Uma Iluminação



Quando temos algum problema que nos perturba a paz de espírito, impedindo o desenvolvimento pleno das nossas vidas, em algum nível - e quando meditamos sobre este problema, quando nos empenhamos seriamente em encontrar uma solução - acontece às vezes de a resposta surgir de repente, como que por encanto, normalmente no momento em que menos esperávamos por ela. O conhecimento necessário, e com ele a compreensão do assunto que nos estivera incomodando tanto, subitamente nos “toma de assalto”, e assim resolver o problema fica fácil. A solução surge na forma de um “insight”, às vezes desencadeado por uma palavra dita por alguém, uma frase que lemos em algum livro, jornal ou revista, um sonho ou mesmo uma imagem aleatória com que nos defrontamos... Não sei se isso acontecer depende do nosso merecimento, em algum nível, mas imagino que esteja mais relacionado à questão de estarmos preparados para receber aquela dádiva em especial.

Mas, como é que podemos nos preparar para receber um presente como esses? Bem, eu vivenciei isto na minha vida, algumas vezes, por isso me atrevo a deixar a minha resposta: A maneira de nos prepararmos para a “iluminação” a respeito de algum assunto que não estejamos conseguindo desvendar por nossas próprias forças (isto é, fazendo uso apenas do nosso intelecto limitado), é simplesmente direcionando suavemente todas as nossas forças neste sentido. Ou seja, tentando sinceramente resolver o assunto, refletindo sobre ele e desejando verdadeiramente enxergar a resposta onde quer que se encontre, para que possamos compreendê-la definitivamente. Para os que têm fé, pedir também ajuda, e muito. Assim chegamos às soluções necessárias.

Resolvi compartilhar com vocês (devidamente autorizado) uma situação que ocorreu com a minha esposa. Ela sempre teve enormes dificuldades para lidar com as falhas das pessoas do seu convívio, tanto no trabalho quanto em nível pessoal, se ela não conseguisse compreendê-las. Hana nunca teve problemas para lidar com as fraquezas e dificuldades alheias, desde que ela pudesse entender os "porquês". Mas ela não conseguia se conformar e ficava muito aborrecida quando alguém lhe fazia algum mal gratuitamente - isto é, se ela não conseguisse entender as razões que levavam alguém a lhe prejudicar, isso a deixava realmente furiosa!

Numa certa ocasião (aconteceu logo no começo do nosso relacionamento), ela se encontrava num momento difícil no trabalho, se sentindo incompreendida e sem saber direito como solucionar certas dificuldades com alguns colegas. O problema começou logo depois que houve uma troca de pessoal na empresa em que ela trabalha, num dos setores com o qual ela precisa interagir diretamente em sua rotina diária. Ela se aborrecia especialmente ao considerar o enorme contraste entre o comportamento da antiga turma e o dos seus novos colegas.

Depois de alguns tropeços, ela estabeleceu para si mesma, como prioridade, a solução urgente dessas dificuldades. E a resposta demoraria bem menos do que ela poderia esperar. Aconteceu depois de alguns dias concentrada na busca de uma solução, numa manhã como qualquer outra, quando se dirigia para o trabalho. Ela estava com a mente fresca, depois de uma boa noite de sono, e naquele momento preciso não pensava em nada especificamente. Foi aí que, subitamente, ouviu uma voz dentro da sua mente. Uma voz que ela descreveu como "sem tonalidade definida, sem gênero ou personalidade própria, uma voz a um só tempo inaudível e perfeitamente nítida". Uma voz que lhe falou apenas uma frase, apenas uma vez, mas de uma maneira muito clara e inequívoca.

A voz lhe disse, incisivamente: “Não compare! Nunca, jamais faça comparações entre pessoas...”. Logo depois, ela entrou num estado de grande paz de espírito e compreendeu, profundamente, a resposta que procurava: boa parte das dificuldades nos relacionamentos humanos se dá por conta das comparações que fazemos. À noite, ao chegar em casa, ela me disse que tinha recebido uma “iluminação” semelhante a algumas das experiências pessoais que eu já tinha lhe relatado.

Depois de entender esse princípio - que ela já “sabia”, intelectualmente, do qual já tinha ouvido falar e lido a respeito, mas que nunca compreendera, verdadeiramente, em essência – ela passou a enxergar os novos colegas com outros olhos, sob um novo ponto de vista, parou de resistir às dificuldades com as características únicas e pessoais de cada um, e essas relações passaram a fluir naturalmente. Ela não precisou tomar nenhuma medida mais dura contra nenhum dos novos contratados, como já vinha pensando em fazer, e hoje conta com boas novas amizades dentro do ambiente profissional.

Estamos sempre comparando pessoas, elegendo os “melhores” e os “piores” em tudo. Comparamos a nossa(o) namorada(o) atual com a(o) anterior. Comparamos nossos amigos. Comparamos nossos professores, nossos líderes, comparamos os membros das nossas famílias. Quantos consideram os pais ou os irmãos dos seus amigos melhores ou mais bacanas do que os seus próprios?.. Queremos sempre exigir de uns o mesmo comportamento ou as mesmas qualidades de outros! Quando isso não acontece (quase nunca), julgamos e criamos conflito, gratuitamente...





Se por um lado somos todos um só, todos membros da imensa família humana, comungando de uma só existência nesta grande Casa que é o planeta Terra, por outro lado cada ser humano neste mundo representa um universo particular, cada um é único e complexo, com suas próprias qualidades e fraquezas, seus desejos e anseios, suas paixões e seus medos, sonhos e angústias... Cada um de nós teve uma experiência de vida única, uma história diferente, relacionada ao seu lugar, sua cultura, costumes... Cada um nasce com um código genético exclusivo, que nunca tinha existido antes e que jamais se repetirá enquanto houver a “espécie” humana. E isso é muito belo. Precisamos aceitar os pontos fortes e fracos que todos nós trazemos. O segredo do bom convívio é respeitar e aceitar a individualidade de cada um.

Eu me lembro de quando ainda era uma criança, e apenas aceitava simplesmente o que cada um era e tinha para oferecer. Sem julgamentos. Sem comparações. Todos os meus relacionamentos eram perfeitos, porque o meu modo de me relacionar com a vida e com as pessoas ainda era puro.

Ninguém é igual a ninguém, e somente o próprio indivíduo é que conhece - às vezes nem ele - as razões de ser o que é. Mas que essas razões existem, não há dúvida. E cada um de nós está sempre fazendo o melhor que pode para chegar a um objetivo. Cada um está empenhando o melhor de suas forças para obter felicidade. Infelizmente, parece que alguns ainda acreditam que para serem felizes precisam atrapalhar a felicidade alheia, o que obviamente é um equívoco, mas ainda assim, com certeza, mesmo estes têm as suas razões para se comportar dessa maneira. Particularmente, acredito que cada um tem um propósito a cumprir, um espaço específico a preencher no grande quebra-cabeça da existência. E talvez a missão de alguns seja mesmo a de levantar obstáculos para outros que tentam criar algo de bom para todos.

Talvez alguns estejam aqui para serem ajudados, e outros para ajudar. Mas nos é fundamental compreender que cada um é um e que cada um de nós tem as suas próprias razões, e exatamente por isso não devemos fazer comparações entre seres que são únicos. Não devemos comparar. Nós não temos o direito de fazê-lo, porque nós também não somos iguais a ninguém, e é a nossa história única que nos leva a ser o que somos e pensar como pensamos.

Isto por certo não significa adotar uma postura de total resignação, nem que devemos aceitar tudo ou considerar qualquer comportamento como justo ou mesmo aceitável. Significa, isto sim, compreensão. Não comparar é igual a não julgar.


Gato que nasceu com asas (não é montagem!), na China . Leia a notícia aqui.