A segunda pergunta

Esta é A pergunta. E provavelmente esta seja, sob muitos aspectos, a mais importante de todas as perguntas.

Mas então, por que é a segunda, e não a primeira pergunta? Porque esta só pode ser feita depois que a outra (a primeira) estiver satisfatoriamente respondida: ”...a primeira e a mais fundamental dessas perguntas, que eu preciso fazer a mim mesmo, é: QUEM SOU EU?”...

Além disso, antes de fazer a segunda e primordial pergunta, cabe a colocação de uma advertência importante, a mesma que eu escrevi num dos meus diários pessoais, há quase uma década:

“Ninguém pode se considerar apto para iniciar a Jornada em busca da Verdade, enquanto não for capaz de praticar a sinceridade consigo mesmo. Absoluta sinceridade é necessária, para que a Busca se torne possível. Enganar-se a si mesmo é o primeiro e o maior dos pecados. Não se permita o autoengano, por motivo nenhum. Não engane a si próprio, mesmo que isso pareça lhe trazer bem-estar ou uma felicidade aparentemente sublime, num momento específico. O erro é quase sempre muito agradável, e os descaminhos são muito atrativos; por vezes parecem mesmo elevados. Se assim não fosse, tantos não se entregariam à esses maus caminhos, e o nosso mundo seria muito melhor do que é hoje...”


Eu não serei capaz de compreender nada, a respeito de absolutamente nada, enquanto não estiver usando de total sinceridade para comigo mesmo. E, usando dessa total sinceridade, só serei capaz de compreender qualquer coisa em profundidade, quando eu puder compreender a mim mesmo. Então, somente depois de estabelecidas estas bases primordiais, estarei eu apto a me candidatar a responder a segunda e grande pergunta, sobre a qual falei naquele mesmo velho diário:

“Agora eu já posso me atrever a pelo menos me debruçar sobre a questão que tira o sono dos seres humanos desde tempos imemoriais; desde antes das civilizações, desde que o 'bicho homo sapiens' se reconhece como ser pensante...”


"...O QUE É DEUS?"


Sim... Essa pergunta precisa ser respondida, mesmo que saibamos que provavelmente não haverá uma resposta satisfatória. Pois, de que adiantaria ficarmos aqui conjecturando se Ele existe ou não, se, no fundo, não sabemos do quê estamos falando, para começar? E só o fato de nos fazermos esta pergunta já nos trará muitas revelações. Porque só em pensar em possíveis respostas, fatalmente iremos perceber que a grande e fundamental questão não é “Há um Deus?”, mas sim “O que é Deus?”.

Hoje, muitos propõem a religião sem Deus. Confesso que eu também já passei por uma fase assim, algo como uma necessidade de esquecer se há ou não uma Força superior 'lá fora', e simplesmente tocar a minha vidinha aqui, da melhor maneira que puder. Mas logo percebi que as razões que me levavam a isso eram um tanto quanto medíocres e sem sentido, - pra não dizer mesquinhas. Ao menos no meu caso, tratava-se de egoísmo puro. Deixar toda essa história de altruísmo pra lá, e simplemente querer ser feliz...

E engraçado que, ao menos para mim, essa foi exatamente a receita da infelicidade, viver uma vida centrada no meu próprio umbigo. Descobri que, se nós estivéssemos aqui somente para nascer, crescer, nos reproduzirmos e morrer, assim como um peixe, um besouro ou uma pulga, e apenas tentar extrair o máximo de prazer possível nesse processo, então não haveria esse tal sentido do espiritual, tão enraizado no mais profundo do nosso DNA (a ciência já comprovou isso, como veremos abaixo). Por que a natureza se encarregaria de nos dotar com esse "gene religioso", se não houvesse um bom motivo para isso? E se eu sou um ser espiritual, e se "espiritualidade" pressupõe a existência de uma Força invisível (mas não totalmente imperceptível) que a tudo permeia, e o Epicentro dessa Força incomensurável é algo que chamamos "Deus", então... Uma religião sem Deus seria como um pastel sem recheio!

Ou seria como ir a um cinema que não exibe nenhum filme! Você vai, senta na poltrona, a luz apaga e... nada acontece! Religião sem Deus é um automóvel sem motor. Um carro pode ser bonito, ter uma linda pintura, ótimos faróis e belas rodas. Pode até ser bem confortável, por dentro. Mas se ele não tiver motor... o principal está faltando! Até a própria palavra fica sem sentido: como posso chamar de automóvel se ele não á 'auto-móvel'? E é exatamente a mesma coisa com a religião: a palavra religião, que vem do latim re-ligare significa a religação do homem com o divino. – Se eu excluo Deus dessa equação, religar com o quê?

“Com você mesmo”, talvez se apressem em responder alguns pseudomísticos, eu sei. Mas... numa boa, eu já me sentia muito bem "religado" comigo mesmo, e algo ainda me faltava. Algo muito importante. E eu tenho que dizer que este "Algo" devia ser o mais importante de tudo, pois um vazio imenso dentro de mim ansiava por ser completo!..

Compreendo, clara e perfeitamente, que a questão aqui não é optar ou não em se priorizar Deus em nossas vidas. Mas sim de entendermos o que singifica "Deus" para nós, afinal.

No começo, os seres humanos acreditavam num Deus que era a Causa Primeira de todas as coisas e que era o Senhor do Céu e da Terra. Ele não era representado por imagens e não tinha templos nem sacerdotes a seu serviço. Era excelso demais para um culto humano inadequado. Aos poucos, foi-se esmaecendo da consciência de seu povo. Tornou-se tão remoto que eles decidiram que não o queriam mais. Acabaram por aceitar que ele desaparecera. Esta é uma teoria que foi popularizada pelo padre e pensador Wilhelm Schmidt em seu livro, 'The Origin of the Idea of God' ('A Origem da Idéia de Deus'), publicado originalmente em 1912. Ele sugeria que houve um monoteísmo primitivo antes de os homens começarem a adorar vários deuses. Originalmente, reconheciam apenas uma divindade suprema, que criara o mundo e o governava de longe. A crença nesse "Sumo Deus", às vezes chamado de "Deus do Céu", porque era relacionado ao céu, ainda é uma característica da vida religiosa de muitas tribos indígenas africanas. Eles anseiam por Deus nas preces. Acreditam que Ele os observa e punirá suas más ações. Contudo, está estranhamente ausente de suas vidas diárias; não está em nenhum culto especial e nem é representado em efígies. Os membros das tribos dizem que Ele é inexpugnável e não pode ser contaminado pelo mundo dos homens. Alguns dizem que Ele “foi embora”. Antropólogos dizem que esse Deus tornou-se tão distante e excelso que precisou ser substituído por espíritos menores e deuses mais acessíveis aos homens e mulheres. E foi assim, segundo a teoria de Schmidt, que nos tempos antigos, o Sumo Deus foi substituído pelos deuses mais atraentes dos panteões pagãos[1].

No começo, portanto, havia um Deus. Se assim é, o monoteísmo foi uma das primeiras idéias desenvolvidas para explicar o mistério e a tragédia da vida. Em cavernas ancestrais foram encontradas inscrições e desenhos que demonstram que desde o Período Paleolítico já existia a crença numa Força superior, capaz de influenciar o dia-a-dia das comunidades, que podia trazer sucesso para as caçadas e garantir a sobrevivência dos grupos, além de objetos de 50.000 aC ou mais, que demonstram que naquela época já se observavam cerimônias ritualísticas para honrar e/ou fazer pedidos a essa Força superior. Nos quatro cantos do planeta, as mesmas idéias e princípios básicos foram estabelecidos. Praticamente todos os povos da antiguidade chegaram às mesmas conclusões essenciais sobre o tema Deus:

1) É o Criador;
2)
Rege o Universo;
3)
É justo, porém misericordioso;
4)
Os seres humanos precisam dEle para alcançar a verdadeira felicidade[2].


A questão que estou querendo levantar aqui é: como surgiu essa Idéia, a idéia de Deus, tão antiga quanto a própria humanidade? O estadista e filósofo Edmund Burke já dizia que “o homem, na sua constituição, é um animal religioso”. Mas por quê é assim? E, principalmente, que Deus é esse??

Cientistas já encontraram o que chamaram de “ponto Deus” no cérebro, que não deixou de ser, claro, contestado por outros cientistas. Uma frente avançada das ciências, hoje, é constituída pelo estudo do cérebro e de suas múltiplas inteligências. Alcançaram-se assim resultados relevantes, também para a religião e a espiritualidade. Enfatizam-se três tipos de inteligência. A primeira é a inteligência intelectual, o famoso QI (Quociente de Inteligência), ao qual se deu tanta importância em todo o século 20. É a inteligência analítica pela qual elaboramos conceitos e fazemos ciência, com a qual organizamos o mundo e solucionamos problemas objetivos. A segunda é a inteligência emocional, popularizada especialmente pelo psicólogo e neurocientista de Harvard, David Goleman, com seu conhecido livro "A Inteligência Emocional" (QE = Quociente Emocional). - Empiricamente ele demonstrou o que já era a convicção de toda uma tradição de pensadores, desde Platão, passando por Santo Agostinho e culminando em Freud: A estrutura de base do ser humano não é razão (logos) mas emoção (pathos). Somos, primariamente, seres de paixão, empatia e compaixão, e só depois, de razão. Quando combinamos QI com QE conseguimos nos mobilizar a nós e a outros.

Mas a terceira é a Inteligência Espiritual. E a prova de sua existência deriva de pesquisas muito recentes, dos últimos 12 anos, feitas por neurólogos, neuropsicólogos, neurolingüistas e técnicos em magnetoencefalografia (que estudam os campos magnéticos e elétricos do cérebro). Segundo esses cientistas, existe em nós, empiricamente verificável, um outro tipo de inteligência, pela qual nós não só captamos fatos, idéias e emoções, mas percebemos também os contextos maiores de nossas vidas em sua totalidade, e nos faz sentir inseridos no Todo. Ela nos torna sensíveis a valores morais e éticos profundos, a questões ligadas a Deus e à transcendência. É chamada de inteligência espiritual (QEs = Quociente espiritual), porque é próprio da espiritualidade captar totalidades e se orientar por visões transcendentais. Sua base empírica reside na biologia dos neurônios.[3] Verificou-se que a experiência unificadora se origina de oscilações neurais a 40 herz, especialmente localizada nos lobos temporais. Desencadeia-se, então, uma experiência de exaltação e de intensa alegria, como se estivéssemos diante de uma Presença viva... Ou, inversamente, sempre que se abordam temas religiosos, Deus ou valores que concernem o sentido profundo das coisas, não superficialmente mas num envolvimento sincero, produz-se igual excitação de 40 herz.[4] Por essa razão, neurobiólogos como Persinger, Ramachandran e a física quântica Danah Zohar batizaram essa região dos lobos temporais de "O Ponto Deus".

Portanto, podemos dizer, em termos do processo evolucionário: O universo evoluiu, em bilhões de anos, até produzir no cérebro o instrumento que capacita o ser humano a perceber a Presença de Deus, que sempre esteve lá, embora não perceptível conscientemente. A existência desse ponto Deus representa uma gigantesca vantagem evolutiva da espécie humana. Ela constitui uma referência de sentido para a nossa vida. A espiritualidade pertence ao humano e não é monopólio das religiões. Antes, as religiões são expressões (ou tentativas de) do ponto Deus.


Mas eu ainda não respondi à pergunta, certo? Sim... Bem, o que eu descobri é que seria impossível encontrar essa solução tentando "construir" a minha própria resposta. Entender o que é Deus talvez seja a tarefa mais inglória de todos os tempos, apenas porque isso é totalmente impossível! Simples assim... Então, o único meio que eu podia conceber, para chegar a alguma conclusão, seria 'desconstruindo' todas as respostas já existentes e prontas.

E assim, pedindo por orientação ao próprio Deus, e mais uma vez usando de toda a sinceridade para comigo mesmo, me entreguei a um diligente trabalho de retirar todos os excessos que 'enfeitavam' a minha limitada e imperfeita imagem mental, o meu conceito pessoal de Deus. Me entreguei a essa espécie de 'faxina psíquica geral', eliminando tudo aquilo que eu sabia que Deus não era.


Algumas conclusões a que eu consegui chegar

Deus Não é um ser antropomórfico (não é um ancião de longas barbas brancas, sentado eternamente em cima de uma nuvem). Não é uma entidade provida das fraquezas humanas. Não se limita a nada, nem a nenhuma religião e nem as nossas especulações. Não se limita à sua criação e nem mesmo às formas sob as quais se manifesta aos homens. Não se dobra aos caprichos humanos. Os livros sagrados e os sistemas estabelecidos por homens não podem conter nem explicar esse Deus. Se eu creio em Deus como o Criador dos Universos, se eu creio nEle como Autor e Fonte da própria Vida, então eu tenho que crer que Ele seja Infinito em Poder e Sabedoria absolutas... Tenho que crer que Ele é Perfeito, até porque, como disse Descartes, se “eu, tão imperfeito, tenho a idéia de Perfeição, só posso tê-la recebido de um Ser perfeito que me ultrapassa e que é o autor do meu ser”.




As demais conclusões são pessoais demais para serem compartilhadas. E, assim, amigos, essa reflexão deve terminar por aqui, ao menos por enquanto. Mais uma vez, eu não tenho como levar esse post à uma conclusão definitiva. Assim como a resposta para a “primeira pergunta”, essa resposta também é pessoal, e deve ser encontrada individualmente por cada um de nós.

E mais uma vez, posso apenas deixar aqui uma pequena dica: Encontrar a sua resposta para essa pergunta vale à pena. Vale muito à pena.


“Não tenho a menor idéia do que é Deus. Contudo, tenho uma experiência do que é Deus. Existe algo muito real em relação a 'essa presença que chamamos Deus', embora eu não tenha a menor idéia de como definir Deus, de vê-lo como uma pessoa ou alguma coisa, isso eu não consigo fazer. Pedir a um ser humano para explicar o que é Deus é semelhante a pedir a um peixe para explicar a água em que ele nada.”

- Fred Alan Wolf, Ph.D em Física pela UCLA, cientista físico, professor, escritor e autor de diversos livros e tratados sobre Física Quântica e Astronomia.


"Até meus 27 anos, eu era um ateu convicto, do tipo que se irrita com as convicções das pessoas religiosas. Foi somente cursando a falculdade de medicina, e testemunhando o verdadeiro poder da fé religiosa entre meus pacientes, que a minha visão de mundo começou a mudar. A Ciência definitivamente não exclui Deus."

- Profº Dr. Francis S. Collins, médico, biólogo e geneticista, diretor do Projeto Genoma e autor do livro "A Linguagem de Deus" (2007, Editora Gente), no qual apresenta evidências científicas de que Ele existe.




Fontes e bibliografia:
1. ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus: 4000 anos de busca do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p.15,16;
2 Idem, p. 17;
3. MARINO JR., Raul, Prof. Dr. A Religião do Cérebro - As novas descobertas da neurociência a respeito da fé humana", São Paulo: CENEPSI (Centro de Neuropsicocirurgia Pesquisas em Fisiologia Cerebral Humana)/Editora Gente, 2005;
4. BOMILCAR, Nelson. O Melhor da Espiritualidade Brasileira, São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2006, p 115.



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