Ansiedade


Um dos tormentos que mais afligem a nossa sociedade, hoje, é a ansiedade; essa dolorosa sensação de medo e apreensão diante da vida, sendo que na maioria das vezes nem temos consciência de quais sejam as suas causas. A ansiedade nos dificulta a visão clara das coisas, nos leva a interpretações equivocadas e a julgamentos e atitudes precipitadas. Não raro, também nos impede de tomar ações apropriadas. A ansiedade, enfim, nos impede de viver a vida plenamente, com simplicidade e com gratuidade, o que seria necessário na construção de uma rotina de vida feliz. Isso nos impede de ver tudo que há de bom ao nosso redor, a cada instante.

O problema já foi muitas vezes abordado em tratados de psicologia e medicina, ensaios filosóficos e até em estudos avançados da física quântica, nos quais alguns cientistas se aventuraram a teorizar sobre a Consciência e as suas manifestações no Universo conhecido. Neste post, a atenção está direcionada para um ponto estritamente relacionado aos estados de ânsia e angústia no dia a dia: a maneira como lidamos com o tempo, com o desejo e com a percepção do relativo e do absoluto.


Ontem, Hoje e Amanhã

Não obstantes as considerações científicas sobre a relatividade do tempo, proponho a conscientização de que o tempo se estrutura na mente como decorrência da atenção dada ao objeto observado, do que resulta o registro de um traço de memória. Daí o caráter relativo e ilusório das nossas medições do tempo, ainda que sejam necessárias à nossa visão lógica da vida na dimensão em que existimos. Mas o fato é que vivenciamos uma sucessão aparente de períodos que denominamos “ontem”, “hoje” e “amanhã”, quando, na verdade, o que existe é um hoje contínuo no qual estão embutidos o passado, como memória, e o futuro como possibilidade imaginativa. Em outras palavras, poderíamos dizer que o real é o “não-tempo”, a eternidade, que permeia todos os eventos no antes, durante e depois.

Vivenciar no cotidiano a noção de eternidade, ou “tempo infinito”, é mais que um exercício de abstração. A consciência de que o essencial está além do tempo e do espaço ajuda-nos a reconhecer a relevância meramente funcional do tempo medido pelo relógio, induzindo-nos a ver os fatos em nova perspectiva e a reprogramar nossas atitudes. A ansiedade se alimenta, principalmente, da sofreguidão dos pensamentos em direção ao futuro, provocando assim uma percepção precária (ou nenhuma percepção) do momento presente, o único onde tudo acontece e em que podemos intervir, realizando opções que influenciarão o futuro, que também só poderá ser vivido como um “novo momento presente”.

Incluir a dimensão eterna da vida na nossa rotina diária não nos deixa incapacitados de operar com a noção de tempo relativo, própria do mundo físico. Continuaremos aptos a estabelecer objetivos e a trabalhar com afinco para alcançá-los – o que, aliás, só pode ser feito efetivamente no agora, no presente. Mas a jornada deixaria de ser uma atuação obsessiva em busca do conseguir, do possuir e do controlar, o que geralmente nos conduz à inflexibilidade dos sistemas rígidos, fomentadores das competições egoísticas e das práticas anti-éticas, tão nocivas à saúde e à paz entre os homens. Com isso, vencemos o desconforto da ansiedade e do stress e reconquistamos o prazer de sentir confiança, o prazer da entrega à Vida e a Deus.


Entre o Desejo e o Tédio

Nossos desejos nos levam a buscar a satisfação dos impulsos egoístas, numa experiência impermanente do “ter”, a sucessão de eventos ilusórios que se manifestam na manutenção de posses materiais, desfrute de “status” e controle sobre coisas e pessoas. Mas tudo isso, como qualquer um pode perceber, está fora do Reino dos Céus, aquele que, nas palavras de Jesus registradas pelo evangelista Lucas, está dentro de nós e não em alguma instância exterior. Reconhecê-lo como nosso tesouro (situado onde o “ladrão na rouba nem a traça consome”) e como nossa prioridade, é um antídoto natural à ansiedade, que também se alimenta dos desejos que logo se transformam em tédio. Afinal, no Reino de Deus toda ação (e não o imobilismo) se submete à Sua Vontade.

Obviamente, para alcançarmos esse nível precisamos, como ponto de partida, alinhar a nossa vida – palavras, atitudes e ações em qualquer circunstância – à nossa crença real. E isso, certamente, nos levará a um questionamento profundo sobre no que realmente acreditamos. Se percebermos (e não apenas professarmos) o "Reino dos Céus" como a dimensão profunda do nosso ser e o tomarmos como o propósito da nossa vida, tudo se torna compreensível, mais simples e mais fácil na caminhada espiritual, inclusive a superação do egoísmo e do desejo, proposta por todas as religiões verdadeiramente espirituais.


O Relativo e o Absoluto

O Absoluto é inefável, isto é, não pode ser dito, não cabe em palavras. O Absoluto, Deus, no entanto, pode ser experienciado, sentido no âmago do ser. E isso é uma experiência suficiente e transformadora.

No nosso mundo de perfil ultrapragmático (extremamente materialista), dominado pelo ego e pelos desejos que lhe são inerentes – e, conseqüentemente, permeado pela ansiedade – sentimos uma “urgência” enorme de previsibilidade e de elementos “concretos”, o que nos leva a relativizar cada vez mais o Absoluto em nossas incursões espirituais. Tentamos “concretizar” Deus e acabamos gerando ídolos e idolatria, e não estamos falando de estátuas, mas sim de exercícios conceituais e lógicos, todos na linha do tempo cronológico, na qual experimentamos os desejos e a ansiedade. Talvez isso explique o fenômeno do “materialismo espiritual”, que vem expulsando das tradições espirituais a filosofia e a experiência numinosa (sentido do sagrado), substituídas pelas relações mercantilistas com aquilo que se acredita ser o Transcendental.

No materialismo espiritual o tempo conta, e muito. O caminho espiritual e a estrada do sucesso material se confundem, como no caso da (pseudo) "Teologia da Prosperidade. A União com Deus (Reli-gião) fica relegada a um segundo ou terceiro plano, e, por isso mesmo, vira impossibilidade. Muitas das palavras contidas nos Evangelhos são misteriosas, e algumas delas deixam margem para diferentes interpretações; mas, neste caso, o Mestre é mais do que claro: “Não podeis servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. “Busca primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e as outras coisas virão por acréscimo”. Ter Deus e a vida espiritual como algo secundário em nossas vidas não é uma possibilidade real. Nossa miséria interior se alastra por que nos afastamos cada vez mais daquilo que realmente importa, do sentido real da vida e da razão porque estamos aqui, para começar. Restam o desejo e a ansiedade, o medo e as reações que lhe são próprias, como a ausência de Amor, fraternidade e liberdade.

Mas isso tem jeito! Da mesma forma que, na ignorância e na prisão dos desejos, a mente forja a miséria nos planos visível e invisível da vida, quando esclarecida e disciplinada proporciona a descoberta da ventura que, segundo o Mestre, potencialmente já está dentro de cada um. Caminhar nesse sentido é uma escolha individual.

Baseado num texto do jornalista Jomar Morais.