Inferno - conclusão


...continuação do post anterior

4) - O judaísmo, a mais antiga das grandes religiões que subsiste, na pessoa dos seus mais eminentes rabinos, por mais incrível que possa parecer, nos traz uma explicação lógica, razoável e coerente, além de cientificamente plausível(!), para justificar a existência do Inferno. Com ela concordam praticamente todas as correntes teológicas atuais. É um sistema difícil de explicar em linhas gerais, mas segue abaixo uma breve elucidação, tão resumida quanto possível:

Vivemos atualmente num mundo finito, limitado e imperfeito, chamado de “mundo”, “reino” ou “plano” fenomênico. Além deste, há a Realidade Perene, a Verdade Primordial, que é a Existência Verdadeira: o Plano Superior, também chamado “Reino do Céu”, Reino de Deus, Reino da Luz... Do mundo fenomênico, onde estamos agora, não podemos ver ou experimentar o Plano Superior em sua plenitude. O que podemos fazer é imaginar, ou no máximo vivenciar (na forma de 'insights' ou 'iluminações') rápidos vislumbres do que seria esta Realidade. Estamos separados dela ou pela ação do “pecado original”, ou das "cortinas das Sephirot”, dos "véus de Maya”, das ilusões dos sentidos, do programa Matrix... ou qualquer outro nome que prefiram dar. O fato é que do mundo em que vivemos não podemos ter contato direto com o Plano Superior Divino, onde não existem as imperfeições e limitações do plano fenomênico. No Plano Superior não existe o tempo.

Até aí, tudo em perfeito acordo com todas as religiões. E até mesmo no campo da ciência, em termos puramente físicos, é correto afirmar que, numa realidade exterior ao nosso universo físico ou à nossa dimensão ordinária, o fator a que denominamos “tempo”, com todos os seus efeitos e limitações, simplesmente não existe. É um conceito comum à física, tanto quântica quanto clássica, que o tempo é “curvo”, portanto, relativo. Para o que poderíamos chamar de "Realidade Última", o tempo não existe. Isso implica que passado, presente e futuro, na verdade, continuam ocorrendo numa única Realidade contínua que poderíamos chamar de “Agora”. Assim, o Big Bang, o nascimento dos astros e das galáxias, o desenrolar de todos os acontecimentos cósmicos e também o fim do universo físico - tudo, enfim - ocorreu, está ocorrendo e ocorrerá, indefinidamente. Tudo de uma só vez e sem fim, e isto é assim por uma simples razão: o tempo não existe! O que chamamos “tempo” é apenas uma ilusão que experimentamos devido a uma conjunção exata de fatores fenomênicos combinados. Obviamente não vou me estender agora neste assunto, complexo demais para o espaço.

Mais uma vez, observe que até este ponto, o raciocínio dos antigos hebreus, berço da maior parte das religiões que conhecemos e influência fulcral em todas as outras, está em pleno acordo não só com o que ensinam todas as tradições existentes como também com os ensinamentos ancestrais dos antigos filósofos gregos, do Tao, da astrologia hindu e outros, e até mesmo com os conhecimentos científicos atuais. Mas, afinal, onde é que entra a questão do Inferno nisso tudo?

Entra exatamente aí, junto com uma das maiores Leis fundamentais da Existência: a Lei de Ação e Reação. Mesmo no mundo fenomênico, podemos perceber com clareza a ação desta Lei inexorável. Infalivelmente, recebemos de volta, em algum nível, a “paga” por tudo aquilo que fazemos. Por aquilo que pensamos. Tudo, tudo, tudo que acontece nesta vida tem uma causa. Não há efeito sem causa, e para cada ação há uma reação de igual intensidade. "Karma", "tikun", ação e reação, movimento contínuo, pressão e resistência... tudo reflete esta Lei universal incontestável, que atua infalivelmente. Quando um corpo celeste, um asteróide ou um meteoro, se choca contra a superfície de um astro, ele levanta uma quantidade de poeira proporcional à sua massa e velocidade no momento do choque. Quando um astro, em sua trajetória, se interpõe entre o sol e o planeta que ele ilumina, provoca uma sombra proporcional ao seu diâmetro. Os exemplos são infinitos. Toda a Existência está submetida a Lei de Ação e Reação. De maneira semelhante ocorre na Realidade Perene (o Plano Superior ou Reino do Céu). “O que está embaixo, é igual ao que está em cima”, como nos diz a Sabedoria mística de todas as tradições.

"É exatamente na conjunção de dois princípios universais - o da não existência real do tempo e o da Lei de Ação e Reação - que reside a raiz para a compreensão da existência do Inferno conforme trazida por nossos ancestrais." - Rabino Yehuda Berg


Esclarecendo: aquilo que nos tornarmos aqui, o modo como nos encontrarmos no momento da passagem para a Eternidade, é que vai determinar o que seremos “do lado de lá”. De um certo modo, aqui é um estágio onde nos preparamos para o que virá. Fora do mundo fenomênico, não haverá mais a oportunidade de nos refazermos, em nenhum nível, nem "recomeçar", simplesmente porque o tempo não existe mais! Sentido descendente levará à queda constante e progressiva, infinitamente. Sentido ascendente levará à ascensão constante, progressiva, infinitamente.

O grande problema é que a noção de Eternidade é completamente impossível de ser compreendida pelo nosso intelecto, pela evidente razão de que o limitado não pode compreender o ilimitado. Nossa compreensão está irremediavelmente presa às noções limitadas do tempo - passado, presente e futuro. "É simplesmente impossível que compreendamos uma dimensão onde as leis que regem a nossa própria dimensão não existam". - Profº Drº Fred Alan Wolf, PHD em física subatômica.

Agora se imagine num lugar maravilhoso, onde tudo é perfeito e não existem problemas. Imagine-se vivendo neste lugar, eternamente jovem, sem nenhum tipo de dificuldade a ser enfrentada, nenhum obstáculo a ser vencido. Em princípio pode parecer maravilhoso, mas tente se imaginar vivendo assim por anos, séculos, milênios... nessa vida sem nenhum desafio, sem nenhuma nova descoberta... imagine o tédio que seria!..

Mas nós só entendemos que isso seria tedioso porque analisamos tudo sempre sob o prisma da “prisão” do tempo. Eliminado o tempo, só o que resta é a real Plenitude, a Felicidade eterna da Vida Perene. Exemplo: quantas vezes, durante uma experiência muito boa em sua vida, você imaginou: “Como seria bom se o tempo parasse nesse momento...”? Pois é exatamente esta a concepção mais próxima da ideal que podemos ter do Paraíso, segundo os antigos rabinos. Um estado de perfeita beatitude, um estado de prazer e felicidade infinitos, que nunca tem fim. Aqui, você já sabe que o tempo vai prosseguir e amanhã de manhã aquela experiência tão incrível terá passado, aquela sensação magnífica não estará mais presente. Estará perdida, para sempre. Mas na Eternidade, a experiência da felicidade é perfeita e não cessa nunca. De modo imperfeito, poderíamos comparar o Reino com o parar do tempo no momento mais sublime de nossas vidas. E esse é um estado ascendente de bem aventurança e plenitude, um estado que não tem fim porque não tem começo. Não há tempo, não existem mais as limitações do mundo fenomênico.

Agora tentemos imaginar o exato oposto dessa realidade. Alguém que desperdiçou o seu "estágio" neste mundo cultivando ódio, inveja, negatividade... e passou para a Eternidade num estado de trevas completas. Na Realidade Suprema não há mais tempo para mudanças, nem para nada. Não há mais tempo, literalmente, porque viveremos na Verdade, e na Verdade o tempo não existe! Este alguém vai permanecer naquele estado, não “para sempre”, como entenderíamos usando o nosso intelecto limitado, mas como no Agora, que é a única realidade. Se ele entrou no Agora perdido e atormentado, é assim que será. Sem fim. Sem começo. Apenas ser o que se escolheu. Plenamente.

Essa noção, de que na condição em que entrarmos na Dimensão da Eternidade (que na verdade é a única que existe) permaneceremos, só que em proporções ampliadas ao infinito, já que na Eternidade não existem limites, está presente, com variações, no budismo e em diversas escolas do hinduísmo. Mahatma Gandhi acreditava nisso piamente. Segundo o depoimento de alguns dos seus convivas, seu maior medo era o de que, no momento de sua morte, seus pensamentos não estivessem em Deus, e assim sua alma se veria atormentada na Eternidade. Diz a lenda que, quando ele foi alvejado por aquela fatídica bala de revólver, a última palavra que pronunciou antes de se desligar deste mundo foi “Deus”. Assim pôde entrar na Eternidade com pensamentos elevados, atingindo a perfeita Felicidade.

** Os santos cristãos que afirmaram ter visto o inferno, em visões fora do corpo, unanimemente o descreveram não como um “lugar” onde as almas estivessem recebendo um castigo pelas suas más ações - mas como se elas estivessem ali por vontade própria! - tinham feito uma escolha e dela não se arrependiam, de modo algum. Encontravam-se resignadas com o sofrimento e permaneciam firmes em sua opção de negar Deus, eternamente. Se essas almas se arrependessem, mesmo das profundezas do inferno, estava subentendido que seriam salvas. Mas isso simplesmente não acontecia. Algo semelhante à atitude de algumas pessoas que todos nós temos a oportunidade de conhecer, em algum momento de nossas vidas, que mesmo diante de muitas evidências, se negam a aceitar a existência de Deus, por exemplo. O caso da mãe de Lúcia dos Santos, a vidente que recebeu as aparições da Virgem Maria em Fátima, Portugal, é emblemático. Ela presenciou diversos sinais maravilhosos, talvez mais vezes e sem dúvida mais de perto do que qualquer outra pessoa. Chegou a ser curada de uma crise aguda de pneumonia, que na época levava muitas pessoas a óbito, por intermédio das orações da filha (reconheceu isso), mas mesmo assim se negava terminantemente sequer a aceitar a possibilidade de que Lúcia estivesse travando contato com uma manifestação divina. Era cética e permaneceu cética até o fim, enquanto milhares de estranhos ao seu redor se convertiam e mudavam seus modos de vida diante do exemplo e dos fenômenos maravilhosos envolvendo sua própria filha.


Aí estão expostos os principais pontos de vista sobre o assunto campeão em polêmicas, na área da espiritualidade. Qual é a Verdade?