A primeira pergunta



"Ninguém pode se considerar apto para iniciar a Jornada, enquanto não for capaz de responder, de modo definitivo e com absoluta sinceridade, para si mesmo, a três perguntas fundamentais. Estas perguntas são o início de tudo. Estão interligadas, de certa forma uma depende da outra, mas devem ser respondidas individualmente. Tentar responder a cada uma dessas perguntas poderá levar a muitos outros questionamentos importantes. E a primeira e a mais fundamental dessas perguntas, que eu devo fazer a mim mesmo, é: QUEM SOU EU?”


"QUEM SOU EU?"


A introdução acima, transcrita de um antigo diário pessoal meu, trata de uma pergunta aparentemente muito simples. Pergunta mais simples, seria impossível. Por isso mesmo tão difícil de ser respondida. Por que sempre nos prendemos a detalhes e nos ocupamos com superficialidades a maior parte do tempo, mas nos esquecemos do essencial? Quem sou eu?.. Obviamente, a pergunta não se referia ao meu nome, nº do RG, formação acadêmica, idade, gostos pessoais, experiências vividas ou opiniões alheias sobre mim... a pergunta propunha simplesmente o conhecimento profundo de quem era eu mesmo, de fato.

Quem sou eu?.. Já tinha pensado sobre isso, antes, mas aquela pergunta assim, incisiva, direta, era um convite para mergulhar na questão... Olhar para dentro de mim, observar, tentar encontrar, antes da resposta, a serenidade para reconhecê-la. Algo me dizia que conhecer esse segredo me levaria, de algum modo, à possibilidade de vislumbrar horizontes antes nem sonhados. E eu estava certo.

Gostaria que esse post pudesse despertar o interesse nessa pergunta fundamental. Quem é você? Quem é você realmente? Qual a sua essência, o que é que faz você ser? Você é o seu nome, a sua história? Você é o seu corpo? Ou existe algo que estava antes e que vai além de tudo isso?

Exercício de Visualização: Imagine...

Imagine-se desprovido de tudo que você tem hoje, não só dos seus bens como também dos seus amigos, sua posição social, seu trabalho, seus pais, sua família, seus amigos... Esqueça também da imagem mental que você faz de si mesmo(a). Vá além, e esqueça quem você é, esqueça-se da sua identidade social; seu nome, sexo, idade, suas crenças (das mais superficiais às mais profundas). Esqueça de quem ama ou um dia amou, esqueça dos seus ideais e desfaça-se, ainda que por um momento, de todas as suas idéias préconcebidas a respeito de tudo. Esqueça até dos seus sonhos mais acalentados, das suas metas e objetivos nesta vida... Agora vá um pouco mais longe e comece a prestar atenção em seu próprio corpo. Sinta seus braços, suas mãos, suas pernas, seus pés... Qual dessas partes é você? Concentre sua atenção, lentamente, em cada pequena parte do seu corpo, uma de cada vez... Sinta sua cabeça, seus olhos, orelhas... Sinta todo o seu físico, parte por parte. Você é isso?.. Repita a pergunta cada vez que focar uma nova parte do seu corpo: Sou isto? Ou isto apenas me pertence, mas eu mesmo, estou em outro lugar? E que lugar seria esse? E tente perceber: Quem é que está sentindo? Quem é que está atento, nesse momento? Quem observa quem? No sentido mais profundo que conseguir conceber, responda para si mesmo(a) a estas perguntas: "Eu sou apenas isso? Eu me resumo ao meu corpo? Ou existe algo mais? Onde está a minha essência, onde estou eu?"

Será que você é o seu cérebro? O cérebro humano pode ser comparado a um prodigioso software, pelo qual dirigimos nossas "máquinas" físicas. Mas onde está o "operador"? Onde está você, que dirige tudo isso? Que parte de você define o que é o bem e o que é o mal, o que é certo e o que é errado? Por quê você reage ao meio em que vive da maneira como reage? O que o(a) faz rir? O que lhe provoca tristeza e lágrimas? O que provoca raiva? Por que você tem vergonha de certas coisas? E porque algumas pessoas o atraem, enquanto outras lhe causam repulsa, mesmo que aparentemente não haja nenhum motivo para tanto? Quem é você?

Eu conheci alguém que parece ter encontrado essa resposta, a julgar pelo que ele conta da sua própria experiência:

“Até os meus 30 anos, eu era extremamente ansioso, sofria de depressão e tinha fortes tendências suicidas. Hoje, parece que estou falando da vida de outra pessoa.

Tudo começou a mudar pouco depois do meu aniversário de 29 anos, eu acordei certa madrugada com uma sensação de pavor absoluto. Não era a primeira vez que eu tinha uma crise de pânico, mas aquela, com certeza, foi a mais forte de todas. Tudo parecia aversão pelo mundo, e, principalmente, por mim mesmo. Qual o sentido de continuar a viver com o peso dessa angústia? Para que prosseguir com essa luta? Um profundo anseio de destruição, de deixar existir, tinha tomado conta de mim, tornando-se até mais forte que o desejo instintivo de viver.

‘Não posso mais viver comigo’, pensei. Então, de repente, tomei consciência de como aquele pensamento era peculiar. ‘Eu sou um ou sou dois? Se eu não consigo mais viver comigo, deve haver dois de mim: um eu e um
eu interior
, com quem o ‘eu’ não consegue mais conviver. ‘Talvez’, pensei, ‘só um dos dois seja real’. Fiquei tão atordoado com essa estranha dedução que a minha mente parou. Eu estava plenamente consciente, mas não tinha mais pensamentos. Fui arrastado para dentro do que parecia um vórtice de energia... eu estava sendo sugado para um vácuo que parecia estar dentro de mim e não do lado de fora. De repente, perdi o medo e me deixei levar. Não me lembro de nada do que aconteceu depois.

No dia seguinte, fui acordado por um pássaro cantando no jardim. Nunca tinha ouvido um som tão maravilhoso antes. meu quarto estava iluminado pelos primeiros raios de sol da manhã. Sem pensar nada, eu senti – soube – que existem muito mais coisas para vir à luz do que nós percebemos. Aquela luminosidade suave que atravessava as cortinas era o próprio Amor. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu percebi que nunca tinha reparado na beleza das pequenas coisas, no milagre da vida. Era como se eu acabasse de nascer de novo.

Durante os cinco meses seguintes, vivi em um estado permanente de paz e alegria. Depois, essa sensação diminuiu de intensidade ou talvez eu tenha simplesmente me acostumado com ela, pois se tornou meu estado natural. Embora eu continuasse vivendo normalmente, tinha percebido que nada que eu viesse a fazer poderia mudar realmente a minha vida. Eu já tinha tudo que necessitava.”


– Eckhart Tolle


Tirando essa parte da depressão (apesar de eu também já ter enfrentado muitas fases depressivas na minha vida) e mudando alguns detalhes aqui e ali, isso foi muito parecido com o que eu próprio senti, uns três ou quatro meses depois de me propor a "primeira pergunta". Esse foi o tempo que eu precisei "carregá-la" comigo, até finalmente a resposta surgir. Pra falar a verdade, acho que essa resposta foi surgindo aos poucos, se mostrando devagar, e quanto mais eu me maravilhava com a sua beleza e por finalmente estar compreendendo, mais ela se revelava e me surpreendia, cada vez mais forte e plena. Um belo dia, se mostrou por inteiro, calma e absoluta, lá no mais profundo do meu ser. Não digo que essa tenha sido a resposta definitiva, que agora já dominei o assunto e que nada mais de novo haverá para aprender. Cada ir dormir é uma espécie de morte, e cada nova manhã é um renascer para novos aprendizados. Mas eu pude me entender muito melhor, depois disso, e tudo ficou mais simples, mais claro e mais completo na minha vida.

"Entreabra seus olhos e deixe entrar a luz. Procure a sua essência em si mesmo e depois tome consciência do seu próprio Ser."

- Ramana Maharshi


Este é um post sem um final. Não haverá uma conclusão para essa história. Esta é uma daquelas coisas que não dá pra compartilhar, dividir com alguém. Quem sou eu, o que eu vi dentro de mim mesmo e os efeitos que essa descoberta trouxe, são coisas tão pessoais e tão íntimas que não faria nenhum sentido tentar “explicar” pra outra pessoa. Só posso deixar uma pequena dica, pra quem se interessar possa:

Aquela sensação que todos nós experimentamos nesta vida, num momento ou noutro, de que "falta alguma coisa", e que muitas vezes tentamos compensar com relacionamentos vazios ou com excessos, apenas como uma espécie de anestesia; essa sensação de não estar completo vai continuar, enquanto houver uma identificação da mente com os fatores externos. Porque nós tentamos desesperadamente extrair o sentido de quem somos das coisas que não tem nada a ver com o que realmente somos, como o "nosso papel" na sociedade, nossas propriedades, nossa aparência externa, nossos sucessos ou fracassos, nossas crenças, etc. Esse eu falso, o ego construído pela mente, sente-se vulnerável, inseguro, e está sempre em busca de coisas novas com as quais se identificar, para continuar reinando sobre o eu real, que somos nós de fato. Mas nada é suficiente para lhe dar uma satisfação duradoura. Por isso, o medo, a sensação de "falta" e a ansiedade permanecem. Boa sorte a todos os que quiserem se aventurar nesta Jornada.