C G Jung - conclusão




O Inconsciente Coletivo

Dentre os muitos conceitos inovadores e revolucionários impetrados por C G Jung, um dos mais importantes sem dúvida é o do Inconsciente Coletivo, que postula que todos nós já nascemos com uma herança psicológica (incomensurável) que se soma à herança biológica (comensurável).

Ambas (herança psicológica e a biológica) são determinantes essenciais do comportamento e da experiência do ser. Jung diz que "...exatamente como o corpo humano representa um verdadeiro 'museu de órgãos', cada qual com sua longa evolução histórica, da mesma forma deveríamos esperar encontrar também, na mente, uma organização análoga. Nossa mente jamais deveria ser considerada como apenas um produto sem história, em situação oposta ao corpo, no qual a história (biológica) evidentemente existe". Jung afirma, categórico, que a mente da criança já possui uma estrutura que molda e canaliza todo seu posterior desenvolvimento e interação com o ambiente. O Inconsciente Coletivo inclui materiais psíquicos que não provêm da experiência pessoal, ao contrário do que postularam outros autores, como Skinner, os quais assumem implicitamente que todo desenvolvimento psicológico vem da experiência pessoal. O Inconsciente Coletivo é constituído não por aquisições individuais, mas por um “patrimônio coletivo” da humanidade. Esse conteúdo coletivo é essencialmente o mesmo para todos, não varia de pessoa para pessoa. Como o ar, esta espécie de “memória da humanidade” é a mesma em todo lugar, é “respirada” por todos e não pertence a ninguém.

Os chamados Arquétipos são os conteúdos do Inconsciente Coletivo. São condições ou modelos prévios da formação psíquica em geral. Importante dizer que o termo "Arquétipo" é freqüentemente mal compreendido, julgando-se que expressa imagens ou motivos mitológicos definidos. Na verdade, essas imagens ou motivos mitológicos são apenas representações conscientes do Arquétipo. O Arquétipo gera uma tendência a formar tais representações que podem variar em detalhes, de povo a povo, de sociedade a sociedade, de pessoa a pessoa, sem perder sua configuração original. Dentre outros, ótimos exemplos disso seriam as figuras mitológicas do lobisomem e do dragão, seres que nunca existiram historicamente, mas que “existem” desde a antiguidade no imaginário de praticamente todos os povos das civilizações ancestrais. Alusões à figura do dragão estão presentes nas tradições babilônica, suméria, céltica, hindu, chinesa, persa, nórdica, hebraica e outras, e até mesmo nas lendas do folclore de diversas nações indígenas, inclusive do Brasil! O conhecimento deste fato lança uma luz definitiva para a compreensão do sentido do termo “Inconsciente Coletivo”: Se a maior parte destas culturas antigas não tinha nenhum contato entre si, como poderiam acreditar numa mesma figura, que nunca existiu realmente?





De uma maneira indireta, compreendendo-se a noção do Inconsciente Coletivo, torna-se mais fácil a compreensão do significado das figuras arquetípicas. Há uma extensa variedade de símbolos que pode ser associada a um Arquétipo. Por exemplo, o Arquétipo materno compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas as "figuras" de mãe, figuras nutridoras e protetoras. Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres (tais como as imagens idealizadas clássicas da Vênus, da Virgem Maria, da Mãe Natureza...) e símbolos de apoio e amparo, tais como a Igreja e a Pátria.

O Arquétipo materno inclui, além dos aspectos positivos, os negativos, como a mãe ameaçadora, dominadora ou sufocadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto do Arquétipo estava cristalizado na imagem da "bruxa velha". Aliás, a Idade Média foi um dos períodos históricos mais propícios para a cristalização de Arquétipos bem definidos. E é exatamente por essa razão que não podemos julgar acontecimentos ocorridos em outras eras ou períodos históricos distantes usando-se os padrões de justiça e conduta social atuais. Por que a antiga sociedade judaica apedrejava até a morte os pecadores (infratores da Lei)? Por que o Império Romano crucificava rebeldes e inimigos, com requintes de crueldade? Todas as sociedades antigas adotavam a pena de morte com sofrimento como a única maneira justa para punir criminosos. Para os padrões mentais atuais, estas coisas soam absurdas, crueldade inominável. Mas para o padrão mental (Inconsciente Coletivo) da época, era a coisa certa e normal a se fazer.

Jung denominou como Arquétipos a cada uma das principais estruturas da personalidade, incluindo o Ego, a Persona, a Sombra, a Anima (nos homens), o Animus (nas mulheres) e o Self. Um maior aprofundamento neste e outros assuntos pode ser adquirido consultando-se suas "Obras Completas".


Símbolos

De acordo com Jung, o inconsciente se expressa primariamente através de símbolos. Embora nenhum símbolo concreto possa representar de forma plena um Arquétipo (que é uma forma sem conteúdo específico), quanto mais um símbolo se harmonizar com o material inconsciente organizado ao redor de um Arquétipo, mais ele evocará uma resposta intensa e emocionalmente carregada. Jung se interessa pelos símbolos naturais, que são produções espontâneas da psique individual, mais do que por imagens ou esquemas deliberadamente criados por um artista. Além dos símbolos encontrados em sonhos ou fantasias do indivíduo, há também símbolos coletivos importantes, que são geralmente imagens religiosas, tais como a Cruz, a Estrela de David, a Roda da Vida budista, etc, etc...

Imagens e termos simbólicos, via de regra, representam conceitos que nós não podemos definir com clareza ou compreender plenamente. Para Jung, um símbolo (ou signo) representa alguma outra coisa; um símbolo é algo em si mesmo, uma coisa dinâmica e viva. O símbolo representa a situação psíquica do indivíduo, ele é essa situação num dado momento. Aquilo a que nós chamamos de símbolo pode ser um termo, um nome ou até uma imagem familiar da vida diária, embora possua conotações específicas além de seu significado convencional e óbvio. Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto inconsciente mais amplo que não é nunca precisamente definido ou plenamente explicado.

A dissertação de mestrado de Jung, importante que se diga, intitulava-se “Sobre os Fenômenos Assim Chamados Ocultos”. Foi apresentada em 1902, e analisava detalhadamente a suposta mediunidade da senhorita S W (pseudônimo de Helena Preiswerk, uma prima sua em primeiro grau) durante sessões mediúnicas, bastante em moda na virada para o século XX, realizadas em presença de familiares e outros convidados. O estudo fora feito entre 1899 e 1900; a médium era uma pessoa introvertida, franzina, de natureza frágil e não muito inteligente; apresentara problemas de aprendizado na escola e contava quinze anos quando se iniciaram as sessões. Morreria aos 26 anos, de tuberculose. Os fenômenos desenvolvidos por Helena iam desde a psicografia e a movimentação rápida de um copo sobre as chamadas "mesas girantes" (uma espécie de 'passatempo' da burguesia na época), até estados de “incorporação”, incluindo mudanças no tom da voz, na maneira de falar, etc. Também ocorriam as chamadas comunicações com os "desencarnados", mediante golpes que se ouviam nas paredes e na própria mesa de trabalhos.

Jung, interessado nessa fenomenologia, passou a organizar sessões aos sábados em sua própria casa. Decepcionou-se, entretanto, ao flagrar por diversas vezes sua prima fraudando os fenômenos. Acabou concluindo sua análise como um "caso complexo de dissociação histérica, facilitado e prestigiado pelo meio cultural-religioso em que ocorria". Seu trabalho nesse campo, interessantíssimo e escrito com agudo senso de investigação, compõe o 1º volume de suas Obras Completas, editado em português pela editora Vozes, sob o título "Estudos Psiquiátricos".

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Algumas falas e declarações marcantes de Jung:

1883-84: "No jardim de minha casa havia um muro de pedras (...) e em frente a este muro havia uma elevação com uma pedra que era a 'minha' pedra. Freqüentemente, quando eu estava sozinho, me sentava nesta pedra e começava um jogo imaginário que era o seguinte: 'Eu estou aqui assentado em cima desta pedra e ela está embaixo'. Mas a pedra também podia dizer 'eu' e pensar: 'Eu estou aqui deitada nesta elevação e ele está sentado em cima de mim'. A questão aí surgia: 'Eu sou aquele que está assentado em cima da pedra, ou eu sou a pedra na qual ele está assentado?' Esta pergunta sempre me deixava perplexo, e eu me levantava e ficava pensando quem era o quê agora. A resposta sempre permanecia obscura e minha incerteza era acompanhada de um sentimento curioso e fascinante de escuridão (...) Mas não havia dúvidas de que, o que quer quer fosse, esta pedra surgia numa estranha relação comigo. Eu podia sentar nela por horas, fascinado pelo enígma que ela produzia."

1886: "A idéia de Deus começou a me interessar."

1887 - Jung consegue vencer uns ataques de desmaio que sofria a alguns meses e usava como desculpa para não estudar: "Poucas semanas depois eu retornei à escola e nunca mais sofri um outro ataque. Foi quando eu compreendi o que era uma neurose. Aqueles dias viram o início da minha consciência (...) Uma outra experiência ocorreu naqueles dias. Eu estava indo para a escola quando de repente, num flash, eu tive a impressão de ter acabado de emergir de uma nuvem densa. Eu imediatamente soube: Agora eu sou eu!"

1888: "Nesta época, eu comecei a duvidar de tudo que o meu pai falava. Quando o ouvia pregar sobre graças eu sempre pensava em minhas próprias experiências. O que ele dizia soava vazio, como a alguém que narra um conto por sabê-o de cor mas não pode acreditar em si mesmo. Eu queria ajudá-lo mas não sabia como. E ainda eu era muito tímido para contar-lhe minhas experiências ou me meter em suas preocupações. Por um lado eu me sentia muito pequeno e por outro eu tinha medo de jogar na cara dele aquela autoridade que minha 'segunda personalidade' me inspirava. (...) De repente eu compreendi que Deus era, pelo menos para mim, uma das experiências mais certas e imediatas."

1889: "À medida em que crescia, eu não tinha uma noção clara do que eu queria ser. Meus interesses me levavam em direções diferentes. Por um lado eu estava fortemente atraído pelas ciências, com suas verdades baseadas em fatos; por poutro eu era fascinado por tudo que tinha a ver com religião comparada."

1890: "Nesta época eu tive um sonho que me assutou e encorajou ao mesmo tempo. Era noite em algum lugar desconhecido, e eu estava lentamente forçando o meu caminho contra um vento muito forte. Havia uma neblina forte por toda parte. Eu tinha as minhas mãos em concha em torno de uma luz muito fraca que ameaçava se apagar a qualquer momento. tudo dependia de eu manter esta luz acesa. De repente eu percebi que havia alguma coisa chegando por traz de mim. Eu olhei para traz e vi uma figura gigantesca me seguindo. Mas ao mesmo tempo eu estava consciente, que apesar de meu pavor, que eu devia manter aquela luz frágil por toda a noite, apesar de todos os perigos. Quando eu acordei eu imediatamente percebi que a figura era a minha própria sombra nas brumas esvoaçantes trazida à vida pela pequena luz que eu estava carregando. Eu sabia também que aquela pequena l;uz era a minha consciência, a única luz que eu tinha, apesar de infinitamente menor e mais frágil em comparação aos poderes da escuridão, ainda era uma luz, minha única luz. Este sonho foi de grande iluminação para mim. Agora eu sabia que o eu nº 1 era o portador da luz, e que o nº 2 o seguia como uma sombra."

1892-94: "Eu mantive inúmeras discussões com o meu pai...Eu via que as minhas questões criticas o faziam ficar triste, mas eu nunca tive a esperança de uma conversa construtiva, pois parecia quase inimaginável para mim que ele não tivesse tido uma experiência de Deus, a mais evidente de todas as experiências..."

Eu ainda poderia narrar aqui muitos outros episódios parapsicológicos na vida de Jung, sendo que boa parte deles encontra-se descrita na sua autobiografia. Mas a pretensão deste post é apenas revelar o quanto de mistério ainda existe em nosso mundo psicológico mais profundo, passível de interação não mecânica com o meio físico à nossa volta, capaz de transpor as barreiras impostas pelo tempo e pelo espaço.

No apêndice de "O Homem e Seus Símbolos", obra voltada ao público leigo, esboça-se uma relação entre a Psicologia Analítica e as descobertas relativísticas da Física Quântica. Jung julgava imprescindível uma complementaridade à sua psicologia para que a humanidade encontrasse modelos mais satisfatórios para a explicação dos fenômenos psi. Jung sonhava que os físicos, a começar por seu paciente e amigo Wolfgang Pauli, um dia pudessem emprestar à sua obra um auxílio enorme, para que uma teoria interdisciplinar mais consistente se firmasse sobre novos e revolucionários paradigmas, transcendendo a maneira encontrada pela física clássica para explicar o universo e seus fenômenos. Mais uma "profecia" do médico da Basiléia, pois é isto justamente o que vem ocorrendo, cada dia mais, no discurso científico contemporâneo.

Jung faleceu em 16 de Junho 1961, com 86 anos de idade, deixando sua marca definitiva na história das ciências e uma magistral obra literária, ainda hoje considerada revolucionária. Apenas dez dias antes havia concluído o ensaio para o Livro-referência "O Homem e seus Símbolos".


Fontes e bibliografia:
"Teorias da Personalidade"- J. Fadiman, R. Frager - Harbra - 1980;
"Memories, Dreams and Reflections" - Carl Gustav Jung - editado por Aniela Jaffé;

Site “Amigo da Alma”.


Para maiores informações:
"Tipos Psicológicos" - C. G. Jung - Zahar Editores - RJ – 1980;
"O Homem e seus Símbolos" – C. G. Jung – editora Nova Fronteira.