A terceira pergunta


"Ninguém pode se considerar apto para iniciar a Jornada, enquanto não for capaz de responder, de modo definitivo e com absoluta sinceridade, para si mesmo, a três perguntas fundamentais. Essas perguntas são o início de tudo. Estão interligadas, e de certa forma, uma depende da outra, mas devem ser respondidas individualmente. Tentar responder a cada uma dessas perguntas poderá levar a muitos outros questionamentos importantes."

Aqui vamos nós com a terceira pergunta essencial que o buscador deve fazer a si mesmo. E esta é a pergunta prática, aquela que tem a ver com a nossa realidade imediata e que nos levará a mudar, mais diretamente, o nosso modo de viver. Responder às perguntas anteriores (a primeira e a segunda) significava estabelecer bases. Esta terceira resposta implica o repensar do meu modo de vida:


"POR QUE ESTOU AQUI?"


Toda pessoa reflexiva, em algum ponto da vida, pelo menos alguma vez ponderou sobre esta questão. Desde os primórdios, o ser humano tem acreditado possuir um vínculo com o Infinito ou com uma Mente Superior . Acredita haver energias intangíveis e alguma inteligência psíquica que o liga à Causa Primeira de Tudo. Além disso, o homem tem mostrado propensão a considerar a mente superior à matéria. Tem, em geral, contestado a noção de que a totalidade da mente humana seja um subproduto da matéria. O homem tornou-se capaz de usar a mente para levar as forças físicas da natureza a obedecer à sua vontade. A mente tornou-o senhor do seu mundo. Conseqüentemente, pareceu coerente ao ser humano que uma Inteligência correspondente, porém superior, se encontrasse além da realidade perceptível. Parecia ilógico que o Cosmo fosse desprovido desse Poder de que o próprio homem tinha sido provido. Acreditava o ser humano que a Inteligência Infinita e Cósmica deveria também ter um Propósito final superior em relação à humanidade; e, por conseguinte, concluiu que essa Inteligência também o impregnara e estabelecera propósitos para ele.

Porém, nos é difícil conciliar as experiências humanas com a crença num Propósito divino, porque não há caminhos bem definidos que conduzam à felicidade que tanto queremos. O caminho da vida nos chega repleto de eventos variados. Alguns abrigam o Bem, outros, o Mal. A sorte humana varia quase diariamente, como uma folha solta numa ventania. Há quanto tempo a humanidade vem se lamuriando como o antigo filósofo epicureu, Lucrécio?

“Por que as estações do ano trazem doenças, em sua passagem? Por que a morte prematura, à espreita em toda parte? A criança recém-nascida enche o quarto de lamentos. Bem o faz, que seu destino será andar pela vida através de numerosos infortúnios”.

Aliás, foi essa mesma constatação trágica que levou Sidarta Gautama, o Buda, a iniciar sua grande jornada. Será o homem, afinal, apenas um produto das forças mecânicas do Universo? Deve ele andar pela vida sofrendo, apenas tentando minimizar as dores do seu destino? Se há uma missão para a humanidade, qual será? O grande problema é que, na grande maioria dos casos, ao buscar sua resposta, o homem busca a segurança; procura uma certeza pessoal que lhe possibilite a paz de espírito. Mas para nós, cegos, não existem certezas cósmicas, apenas possibilidades. E isso não é fácil de se aceitar com serenidade. Se um buscador abandona o Caminho, apenas porque o Caminho lhe mostrou respostas que em princípio não o agradaram, ele é digno de ser chamado buscador da Verdade? Existem nesta vida fatores tanto de miséria quanto de felicidade. Compete à mente humana determinar os valores e as relações corretas. Somos só nós próprios que podemos responder à questão; “Por que estamos aqui?”

Devemos, portanto, aprender a estabelecer um propósito sensato para nossas vidas. E este propósito depende do discernimento das relações que temos com o Cósmico, ou com nosso próprio conceito de Deus (por isso a necessidade de se responder antes à segunda pergunta). Consiste também na descoberta dos vínculos que temos com a Natureza e, principalmente, em aprender como estabelecer um relacionamento proveitoso com nossos irmãos humanos. Mais importante, e que deveria ser ponto de vista de todo ser humano: Deus, essa Mente Divina ou Cósmica, como queiram, é sempre uma experiência pessoal transcendente e imanente, isto é, íntima. Ela assume aparência e característica de acordo com a mente finita do indivíduo. Por conseguinte, não é possível uma definição que estabeleça a mesma configuração da consciência cósmica em todos os homens.

Por que estamos aqui? Esta pergunta também é feita pelas diversas correntes de pensamento advindas do estudo da Torá, cada uma ao seu próprio estilo. O Zohar afirma que Deus (ou D’us, como preferem os judeus) nos criou "para que Suas criações O conhecessem". O mestre cabalista Rabi Ysaac Luria diz: “Deus é a essência do bem, e a natureza do bem é conceder bondade. Porém a bondade não pode ser concedida se não houver ninguém para recebê-la. Com esta finalidade, Deus criou nosso mundo – para que houvesse receptáculos de Sua bondade”.

O ensinamento chassídico afirma que estes motivos, bem como as razões dadas por outras obras cabalistas e filosóficas, são apenas as várias faces de um singular desejo Divino para a criação, como expresso nos vários mundos ou “Reinos” da Criação de Deus. O chassidismo oferece também uma formulação deste divino Desejo que eu acho particularmente interessante: "Façamos uma ‘morada’ para D’us no mundo material." Um dogma básico desta fé é que "o mundo inteiro está repleto com Sua presença" e "não há lugar onde Ele não esteja". Portanto, não se trata de nós termos de trazer Deus ao mundo material – Ele já está aqui. Porém, Deus poderia estar no mundo sem se sentir em casa aqui. "Sentir-se em casa", neste caso, significa estar num lugar que seja receptivo à Sua Presença.

“Se há um aspecto comum às pessoas materialistas, é o seu egoísmo intrínseco, sua maneira de colocar o ego como alicerce e propósito da existência. Com cada molécula de sua massa, a pedra proclama: ‘Eu sou’. Na árvore e no animal, a preservação e propagação do ser é o foco de cada instinto e a meta de cada realização. Quem mais que o ser humano elevou a ambição a tal ponto que se transformou num ideal de consumo? A única coisa errada com todo este egoísmo é que ele ofusca a verdade daquilo que está por trás dela; a verdade de que a criação não é um fim em si mesma, mas um produto e veículo para Seu Criador. E este egoísmo não é uma característica casual ou secundária de nosso mundo, mas seu aspecto mais básico. Portanto, para fazer de nosso mundo uma ’morada’ para Deus, devemos transformar sua própria natureza. Devemos relançar as próprias fundações de sua identidade, de uma entidade auto-orientada para algo que existe com um propósito maior que si mesmo. Toda vez que tomamos um objeto ou recurso material e o colocamos a serviço de D’us, estamos efetuando esta transformação... quando separamos uma nota de dinheiro para caridade, quando utilizamos nossa mente para estudar um capítulo da Torá – estamos efetuando tal transformação. Em seu estado inicial, a cédula no bolso diz: ‘A ganância é boa’; na caixa de caridade, afirma: ‘O propósito da vida não é receber, mas dar.’ O cérebro humano diz: ‘Enriquece a ti mesmo’; o cérebro estudando Torá diz: ‘Conhece o teu D’us’. Portanto, quando você encontrar esta pessoa (materialista) na rua, simplesmente sorria, dizendo: ‘Bom dia!’ Convide-a para tomar um café na sua casa, ou para um jantar de Shabat. Converse sobre amenidades. Você não deve, a esta altura, sugerir quaisquer mudanças no estilo de vida daquela pessoa. Você apenas deseja que ela se torne receptiva a você e àquilo que você representa. Ostensivamente, você não ‘fez’ nada. Mas na essência, uma transformação mais profunda e radical ocorreu. A pessoa se tornou um receptáculo para a Divindade. Obviamente, o propósito de um recipiente é que seja preenchido com conteúdo; o objetivo de um lar é ser habitado. O Santuário foi construído para abrigar a presença de D’us. Porém, a confecção de ‘recipientes’ para a Divindade é o maior desafio da vida e a sua realização mais revolucionária.” - Rabino Beit Lubavitch

Mas a pergunta “Por que estamos aqui”, a meu ver, está ligada diretamente a uma outra pergunta tão fundamental quanto ela própria, já que somos aquilo que queremos: Esta outra pergunta é: "O que eu quero?"


O que você quer? Lá no fundo do fundo da sua alma, o que você mais deseja desta vida? Não vale responder “a felicidade”. A questão aqui é saber o que lhe traria a felicidade. Já parou alguma vez para pensar profundamente nisso? E esta pergunta remete a duas outras: O que me impede de conseguir isto? – e - O que eu vou fazer a respeito?

Só muito tempo depois (muito mesmo) de rabiscar as três perguntas no meu caderno, foi que eu descobri que outras três perguntas (muito parecidas) representavam os três pilares da Árvore da Vida para algumas linhas cabalistas, ocultistas, e também do chamado cristianismo místico: "Quem sou?", "Que queremos?" e "Por que estamos aqui?" Segundo estas correntes de pensamento, a pergunta "Que queremos?" é típica do lado esquerdo da Árvore e do Pilar masculino agressivo. A pergunta "Por que estamos aqui?" é típica do lado direito da árvore e do Pilar feminino passivo. A pergunta "Quem sou?" é típica do Pilar médio que é a harmonia dos outros dois Pilares.

Pode parecer um pouco confuso, mas não é: Não há nada errado em desejar, se nos foi dado um livre arbítrio e estamos “programados” com certos desejos. É parte importante do que somos. Mas a grande questão, aí, é que os nossos desejos devem estar em harmonia com a pergunta: "Por que estou aqui?” No fim, este é o segredo da Felicidade. Ainda que estejamos dispostos a dar o máximo para conseguir o que queremos, realmente estamos aqui para dar a vida. Ainda que desejemos obter o que achamos que temos direito, realmente estamos aqui para dar bem estar aos outros. Ainda que desejemos entender as coisas, realmente estamos aqui para crescer:

Ter Paz é alinhar o nosso desejo de viver com nosso desejo de dar a vida. Este é YESOD, o fundamento de todas as coisas.

Auto Realização é alinhar o nosso desejo de obter o que achamos que temos direito com a nossa capacidade de dar bem-estar aos demais.

A Sabedoria é alinhar o nosso desejo de entender com o nosso crescimento em Sabedoria (que é algo muito mais profundo). Esta é a denominada Sefirá Kether (Coroa) - o outro lado do que chamamos conhecimento.

A Felicidade está em sintonizar os nossos desejos com “O Que É”. Desta forma imitamos à própria Divindade. Quando a nossa vontade estiver sintonizada com "O Que É" (a Vontade de Deus), então ocorre a semelhança da imagem da divindade, no interior do ser humano.

Desta forma poderíamos chegar a ser o individuo que tentamos ser.

Por que estamos aqui? - ou - O que desejamos?..

Uma boa e produtiva meditação (cada um a seu modo) para todos!


“Para que acreditas que estás neste Planeta?... estás aqui para aprender o que é o Amor!”

– Richard Bach ('A Ponte Para o Sempre')



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