No inefável


Post escrito num caderno, no banco do corredor de uma faculdade, na noite da última sexta-feira, dia 15 de Junho:

O post anterior, sobre Jung, tem uma continuação, que será a conclusão. Eu deixei o melhor para o final, como de costume. Temas como o Inconsciente Coletivo e os arquétipos serão abordados nessa última parte.

Mas, hoje, eu realmente preciso fazer uma pausa, para falar de algo muito importante, que aconteceu e está acontecendo agora, e eu achei por bem escrever já, até porque se eu esperar para falar depois as minhas percepções a respeito vão mudar, vão se tornar um pouco menos claras. Eu sei bem como funciona, já aconteceu comigo antes.

Bem, eu tenho um blog, não é? E a idéia de um blog é a de um diário pessoal, onde contamos nossas particularidades. Sim, eu optei por utilizar esta ferramenta para falar de assuntos muito mais importantes do que o meu dia-a-dia, minhas aventuras e desventuras na faculdade, os meus gostos pessoais e etc... Mas nesse blog nunca deixei de contar a minha vida, só que de um jeito muito mais profundo, porque contei as minhas vivências, as experiências por que passei e que me levaram a ser o que sou. Achei importante fazer esta espécie de "grande apresentação do autor do blog", antes de começar a falar de religião, filosofia, psicologia, espiritualidade... achei que os meus companheiros de letras, companheiros anônimos de partilhas das minhas descobertas, alegrias, tristezas e até de algum desabafo, precisavam saber, antes de mais nada, quem é o buscador que ali fala.

E agora eu tenho que interromper a seqüência de postagens sobre o grande Jung para novamente lhes contar algo pessoal.

Hoje é uma sexta-feira comum. São 19:00 horas, o ar está seco e poluído, há uma greve de servidores do Metrô, os engarrafamentos batem recordes na minha linda São Paulo e eu tenho problemas financeiros urgentes... enfim, uma sexta feira comum. Mas eu não sei porquê, foi exatamente nessa sexta-feira que a experiência do inefável voltou a acontecer na minha vida.

E foi tão forte e tão belo que, desta vez, eu resolvi mandar às favas as preocupações com a possibilidade de vocês me considerarem um louco desvairado, e escrever sobre isto. É que qualquer tipo de preocupação, agora, me parece coisa tão pequena, tão ínsiginficante, diante do que estou vivendo, que vejo como completamente descabido querer frear o meu ímpeto de extravasar esta imensa, incomensurável necessidade de fazê-lo!

Foi nesta sexta-feira. Ele, o meu Bem-Amado Cósmico me chamou para um passeio.


Eu fui tirado deste mundo, como se a “tomada” que me mantém ligado a ele tivesse sido desconectada. As trevas vieram primeiro, e a inconsciência. Acho que eu teria sentido medo, se durante toda minha vida não tivesse me esforçado tanto e por tanto tempo para compreender essas coisas. Eu acho que, por essa razão, os efeitos sobre o meu intelecto foram minimizados. Tranqüilo, mantive minha serenidade e meus olhos abertos, porque o calor de um Amor inexprimível dominou tudo que posso chamar “eu”, e não me deixou, mesmo quando tudo à minha volta se tornou escuro e misterioso para mim.

Senti sombras, vultos e movimentos agitados em volta, senti que haviam forças horríveis e desarmônicas me cercando, tramando contra mim, bem próximas, mas eu não tive nem sombra de medo. Sim... ele, o velho Mal, como sempre, tentando me desestabilizar. Eu estive tentando prevenir o meu próximo sobre isso. Eu quis avisar a todos de que, se não estivermos muito bem preparados, ele nos pode desviar, no mínimo nos distrair, e é assim, sutilmente, que nos faz confundir os lados! Este é um perigo real...

Mas ele (o Mal) não podia me atingir naquele momento. Por que eu estava bem no centro da Palma da mão direita de Deus! E era como se eu pudesse ouví-Lo, me dizendo: “Não tentaste me decifrar, por isso Eu te reconheço. Não quiseste explicar os meus meios, mas os aceitaste com alegria, e assim alcançaste o lugar em que estás agora...”.

E eu lhes dou a minha palavra: me vi acima te toda a confusão dos pensamentos. Me vi além de toda preocupação humana e de todo ódio, toda confusão, toda dúvida; me vi além de todos os sentimentos mesquinhos.

Eu vi as nossas civilizações, eu vi os homens se agitando como formiguinhas, como as moléculas que vibram, compondo as substâncias. Vibram e desaparecem, depois reaparecem, quase ao mesmo tempo. Na mesma fração de segundo elas existem e não existem, e é assim que são, indefinidamente. Assim são compostas as substâncias de tudo que vemos e tocamos. Substâncias suaves e substâncias duras. E não fazia para mim nenhuma diferença saber onde eu estava. Não tinha nenhuma importância, naquele momento, fazer perguntas, querer saber coisas. Eu fui além disso. E além. Eu vi sem ver, estive sem estar. Mas o mais importante: eu soube sem saber. Compreendi a insignificância da morte, a inutilidade do medo. Aceitei as diferenças. Me separei completamente do meu ego. Meu ego se tornou nada, e eu me tornei, neste abençoado momento, parte do Todo indizível. Vi o sacrifício do meu próprio eu, e com ele a aniquilação de tudo que me prendia a este mundo. Amarras se romperam e eu me vi livre. Livre ao pé da letra. Talvez por um lapso de tempo eu tenha desejado que durasse para sempre, mas realmente não havia espaço para pensar no que viria depois, porque tudo estava completo, terminado, tudo era absoluto. E eu simplesmente tinha certeza de que tudo tem o seu tempo certo, e que voltar ao mundo ordinário era uma depuração ainda necessária, para mim. Por isso eu o faria com todo prazer, faria tudo que fosse preciso, porque agora eu tinha visto o Real. Nada poderia me incomodar naquele momento. Nenhuma preocupação seria capaz de molestar a minha paz. Uma energia desmedida de Amor me preenchia, tão poderosa e completamente, que não sobrava espaço para mais nada...

Tudo isto foi escrito ainda no exato momento em que ainda estava acontecendo, a lapiseira está agora sobre a folha do caderno que estava dentro da minha mochila.


Fim das anotações feitas na última sexta-feira.

Até agora não há medo, não há dor, não há dúvida de espécie alguma. Só há Paz, Amor e Liberdade. E eu percebo que algo está mudando nas minhas experiências transcendentes: Esta vez foi diferente das outras. Porque agora estou ficando cada vez mais consciente durante o processo; desta vez eu não “perdi” aquilo que eu recebi quando entrei nesse estado alterado-beatífico da consciência, algum tempo depois. Isto é, na primeira vez em que experimentei esse “arrebatamento” para uma espécie de estado mental superior, foi como um sonho maravilhoso, daqueles que nos encantam, mas dos quais já não nos lembramos mais, em detalhes, depois de algumas semanas. A sensação, quando a experiência passava, era a de que eu tinha retornado de uma viagem para algum lugar sublime, mas de onde não poderia trazer nada de realmente consistente, a não ser um grande bem estar que surgiria cada vez que me lembrasse dele. Ainda assim, um bem estar que depois desaparecia, e isso era desesperador! Mas não foi assim desta vez. Algo ficou! Minha memória está lúcida, a sensação está presente comigo até agora, como se eu a estivesse experimentando ainda, neste momento, só que em menor intensidade.

Algo novo eu percebi, também, na sexta-feira. Percebi nítidamente que, enquanto estou vivenciando este processo inefável, não “entendo” melhor as coisas; não fico “sabendo” de nada, mais ou menos do que sei quando estou no meu estado “normal”. Eu apenas compreendo, integralmente, que tudo está bem e que não há motivo para me preocupar. Que tudo que é preciso é aceitação, entrega... e persistir no Caminho do buscador.

***

Há ainda um detalhe particularmente interessante que eu queria contar. Essa experiência abriu minha mente e me fez ver uma coisa que eu queria e pela qual esperava há muito tempo. E já nesse mesmo dia, na sexta-feira, finalmente comecei a escrever o meu livro, aquele que de algum modo eu já sabia que deveria escrever, sendo que essa sensação vinha ficando cada vez mais forte ultimamente. Sabia que isso aconteceria mas não sabia quando. Cheguei a considerar que este livro poderia ser a obra completa do Arte das artes, tudo que já escrevi aqui, revisto e remontado em forma de capítulos. Muitas pessoas me escrevem dizendo que eu deveria fazer isso. Mas agora sei que o meu livro será outro. Será um romance misturando ficção e elementos históricos. Como disse, já comecei a escrevê-lo, e isso só foi possível por causa do que aconteceu nesta inesquecível sexta-feira. Pensei em ir publicando este livro enquanto vou escrevendo, aos poucos, num novo blog. Cada capítulo seria um post. Acho que seria interessante, porque eu poderia contar com o feedback dos leitores online, e eu acho muito mais interessante escrever sabendo que não estou “só”, que a história está sendo acompanhada por outras pessoas (talvez você que me lê agora)... Enfim, eu gosto dessa história de blog. Não gosto de Orkut, não gosto de MSN, mas gosto muito de escrever num blog.

Aos que, depois de ler este post, me consideraram um maluco, meu muito obrigado. Encontrar DEUS é mesmo enlouquecer para o mundo. Sabem o que lamentei, depois? Que quando eu escrevi aquele post a respeito da idéia de Deus, eu não estava sentindo e vendo o que senti e vi na sexta feira!... O texto teria saído bem melhor!

Mas, na verdade, eu fiz isso, na sexta feira mesmo. Logo depois de escrever este aqui, escrevi um novo post falando sobre “O que é DEUS”, de um ponto de vista completamente diferente do anterior - não o de alguém que conjectura, analisa e pondera, mas o ponto de vista de alguém que se sente "íntimo" de Deus. Eu o publicarei logo após a conclusão da seqüência sobre Jung.

A Paz, meus amigos e irmãos.