Maria de Fátima




As aparições da Virgem Maria para Bernardete Soubirous ainda não tinham sido plenamente reconhecidas pela Igreja quando ocorreram as aparições em Fátima, Portugal, fenômeno que segundo o aclamado teólogo Michael o’Carrol, “tocaria a Igreja, no grau de papado, mais do que qualquer outro de sua espécie”. Houve um interesse extraordinário, demonstrado não só por uma sucessão dos sumo pontífices, como também por milhões de estudiosos, católicos ou não, do mundo inteiro. Os “três segredos”, que a vidente Lúcia dos Santos alegava ter recebido da Virgem, receberam especial atenção.

A determinação das autoridades em extrair de Lúcia o que ela proclamava saber sobre o futuro da humanidade era até mais implacável do que a que foi exercida sobre os videntes de Salete. Imediatamente após ter conhecimento desses alegados segredos, o prefeito do vilarejo de Fátima, cético e anti-religioso ferrenho, mandou chamar Lúcia e seus dois primos mais moços, Francisco e Jacinta Marto (nessa ocasião, Lúcia acabara de completar 10 anos, Francisco estava para completar 8 e a menor, Jacinta, tinha pouco mais de 7 anos) à presença dele, e lhes disse que revelassem tudo e prometessem não voltar mais ao lugar da alegada aparição. Como nem subornos nem ameaças tivessem nenhum efeito sobre as crianças, o prefeito preveniu Lúcia de que ele obteria o que queria mesmo que isso significasse tirar-lhe a vida(!). O prefeito então mandou prender os três e avisou que, enquanto estivessem na cadeia, um caldeirão de óleo fervente estaria sendo providenciado. Lúcia e os primos ficaram muitas horas à espera, apavorados, atrás das grades, até serem tirados de lá, e, um de cada vez, receberem a notícia de que aquela era a última chance de dizerem o que sabiam, e caso se negassem a dizer a verdade, seriam atirados no óleo. Mas nenhum dos três disse nada que contrariasse o que haviam afirmado antes!

Derrotado, o prefeito determinou que as crianças fossem interrogadas por uma equipe de teólogos e religiosos, o que durou dois meses. Dois meses de interrogatórios e pressão psicológica contínua sobre crianças muito simples - crianças criadas no campo, iletradas e acostumadas a dizer sempre a verdade. E durante todo esse período, a única informação obtida pelas autoridades sobre os segredos foi a declaração de Francisco de que o povo ficaria triste se os ouvisse. O que Lúcia lhe contara fora apenas isso, disse o menino.


Os pastores Lúcia, Francisco e Jacinta, em foto de 1917


Lúcia era sem dúvida a principal protagonista dos fenômenos ocorridos em Fátima. A primeira aparição, no lugar conhecido como Cova da Iria, onde as crianças estavam pastoreando ovelhas, aconteceu em 13 de maio de 1917. Como descreve Lúcia, “uma Senhora vestida de branco, mais brilhante que o sol, reluzindo mais clara e intensamente que uma taça de cristal cheia de água cristalina, atravessada pelos raios de sol mais ardentes”, apareceu diante das três crianças enquanto elas descansavam à beira de um carvalho. Francisco e Jacinta disseram ter ouvido a mulher em branco dizer: “Eu venho do Céu. E os convido a estar comigo aqui, durante seis meses consecutivos, sempre no dia 13, à mesma hora. Então eu lhes direi quem sou e o que quero”. A Senhora lhes dissera outras coisas, os menores acrescentaram, mas apenas Lúcia saberia repeti-las. Depois, a prima mais velha advertiu Jacinta e Francisco de que não dissessem nada a ninguém sobre o que acontecera. Mas Francisco não podia se conter e exclamou: “Ah, mas que linda Senhora...” diversas vezes depois de terem voltado para casa. Foi Jacinta quem disse aos pais que ela e o irmão tinham visto “Nossa Senhora”. Lúcia, quando lhe perguntaram sobre o seu pedido de silêncio feito aos primos, explicou que não estava muito certa de que a “moça bonita” que eles viram fosse a Virgem Maria, e queria evitar o ridículo.

A mais moça de sete filhos, Lúcia era considerada em sua aldeia uma menina excepcional, de memória extraordinária e grande capacidade de distrair os outros. Nas festas, as irmãs a vestiam e pintavam, e faziam com que ela cantasse e dançasse. Todos a admiravam. Aprendeu o catecismo aos cinco anos e teve permissão para fazer a primeira comunhão aos seis, embora o habitual fosse fazê-la aos dez anos. Lúcia perdeu sua posição especial aos sete anos, quando a mãe a mandou pastorear o rebanho da família. Quando as irmãs de Lúcia se opuseram a essa ordem, a mãe respondeu que sua filha mais moça era “exatamente como os outros”.

Em um ano, as outras meninas que acompanhavam Lúcia na tarefa de cuidar do rebanho de ovelhas entre as colinas, nos arredores da aldeia, começaram a relatar experiências memoráveis. Em 1915, um grupo de meninas contou ter visto uma figura semelhante a “uma estátua de neve” em cima de um arvoredo. Lúcia pediu que elas não contassem aos outros aldeões. A própria mãe de Lúcia chamou essas narrativas de “bobagens de criança" e a menina tornou-se alvo de brincadeiras para muitos em sua própria vila.

A segunda aparição ocorreu na Cova da Iria em 13 de junho, dia de Santo Antônio. Lúcia ficou preocupada ao ver que havia uma multidão à sua espera quando chegou, com Jacinta e Francisco, à Cova da Iria naquela manhã. Enquanto os dois primos almoçaram e brincaram com outras crianças, Lúcia permaneceu sentada, em silêncio, com uma expressão séria. Passava pouco do meio dia quando a menina mais velha chamou os primos: ”Nossa Senhora está chegando”. Os três correram para o carvalho, onde a mulher vestida de branco, segundo disseram, havia aparecido. Lúcia levantou as mãos juntas e disse: ”A Senhora me pediu que eu viesse aqui; por favor, me diga o que a senhora quer”. Logo, muitos da multidão ouviram um barulho que descreveram como ”o zumbido de uma abelha”. Momentos depois, as pessoas ouviam um barulho “que parecia o som de um foguete, bem demorado”, como disse uma testemunha, mas só puderam ver que havia uma pequena nuvem a alguns centímetros do carvalho que se ergueu lentamente e desapareceu na direção do leste, enquanto os três videntes olhavam fixamente naquela direção. Depois de algum tempo, Lúcia gritou: ”Ela foi para o Céu! As portas se fecharam!” Conforme o relato das testemunhas, os brotos novos do topo da árvore se inclinaram para o leste. As pessoas começaram a subir na árvore, arrancando ramos e folhas dos galhos mais altos. Lúcia gritou, pedindo que eles só os tirassem da parte mais baixa da árvore, não tocada pela Virgem.

Havia uma multidão muito maior à espera de Lúcia e dos primos na Cova da Iria, no mês seguinte, dia 13 de julho. Dois homens se prestaram a manter afastados os que estavam na frente, para impedir que Jacinta e Francisco fossem esmagados. A uma certa distância, Lúcia ajoelhou-se e rezou o rosário. Depois, levantou-se rapidamente, olhou para o leste e pediu para que as pessoas fechassem suas sombrinhas porque Nossa Senhora estava chegando. O pai de Francisco e Jacinta, Manuel Marto, homem cético, disse que olhou atentamente, mas não conseguiu ver nada; depois notou que havia uma nuvenzinha cinzenta pousada no cimo da árvore e que sentiu uma “deliciosa brisa fresca”. E também ouviu um zumbido, disse Manuel, como se fosse “um mosquito dentro de uma garrafa vazia” (palavras dele). A uma certa altura, Lúcia ficou ”mortalmente pálida”, lembrou-se Manuel, e repetiu ”Nossa Senhora”, com voz amedrontada, muitas vezes. (Foi nesse momento que ela recebeu os segredos da Virgem, como explicaria Lúcia mais tarde) Ele então ouviu um estrondo forte como o de um trovão, contou Manuel. Então Lúcia levantou-se, apontou para o céu e gritou: ”Lá vai ela!”

Depois daquele dia, Manuel passou a acreditar nas aparições, assim como muitos outros habitantes céticos da aldeia. Os três videntes ainda continuavam sendo ridicularizados pela maioria dos vizinhos, mas uma minoria importante, constituída de pessoas respeitadas na comunidade, passou a tratá-los como santos. Homens do campo prostravam-se aos pés das crianças, implorando-lhes que pedissem algum favor à Virgem. A mãe de Lúcia, entretanto, apenas se mostrava mais determinada a obrigar a filha a admitir que tudo não passava de mentira, e, de vez em quando, recorria às surras de vassoura. Lúcia continuava insistindo que estava dizendo a verdade, e, na Cova da Iria, as multidões aumentavam a cada mês.

Quase 70 mil pessoas(!), entre elas repórteres de jornais de Lisboa, Madri e Paris, estavam presentes para testemunhar a última aparição, em 13 de Outubro. A maioria estava ensopada; a região fora assolada por uma tempestade de proporções monumentais, no entardecer do dia 12, e a chuva continuou durante toda a manhã seguinte. Lúcia e Jacinta, usando vestidos novos e coroas brancas nas cabeças, foram levadas, debaixo de guarda-chuvas, ao local da aparição, acompanhadas de Francisco. Um padre que passara a noite ali, rezando, perguntou quando a Virgem apareceria. Lúcia gritou que seria ao meio dia. O padre olhou o relógio, disse que já era meio dia, e depois acrescentou que a Virgem não mentia. Poucos minutos depois, o padre começou a gritar dizendo que já passava de uma hora, que a aparição era uma ilusão e que as crianças deveriam ir para casa. Lúcia, quase em lágrimas, disse que os outros poderiam ir embora, mas que ela ficaria. Apenas alguns minutos se passaram antes que a multidão visse a menina se virar para o leste, depois dizer a Jacinta que se ajoelhasse, porque ela havia visto relâmpagos e sabia que a Virgem estava chegando.

Lúcia pediu que a multidão se calasse, e que fechassem os guarda-chuvas. Naquele momento, segundo testemunhas (entre as quais renomados repórteres ali presentes), a chuva parou repentinamente e as nuvens se abriram. Lúcia levantou o rosto e gritou: “Olhem para o sol!” O seu pedido foi atendido pela multidão, e muitos começaram a chorar. De maneira claramente anormal, após o aviso de Lúcia, as escuras nuvens de chuva haviam se aberto e o sol se mostrava por inteiro. Mas o mais impressionante aconteceria logo depois. Até os repórteres presentes ali na Cova da Iria afirmariam depois ter visto o sol “estremecer e dançar, e emitir feixes de luzes de cores mais brilhantes do que o mais vívido arco-íris”. Muitíssimos presentes afirmaram ter visto o sol girar como uma roda gigantesca, depois avançar em direção à Terra, como se fosse incendiá-la! Um destacado grupo de céticos, quase todos jornalistas, declarou que o sol naquele momento irradiou um calor incomum, o que fizera, em poucos minutos, suas roupas ensopadas ficarem completamente secas.

A Virgem apareceu novamente vestida de branco, Lúcia disse posteriormente, acompanhada de São José, que carregava o menino Jesus. Subitamente, Maria se mostrou muito triste, e ao lado dela surgiu Jesus adulto, olhando com uma expressão de piedade para a multidão; então ergueu sua mão para abençoá-la. No final do êxtase, disse Lúcia, ela viu a imagem da Virgem como “Nossa Senhora do Monte Carmelo”, vestida de marrom escuro. Jacinta e Francisco disseram que viram apenas Maria com São José e o Menino Jesus; Jacinta disse ter ouvido algo que a Virgem dissera, e Francisco contou que não ouvira nada da Virgem, apenas a vira.

O interesse cada vez maior pelas aparições pouco ajudou Lúcia em sua terra natal. A maior parte dos moradores da aldeia passou a se esquivar da menina depois que um padre muito querido abandonou a paróquia de Fátima para evitar qualquer relação com o que estava acontecendo ali. Menos de um ano após as aparições, houve na região uma epidemia de gripe e a senhora Santos (mãe de Lúcia) foi uma das vítimas. Convencidas de que a mãe estava à morte, as irmãs de Lúcia pediram-lhe insistentemente que rezasse à Virgem. Depois disso, a senhora Santos melhorou, mas mesmo assim negou-se a mudar sua opinião. ”Que estranho”, declarou na ocasião a mãe de Lúcia, ”Nossa Senhora me curou, e mesmo assim, eu não acredito!” Mais tarde, quando lhe contaram que havia pessoas na aldeia que se preparavam para matar sua filha, a mãe de Lúcia disse que não se oporia, “desde que a obriguem a confessar a verdade”!

Francisco e Jacinta ficaram doentes de gripe durante uma epidemia, e nenhum dos dois se recuperou totalmente. Francisco morrem em abril de 1919, aos 11 anos, conforme previsto por Lúcia, que também já havia avisado sobre a morte da irmã Jacinta, então com 9 anos, que dez meses depois também faleceu.

Lúcia estava com 14 anos quando entrou para o colégio das Irmãs de Santa Dorotéia, em Vilar do Porto, em 1921. Em 1925, ela entrou para a ordem e fez seu postulado em Pontevedra. Ali, sozinha em sua cela, ela recebeu a primeira de uma série de visões que acabariam por convencê-la a revelar o que ela anteriormente jurara manter em segredo. No dia de Natal, disse Lúcia, a Virgem lhe apareceu acompanhada de uma criança que se ergueu numa nuvem luminosa. A Virgem mostrou um coração rodeado de espinhos e a criança pediu que ela tivesse compaixão de sua Mãe Santíssima. Menos de dois meses depois, enquanto ela estava trabalhando no jardim do convento, Jesus lhe apareceu como menino e perguntou se ela dissera ao mundo o que a Virgem queria. No final de 1927, depois que seu diretor espiritual lhe pedira um relato escrito de suas experiências, Lúcia foi ao Tabernáculo levar a questão a Deus. Enquanto rezava, não via Jesus, mas o ouvia dizer que ela devia escrever o que o padre pedira, com exceção do último dos três segredos, que não deveria ser contado. A última aparição da Virgem relatada diretamente pela própria Lúcia ocorreu em 13 de junho de 1929, na capela do convento de Tuy, onde ela viveu seus últimos setenta anos. Ela recebeu o pedido, contou, de se sacrificar por aqueles que pecavam contra o Imaculado Coração de Maria.

O bispo de Leiria, em 1930, declara as aparições de Fátima ”dignas de crédito”, mas estas só se tornam conhecidas em Portugal no início da década de 1940, quando memórias de Lúcia começam a ser publicadas. A descrição de Lúcia dos dois primeiros segredos que recebera foram bastante detalhadas. A Virgem mostrou, a ela e a Jacinta, uma visão do Inferno semelhante a um mar: “Mergulhados nesse fogo, demônios e almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas, como formas humanas que flutuassem no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam, juntamente com nuvens de fumaça caindo para todos os lados, como o cair de fagulhas de um grande incêndio, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero, o que nos horrorizava e fazia estremecer de pavor” . O segundo segredo explicava que a devoção ao Imaculado Coração de Maria poderia salvar as almas dos pecadores. Lúcia escreveu que a Virgem lhe dissera que o que ela conhecia como Primeira Guerra Mundial terminaria logo, mas que, se a humanidade não deixasse de ofender a Deus, outra guerra pior surgiria no pontificado de Pio XI. Mais uma vez, suas previsões vieram a se cumprir.




Depois de publicado o último volume das Memórias de Lúcia, os pedidos insistentes para que ela revelasse o terceiro segredo, então ainda secreto, aumentaram. O bispo de Leiria era a autoridade responsável pela mulher então conhecida como “irmã Lúcia”, mas ele relutava em mandar que ela revelasse o último segredo que recebera. No verão de 1943, porém, Lúcia adoeceu gravemente, conforme já esperado por ela própria. Afinal, em setembro daquele ano, o bispo encontrou-se com ela na enfermaria, em Tuy, e perguntou se ela poderia escrever o terceiro segredo para que este ficasse registrado. Um mês depois, ele ordenou que ela o fizesse. A superiora de Lúcia no convento contou que, em 2 de janeiro de 1944, a Virgem aparecera para a irmã Lúcia pela primeira vez em 15 anos, e, durante esse encontro, a autorizara a deixar registrado o terceiro segredo. Em 17 de junho de 1944, uma carta escrita com a letra de Lúcia foi enviada ao bispo de Leiria. Embora Lúcia tivesse lhe permitido a leitura da carta, o bispo se negou a lê-la, e depois fez o possível para que as autoridades eclesiásticas superiores se responsabilizassem pela guarda do documento. Uma oportunidade de livrar-se do fardo apresentou-se ao bispo no início de 1957, quando a Congregação para a Doutrina da Fé pediu as fotocópias de todos os escritos de Lúcia. O bispo então enviou o original e a única cópia do terceiro segredo para Roma, num envelope lacrado.

“Irmã Lúcia” tinha àquela altura se tornado uma espécie de tesouro vivo da Igreja. Escondida atrás das paredes do convento em Tuy, Lúcia era um personagem de enorme importância e mistério para muitos católicos e religiosos em geral. Em 1954, ela deu sua primeira entrevista, para publicação, ao fundador do “Movimento por um Mundo Melhor”, que perguntou se a organização que fundara era a resposta à mensagem de Maria. Lúcia respondeu que, dada a situação da humanidade, naquele momento, apenas um número limitado de pessoas seria salvo. Ela estava dizendo que muitas pessoas iriam para o inferno? – foi o que ele perguntou – sim, era isso. Lúcia respondeu: “Muitos se perderam” A segunda entrevista de Lúcia foi dada em 1957 ao padre mexicano que fora designado para advogar pela beatificação de Jacinta e Francisco. Durante essa conversa, Lúcia divulgou uma notícia que viera à tona dez anos antes, a de que o terceiro segredo de Fátima seria revelado em 1960. Então, irmã Lúcia deu o primeiro e único sinal do que poderia ser o conteúdo do terceiro segredo, explicando que a Virgem Santíssima estava empenhada numa luta decisiva contra Satanás, que sabia que o tempo dele seria breve, e que, portanto, estava determinado a roubar tantas almas quanto pudesse. “Quando essa luta chegar ao fim”, disse Lúcia, as pessoas serão “ou de Deus ou do Maligno”. Ela acrescentou que, ”se a Rússia não se converter, o país tornar-se-á um instrumento do castigo de Deus para o mundo todo, e muitas nações serão aniquiladas”.

Agora podemos entender porque ela relutou tanto em escrever o terceiro segredo, e porque todos os responsáveis por ele, ao longo dos anos, relutaram ainda mais em revelá-lo. Ao observar o impacto dos comentários de Lúcia nos católicos, muitas autoridades levantaram objeções. Era extremamente perigoso, escreveu um teólogo, quando “as afirmações de um indivíduo, mesmo uma mulher sincera e santa como a irmã Lúcia, são tratadas como se fossem a Palavra de Deus”.

A única cópia existente do terceiro segredo de Fátima estava guardada num cofre de madeira, onde se lia a inscrição “Secretum Sancti Offici”, sobre uma mesa no apartamento privado do papa Pio XII. A importância que a Santa Sé atribuía às aparições ocorridas na Cova da Iria foi formalmente reconhecida em 29 de Outubro de 1950, quando, em meio a muita fanfarra, a “Estátua Peregrina” da Virgem de Fátima chegou a Roma depois de viajar pela Europa por quase três anos. Exatamente no dia seguinte, numa reunião de que participaram mais de 400 bispos, o papa Pio XII anunciou sua intenção de definir o dogma da Assunção, considerando que a Virgem Maria subira ao Céu integralmente, em corpo e espírito. Mais tarde, naquele mesmo dia, Pio XII deu uma volta a pé, sozinho, nos jardins do Vaticano onde havia sido posta uma estátua da Virgem de Fátima. Ele estava passeando pela esplanada de Lourdes, contou o papa, quando de repente viu o sol se transformar “num globo amarelo-claro, opaco, circundado de um halo luminoso”. O halo parecia ter sido formado de uma nuvem muito tênue, que cobria o globo, disse Pio XII, o que possivelmente permitia que ele olhasse diretamente para a luz sem nenhum dano ou mesmo incômodo para sua vista. O globo então começou a se movimentar, afastando-se, girando lentamente sobre o próprio eixo, primeiro deslocando-se da esquerda para a direita, depois da direita para a esquerda, antes de voltar a ser o sol como ele o conhecia.

Depois da morte do papa Pio XII, em 1959, a caixa que continha o terceiro segredo de Fátima foi enviada para o novo papa, João XXIII, que leu a carta de Lúcia, mas não fez nenhum pronunciamento público. Amigos íntimos de João XXIII contaram que o papa lhes dissera que o texto não pertencia ao seu tempo, por isso ele preferia deixar que seus sucessores dispusessem sobre o documento. O papa Paulo VI leu o terceiro segredo pouco depois de sua coroação em 1963, ma também não se pronunciou publicamente sobre o assunto. Não se sabe se João Paulo I leu o terceiro segredo durante as poucas semanas de seu fatídico papado, mas imediatamente antes da sua eleição, o papa de vida curta tinha feito uma peregrinação a Fátima, e, depois, tivera um encontro privado com Lúcia.

Publicaram-se relatos afirmando que João Paulo II lera o terceiro segredo pouco antes de sua visita a Fátima, em 1982, mas o papa, mais uma vez, negou-se a comenta-lo. Entretanto, em 1984, o então cardeal Ratzinger (atual Bento XVI), braço direito de João Paulo II, confirmou que o papa lera o terceiro segredo, mas que não levaria essa informação a público. E o assunto não foi adiante, a não ser por duas breves declarações feitas por João Paulo II. Numa, em 1982, ele diz que “Fátima é mais relevante e mais presente do que nunca”, e na outra, em 1991, que “Fátima é a capital mariana do mundo”.

Segundo o consagrado especialista e pesquisador investigativo Fr. Benedict Groeschel, PhD em psicologia e referência mundial absoluta para casos de fenômenos sobrenaturais e supranormais (sobre quem pretendo voltar a falar em breve), as aparições da Virgem Maria em Fátima, em 1917, representam o maior caso de Teofania da era moderna. Teofania é um acontecimento sobrenatural de primeira ordem, literalmente, uma “Manifestação Divina” visível e incontestável, algo como um “contato imediato de terceiro grau” com a Realidade Divina. Neste caso, o fenômeno mais tremendo foi o aparecimento do “sol que girava”. Não poderia ser realmente o sol, já que o observatório de Greenwich não fica muito longe do local e eles não perceberam nada. Mas, exaustivamente comprovado, numa área de aproximadamente 60 Km quadrados(!), todos os que lá estavam, todos, crentes e não crentes, pessoas atentas e pessoas desatentas, viram esse Sinal que descreveram como o sol girando, multicolorido, e descendo na direção deles. Muitos dos que estavam presentes se jogaram no chão. Houve casos muito impressionantes, como o de um maçom, socialista convicto, que fora até lá com a única intenção de se divertir e rir do que considerava uma “grande lorota”, e depois precisou ficar hospitalizado por três dias, dado o trauma causado pela experiência que viveu. A cena que presenciou o deixou em severo estado de choque, incapaz de se mover ou se comunicar!

É isso que a Teofania faz, porque ela se manifesta concretamente no mundo exterior, independente do que achamos que “sabemos”, do que queremos, do que cremos, da religião que escolhemos seguir ou do que achamos “justo”, “coerente” ou “sensato”.




"Outros casos de Teofania ocorreram na História recente, mas os ocorridos em Fátima constituem a Teofania mais assombrosa da era moderna”.

Fr. Benedict Groeschel, doutor em teologia e fenômenos paranormais, PhD em Psicologia pela Universidade de Columbia e pesquisador emérito.


"Meu Deus, eu creio, adoro, espero e Vos amo. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam."

Oração ensinada em Fátima, 1917


Veja aqui a reportagem original do jornal português "O Século", de 1917, sobre o Milagre do Sol.


Algumas informações adicionais (em inglês):



Fontes e bibliografia:
"Encontering Mary" - Sandra L. Zindais Swartz (Princeton University, 1991)
"Making Saints: Who Becomes a Saint, Who Doesn't and Why" - Keneth Woodward (Simon & Shuster, 1990)
"A Still Small Voice" - Benedict Groeschel" (Ignatius Press, 1993)
"Detetive de Milagres" - Randall Sullivan (Objetiva, 2005)