Há o Mal? - conclusão



Meu filho mais velho (vou chamá-lo aqui de Júnior) há cerca de dois anos (então com 14 anos de idade) começou a manifestar alguns sintomas estranhos, de uma doença que os médicos não puderam diagnosticar: Ele começou a ter desmaios ocasionais. Da primeira vez, ele estava no banheiro, quando a sua mãe ouviu um baque surdo vindo de lá. Subiu e começou a bater na porta e chamar pelo seu nome, mas ele não respondia. Depois de muita insistência e nenhuma resposta, vizinhos tiveram que ser chamados (nós não moramos juntos) e a porta teve que ser arrombada, e ele estava caído no piso, com um galo enorme na cabeça. Depois de alguns minutos, recobrou a consciência e disse não se lembrar de nada.

Foi levado ao pronto socorro. O médico disse que poderia haver uma infinidade de possibilidades para o desmaio de um adolescente, desde stress até algum desequilíbrio hormonal, passando por alimentação inadequada. Então não demos muita importância ao ocorrido, e como até um mês depois tudo estava bem, resolvemos esquecer o caso. Mas, uns 60 dias depois, ele voltou a desmaiar. Dessa vez a situação nos levou a uma preocupação realmente maior: Ele estava em cima da laje da casa do avô, tinha subido atrás de uma pipa (ou quadrado, papagaio, pandorga...). Ele subiu e demorava muita para descer, então a sua avó subiu para ver o que estava acontecendo. Ele estava caído desmaiado, bem próximo à beirada. Ela deu um grito, e ele se mexeu. Logo recobrou a consciência e se levantou, ainda tonto. Essa casa é um sobrado de três andares, e se o desmaio tivesse acontecido apenas um passo adiante, ele teria despencado de uma altura de mais de 20 metros!

Agora a nossa ansiedade era grande, claro, e começou uma longa peregrinação a hospitais e clínicas especializadas em neurologia. Eletroencefalograma, tomografia computadorizada, todos os tipos de exames de análises clínicas... Todos As investigações foram feitas, mas nada de anormal foi detectado. Nenhuma alteração foi percebida em nenhum dos exames a que ele foi submetido. Algum tipo de epilepsia menos comum foi a hipótese mais aceita. Ele começou a tomar medicamentos. Mas os desmaios continuaram acontecendo. As dosagens foram aumentadas. Nada surtia efeito.

Numa ocasião, ele estava no ponto de ônibus, quando, subitamente uma sensação estranho o tomou de assalto... Segundo ele conta, de repente tudo apagou, e quando recuperou a consciência, estava dentro de um carro de bombeiros sendo levado ao pronto-socorro. Levou suas mãos ao rosto e viu que estavam cobertas de sangue. Ergueu-se na maca, e percebeu que toda sua roupa estava encharcadas de sangue... Ele tinha desmaiado e caído na calçada. Segundo testemunhas (isso aconteceu próximo da minha casa, e alguns conhecidos presenciaram a cena), ao cair, sua cabeça chocou-se violentamente no chão, o que provocou um grande ferimento, por onde começou a verter uma quantidade enorme de sangue, provocando uma poça enorme na calçada. Finalmente alguém chamou o socorro (um morador de rua que vive numa praça próxima, com o qual eu fiz amizade depois desse acontecimento). Eu não estava em casa e estava incomunicável nesse dia, por isso só vim a saber do ocorrido no dia seguinte. Passei no ponto de ônibus e vi a enorme poça de sangue seco. Lembrei daquele bebê que dormia todas as noites no meu colo, há tão pouco tempo. Fui tomado pela emoção. Por que aquilo estava acontecendo?

Mas ainda pior do que tudo isso, é que durante esse período todo, ele começou a se comportar de um modo extremamente agressivo, principalmente para com o irmão menor, de 7 anos. Júnior, já aos 14 anos, tinha um metro e oitenta de altura, 78 quilos e as costas largas como as de um atleta olímpico. Às vezes brincava comigo, me abraçando e me levantando do chão como se eu fosse um boneco de pano (eu peso 88 quilos...) E esse homem forte começou a revidar qualquer provocação do irmãozinho pequeno com violentos socos no rosto e no corpo. Não adiantavam broncas nem conversas. Um dia, por causa de um motivo fútil, uma discussão banal, ele segurou a sua mãe pelos braços e lhe deu um chacoalhão tão forte que ela achou que seria esmagada. Ele estava cheio de ódio e revolta. O menino tranqüilo de olhos doces que eu conheci estava se transformando numa fera, por algum motivo que ninguém podia explicar. Sua mãe resolveu levá-lo, sem me consultar, a um centro espírita para receber alguns “passes”. Lá chegando, contou o caso ao médium que a recebeu, que prontamente diagnosticou o caso como sendo um caso claro de assédio por “espíritos obsessores”. Prescreveu um “tratamento espiritual” determinado, que ela não quis me contar, imaginando que eu seria contra.

Mas o comportamento do meu filho começou a piorar, e muito. Suas notas na escola começaram a cair. Seu grau de concentração despencou. As agressões ao irmão aumentaram. Eu perdi as contas de quantas vezes tentei conversar com ele, tentando entender o que estava acontecendo, mas ele não se abria, nada surtia efeito.

Numa noite, o meu filho mais novo acordou com o som de um grande peso caindo violentamente no chão, seguido de uma sucessão de ruídos estranhos e abafados. Pulou do beliche e deu um grito: O irmão estava jogado no chão, numa posição completamente desarticulada, com o lençol fortemente retorcido, como se fosse uma corda, enrolado em volta do seu pescoço, e a cabeça presa no tecido, parecendo um capuz. Achou que o irmão não estava conseguindo respirar, que estava sendo sufocado pelos lençóis que apertavam o seu pescoço e cobriam o rosto. Tentou libertá-lo, mas não conseguiu. Então correu para chamar ajuda, e quando os adultos chegaram e finalmente puderam retirar os lençóis, perceberam que ele estava realmente sufocando, vermelho e ofegante, com o rosto coberto de saliva, ainda inconsciente.

Obviamente, eu orei por ele. Orei muito. Ele alternava momentos de melhora com outros de agravamento, tanto dos desmaios, quanto do comportamento agressivo. Recentemente, eu estava me sentindo especialmente angustiado, e tentando compreender o porquê daquela situação. Disse a Deus que eu aceitaria o que quer que Ele tivesse para me dar, pois eu entendia que as minhas vãs capacidades e o meu entendimento humano limitado não seriam capazes de compreender os Seu desígnios, e eu apenas cofiava nEle. Assim, me acalmei, e uma grande certeza surgiu no meu íntimo: “Este mal veio para preservar o meu filho de algo muito mais grave, e no momento devido, vai passar.” Esta certeza me invadiu, e meu alívio foi completo. Minhas preocupações simplesmente acabaram. Três dias depois, a bisavó de Júnior apareceu trazendo três “pilulinhas” do Santo Frei Galvão. Ela teve muito trabalho para conseguir isso. Velhinha, precisou passar muitas horas na fila da igreja construída pelo primeiro santo brasileiro, porque com a proximidade da visita do papa e a divulgação pela mídia, o lugar andava realmente muito concorrido. Mas conseguiu as pílulas de papel consideradas milagrosas. Essas pílulas são constituídas de uma oração (Ofício de Nossa Senhora - “Depois do parto, ó Virgem, permaneceste intacta. Mãe de Deus, intercede por nós”), escrita num pedacinho de papel muito pequeno, enrolado em forma de um pequena pílula. Inclusive uma das curas consideradas milagrosas obtidas por intermédio de Frei Galvão ocorreu associada ao uso dessas pílulas. E o mais impressionante ocorreu quando a mãe dele (que não é católica) lhe pediu que tomasse as pílulas...

Segundo o relato da sua mãe, quando Júnior viu a pilulinha de papel na sua mão, seu rosto se transformou numa carranca. Gritou que não ia tomar “aquilo” de jeito nenhum, que “aquele negócio” não passava de um pedaço de papel enrolado, e que não adiantava insistir. Mas ela, percebendo nesse momento que realmente devia lhe dar a pílula, insistiu. Depois de muita briga (ele gritava e gesticulava com os braços, dizendo para que ela afastasse aquilo dele), ele se jogou violentamente no sofá e virou o rosto para a parede, dando a parecer que tinha desmaiado. Achando que ele estava fazendo “manha”, sua mãe sentou-se do seu lado, segurou o seu rosto e o virou. E um calafrio gélido percorreu sua espinha de cima abaixo, quando olhou para o rosto de Júnior. Ele estava com uma expressão cadavérica, corpo rígido; não esboçava nenhuma emoção, e seus olhos estavam abertos, mas completamente brancos, sem nenhum vestígio das pupilas, como se ele estivesse cego. Ela sentiu um grande pavor nessa hora, mas, nas palavras dela, “se encheu de coragem” (coisa de mãe), e introduziu a pílula contendo a oração de Frei Galvão em sua boca, despejando em seguida meio copo de água, para ter certeza de que tinha engolido. Ele imediatamente fechou os olhos, dando a impressão de que ia dormir. Sua então mãe subiu ao seu quarto para rezar.

Poucos minutos depois, Júnior estava desperto, alegre e sorridente, e a sua expressão tinha mudado. Ele estava calmo e sereno. Mas o que mais impressionou a sua mãe foi a cena que aconteceu logo em seguida: Seu irmãozinho sentou-se do seu lado, para jogar vídeo game, meio ressabiado, porque ultimamente só recebia socos e pontapés do irmão mais velho. Mas Júnior olhou pro irmãozinho por um momento, enquanto este estava entretido com o jogo. Por fim (!) abraçou–o com força, fazendo-o aninhar-se no seu peito largo, e o beijou várias vezes na cabeça e na testa, dizendo: “Você sabe que eu te amo, né?” Sua mãe foi até a cozinha, chorar escondida, e no exato momento em que digito essas palavras, há um nós na minha garganta, também. Desde esse dia, o menino doce e suave que, mesmo depois de crescer tanto, nunca deixava de freqüentemente me cobrir de abraços e beijos, reclinar a cabeça no meu colo e dizer várias vezes o quanto gostava de mim, estava de volta.

Depois disso, ele não se comportou mais agressivamente, nem voltou a desmaiar. Júnior definitivamente voltou a ser o que era. A “última” dele foi dizer que, quando fizer 18 anos, vai tatuar a minha cara no seu peito – claro que eu vou tentar impedir - ô mau gosto!


Conclusões

Como sempre, deixo a conclusão para você, querido leitor. Só peço que, seja como for, nunca deixe de ser sincero consigo mesmo. Isso é mesmo muito importante. Digo sempre isso porque, mesmo que não percebamos, adoramos nos enganar... A minha busca chegou ao fim. Minha jornada chegou ao seu destino. Por muitos anos, eu quis me achegar a Deus, e sinto que hoje, afinal, ele se chegou a mim. “Chegai-vos a Deus, e Ele se chegará a vós.” (Tiago 4:8). E, paradoxalmente, sinto que a minha escolha não foi uma escolha. Sinto mais como se eu tivesse sido escolhido; porque o encontro do Caminho não se deu baseado em análises e ponderações. Minha inteligência não teve nada a ver com isso. Eu tentei desesperadamente contar como foi isso, mas... eu não consigo. É um pouco frustrante, reconheço. Mas a felicidade na qual eu me movo hoje é tão grande que não há espaço para frustração. A felicidade me envolve, me completa, parece “vazar” dos meus poros, exalar de mim, e às vezes eu percebo o efeito disso, nos outros. Este é um “fruto”, como diz o meu amado Mestre, da fé realizada em algo Real. Crer na ilusão acaba trazendo decepção, frustração, dor, sofrimento e, conseqüentemente, tristeza, ira, inveja... Mas crer no Real dá prazer, traz uma alegria que nunca se acaba.

A descoberta é difícil. Pode ser muito difícil mesmo, e se torna ainda mais dura para os seres racionais, como eu. A primeira parte do processo tem que ser a entrega, e isso pode ser difícil porquê exige muita coragem. É como fechar os olhos e se atirar no desconhecido. E quase nunca a realidade é o que imaginamos, ou o que gostaríamos que ela fosse. Olhamos todas as nossas respostas prontinhas, bonitinhas, que nós cultivamos por tanto tempo, que escolhemos com tanto carinho, e não queremos jogá-las fora. Enquanto isso, a Verdade espera, paciente. Pra piorar, para nos testar, ela costuma se apresentar como algo muito feio, em princípio. Algo que não queremos para nós. "Cypher", no filme "The Matrix", preferia voltar para a ilusão da "Matrix" e ter uma vida agradável e prazerosa do que continuar vivendo na realidade, que lhe parecia dura e cheia de dificuldades. Ele disse a famosa frase: “Ignorância é felicidade”. Eu digo que a felicidade é muito, muito mais do que isso.

Porque, se devolvermos a Deus o lugar de Deus (lugar que estivéramos obstinadamente tentando ocupar), e desistirmos de inventar as nossas próprias respostas e começarmos a apenas prestar atenção às respostas dEle, o que parecia pesado se torna leve, o que parecia difícil se torna suave... a Perfeição mostra sua face!.. Saia do Centro. Esta é a única maneira de voltar ao centro. A verdade está nos paradoxos. Deus o espera lá. Ele quer ser um com você. Você só tem que deixar.

Estou feliz e grato por ter conseguido terminar este post. O Mal, esse assunto pesado, precisava ser abordado. Também prefiro falar só no Bem; mas eu precisava dizer que há uma escolha a ser feita, e que dizer que essa escolha não existe também é uma escolha. Faça a sua.