propondo é realmente colossal, e, mesmo dadas as limitações deste espaço, pretendo abordar todos as matérias com o máximo de profundidade possível.

Mas para que possa passar a essa próxima fase com a sensação de que o objetivo desta etapa intermediária foi plenamente cumprido, falta abordar, ainda, pelo menos um assunto que considero primordial: a questão do Inferno. Reencarnação é um outro tema importante, mas que eu optei por abordar numa oportunidade futura, quando entrar na matéria das religiões que a pregam. Vamos então ao assunto deste post...




Não se preocupe. Eu não vou, de modo algum, me atrever a entrar numa ponderação infrutífera do tipo "há ou não o Inferno?" aqui no blog. O único propósito deste post é tentar esclarecer o real significado do termo e o que a idéia representa para as diversas religiões que, direta ou indiretamente, eu estudei.

O Inferno... no meu entender, este é, sem dúvida nenhuma, o assunto mais polêmico e complicado de todos, no que tange ao campo religião e espiritualidade. Por causa dele, escolhas são feitas ou evitadas. Almas migram de uma tradição para outra, discussões teológicas homéricas não param de acontecer em todas as partes. O grande problema que qualquer buscador espiritual enfrenta, ao travar contato com as diferentes abordagens sobre este assunto disponíveis, é o próprio hábito de se esquecer de, antes de qualquer coisa, tentar compreender exatamente o real significado do termo em si.

O primeiro erro que se comete, muito comumente, quando se aborda este assunto: imaginar que a crença no Inferno é uma espécie de exclusividade das igrejas cristãs, em especial a católica. Há, atualmente, um hábito profundamente enraizado, especialmente em nossa cultura, de se atribuir tudo que pareça negativo, retrógrado ou que vá contra o senso comum de certo e errado, à tradição católica. Digo isto com conhecimento de causa. Já há uns bons anos que venho participando de discussões e debates teológicos inter-religiosos promovidos pela instituição onde estudo (eu já fazia isso mesmo antes de iniciar meus estudos acadêmicos), e perdi a conta de quantas vezes presenciei como resposta à alguma questão levantada sobre o tema "Inferno", afirmações do tipo: “Esse conceito católico, do Inferno, da punição aos pecadores e... ” - este é um engano muito comum.

Na realidade, todas as grandes religiões monoteístas do nosso planeta - judaísmo, cristianismo e islamismo - além do budismo (Mahayana e Theravada - poucos leigos sabem disso) e algumas linhas dvaitas do hinduismo e as ordens esotéricas tradicionais, como é o caso da Gnose, além do sufismo e todas as tradições da antiguidade, sem exceção (babilônicos, sumérios, persas, mayas...), enfim, todas as tradições ancestrais ensinam que o destino dos maus é o Inferno. Então, a primeira coisa que devemos saber, se quisermos começar a tentar resolver, de fato, este grande problema teológico chamado Inferno é: não se trata de uma “invenção” cristã. A esmagadora maioria das religiões tradicionais do mundo ensina a existência do inferno como algo real. Isso representaria mais que 90% das pessoas que acreditam em Deus no mundo!

Segundo passo: compreender porque é tão complicado aceitar a possibilidade da existência de algo assim tão terrível. Se é impossível detectar o surgimento da idéia do Inferno na História, e se a imensa maioria das religíões ensina a sua existência, por que a polêmica? Bem, entender isso não é nada difícil, na verdade - acontece que a idéia do Inferno vai totalmente contra qualquer noção de lógica ou bom senso humanos. A questão mais comum (e perfeitamente lógica), que sempre se levanta nessas discussões, é a seguinte: “Se Deus é Bom e Misericordioso, como poderia lançar almas de pobres criaturas, por piores que tenham sido em vida, num fogo de sofrimento eterno, que nunca se consome?” Lembro-me de ter lido uma matéria numa revista “Torre de Vigia” que levantava a seguinte questão: “Se nós, seres humanos falhos e pecadores, sabemos aplicar penas compatíveis aos criminosos, que sejam proporcionais ao crime cometido, como poderia Deus, sendo infinitamente Justo e Misericordioso, aplicar uma pena eterna e infinitamente horrorosa a todos os pecadores, sem distinção? Pois segundo os que defendem a crença no Inferno, desde um terrível ditador como Adolf Hitler, que mandou assassinar milhões de inocentes, até um ladrão de galinhas, que morreu sem se converter, todos receberão a mesma pena apavorante. Isso é justiça?”..

Sem dúvida, este é um raciocínio inapelável. Não há como negá-lo, não há como fugir dele! Ou o Inferno não existe, como o imaginamos, ou Deus não é justo nem misericordioso. No máximo, poderíamos até conceder que o Inferno existisse, se não fosse eterno. Alguém aí seria capaz de condenar um filho, por mais ingrato e terrível que fosse, à uma pena eterna, um castigo terrível e que nunca tivesse fim?

Em primeiro lugar, um verdadeiro cristão não pode categoricamente afirmar que o Inferno é um “lugar” eterno, onde as almas dos pecadores estarão presas, sofrendo para todo o sempre, uma vez que o próprio Cristo disse: “Dali não sairão até que tenham pago suas dívidas, até o último centavo” (Lucas, 12:59). Ora, ele disse “até pagar o último centavo”, e não “para sempre” ou "eternamente”. Isto é um fato, e as nossas conclusões deveriam ser sempre baseadas em fatos. Segundo, embora algumas passagens bíblicas usem expressões como estas, para aludir ao Inferno, o estudioso da filologia sabe que “para sempre”, “eternamente”, “mil anos” e outras expressões desse tipo, na linguagem hebraica, podem significar “por muito tempo”.

Seguem as considerações básicas sobre o assunto Inferno, não segundo a minha opinião pessoal, mas sempre segundo as doutrinas das tradições que defendem a sua existência:

1) - Crer na Justiça necessariamente implica crer na existência de recompensa e castigo. Acreditar que todos, infalível e indiscriminadamente, encontrarão o mesmo destino pós morte, independente do que foram e o que praticaram em vida, contraria até a mais elementar noção de Justiça. Deus é Misericordioso, mas também é Justo. Isto implica no porvir do bem para os bons, e do mal para os maus, assim como neste aqui-agora cada um colhe o que semeia. Cabe a cada um fazer a sua escolha. Portanto, a condenação dos ímpios não seria um ato de crueldade, mas sim de Justiça. Deus manifesta a sua Misericórdia através das inúmeras oportunidades que dá aos seres humanos para que se voltem ao caminho da Vida, sendo o exemplo máximo da Sua Misericórdia o Sacrifício do Cristo.

Até aí, temos argumentos perfeitamente aceitáveis. Mas, e o problema do castigo eterno? Que crime seria tão grave para merecer uma pena eterna?

2) - Segundo a religião católica, o processo não é assim tão implacável, e a maior parte dos pecadores não recebe a condenação definitiva, mas vai para um processo depurativo num plano intermediário de purgação (purificação) da alma, para depois ascender à Vida eterna. O "Purgatório", na doutrina católica, seria algo bem semelhante ao "Umbral" dos espíritas: um lugar de trevas, dor e sofrimento; mas que, diferente do Inferno, não é eterno. Depois que a alma se conscientiza dos seus erros e se arrepende, torna-se apta a sair dali. No caso do espiritismo, sai para um período de recuperação em algum plano espiritual mais elevado e uma nova encarnação. No caso do cristianismo, sai para a Vida eterna no Reino do Pai.


3) – Mas ainda persiste o problema da pena eterna... Bem, a religião católica tentou, no decorrer da História, voltar a discutir oficialmente o dogma da existência do Inferno. Mas nenhuma mudança na doutrina chegou a ocorrer de fato, porque muitos dos maiores místicos e pensadores cristãos, em todos os tempos, como São João Bosco, Santa Faustina, São Basílio, São Boaventura, São João Crisóstomo e Santa Teresa D'ávila (só para citar alguns exemplos), além das videntes de Lourdes, Fátima e Medjugorje, verdadeiros pilares da religião, reafirmaram enfaticamente a sua existência. Estes e diversos outros santos realmente importantes tiveram visões do Inferno, e muitos o descreveram em minúcias, explicando inclusive a sua razão de ser. Detalhes na parte final desta postagem**.

Agora complicou! Por que tantas pessoas que dedicaram suas vidas inteiras à prática do bem, à contemplação, ao serviço ao próximo e à busca interior haveriam de afirmar algo tão horrível, se não tivessem uma ótima razão para isso? Por que motivo tanta gente culta e indubitavelmente piedosa acreditou e acredita na existência do Inferno? O item 4 vai encarar o problema de frente...



4 Continuação...