Coração valente - o desperto

Esta é a incrível história de um indiozinho, nascido na pitoresca tribo dos "Zuarekes", hoje extinta, cujos membros foram apelidados pelos pesquisadores de “rotativos”.

Essa tribo existiu até há pouco menos de um século, era nômade, e seus membros eram incansáveis andarilhos da região do alto Amazonas. Seus costumes eram algo semelhantes aos dos nossos demais povos indígenas, exceto por um fato curiosíssimo: Levavam suas vidas caminhando, mas confinados no interior de uma imensa clareira no meio da floresta, aberta há muitos séculos por seus ancestrais. Esta clareira era (e é) em forma circular, estabelecida ao redor de uma imensa rocha branca de cerca de 12 quilômetros de diâmetro, completamente circundada por mata densa, formando uma espécie de letra “O” gigantesca, encavada na terra pelos pés dos índios e contornando a rocha. Algo como uma estrada bem ampla, em torno da qual os índios andarilhos passavam suas vidas inteiras caminhando. Acreditavam que a colossal pedra branca era sagrada, um presente do “Espírito da Natureza” aos homens, e que a sua obrigação na Terra, enquanto vivessem, era caminhar e subsistir em torno dela. Aqueles que dela se afastassem, seriam imediatamente devorados pelos "Parauks", demônios terríveis que se alimentavam de almas humanas.

Esses curiosos selvícolas simplesmente levavam suas vidas inteiras vagando em círculos; montando, desmontando e voltando a montar suas cabanas, de tempos em tempos, em pontos sequenciais ao longo desta mesma rota. Em torno dela plantavam, somente dentro dos seus limites promoviam caças, e pescavam no lago "Poirok", situado no lado leste da grande trilha.

Assim foi por um longo tempo, possivelmente muitos séculos. O pajé proibia qualquer um de se afastar da trilha, dominando a tribo pelo terror e sendo cegamente obedecido. Que se saiba, as demais tribos das regiões próximas, nunca foram vistas pelos Zuarekes. Além disso, não havia por que invadir uma área relativamente insignificante, perdida na imensidão dos sete milhões de quilômetros quadrados do nosso Amazonas. Dentro de um mundo incomensurável, viviam como que num "planetinha" só seu.

Mas eu disse que contaria a história de um indiozinho, e aqui vai ela: o nome dele era "Kaituk", que significa “desperto”. Aqueles que acreditam no destino certamente dirão que os seus pais não lhe deram esse nome por acaso, quando conhecerem a sua impressionante história. Desde muito cedo, já aos cinco ou seis anos idade, ele começou a questionar os antigos costumes da tribo com sua mãe. Perguntava muitas vezes a razão de não poder avançar para fora dos limites da grande trilha considerada sagrada, a Puerap. E ganhava dela sempre o mesmo tipo de resposta: - "filho, quem deixar os limites da trilha eterna, será devorado por demônios horríveis. Você quer deixar sua mãe só?" - Com o pai, bastou puxar o assunto uma vez, para o velho bugre fazer valer o título de "selvagem": Aplicou-lhe uma tremenda surra por desrespeitar as tradições ancestrais.

Mas o tempo passou. Kaituk seguia inconformado, como era inconformado seu espírito por natureza. Aos 11 anos ele conseguiu, por intermédio de seu avô, homem sábio e respeitado, o direito a uma audiência com o pajé da tribo, o grande "Guassuk"...

- "A trilha sagrada 'Sourap' foi um presente do 'Espírito da Natureza' ao nosso povo. – começou o pajé - "Nosso antigo ancestral 'Huurap' e sua esposa foram os únicos sobreviventes da antiga geração de seres humanos que habitavam o nosso mundo antes da grande invasão dos demônios, que quase exterminaram a nossa espécie. Depois que quase toda a raça humana já tinha sido devorada, ele, já desesperado em sua fuga, encontrou a grande rocha branca 'Ruatunga'. Nesse momento lembrou-se de pedir ajuda ao Espírito da Natureza. Então ergueu os olhos ao céu e, tocando em Ruatunga, pediu por socorro. Foi quando ouviu um estrondo, e olhando atrás de si, viu o bando de demônios que o perseguia ser dizimado por uma chuva de pedras flamejantes. Então ouviu a voz do 'Espírito da Natureza' saindo de um grande pássaro brilhante que pousava diante dele, dizendo: ‘Como você se lembrou de pedir a minha ajuda, Huurap, vou permitir que você e a sua descendência sobrevivam à terrível era dos demônios. Porém, só viverão enquanto se mantiverem próximos desta grande rocha, que lhes servirá de refúgio. Por determinação minha, os demônios a verão de longe e a respeitarão. Enquanto estiverem próximos dela, à distância máxima de um tronco, não sofrerão nenhum mal!'. O pássaro disse isto e voou para o alto, deixando-o só com sua esposa. Desde esse dia vivemos conforme a sua orientação, e desse modo nos mantemos vivos e somos felizes".

- "Mas, e se os demônios já tiverem ido embora?"
– retrucou Kaituk - "Isso tudo aconteceu há tanto tempo..."

- "O Espírito da Natureza disse que voltaria para nos avisar quando a Era dos demônios tivesse terminado. Devemos confiar nele." – foi a resposta do Pajé, ou algo parecido com isto.

- "Mas, depois de tanto tempo, como saber se o 'Espírito da Natureza' ainda está por aí? E se ele tiver ido pra outro lugar? E se tiver esquecido de nós?" – era um indiozinho teimoso, este, sem dúvida...

Mas o pajé não queria brincadeira com as tradições antigas - "Kaituk! – tornou ele, gravemente – "O Espírito da Natureza sempre cumpre a sua palavra. Ele é eterno e nunca vai nos desamparar nem se afastar para longe."

- "Mas, se ele é eterno, como é que o senhor, que é só um homem mortal, pode saber o que ele pensa, onde está e o que vai ou não fazer?" – Agora ele tinha abusado da sorte, e o pajé, de pele-vermelha já começava a ficar meio roxo.

- "Kaituk, se você já fosse um homem, eu teria de castigá-lo severamente pelo que acabou de dizer. Mas como você ainda é uma criança e em consideração ao seu avô, eu finjo que não ouvi. Contente-se em obedecer aos mais velhos e seguir os costumes, como todo mundo, e tudo ficará bem, para você e para todos nós".

Mas Kaituk não conseguia simplesmente se conformar com aquilo... Como podiam crer tão cegamente numa história só por ela ser muito antiga e ter sido repetida um montão de vezes? Apenas pelo conforto de se viver sempre com segurança, com a tranqüilidade de saber exatamente o que vem depois da próxima curva, o que vem depois de cada árvore no caminho?

E assim, ele, que possuía espírito e maneira de ser diferentes dos de seus irmãos, resolveu, num belo dia, fazer aquilo que seria inevitável que ele um dia fizesse: sair dos limites da trilha, ultrapassar os domínios de sua tribo, conhecer o mundo à sua volta.

Sua alma era sedenta por conhecer coisas novas, ele queria encontrar novos significados para a palavra "desafio", e esta sede já era maior do que ele podia suportar. Tinha quatorze anos de idade (portanto já um adulto, segundo os costumes indígenas) quando resolveu enfim levar a cabo os planos que vinha formulando em sua cabeça há meses. Ele esperou o momento antes do amanhecer, e assim, apenas alguns instantes antes da hora de todos despertarem, deixou sua cabana. Antes de passar pela cortina de palha que servia como porta, não pôde deixar de olhar para sua mãe que dormia, tranqüila em sua simplicidade, sob as tênues manchas da luz da alvorada. E não pôde deixar de se sentir um pouco traidor, pensando que se as lendas estivessem certas e ele viesse mesmo a ser devorado por seres abomináveis, ela sofreria muito por sua causa. Mas havia dentro dele algo que o impelia a querer descobrir mais da vida, algo maior até mesmo que seu amor por sua mãe. Então se afastou depressa da cabana, o mais rápido que pôde, para não ter tempo de mudar de idéia, afinal isso já acontecera antes.

Ao deixar a trilha tão familiar e pisar com seus pés curiosos dentro da mata fechada, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Seus olhos estavam fixos na escuridão diante dele, e todo seu corpo tremia. Mas ele venceu o medo e avançou...

E o que ele encontrou depois de pouco mais de duas horas de caminhada, nem em seus sonhos mais alucinados poderia ter previsto:

Fontes de água pura, cascatas cristalinas, vegetação magnífica, flores e árvores distribuindo em excesso frutos diversos, deliciosos, como ele jamais vira ou provara! Isto sem falar nos novos animais e a variedade de pássaros multicoloridos que cantavam e planavam alegres, uns ao seu redor, outros acima das copas das árvores. Kaituk tinha razão! Ele sempre estivera certo, o tempo todo! E estava radiante!

Kaituk experimentou prazeres completamente novos para ele. Uma alegria incontida crescia, sem parar, dentro do seu espírito, ele mal podia extravasar tanto contentamento! Se esbaldou com as frutas deliciosas que colhia dos muitos pés e arbustos carregados. Correu, pulou, dançou, nadou, perseguiu animaizinhos que não curiosos...

Depois de aproveitar por todo o dia as muitas maravilhas do admirável mundo novo que acabara de descobrir, ao entardecer estava como que anestesiado por uma ressaca de felicidade. Estava exausto. E, então, lembrou-se da sua gente. E se imaginou voltando para a tribo, triunfante, cheio de orgulho pela sua grande façanha. Oh, ele estivera certo todo esse tempo! Já podia até ver a cara de constrangimento do seu pai, por aquela surra homérica! E sua mãe iria ficar tão orgulhosa... Talvez a tribo até o promovesse a novo pajé! Afinal, o valor da sua descoberta era extraordinário! Mas, o melhor de tudo é que a sua gente seria para sempre liberta da monotonia da vida vivida em círculos.

O sol já tinha se despedido quando Kaituk, ainda perdido em devaneios, chegou de volta a Puerap. Pisar de novo aquela terra batida quase estragava o seu ânimo.

Mas, o que aconteceria depois que ele contasse pra todo mundo!.. seu coração pulava dentro do peito! Kaituk correu até sua cabana e encontrou sua mãe com o rosto inchado de tanto chorar... abraçou-a, carinhoso, mas percebeu uma reação estranha da sua parte. Ela estava diferente... Kaituk via todos os seus irmãos da tribo olhando para ele como quem olha um ser de outro mundo. Muito esquisito... mas não havia tempo para tentar descobrir o que estava acontecendo ali. Correndo foi ao encontro do pajé, que a esta altura já tinha sido avisado do seu retorno.

O pajé tinha mandado chamar toda a tribo, que se reuniu em volta do garoto, e Kaituk pôde assim contar a sua maravilhosa história para todos de uma só vez, o que ele mais queria, com um grande sorriso no rosto.

E esse grande sorriso ainda estava em seus lábios quando ouviu o pajé pronunciar a sua sentença de morte, por se deixar encantar e ser usado pelos demônios, para enganar e atrair o seu povo para a morte. Assim foi feito. Kaituk foi executado com a aprovação de todos os membros da tribo, incluindo a sua família.




Esta história é totalmente fictícia, um conto de minha autoria.