Sofrimento: por quê?


“Diz-me, por favor, onde não estás, em que lugar posso não ver-Te, onde possa dormir sem recordar-Te e onde Te recorde sem que isso me assuste e doa. Diz-me por favor onde posso caminhar sem ver as Tuas pegadas, onde posso correr sem recordar-Te e onde descansar com a minha tristeza, longe de Ti. Diz-me, por favor, qual é o céu que não tem o Calor da Tua Presença e qual é o sol que tem somente a luz e não a sensação de que me chamas. Diz-me por favor qual é o lugar em que não deixaste a Tua Presença. Diz-me por favor qual é a noite em que não virás para trazer tudo e tudo é nada, levar contigo todos os meus sonhos na madrugada… não posso viver bem porque Te renego, não quero aceitar-Te como És, mas não posso morrer porque bem no fundo Te quero.” - Autor desconhecido.


Por que sofremos??

Com certeza, nenhuma questão desviou mais seres humanos da fé, em todos os tempos, do que esta. Lembro-me de uma ocasião em que eu, ainda criança, com uns 8 anos de idade, assisti na TV a um documentário sobre animais...

Um pequeno cervo, comendo seus matinhos na planície, tranqüilamente. Um filhotinho, tão bonitinho, tão encantador... Sua mamãe está sempre perto, vigilante... Mas há uma leoa à espreita. Ela está muito bem escondida sob alguns arbustos. Apenas observando, paciente. E aguardando...

O animalzinho, sem saber que está sendo observado pelo seu maior predador, se distrai por uma fração de segundo. E aí, como um raio, a leoa salta do arbusto onde estava escondida, num vôo rasante direto sobre o corpo do pequeno cervo. Que ainda tenta fugir, chega a correr alguns metros. Sua mãe corre ao seu encontro, numa tentativa inútil e patética de ajudá-lo de algum modo. Mas num piscar de olhos, as presas assombrosas do grande felino estão cravadas no pescoço do filhote. Que grita. Seus gemidos parecem os gritos de um bebê humano. A câmera ainda consegue um close dos seus olhos arregalados, mortalmente assustados. O pequeno ainda chama por socorro. Sua mãe galopa ao seu lado e ao redor dele, desajeitada; querendo mais que tudo encontrar uma maneira de evitar o inevitável. Mas tudo que pode é assistir a cena. E nada mais...

Acho que nunca torci tanto algo como torci para aquele filhote de cervo escapar daquela leoa, naquela planície relvada. Em vão. A cena seguinte foi a leoa se afastando, em toda sua beleza selvagem, com o corpo imóvel do inocente pendendo da sua bocarra, sangue abundante pingando e escorrendo até suas patas...

Eu fiquei encolhido naquele sofá, estarrecido, arrasado. Meus olhos deviam estar tão arregalados como estavam os do pequeno cervo antes de ser assassinado. Lágrimas começaram a brotar nos meus olhos, e quanto mais eu tentava impedi-las, mais teimavam em se manifestar. Era uma tarde de sábado, lembro-me bem. Minha mãe, percebendo a minha aflição, passou a mão na minha cabeça e disse: “A natureza é assim mesmo...”

Logo em seguida, o programa mostrou o desfecho da tragédia: a leoa chegando ao seu covil, com o prêmio recém conquistado, onde um pequeno grupo de leõezinhos famintos aguardava o almoço... a presa é entregue e devorada pelos filhotes irrequietos. Então era isso. A leoa também era uma mamãe, e não um ser maligno e cruel, como eu imaginara antes. E ela não estava fazendo nada mais do que seguir seus instintos naturais, e se o filhote de cervo não fosse sacrificado, os lindos filhotinhos de leão morreriam de fome.

Eu ainda era pequeno para compreender o sentido deste princípio imenso, que rege o nosso plano de existência, mas eu tive uma vaga idéia do que significava: Compreendi que nem tudo é tão simples quanto parece.

Responder à pergunta “Por que estamos aqui?” é uma tarefa que talvez nunca poderemos cumprir perfeitamente, ao menos enquanto estivermos aqui nesta realidade. O que podemos fazer é observar. E observando, percebemos que muitas vezes, neste plano de vida, para um vencer, o outro deve sucumbir. Para que um triunfe, e conheça o prazer da vitória, é preciso que outro experimente a dor da derrota. E até para que aconteça a própria vida, é preciso haver a morte. Para nos alimentarmos, precisamos matar. Mesmo os vegetarianos subsistem da morte, já que vegetais também são seres vivos. E os vegetais sobrevivem da terra, que só é rica e pródiga em produzir a vida, por causa dos componentes orgânicos presentes nela. Corpos de animais e insetos em decomposição e excrementos de animais (carnívoros), além dos restos de outras plantas, que por sua vez também se nutriram da morte de outros seres vivos. Para que uma semente possa brotar e produzir flores e frutos, é preciso que, antes, morra. Este é o meio da natureza. Para a vitória existir é preciso haver derrota. Para a vida existir é preciso haver a morte. A luz só pode ser vista, resplandecente, no meio das trevas. E a felicidade e o prazer só podem ser percebidos onde um dia houve sofrimento e tristeza.

O sofrimento faz parte da vida, indubitavelmente. Dor, sofrimento, decepções, frustrações e tribulações... não há nenhuma dúvida de que tudo isso é inevitável na vida de qualquer pessoa. Mas nós não queremos o sofrimento. Fugimos desesperadamente de qualquer manifestação de dor e sofrimento, o que é perfeitamente normal e compreensível. E também inútil. Por isso reclamamos, nos lamuriamos ou nos revoltamos. Muitos se perdem nesse processo de revolta ou de continuar remoendo interminavelmente algum problema insolúvel. Ao longo da minha vida de prestação de serviços comunitários, conheci pessoas infelizes que se amaldiçoavam o destino até por pertencerem a uma determinada raça! “Por que Deus me fez dessa cor? Se eu fosse diferente, não teria que passar por tudo que passei, não seria discriminado, não teria que sofrer tanto...” Se uma condição não pode ser mudada, só existem dois caminhos: A aceitação ou o sofrimento, que poderá ser intensificado até a insanidade.

Existe um ego presente nas nossas personalidades que quer e exige prazer sempre. Mas há também uma consciência presente, que combate este ego. Esta consciência é exaltada por todas as religiões.

Quando eu comentei com um dos meus maiores mentores, Monsenhor Valter Caldeira, a respeito de um quadro representando Jesus derrubando e destruindo completamente um quadro representando Krishna (saiba mais aqui), sem nenhuma causa natural aparente, ele me olhou francamente e respondeu que não sabia se aquilo tinha sido uma manifestação sobre/supranatural, e que não haveria como ele ou qualquer outra pessoa me dizer isso com certeza. Mas que era um fato que eu, em toda minha história, sempre tivera uma predileção muito especial pelas tradições orientais, particularmente hinduísmo e brahmanismo. Ele disse que achava estas religiões maravilhosas, riquíssimas em folclore, simbolismo e conteúdo cultural, mas que eu buscava a Verdade, e ele acreditava que a Verdade se manifesta sempre a quem a procura sinceramente. Então me falou mais ou menos o seguinte:

“Eu vejo muitos elementos da Verdade em diversas religiões. Mas entendo que Jesus é diferente de tudo! Por quê? Porque ele diz a Verdade integralmente. Você conheceu, e eu também, inúmeros ‘mestres’ que ensinam coisas muito belas. Todos dizem que você é o máximo, que você é divino, que você tem o poder para fazer o que quiser e que você deve buscar somente vitórias. Jesus também diz tudo isso, até aí nenhuma novidade. Alguns desses mestres até disseram estas coisas bem antes dele, como é o caso de Zoroastro, Buda e outros. Mas só Jesus trouxe a Verdade completa. Ele diz: ‘Sofram! Sofrer também faz parte!’ Se ele quisesse ser popular, você acha que diria às pessoas que elas tinham que carregar cada qual a sua cruz? Você acha que ele diria que são bem aventurados os pobres e os que sofrem, e ameaçaria constantemente os ricos, dizendo, ‘Ai de vós, os ricos e os que agora riem, porque vão chorar’? Claro que não! Os falsos profetas de hoje dizem exatamente o contrário do que Jesus disse. Dizem que os abençoados são os ricos, e que os pobres só são pobres porque não têm fé. Eles contrariam o cerne da doutrina original de Cristo. Jesus disse a Verdade completa, e não pela metade. E ele viveu integralmente até o fim! Morreu torturado e humilhado, de uma morte considerada indigna. Não há exemplo maior e mais perfeito.”

“O que eu acho é que não devemos nos prender nem procurar as tristezas, mas também não devemos deixar de vivê-las. Nem um extremo, nem outro. Devemos atravessar serenamente as situações difíceis, porque são oportunidades. É no sofrimento que crescemos, que aprendemos, que aperfeiçoamos o nosso dom de amar... todos querem o céu, mas se esquecem do caminho até lá, querem pular etapas. O sofrimento faz parte da natureza deste mundo, e nós também somos parte desta mesma natureza. Mesmo que não percebamos, mudamos para melhor através do sofrimento. Querer ignorar esta realidade é exatamente o que causa cada vez mais dor e sofrimento, porque assim nos afastamos da Verdade. E estar longe da Verdade é a pior coisa que nos pode acontecer.”


Quando ele falou da maneira brutal e terrível como morreu Jesus, outro grande problema teológico atemporal (mesmo entre os cristãos, muitos não conseguem compreender porque isto foi necessário), lembrei-me de Sri Lahiri Mahasaya, o grande guru do guru (isso mesmo) de Yogananda, que sempre ensinou que o verdadeiro yogue alcança domínio sobre a matéria, sobre os desejos, sobre o corpo físico e até sobre a vida e a morte. Ele negava a importância do sofrimento no aprendizado e dizia que conhecer Deus elevaria o homem acima de qualquer tipo de dor, doença ou revés. Ele era (e é) considerado como um dos maiores homens santos da Índia em todos os tempos. Morreu de um câncer maligno nas costas, depois de sofrer acamado por meses a fio. Buda pregou a negação do mundo fenomênico, e toda sua busca foi pela liberação da dor e do sofrimento. Morreu entre violentas cólicas intestinais, defecando sangue até o óbito. Jesus Cristo foi o único dos chamados “grandes mestres” a ensinar a importância do sofrimento como elemento inerente à própria vida, embora tenha dito que este sofrimento seria vencido pelos que seguissem as suas palavras. Ele nunca disse que deveríamos buscar a dor e o sofrimento (aliviou dos seus ‘fardos’ aos que o procuraram e curou os doentes que encontrou pelo caminho), mas disse que deveríamos aceitar os vicissitudes como parte do “Caminho Estreito”.

Se não existisse a dor, o sofrimento e as tristezas, existiriam a alegria, a compaixão e a fé? As nações que mais valorizam a paz são as que passaram um dia pela terrível experiência da guerra. Você só pode escrever usando tinta preta, se for sobre um papel ou uma superfície branca. Se os dois forem pretos ou brancos(tinta e papel) nada poderá ser escrito. Da mesma forma, é por perceber a existência do mal que somos motivados a buscar o bem. Isto leva à pressuposição de uma Força maior, que por tradição chamamos Deus, dominando e controlando ambos os lados desta vida: o lado sombrio e o lado luminoso.

Por isso, a minha experiência de vida diz que devemos viver a dor e o sofrimento sem medo. Isso nos aproxima de nós mesmos, leva-nos ao autoconhecimento e à plenitude. “Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos” (C. G. Jung). Apenas nos conhecendo e nos aceitando como realmente somos, é que poderemos nos tornar seres humanos maduros, integrais. Enxergando-nos com honestidade, temos a possibilidade de mudar o que entendemos que deve ser mudado. Mas se eu me iludo, fica impossível qualquer modificação da minha parte. É difícil compreender que o sofrimento é um componente inerente à nossa experiência de viver. Se o entendermos como punição, apenas, o crescimento não será possível.

Mas também é óbvio que devemos desejar alegria e prazer. Contudo, se a eles nos apegamos, tentando desesperadamente ignorar o seu oposto (as aflições), aí estará o erro. Vivemos uma época de busca desmedida pelo prazer. Dedica-se 100% das energias neste sentido, desconsiderando-se o valor do aprendizado da dor. Observe-se que essa questão está vinculada ao entendimento do conceito do "caminho do meio": os extremos devem ser evitados. A chave é permanecer no "centro"; aceitar tanto as dores quanto os prazeres da vida, em sua justa medida; o que significa não passivedade, mas atenção para aprender o que poderá ser usado como ferramenta útil mais adiante.

O inconsciente coletivo está repleto de idéias que nos chegam de fora, e nós as incorporamos. Aprendemos muitas vezes da maneira errada, e nos tornamos indefesos diante da nossa própria falta de conhecimento acerca de nós mesmos. Não nos preocupamos em acessar o nosso interior e adquirir conhecimento do nosso eu verdadeiro, aquilo que somos realmente, com todas as nossas diversas facetas. Decidimos concentrar nossos esforços em nós mesmos, e inevitavelmente nos deparamos com algo que está além de nós, dos nossos limites. Por isso é preciso cautela, não renegar as experiências de aflição, nem tentar fugir delas. Negar o aprendizado provoca a repetição da lição. Mude suas percepções a respeito do prazer, da alegria e do sofrimento e da dor. Perceba o que pode ser aproveitado. Aceite a inevitabilidade destas vivências. Conquiste a calma e a serenidade para lidar com os sofrimentos da vida. As dificuldades são oportunidades para nos recolhermos e realizarmos belas e proveitosas viagens ao nosso interior. Ter menos medo da dor e do sofrimento aumenta a capacidade de superação.

Talvez a maioria das pessoas acredite que felicidade significa ausência de problemas e reveses, que somente se pode ser feliz num mundo ideal e “perfeito” (o que é perfeito?). Nos ensinam desde a infância que a vida deve ser feita somente de coisas belas e agradáveis, e que dificuldades não fazem parte. Mas enquanto não entendermos que dor e sofrimento são intrínsecos à vida, não poderemos alcançar o estado de verdadeira felicidade. E enquanto não encararmos os problemas, não nos libertaremos do sofrimento que eles trazem. Se tantas vezes enfrentamos problemas cuja solução escapa ao nosso controle, por que resistimos tanto a aceitar a impermanência das coisas? Por que não conseguimos deixar de sofrer? Por que é tão difícil aceitar a dor?

Prazer e alegria, dor e sofrimento; tudo faz parte de um todo. Ainda precisamos da dor para expandirmos nossa compreensão e a nossa consciência. É através da dor que o Amor e a compaixão se desenvolvem. Mas o ser humano de hoje prefere continuar usando de “anestesias” diversas. Se drogando, bebendo, fazendo compras compulsivas, jogando, fingindo que o problema não é com ele. Uma inútil tentativa de fuga da realidade.

“Transforma as pedras que você tropeça nas pedras da sua escada." - Sócrates

“O Si-mesmo representa o objetivo do homem inteiro, a saber, a realização de sua totalidade e de sua individualidade, com ou contra sua vontade. A dinâmica desse processo é o instinto, que vigia para que tudo o que pertence a uma vida individual figure ali, exatamente, com ou sem a concordância do sujeito, quer tenha consciência do que acontece, quer não.” – C. G. Jung

“Cada qual tem de encontrar seu próprio caminho. No entanto, se a pessoa se recusa a pensar que tem um problema interior não conseguirá sair da encruzilhada. Ninguém pode substituí-lo. Temos de aprender a reconhecer nosso próprio âmago.” - Joseph Campbell

É preciso que haja equilíbrio entre dor e prazer. Em nosso mundo, um não existe sem o outro. Quanto aquele filhotinho de cervo, o seu ciclo simplesmente terminou, na hora certa. E foi por uma boa causa: alimentar um outro filhote, de uma outra espécie, tão puro e tão belo quanto ele próprio era. Esta é a realidade. Temos duas opções, aceitá-la ou não. Uma opção significará aprendizado. A outra, apenas mais dor e mais sofrimento.


Porém, às vezes, mesmo as leis naturais pode ser quebradas em nome de algo maior. Mesmo entre os animais. Assista: